obediência aos representantes do Estado e a aplicação das prescrições editadas pelos chefes.79
Logo, junto à especialização dos órgãos de polícia, o processo de legitimação das instituições policiais afirmou-se, e já no início do século XX, foi possível pensá-la como um valor essencial das sociedades.
associado à polícia; além desses, destaca-se outro sentido da palavra, vinculado a “resultado”, na acepção de positivo e valorizado de um bom governo83.
A partir do século XVII, o termo polícia passou a designar o conjunto dos meios adequados para o crescimento do Estado, em nível do equilíbrio entre a sua ordem interna e o crescimento de suas forças, de forma a assegurar o que se convencionou chamar, à época, de
“esplendor”84, caracterizando, para autores do século XVII e XVIII “a organização capaz de garantir a beleza visível da ordem e o brilho de uma força que se manifesta e que se irradia”.85 Foi nesse momento que se constituiu o denominado por Norbert Elias de processo civilizatório, acontecido a partir de uma ordem própria, pelas mãos de pessoas responsáveis por regulamentar as atividades humanas em prol de um sentimento de autocontrole entre os indivíduos.86
Foucault caracteriza o período como o desbloqueio da arte de governar, marcado pela intervenção de processos como a expansão demográfica do século XVII, a abundância monetária e o aumento da produção agrícola. Atenta também para o fato desse desbloqueio estar ligado à problemática da população, que permitiu a eliminação do modelo familiar, de forma a centralizar nas mãos do Estado a noção de economia. Para tal, lançou-se mão de um controle manifestado, por meio da utilização da estatística – que deixou de funcionar apenas no quadro administrativo da soberania e passou a revelar dados sobre a população, tais como o número de mortos, de doentes, a regularidade de acidentes e suas características mais peculiares – o Estado buscou um controle mais efetivo sobre as mesmas.87
Nessa conjuntura, ocorreu o nascimento das forças policiais modernas, no processo de formação do Estado Nacional, a partir da necessidade de se organizar forças repressivas para conter uma série de caos instalados, devido às convulsões sociais, às condições econômicas e políticas da época, bem como as ameaças contra a integridade do território, o que fora amplamente defendido por estudiosos do período.
Um dos primeiros autores modernos a pensar na ligação necessária entre o Estado e a Segurança foi Maquiavel. Ao analisar a natureza humana, o autor indicou que os homens são
83 FOUCAULT, op. cit., nota 81, p. 421.
84 De acordo com Foucault, a expressão “Esplendor” foi utilizada no início do século XVII em um texto de Turquet de Mayeme e no século VIII por Hohenthal. Ver: Ibidem, p. 421-422.
85 Ibidem, p. 422.
86 ELIAS, op. cit., nota 80, p. 98.
87 FOUCAULT, op. cit., nota 81, p. 422.
seres ingratos, mentirosos e ávidos por vantagens, o que expressaria a legítima necessidade do Estado em garantir que seus súditos vivessem em paz, por meio, principalmente, da segurança proporcionada pelo mesmo. Thomas Hobbes também destacou a relação entre as garantias de segurança e o Estado. Partindo do conceito de Estado de Natureza, segundo o qual, no princípio, todos os homens eram iguais e, por meio da força, defendiam seus interesses – o que os levou a uma situação de guerra de todos contra todos, que só poderia ser superada por intermédio da instituição de uma organização maior, o Estado – Hobbes relaciona o Estado de Natureza à falta de continuidade das ações políticas e na autonomia das vontades individuais, junto à diversidade social e cultural da comunidade. Nessa dimensão, indica que, caso não se constituísse um poder suficiente para a segurança, cada pessoa só poderia confiar em sua própria força e capacidade na proteção de todos contra todos. Em outras palavras, o Estado surge para controlar os meios desordenados, servindo para a autopreservação dos homens e criação de uma sociedade política.88
Em recente releitura dedicada à obra O Leviatã, de Thomas Hobbes – ligada à história das representações artísticas da política – Carlo Ginzburg propõe outra dimensão para a análise do Estado Hobbesiano. Ao indicar que praticamente todos os estudiosos do autor afirmam que esse foi o primeiro a propor uma interpretação secularizada para a origem do Estado – destacando o quanto o poder político pressupõe o uso da força –, Ginsburg questiona essa proposição ao defender que a tese da força por si só não é suficiente, quando não acompanhada também pelas noções do medo e da sujeição orientadas pelo próprio Estado.
O frontispício do Leviatã representa o “Deus mortal”, o Estado, com a espada numa das mãos e o báculo na outra. Para Hobbes, o poder do Estado não se apoia somente na força, mas na sujeição, awe: a palavra que vimos aparecer em oposição estratégica nos trechos do Leviatã dedicados à origem da religião e do Estado.89
Nessa perspectiva, segundo Ginzburg, para se apresentar como autoridade legítima, o Estado necessita também de instrumentos como as armas da religião, a partir da reprodução das noções de medo e de sujeição tão propagadas ao longo de sua existência. Logo, para Ginzburg, a noção moderna de Estado, inaugurada por Hobbes, não se assenta somente no Estado secularizado, mas na congregação da religião e do Estado de forma paralela – com o diferencial de não propor nenhuma espécie de autonomia à primeira – no que conceitua como teologia política.
88 Ver: ZAMPA, Vivian; MUNTEAL FILHO, Oswaldo e LEAL, Ana Beatriz (Org.). Perspectiva da administração em segurança pública no Brasil. Curitiba: Ed. CRV, 2011, p. 12.
89 GINZBURG, Carlo. Medo, reverência, terror: quatro ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 9.
A análise de Ginzburg sobre a teoria de Estado Moderno desenvolvida por Hobbes, apesar de indicar uma dimensão diferente das tradicionalmente propostas, desvinculando-a de seu estado puramente secularizado, de forma a relacioná-la à religião, não se afastou daquilo que interessa observar na composição do Estado moderno, o legitimo o uso da força, mesmo que a partir das noções do medo e da sujeição herdadas da religião, como a única salvaguarda dos indivíduos.
A relação Estado/Segurança também teve lugar na teoria desenvolvida por John Locke. Por meio de uma perspectiva diferente da elaborada por Hobbes, o autor concebeu o Estado de Natureza como um tempo remoto marcado pela paz e reciprocidade, no qual os homens viviam livres, iguais e independentes em suas propriedades, sem serem submetidos ao poder político de outros sem o seu consentimento. Nesse estado, entretanto, apesar de inúmeros privilégios, a ameaça da preservação da propriedade, a falta de um juiz conhecido e indiferente para resolver desacordos e de um poder que apoiasse e sustentasse a sentença quando justa levou os homens a se organizar em sociedade por meio do Estado, destinado à preservação e desenvolvimento dos interesses civis. Nessa dimensão, para a plena realização dos direitos naturais, sem a ocorrência de ameaças, os homens deveriam se organizar sob regras comuns, usando os meios mais adequados para a aplicação das mesmas e nomeando um soberano principalmente para defendê-los.90
Em sua análise sobre o nascimento do Estado Moderno, Max Weber o conceitua a partir de sua profunda ligação com o monopólio legítimo da força.
O Estado é aquela comunidade humana que, dentro de determinado território – este o território, faz parte da qualidade característica -, reclama para si o monopólio da coação física legítima [...] O Estado, do mesmo modo que as associações políticas historicamente precedentes, é uma relação de dominação de homens sobre homens, apoiada no meio de coação legítima.91
A partir dessas perspectivas, a polícia, em sendo uma instituição autorizada para regular as relações interpessoais por meio da força física, firmou-se no Estado Moderno como um instrumento de coação que era considerado necessário. Nesse contexto, foram consolidados dois modelos principais: o militar, oriundo da França de Napoleão Bonaparte; e o civil, surgido na Inglaterra92; que, de alguma forma, tornaram-se referência para boa parte das instituições policiais criadas e reorientadas contemporaneamente.
90 Ver: ZAMPA; MUNTEAL FILHO; LEAL, op. cit., nota 88, p. 12.
91 WEBER, op.cit., nota 49, p. 525.
92 MARTINS, op. cit., nota 52, p.50.