para causar reações de raiva nos moradores e sensação de ameaça. Houve ainda a tentativa de esclarecer que a informação não passava de boato, mas não surtiu efeito.
Em abril de 2017, encontrava-se em andamento o processo pelo assassinato de Fabiane de Jesus, que levou a cinco condenações, sendo duas a 40 anos de prisão, uma a 30 anos e outras duas a 26 anos. A página foi retirada do ar, mas o responsável virou testemunha protegida e não pôde responder pelo linchamento por falta de previsão legal. O caso foi motivador para que a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovasse o Projeto de Lei n.º 7544/14, que aumenta a pena em um terço para quem incitar a prática de crimes pela internet ou por meio de comunicação de massa.
Além disso, notícias falsas sobre a vereadora do RJ, Marielle Franco, circularam em grupos no WhatsApp logo após o atentado que resultou no seu assassinato e do seu motorista, Anderson Pedro Gomes, em março de 2018. As informações receberam algum atributo de confiabilidade por terem origem em fontes, a princípio, com credibilidade. Tal fato foi determinante na disseminação de falsas notícias relacionadas ao caso; a confiança em informações compartilhadas por pessoas próximas dispensaria mais verificações, como mostraram pesquisas sobre o assunto (RIBEIRO; ORTELLADO, 2018).
Na próxima subseção, pretende-se explicar as possíveis motivações para o fenômeno das fake news, a partir de pesquisas já realizadas sobre o tema e de teorias da área da Psicologia consideradas pertinentes ao assunto.
Gráfico 1 – Pesquisa “Global Advisor: Fake News”, com percentuais das respostas “concordo”, em verde, e “não concordo”, em vermelho, à questão “Acreditei que uma notícia era real até descobrir que
era falsa Fonte: Ipsos (2018).
A pesquisa resume a conclusão com a frase “Fake news, post-truth and filter bubbles are other people’s problems, not ours…”, ou em português, “Fake news, pós-verdade e bolhas sociais são problemas dos outros, não nossos”. Isso porque os resultados mostram uma tendência a transferir para as outras pessoas a responsabilidade das consequências de uma notícia falsa: 63% estão confiantes de que podem identificar notícias falsas, mas apenas 41%
pensam que outras pessoas também podem; 58% acham que são melhores do que outros em identificar notícias falsas; 60% acham que outras pessoas não se importam mais com fatos e só acreditam no que elas querem; 59% acham que têm uma melhor compreensão das realidades sociais, como taxas de criminalidade, do que outras pessoas. Mas, como mostram outros dados, a culpa não é só do outro.
Retomando o estudo realizado pelo MIT, temos as considerações dos pesquisadores quanto às reações dos usuários que replicam informações no Twitter. Segundo eles, notícias falsas inspiram medo, revolta e surpresa, enquanto as verdadeiras inspiram expectativa, tristeza, alegria ou confiança. A partir desses resultados, levantou-se a hipótese de que as
notícias mais inusitadas têm maior probabilidade de serem compartilhadas. Ou seja, informações que apresentam alguma novidade atraem mais atenção e são mais compartilhadas, pois se trata de um fator importante para tomada de decisões, de acordo com a pesquisa.
Um trabalho publicado pelo Journal of Applied Research in Memory and Cognition, da Sociedade de Pesquisa Aplicada em Memória e Cognição, originada na University of Maryland, Estados Unidos, realizado por pesquisadores de universidades do Reino Unido, Austrália e Estados Unidos, sendo o principal deles Stephan Lewandowsky, do Department of Experimental Psychology, University of Bristol (Reino Unido), traz importantes colaborações sobre o tema e argumenta que as pesquisas sobre desinformação devem ser consideradas dentro de um amplo contexto político, tecnológico e social (LEWANDOWSKY et al., 2017).
Já em seu início, o artigo convida o leitor a imaginar um mundo em que o conhecimento especializado ou científico não mais determina as causas e consequências dos acontecimentos na vida da humanidade, mas sim as influências e o poder das mídias sociais.
“Quão próximos estamos deste futuro distópico? Nós podemos não estar lá (ainda), embora existam motivos para nos preocuparmos com a nossa trajetória” (LEWANDOWSKY et al., 2017, p. 2). Segundo os autores, “[...] há evidências de que a presença de informações falsas faça com que as pessoas deixem de acreditar completamente em fatos” (p. 3). A desinformação implica resultados graves para a democracia, para as decisões coletivas e até para a saúde pública.
Para os pesquisadores, “[...] a desinformação não é, portanto, apenas sobre ser mal informado. É também sobre o bem-estar intelectual geral de uma sociedade” (p. 3). Em seu decorrer, o estudo procura explicar o crescimento da disseminação das informações falsas e considera algumas razões para que as pessoas acreditem nas fake news: declínio do capital social e mudança de valores; crescente desigualdade econômica; aumento da polarização;
declínio da confiança na ciência; credulidade política assimétrica; e a evolução do cenário da mídia, cada vez mais fragmentado.
A questão da correção das falsas notícias é abordada no artigo e menciona a reação das pessoas diante de uma informação falsa, que a princípio é recebida como verdadeira, e posteriormente é corrigida. De acordo com os autores, as correções raramente são efetivas, ou seja, mesmo depois que a informação é corrigida e apesar de reconhecer a correção, o indivíduo continua a acreditar, pelo menos parcialmente, o que é chamado de influência
continuada. O fenômeno foi observado em variados testes e persiste até mesmo quando a pessoa é avisada logo no começo do experimento.
Lewandowsky et al. (2017) afirmam que em circunstâncias nas quais essa correção confronta as visões de mundo das pessoas, a crença em informações falsas pode até aumentar, como em casos que envolvem assuntos relacionados a mudanças climáticas e a campanhas de vacinação.
Assim, as correções são efetivas somente quando pelo menos duas condições são satisfeitas: primeiro, elas não devem desafiar diretamente as visões de mundo das pessoas. [...] Em segundo lugar, as correções devem explicar por que a desinformação foi disseminada ou devem fornecer uma explicação alternativa do evento relevante (p. 3).
Outra pesquisa, realizada por esses pesquisadores em parceria com outros especialistas investigou os efeitos das correções nas crenças dos eleitores e intenções de voto, durante as eleições presidenciais nos EUA. Os pesquisadores apresentaram declarações do presidente Trump a uma grande amostra de participantes, sendo metade das afirmações verdadeiras e a outra metade, alegações falsas. Os participantes receberam correções das declarações falsas e confirmação das corretas, podendo ser observadas algumas mudanças de posicionamento:
todos, incluindo os apoiadores de Trump, acreditavam parcialmente nas declarações mesmo quando identificadas como falsas (LEWANDOWSKY et al., 2017).
No entanto, para os eleitores de Trump, não houve uma associação entre sua mudança de crença a partir da correção de uma declaração e sua intenção de voto ou sentimentos pelo candidato. O experimento concluiu que “[...] as falsas alegações do presidente Trump não importavam para os seus apoiadores - pelo menos eles não se importavam o suficiente para alterar seus sentimentos ou intenções de voto” (p. 2). Foram utilizadas afirmações verdadeiras de Trump relacionadas a temas como o gasto dos EUA na guerra do Iraque, por exemplo, e falsas, como sua declaração de que vacinas causam autismo. Semelhanças com as eleições presidenciais no Brasil serão discutidas na seção 5.
Para Ferrari (2018), em busca de conforto para as angústias e inquietações, “[...]
compartilhamos o que não lemos, aceitamos a sedução como verdade” (p. 47). A existência das fake news está condicionada à necessidade de as pessoas consumirem notícias, “[...]
verdadeiras ou não, para alimentar as próprias certezas” (p. 62). Segundo a autora, há uma carência afetiva, que se configura como um grande problema para o cidadão deste século, uma necessidade de aceitação nas redes sociais. Diante dessa necessidade, o indivíduo
transfere seus desejos para sua “persona digital” e acaba criando versões enganosas de si, um
“gigantesco mar de dados de fake news” (p. 48).
A pós-modernidade, no olhar de Ferrari (2018), nos trouxe para uma sociedade do consumo, sem referências sólidas, uma vida líquida voltada para o interesse dos egos. Sua argumentação vai além e se arrisca a dizer que, cada um, imerso em sua bolha, passa a ter em mente a metáfora “vivencio, logo existo” (p. 52), em lugar de “penso, logo existo”, frase do filósofo francês René Descartes, ao constatar que chegamos ao conhecimento a partir da dúvida. Nessa velocidade de informações, em que a cada instante “vivenciamos” uma postagem diferente, não paramos para checar os dados: “No mercado das convicções, as fake news oferecem uma solução customizada para cada necessidade” (p. 64). Essa solução, muitas vezes já se apresenta de forma apelativa nos títulos das publicações, compartilhadas sem a leitura do texto na íntegra.
Perosa (2017) traz uma proposta convergente com os apontamentos de Lewandowsky et al. (2017), pois sustenta que o “império da pós-verdade” se estabelece a partir da combinação de três fatores: i) ambiente de alta polarização política, sem espaço para o debate racional e o consenso; ii) descentralização da informação, com a ascensão de meios de comunicação alternativos e independentes (parte deles não tem necessariamente compromisso com a veracidade dos fatos); e iii) ceticismo generalizado quanto às instituições políticas e democráticas. O autor apresenta dados de pesquisas (Edelman Trust Barometer e BuzzFeed) que mostram o nível de confiança na imprensa de 2016 a 2017; no Brasil, 48% dos entrevistados responderam positivamente e nos EUA, 47%. Notícias falsas superaram as verdadeiras durante as eleições norte americanas e a credibilidade de governos de todo o mundo está em declínio.
A autora afirma que inúmeros estudos da Psicologia cognitiva já concluíram ser de natureza humana acreditar em informações que confirmem uma visão de mundo particular, mesmo sem base na realidade. Dessa forma, “[...] o poder da crença – em uma ideia, religião, afinidade política e afins – tende a suplantar a argumentação racional baseada em fatos”
(online). Quando uma pessoa se vê confrontada por informações que contrariam sua visão de mundo, “[...] as chances de que aceitará o novo dado como um fato, mudará sua opinião ou questionará o próprio sistema de crenças são um tanto baixas” (online). Temos uma tendência em aceitar aquilo que é afim ao que acreditamos e rejeitar o que é contrário.
Nickerson (1998, p. 175) define que “[...] a busca ou interpretação de evidências de maneiras que são parciais a crenças, expectativas ou hipóteses existentes” constitui o viés da
confirmação, fator determinante no pensamento e no comportamento humano. As pessoas são propensas a tratar evidências de maneira tendenciosa, de acordo com seu envolvimento no assunto. Para o pesquisador, é tênue a linha entre o uso deliberado de evidências e o uso inconsciente para que sejam adequadas a hipóteses ou crenças. O viés da confirmação está mais relacionado à seletividade inconsciente na aquisição e uso de informações favoráveis a um pensamento.
O estudo explica que, quando não estamos envolvidos pessoalmente em determinada questão, conseguimos chegar a uma conclusão racional, embora haja casos também de comportamentos tendenciosos mesmo sem motivação pessoal. Contudo, quando a questão passa a ser nossa ou de pessoas próximas a nós, levamos em conta apenas o nosso lado da situação. Buscamos informações e evidências que confirmem nossas crenças ou a interpretamos de forma a favorecer nossos posicionamentos. Para Nickerson (1998), o viés da confirmação está relacionado às limitações cognitivas e tem sido visto como uma falha humana, uma tendência difusa e irracional.
Segundo o autor, o viés da confirmação se dá de maneiras diversas: quando há restrição a uma só possibilidade de explicação de um evento; quando o indivíduo atribui maior peso à informação que confirma suas opiniões do que a informações contrárias; quando há uma busca apenas ou principalmente por informações confirmatórias de uma hipótese;
tendência em enxergar determinado padrão nas informações, independente de estar presente ou não. Assim, sua conclusão é de que o viés da confirmação “[...] desempenha um papel significativo na perpetuação de animosidades e conflitos entre pessoas com visões conflitantes de mundo” (p. 205). Também pode contribuir para diversos tipos de ilusões, superstições, sobrevivência de estados mentais indesejáveis, incluindo paranoia e depressão.
Mecier e Sperber (2011), porém, questionam se o viés da confirmação seria apenas uma falha de raciocínio ou uma característica da produção de argumentos. Os autores mencionam alguns testes de hipóteses, de seleção e de raciocínio silogísticos, destacando que há um padrão a ser observado. Os participantes têm intuições que os levam a certas respostas e o raciocínio é, então, usado para confirmar essas intuições iniciais. Para os pesquisadores, isso reforça a teoria de uma habilidade argumentativa, diferente do posicionamento da ciência mais conservadora.
Eles ressaltam também que, tratando-se de pensamento de grupo, ou groupthink, termo criado por Irving Janis para definir o consenso do grupo acima das opiniões individuais, o viés da confirmação contribui para uma forma eficiente de divisão do trabalho cognitivo. Isso
acontece quando o raciocínio é usado em um contexto mais sadio, isto é, em discussões entre pessoas que discordam, mas têm interesse comum na verdade. Cada indivíduo do grupo procura argumentos que suportam uma determinada solução, o que funciona bem tendo em mãos bons argumentos. Tal situação é bastante diferente do que conhecemos por comportamento de manada, no qual o grupo segue uma determinada tendência, como no trágico caso de Fabiane de Jesus (ver subseção 2.2).
A Reportagem da BBC Brasil (2017) – British Broadcasting Corporation – explicou como essa característica psicológica é utilizada por perfis falsos como estratégia para manipulação da opinião pública. O conceito de comportamento de manada se refere à
“tendência das pessoas de seguirem um grande influenciador ou mesmo um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual” (GRAGNANI, 2017a). Esses perfis procuram alcançar a adesão de usuários a partir de mecanismos que repercutam um assunto, como por exemplo a criação e impulsionamento de hashtags9 e ataques coordenados, gerando um grande volume de menções nas redes, a partir do momento que um usuário passa a repetir o comportamento do outro, com comentários, curtidas e compartilhamentos em massa.
É possível nos desvencilharmos desses tipos de comportamento nas redes sociais?
Como combater as fake news? Embora seja usual ouvirmos, de senso comum, que não há mais alternativas para esse cenário de pós-verdade, podemos observar iniciativas que têm colaborado para esclarecer informações falsas ou distorcidas, na tentativa de evitar o compartilhamento desenfreado, mesmo que isso seja ainda pequeno diante da imensidão de informações disseminadas nas redes. A seguir, apresentaremos considerações sobre agências de checagem de notícias, iniciativas de veículos de comunicação, o que pensam alguns pesquisadores e como autoridades têm – ou não – combatido as fake news no Brasil.