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Possibilidade da crença diante da crise do século XIX e XX

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de Deus foram estreitados.241 O foco será os interesses imanentes da preservação da vida, da prosperidade, da diminuição do sofrimento e trouxe para o centro atitudes elevadas como: a bondade, a família e a produção.242 Portanto, havia uma preocupação com as virtudes, uma verdadeira mobilização em torna das causas sociais, na libertação da escravidão, na promoção da liberdade na denúncia das injustiças.

A descrença solidificada e aprofundada pelo materialismo retirou as “bengalas”, a segurança dos sujeitos, deixando-os órfãos e solitários. As amarras foram retiradas e o caminho para a liberdade foi aberto. Assim, existe um rompimento e o não reconhecimento das forças e espíritos.

Com a virada antropocêntrica, essa ideia de presença ordenadora de Deus começa a esvanecer. Começa a surgir a ideia de que podemos sustentar a ordem por nossa conta. Para alguns, Deus se afasta no horizonte, no início ou no final (deístas); para outros, ele desaparece por completo. 243

Portanto, com a virada antropocêntrica, a ideia da presença de Deus como ordenador desaparece e dá lugar a uma ideia de que todo significado emana do esforço pessoal, encontra eco somente em si. Todo esse movimento da descrença despertou um novo efeito sem precedentes na história: “surgiu uma raça de seres humanos que conseguiu experienciar seu mundo inteiramente como imanente”.244

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Na perspectiva impessoal, presente no imaginário social das pessoas, alguns pontos importantes da doutrina cristã foram refutados: “a importância crucial de uma relação pessoal do sujeito com Deus, providências particulares, julgamento divino como uma decisão de Deus, e, acima de tudo, milagres”.245 O distanciamento pessoal e a refutação de princípios e verdades de fé provocaram, em muitos, uma sensação de superficialidade, pois o significado tinha se esfumaçado na sociedade moderna.

A proposta de Taylor é resgatar “alguma ideia de potencial humano de ascensão espiritual ou moral, diante da teoria e da prática degradantes da sociedade utilitarista-comercial- industrial”.246 A identidade do self se desmorona numa sociedade de intensos conflitos e pressões, no qual à realidade carece de uma ressonância e o sujeito se sente isolado e superficial.

Segundo a formulação de Honan, Arnold conclui que falta ao homem uma identidade profunda; ele sofre de desorientação e tédio, de sentimentos de mudança e insatisfação, superficialidade do ser, insatisfação com seus próprios esforços [...] debilidades causadas pela falta de alguma autoridade convincente para a vida espiritual.247

O ser humano sente-se isolado num mar de pessoas, pois o vazio se reflete como um espelho na história atual. As relações foram se instrumentalizando e se tornando mecânicas e customizadas.248 Essa fragmentação é o preço pago pelo fim da era cristã. 249 Associado a isso, essa mesma sociedade que rejeitava valores cristãos estava mergulhada em uma grande crise.

Essa crise remete às duas grandes Guerras Mundiais, aos conflitos armados e às ditaduras do continente americano que colaboraram para o desmoronamento das utopias.

Um novo caminho, ainda assim, é possível diante da crise e da fragmentação: “a busca por uma nova era de fé, uma nova forma positiva de religião”.250 O objetivo dessa renovação da sociedade era dar um novo ânimo a todo esse momento de conflito que a sociedade estava mergulhada. Uma tentativa encontrada para tentar resolver esse impasse está na definição de religião de Arnold: “moralidade tocada pela emoção”251, isto é, uma forma de despertar nos sujeitos uma vida mais elevada e assegurar alguns vestígios de transcendência que são comuns:

a crença no Cristo humano, e numa força que atua que pode ser nomeada como Bondade Eterna,

245 Ibid., p. 447.

246 Ibid., p. 448.

247 HONAN, Park. ARNOLD, Metthew. A Life. New York: McGraw-Hill, 1981, p. 88, apud TAYLOR, 2010, p.

449.

248“Ato ou efeito de adaptar conforme o gosto de cada pessoa”. AULETE, Caldas. Dicionário Contemporânea da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011. 1456 p. ISBN 978-85-863685-75-2.

249 TAYLOR, 2010, p. 450.

250 Ibid., p. 452.

251 Ibid., p. 453.

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ou Mente Eterna.252 Devido à fragmentação, há uma necessidade de uma nova religião, que proporcione verdadeiro significado e vivência afetiva de qualidade.

Existe o grande desejo de uma nova forma de contato com o transcendente, uma religião que agregue, proporcione identidade, que estimule o sujeito, o contato harmonioso e favoreça a convivência. Essa religião não pode estar somente voltada para as suas próprias doutrinas e dogmas, mas deve extrapolar, colaborar para uma mudança e aperfeiçoamento da convivência.

Precisamos de uma nova religião, pois precisamos de “um novo vínculo social”. Precisamos dela, para “aquela redução do self no homem que deve permitir ao indivíduo perceber claramente os objetivos do mundo e cuidar não apenas de seu próprio interesse, mas também pelo de seu vizinho, que é fazer os ricos devotarem-se aos pobres e os pobres tolerarem os ricos.253

Eis aqui uma encruzilhada clássica do mundo moderno. O desafio está em encontrar uma visão plausível, robusta e intermediária para um sujeito que já bebeu da fonte da ordem imanente e não consegue mais aceitar, confiar, ter fé em doutrinas e dogmas cristãos. Mas, por outro lado, ele lança o apelo porque se sente angustiado pelas respostas frágeis do plano imanente. Portanto, é por esta falta de resposta que muitas pessoas se tornaram descrentes.

As intensas mudanças que ocorreram na Europa, nos últimos dois séculos, marcaram a identidade e o imaginário social do continente. A busca e as demandas por uma vida civilizada, descente e cristã são aspectos de um intenso labor intelectual, isto é, são esforços permeados por ações de disciplina e controle dos impulsos, com o intuito de elevar os padrões de comportamento, visando a qualidade de vida, a prosperidade e uma vida de sentido/significado.

O próprio cristianismo foi o grande impulsionador do advento do humanismo exclusivo.

As intensas investidas do ramo protestante em disciplinar o self, em fomentar a disciplina para afastar os baixos impulsos, e a fé como princípio de salvação com o intuito de glorificar a divindade, foi um fator decisivo para fomentar a vivência da benevolência e do altruísmo e preparar o terreno para o humanismo exclusivo.

No entanto, exatamente como a antiga forma de piedade a que chamei de

“Deísmo Providencial” preparou terreno para um humanismo exclusivo, assim também esse evangelismo ardoroso abriu caminho para uma filosofia descrente de autocontrole. O próprio sucesso na remodelação de si mesmo entusiasmava, assim como a criação de um agente disciplinado, protegido convidava a uma interpretação em termos puramente humanos.254

252 Ibid., p. 453.

253 Ibid., p. 454.

254 Ibid., p. 465.

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A proposta de formação de novos hábitos e, por consequência, a implantação do novo caráter implicava tempo, vigilância, condições de disciplina e autocontrole. O cristianismo evangélico se apropriou de elementos imanentes e seculares e os incorporou na sua doutrina.

Essa articulação com os elementos imanentes, uma espécie de encarnação, abriu caminho e

“passagem para um humanismo do dever, vontade e altruísmo. [...] Para a fé cristã, a benevolência era possível, primeiro, em virtude da natureza humana pristina criada por Deus antes da Queda. No entanto, [...] ela também requeria a graça para restaurá-la”.255 Portanto, essas características conduziam o ser humano a um elevado padrão moral e com objetivo supremo. Mas, o cristianismo poderia ser visto como inferior na questão da vivência do altruísmo por dois motivos:

Primeiro, por oferecer recompensas extrínsecas pelo altruísmo no além, ao passo que o humanismo faz a benevolência a sua própria recompensa; e, em segundo lugar, às vezes ele pode ser tentado a excluir hereges e descrentes de seu escopo, ao passo que o humanismo pode ser verdadeiramente universal.256

Uma sociedade totalmente incorporada por valores imanentes não abre espaço para recompensas fora daquilo que é alcançável. Por isso, seus valores excluem os da religião e a descrença ganha espaço de expansão. Por outro lado, o grande risco de uma sociedade pautada por altos padrões de disciplina e autocontrole muito exigentes, bem como a instrumentalização e o incentivo a condutas materialistas e econômicas poderia proporcionar sérios riscos de perda do interesse e daquilo que dá sentido à existência.

Como todos os moralismos, poderia vir a parecer demasiadamente estreito, seco, interessado exclusivamente em comportamento, disciplina, controle, que não deixava qualquer espaço para algum grande élan ou propósito que transformaria nossas vidas e nos afastaria do estreito foco no controle.257

A descrença é um grande sinal da insatisfação com o moralismo e o materialismo reinante. Porém, esses elementos organizadores da sociedade não podem ser eliminados ou facilmente rejeitados, mas precisam receber uma “dose” da dimensão cultural, para que o equilíbrio e a insatisfação possam ser minimizados.

Diante das críticas e reações contra o moralismo, a ideia da ética da decência e ordem do benefício mútuo colaboraram para despertar a autoafirmação do sujeito e o reconhecimento do desejo sensual humano, elementos inspiradores para o avanço da descrença. 258 Portanto,

255 Ibid., p. 466.

256 COLLINI, Public Moralists, p. 186-187, 193, apud TAYLOR, 2010, p. 468.

257 Ibid., p.469.

258 Ibid., p. 476.

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essas posturas de autenticidade, que inauguraram novos espaços de descrença, só foram possíveis porque derivaram do próprio fruto da fé cristã.

Taylor quer trazer à tona a provocação da vivência autêntica e encontrar um ponto teológico que contribua para que o indivíduo experimente e viva os desafios históricos e se comprometa com a causa humanizadora. O grande desejo e vontade de Taylor não é abafar a vivência da autenticidade, mas desenvolver uma reflexão que resgate a identidade coletiva e a finalidade teológica que se perdeu ao longo do caminho.

Uma das maiores decepções para a cultura ocidental, ancorada na racionalidade e em valores civilizatórios, foram as duas grandes Guerras Mundiais. Os grandes ideais de patriotismo, virilidade, lealdade estavam desacreditados e foram imensamente abalados pela matança em massa. Após a guerra, os ideais norteadores das pessoas (Deus, rei e o Estado)259 entraram em profunda crise.

Com a crise e a desmotivação dos ideais fracassados, a fé entra num declínio e os espaços descrentes são amplamente difundidos. O efeito nova, amplamente tralhado por Taylor, ressalta que as fontes inspiradoras dos ideais do século XX não então mais apoiados e embasados em uma perspectiva cristã, mas em outras fontes, até mesmo ateístas.260

A sociedade moderna do século XX, diante de inúmeros conflitos, crises de identidade, enfraquecimento da fé, violência, decadência diante do horror provocado pelas duas grandes Guerras Mundiais, necessitava de uma grande mudança, encontrar uma saída para suprir essa angústia, o vazio de significado diante dos acontecimentos. A saída para a resolução desse dilema estava ancorada no reencantamento: “O que se precisava era de uma nova disciplina, que “criaria ordem e hierarquia”, e conduziria a uma vida de compromissos”.261

As grandes promessas dos líderes políticos por uma democracia mais justa, por qualidade de vida e prosperidade, inflamaram os sonhos da juventude e dos soldados, que com coragem se dirigiram para o front de guerra. Mas, na medida em que os acontecimentos se desenrolaram e as promessas de grandeza humana, no período pós-guerra, não aconteceram, pairava sobre a população uma grande desmotivação, provocando, assim, uma crise na civilização. Portanto, a crise da civilização impacta na cultura cristã e desvincula, desconecta a religião tradicional do horizonte cultural de grande parcela da população. Essa separação proporcionou o advento do humanismo e a possibilidade de outras formas de significado no

259 Ibid., p.478.

260 Ibid., p. 486.

261 WOHL, Robert. The Generation of 1914. Cambridge, Mass. Harvard University Press, 1979, p. 8-9, apud.

TAYLOR, 2010, p. 487.

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plano imanente.262Já a descrença em expansão foi possível no horizonte moderno devido ao terrível resultado das esperanças depositadas dos regimes pós-guerra. Os movimentos extremistas frustraram as expectativas e despertaram uma angústia diante da instabilidade social, política e religiosa. 263

Portanto, a primeira metade do século XX foi marcada por tensões entre ideais e contra ideais de ordem moral. Já na segunda parte do século XX, esta polêmica se desvincula e juntas (crença e descrença) traçam o mesmo objetivo, a luta e a implantação dos direitos humanos.