• Nenhum resultado encontrado

Povos da Floresta e Povos da Fronteira

No documento VERSÃO FINAL 06.04.2018-Tese Gabriel Godoy-2 (páginas 115-118)

Ao pensar no contexto brasileiro, há um conhecido debate sobre a heterogeneidade da população. 210 Trata-se de um Povo de muitos povos, que abrange descendentes de indígenas, africanos, europeus e tantos outros imigrantes211. Mas mesmo que a comunidade política brasileira seja marcada pela diversidade de diferentes identidades, parece curioso como há certas subjetividades que parecem ser produzidas como um outro que não é capaz de articular o seu pertencimento sem sujeição, sem experimentar dessubjetivação ou violência. Trata-se, portanto, de uma modalidade de pertencimento precário, o que ecoa a fratura biopolítica do próprio conceito de povo.

Nessa linha de raciocínio, é importante não apenas fazer uma crítica da captura do encontro pelo Direito para mostrar a dificuldade de reconhecimento da condição de refugiado de um estrangeiro que foi perseguido, mas também a crítica da condição análoga a de refugiado em que são colocados alguns sujeitos dentro de sua própria comunidade política.

A gênese do Brasil está marcada pelo encontro com o estranho, pelo encontro com o estrangeiro. Sabemos a história que veio depois. As milhares de vidas, de línguas, de povos que morreram em decorrência do encontro colonial. A hospitalidade como dever anunciado por Kant trouxe a demanda de abertura para novos mercados, e, posteriormente, a emergência de um novo Estado. O encontro colonial é a marca violenta que está na gênese do Brasil.

Nessa linha de raciocínio, Brasil é o nome de um encontro de povos. Com o advento do Estado há uma crescente dificuldade de se articular como povo, especialmente quando a lógica do povo se apresenta coletivamente.

210 Para uma leitura contemporânea sobre o tema: GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo.

Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2002.

211 RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo:

Companhia das Letras, 1995.

Rememorando a história do país, os indígenas podem ser repensados não como cidadãos cosmopolitas, mas exatamente como povos marcados por um refugium dentro de si. O indígena talvez represente de modo paradigmático o sujeito que, ao mesmo tempo, pertence e não pertence ao Estado, como um refugiado interno.

Indígena é aquele sujeito reduzido a corpo, a uma vida nua, e sua inclusão no Estado é excludente, pois sua integração implica mais que a perda da terra, pois envolve também a perda de sua própria identidade. Essa é a experiência de refugium que os povos indígenas experimentam há séculos.

Nesse sentido, há uma hiper-realidade do conceito de vida nua e de estado de exceção no Brasil, um excesso que toca o real da experiência de sofrimento de milhares de indígenas que ainda vivem no continente.

A inclusão formal da população indígena no Estado parece ainda perpetuar sua exclusão política, a exclusão de centenas de povos que não podem ser Povo. Para sobreviver à experiência do encontro colonial, muitos povos indígenas tiveram de lidar com a despossessão, com sua desterritorialização. Milhares apenas sobreviveram a esses episódios às custas de um processo de dessubjetivação. 212 O encontro colonial não apenas implicou a perda de terras, escravidão e etnocídio. Implicou também uma modalidade de relação com o Estado em que para pertencer é preciso modular uma certa identidade e também deixar de ser quem se é. Trata-se de um princípio de reconhecibilidade muito particular que terá sérias implicações para os indígenas no Brasil. Apenas aqueles indígenas capazes de representar a autenticidade de sua indigeneidade serão reconhecíveis para o Direito de maneira a, por exemplo, terem suas terras demarcadas e respeitadas. O que está em jogo é como a performance de uma identidade indígena pode ser um meio de acesso a direitos garantidos a esses povos por permanecerem autenticamente indígenas.

Muitos indígenas seguem vivendo na mata. E vários ainda se deslocam para sobrevier. Alguns para evitar o contato. Outros para evitar o conflito. O limite da categoria de cidadania cosmopolita pode ser pensado a partir da situação enfrentada por muitos povos indígenas em situação de refúgio. Há

212 BUTLER, J. Dispossession: the performative in the political. Cambridge: Polity Press, 2013.

p. 28.

uma violência originária que embasa a aquisição de cidadania pelos indígenas.

Em determinadas situações, quando a própria cidadania já não garante proteção do Estado aos indígenas, o deslocamento forçado pode ser a única alternativa de sobrevivência. E aqueles indígenas que terminam buscando refúgio em outro país encontram-se outra vez com um novo dispositivo de captura.

Existem aproximadamente quarenta povos indígenas vivendo próximos às fronteiras internacionais colombianas. Essa população tende a permanecer invisível, misturando-se às comunidades indígenas que vivem do outro lado.

Entre os milhões de cidadãos colombianos, muitos indígenas foram obrigados a se deslocar internamente por conta do conflito armado interno que assola o país. Mesmo assim, é comum que indígenas não se registrem como desplazados, como pessoas em necessidade de proteção nacional do Estado colombiano por serem deslocados internos contra sua vontade. Em situações limite, quando cruzam a fronteira, raramente solicitam asilo formalmente no país vizinho. Apesar disso, é claro que o deslocamento forçado de povos indígenas ainda ocorre, afetando, em alguns casos, a capacidade de sobrevivência do próprio grupo étnico. Nesse momento, os povos da floresta e os povos da fronteira se conectam, há uma aproximação entre a condição de indígena e de refugiado e sua exposição ao sacrifício.

Atualmente, a comunidade internacional tem de lidar com uma nova e complexa dinâmica de migração forçada em que as diferenças entre as categorias jurídicas tradicionais não estão claras. No limiar entre a proteção jurídica oferecida pelos direitos de cidadania e pelos direitos humanos, os indígenas vivem como cidadãos estrangeiros dentro do próprio país, ou refugiados que não solicitam asilo ao Estado estrangeiro.

Seguindo Giorgio Agamben, 213 é possível argumentar que aqueles indígenas na fronteira amazônica entre a Colômbia e o Brasil, por não terem status definido – pois não estão registrados como deslocados internos na Colômbia, nem como solicitantes de refúgio no Brasil –, exemplificam uma forma de vida nua despolitizada, pois a cidadania não é capaz de lhes oferecer nenhuma proteção, nem o Direito Internacional dos Refugiados, nem o Direito

213 AGAMBEN, G. Means without ends. Trad. Vincenzo Benetti; Cesare Casarino.

Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996. p. 23.

Internacional dos Direitos Humanos. Os indígenas foram as vítimas originárias da violência da própria fronteira e hoje seguem em situação de abandono independente do lado da linha em que se encontrem. Somente uma crítica a partir desse desencontro pode ressignificar a comunidade política em que vivemos.

Para o Direito Internacional, pessoas deslocadas podem ser consideradas refugiadas se o seu status se enquadrar na definição legal do termo. No entanto, muitas vidas deslocadas terminam por não se beneficiar da proteção legal que o instituto do refúgio deveria garantir. Esse é o caso de muitas populações deslocadas que não atravessam fronteiras internacionais, mas se tornam deslocadas internas dentro dos limites de seus próprios países.

É importante apontar que não há nenhuma definição vinculante de deslocado interno no Direito Internacional. Essa população depende totalmente de uma política nacional de cuidado, ou de assistência humanitária internacional, quando requisitada pelo Estado. Trata-se de uma entre outras lacunas do Direito Internacional, como a proteção para o deslocamento forçado que obriga pessoas a cruzar fronteiras internacionais devido à fome, à pobreza extrema, às violações de direitos econômicos, sociais, culturais ou ambientais, todas situações concretas para as quais não há um instrumento internacional específico para garantir a obrigação de um Estado estrangeiro oferecer proteção internacional. 214

No documento VERSÃO FINAL 06.04.2018-Tese Gabriel Godoy-2 (páginas 115-118)