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4.4 Gestão de Rancho: desde 2017

4.4.2 Precariedades no funcionamento

O funcionamento da Rádio A Voz do Salobrinho ocorre precariamente, assim como acontece na maioria das rádios-postes brasileiras (COGO, 1998; PERUZZO, 2004). O capítulo anterior aponta alguns conceitos, desafios e mediações comuns destas emissoras; na rádio em questão, foram identificados todos os desafios de funcionamento apontados pelas autoras.

A infraestrutura de equipamentos é a mais simples possível. As caixas de som ficam expostas ao sol e chuva, e o surgimento de ruídos nem sempre é informado com rapidez à equipe. A caixa de som de retorno dentro da emissora não é equivalente ao som das ruas, resultando em “volumes” baixos ou altos demais.

Cogo conta um erro comum à realidade do Salobrinho: é indispensável uma boa caixa de retorno, “evitando, com isso, os sucessivos e frustrantes episódios [...] de que o som não estava saindo” (1998, p. 136). Quanto à fachada, não há qualquer sinal visual que identifique a emissora para a população (no toldo, consta o nome do açougue da irmã do diretor). Há ainda a falta de banheiro, limpeza, organização nos armários, extintor de incêndio, etc. (foi observado um princípio de incêndio na emissora, que ocorreu ao lado de uma enorme pilha de carvões do patrocinador).

Uma das explicações possíveis é a falta de planejamento financeiro. O autofinanciamento do diretor cobre apenas a infraestrutura “básica”, e a falta de investimentos impede a melhoria da programação para a fidelização da audiência (GRAMACHO, 2018, p. 16). Como não há remuneração, todos os membros da equipe alegaram ter outras ocupações mais importantes. Logo, não há engajamento e busca por capacitação (cf. VIGIL, [2003], p. 401).

A falta de reuniões periódicas dificultou sua caracterização enquanto equipe realmente dedicada: os radialistas raramente se reuniram em conjunto, encontrando- se apenas casualmente devido à proximidade das moradias. O pesquisador propôs

65 exaustivamente o mínimo de uma reunião mensal, o que foi registrado no estatuto não efetivado (cf. SUBSEÇÃO 5.2) e contribuiu para o abandono dos seminários propostos pela metodologia inicial da monografia (THIOLLENT, 1998). Uma alternativa encontrada foi o incentivo da discussão do papel da rádio em outros grupos, como nas reuniões da Associação de Moradores (FIGURA 08) e dos universitários (FIGURA 10). Os moradores foram incentivados ao vivo a participar mais e discutir a programação (RÁDIO A VOZ DO SALOBRINHO, 2018; 2019b), o que não se concretizou expressivamente.

A equipe mostrou dificuldades com a informática e técnicas de rádio.

Observaram-se diversos casos em que os conhecimentos básicos de informática foram insuficientes (desde a criação de simples documentos de texto; até as avançadas regularizações da transmissão online, arquivamento e proteção antivírus). Nenhum dos radialistas da equipe de 2017-2019 aprendeu a sistematizar os áudios automaticamente (inclusive o pesquisador), prevalecendo o simples uso do YouTube (que transmitia as propagandas do serviço, até que foi instalado um bloqueador). Isto também prejudicou as campanhas de utilidade pública, que tiveram seu impacto reduzido sem a repetição automatizada. O pesquisador se disponibilizou para treinamento interno, o que não ocorreu. Foi ofertado um curso de fotografia com celulares (cf. SUBSEÇÃO 5.5), feito sem o comparecimento da equipe. Anteriormente, a Rádio Uesc realizou um curso de capacitação da equipe anterior (2014-2017).

A rádio serviu como ponto de inclusão digital, disponibilizando o computador e internet para uso da equipe. Houve a capacitação básica de alguns jovens, porém a observação constatou que seu interesse era focado no uso de redes sociais e jogos.

Segundo o diretor, o excesso de usuários demandava muita manutenção no computador, e a limitação dos jovens culminou na interrupção do quadro “Salobrinho Kids” em 2019 (FIGURA 05). O locutor Titã se afastou desde então (dado de 2021).

O principal problema entre a rádio-poste e audiência local é a transmissão impositiva, conforme abordado por diversos teóricos (GIRARDI e JACOBUS (org.), 2009, p. 20; COGO, 1998; VIGIL, [2003]) e explicado no capítulo anterior.

Recapitulando: o impasse se determina pelo caráter impositivo das caixas de som dos postes, não deixando ao pedestre a alternativa de “mudar a estação” ou a

66 desligar (optando não ser um ouvinte). Mesmo com esta imposição, não há uma estimativa concreta de audiência fiel (informação útil para negociação com possíveis apoiadores). Alguns ouvintes mantém o hábito de ouvir sentados na soleira das portas, o que não acontece em grande número. Em busca de uma programação mais democrática e participativa, a alternativa encontrada entre a equipe e a comunidade foi o incentivo da participação “comunitária” na programação (RÁDIO A VOZ DO SALOBRINHO, 2018), objetivando à longo prazo a transição para FM e online.

Quanto à poluição sonora, a equipe lida com reclamações todos os dias, costumando agir compreensivamente: primeiro, tentam conscientizar o morador do papel social da rádio; este geralmente responde que está cuidando de crianças, de idosos ou com enxaquecas. Nestes casos, abaixam o “volume” até o desligamento e realocação da caixa de som. Alternativas para a poluição sonora foram discutidas entre a Associação de Moradores e o pesquisador em 2018. Houve moradores que, incomodados com a programação, optaram por danificar as caixas de som antes de dialogar com o diretor (o local de seu açougue é bem conhecido, além de seu contato de telefone e aplicativo de mensagem WhatsApp ser bem compartilhado).

Um caso foi especialmente lamentado pela equipe: numa madrugada, o sistema de som continuou ligado (devido à falta da fiscalização dos procedimentos, automatização e reclamação tardia dos moradores). O diretor se desculpou publicamente no Facebook da rádio e nas transmissões ao vivo.

Finalmente, quanto à regularização burocrática, sua existência é um caso especial: a rádio foi implantada num período de transição de “fazenda” para “bairro municipal”, e sua distância do centro evitou inimizades com os grupos políticos de Ilhéus. As prefeituras são as responsáveis pelos alvarás reguladores das rádios- postes (NEUBERGER, 2012, p. 118), e a implantação da rádio em questão sofreu multas (cf. SUBSEÇÃO 4.3). A tipologia da emissora pode a enquadrar como uma rádio-poste “livre” (PÓLVORA, 2003, p. 9 et seq.), termo acadêmico usado para denominar as emissoras democratizantes irregulares. Independentemente da busca pela burocratização, o pesquisador buscou a legitimação da rádio como “rádio da comunidade”, realizando parcerias com a Associação de Moradores em 2018.

67 Embora tenha conquistado a legitimação (ou seja, o reconhecimento e apoio de grupos dos moradores), a rádio continua irregular (cf. SUBSEÇÃO 5.2).