3 PESQUISANDO COM AS MENINAS BONITAS
Neste capítulo será detalhado o passo a passo da pesquisa, desde a escolha da metodologia mais adequada, as etapas para a sua execução, a caracterização dos sujeitos da pesquisa, o seu desenvolvimento a partir do recurso selecionado – as rodas de leitura – até a criação e o lançamento do livro “O amor impossível de Juliana?”.
em relação aos alunos surdos -, inspetores, merendeiras, garis, auxiliares administrativos e profissionais readaptados de função, por motivos de saúde.
A escola pode ser considerada de grande porte, pela quantidade de funcionários e alunos que possui. Sua clientela pertence ao bairro onde a escola está situada e aos bairros vizinhos. Dentro da rede municipal de educação carioca, a escola é considerada bilíngue, ou seja, utiliza como linguagem de trabalho a língua portuguesa e as libras. Também é referência no trabalho com os alunos autistas na CRE (Coordenadoria Regional de Educação) à qual pertence.
Dos espaços que compõem esta unidade escolar – salas de aula, refeitório, pátio, secretaria, sala dos professores, grêmio estudantil, almoxarifado, jardim externo, parquinho – há um que necessita ser destacado, por apresentar correlação direta com a pesquisa: a Sala de Leitura.
A Sala de Leitura é uma espécie de biblioteca escolar e tem como objetivo atender à comunidade – alunos, funcionários, responsáveis – nas questões relacionadas à pesquisa de materiais de estudo nas diferentes mídias, não apenas através do livro e também colaborar no planejamento e execução de projetos de incentivo à leitura, em especial junto aos alunos. A resolução mais recente que atualiza a estrutura e o funcionamento das Salas de Leitura é a Resolução SME nº 47, de 18 de janeiro de 2018, onde reafirma que a função principal do professor de Sala de Leitura é a formação de leitores e que seu trabalho deve contemplar toda a comunidade escolar, ainda que suas ações devam atender, prioritariamente, às demandas discentes e estar em consonância ao Projeto Político Pedagógico da escola. (RIO DE JANEIRO, 2018).
Como professora regente de Sala de Leitura, desenvolvo as ações leitoras em vários momentos e espaços dentro da escola, mais especialmente no atendimento semanal às turmas. Para que não houvesse junto às participantes da pesquisa uma confusão de papéis entre a professora e a pesquisadora, optei por desenvolver a pesquisa no turno contrário ao qual eu trabalho, que é o turno de aula das meninas.
Foi uma medida acertada, que não impediu, no entanto, dúvidas e entrecruzamentos de papéis, como será discutido mais à frente.
A pesquisa foi desenvolvida a partir da metodologia da pesquisa-ação. A investigação científica não pode se dar de maneira eficiente se, entre outras questões, a escolha da metodologia for feita de forma aleatória, sem levar em conta a especificidade do objeto de estudo e os objetivos da pesquisa. Acredito que ao propor
uma pesquisa que convide os sujeitos à reflexão e à ação concreta, a escolha da pesquisa-ação é bastante acertada. E mais: penso que a pesquisa deva ser mais do que colher informações e fazer uso delas academicamente, excluindo os sujeitos da pesquisa da possibilidade de construir mudanças que lhes sejam benéficas. Mais especificamente, a pesquisa-ação empregada é aquela denominada de pesquisa- ação crítica, aquela onde a necessidade de transformação do grupo passa a ser sentida a partir dos primeiros encontros com o pesquisador, o qual propicia formas do grupo colocar suas inquietações e buscar juntos maneiras de mudar a realidade vivenciada, nas palavras de Franco (2005, p.485):
se essa transformação é percebida como necessária a partir dos trabalhos iniciais do pesquisador com o grupo, decorrente de um processo que valoriza a construção cognitiva da experiência, sustentada por reflexão crítica coletiva, com vistas à emancipação dos sujeitos e das condições que o coletivo considera opressivas, essa pesquisa vai assumindo o caráter de criticidade e, então, tem se utilizado a conceituação de pesquisa-ação crítica.
Foram selecionadas como sujeitos de pesquisa alunas do quinto ano da referida escola. Este grupo foi escolhido pela familiaridade maior que tem com a leitura e por ainda estar próximo da infância, em plena construção de sua identidade.
Após a permissão da Plataforma Brasil, da Comissão de Ética da SME e dos gestores da instituição, duas ações foram executadas: realizei uma palestra para a direção, os professores e estagiários sobre a temática da pesquisa, a fim de sensibilizá-los e promover uma reflexão acerca de como lidam com questões étnico- raciais em sala de aula e fiz uma reunião com os responsáveis e alunas das duas turmas, em momentos separados, com o objetivo de apresentar a pesquisa, esclarecer dúvidas e conseguir as autorizações dos responsáveis.
Na palestra, chamou a atenção o quanto alguns educadores ainda possuem entendimentos equivocados acerca do racismo e de suas variadas e sutis expressões.
Um professor perguntou de onde foram tiradas as informações fornecidas, pois ele não via daquela forma. Disse acreditar que algumas pessoas eram racistas, mas que eram posturas individuais. Ele, por exemplo, era casado com uma mulher que tinha o cabelo “pichoim” – acredito que queria dizer pixaim - e para ele isto não fazia diferença.
Destaquei a importância das palavras, afirmando o quanto a própria palavra “pichoim”, ainda que ele não percebesse, continha um valor simbólico pejorativo. Outra professora disse que “cabelo ruim era o dela, pois quando ia em algum evento social, tinha que encher de laquê para o penteado sustentar, pois era muito liso”. Quando, no
entanto, foi perguntada se aceitaria trocar seus cabelos lisos por cabelos crespos permanentemente, manteve-se em silêncio.
Os responsáveis mostraram-se receptivos à proposta da pesquisa e fizeram poucos questionamentos. Não houve dificuldades em conseguir as autorizações dos responsáveis cujas alunas se interessaram por participar. Elas também assinaram os termos de consentimento. Apenas uma responsável se mostrou muito reticente em autorizar o uso de imagem de sua enteada, ainda que os fins da utilização tivessem sido explicados. Assim sendo, não serão feitas publicações de imagens das alunas e, quando houver, não será possível a identificação destas.
O grupo inicial foi formado por treze alunas e os encontros aconteceram entre os meses de março a maio. A frequência foi muito boa e apenas uma aluna saiu ao longo do desenvolvimento da pesquisa, pois seus pais se mudaram para outro município.