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3 PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO

Neste capítulo abordaremos o instituto da prescrição e da decadência no ramo do direito previdenciário em matéria de ações de revisão de benefício previdenciário. Para isso, inicialmente torna-se imperioso esclarecer os referidos institutos com base no Direito Civil Brasileiro, para, consequentemente, demonstrar com maior enfoque a prescrição e a decadência previdenciária.

Sucessivamente, apresentaremos o surgimento de ambos os institutos para o Direito Previdenciário, que posteriormente passou por diversas modificações – principalmente quanto aos prazos decadenciais –, alterando, de tempo em tempo o art. 103 da Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, denominada Lei de Planos de Benefícios da Previdência Social.

Sendo assim, será demonstrada a divergência de decisões dos Tribunais quanto aos referidos institutos.

Todavia, a renúncia da prescrição só valerá quando esta se consumar, não podendo ter prejuízo a terceiro, sendo assim, não se admite a renúncia prévia do instituto, podendo ser expressa ou tácita.215

Nesse sentido, dispõe o art. 191, do Código Civil de 2002: “A renúncia da prescrição pode ser expressa ou tácita, e só valerá, sendo feita, sem prejuízo de terceiro, depois que a prescrição se consumar; tácita é a renúncia quando se presume de fatos do interessado, incompatíveis com a prescrição”.216

Sobre a distinção da renúncia, Gagliano e Pamplona Filho lecionam:

Renunciar à prescrição consiste na possibilidade de o devedor de uma dívida prescrita, consumado o prazo prescricional e sem prejuízo a terceiro, abdicar do direito de alegar esta defesa indireta de mérito (a prescrição) em face do seu credor. Se anuncia o pagamento, e o executa,renunciou expressamente. Se, embora não o haja afirmado expressamente, constituiu procurador, providenciou as guia bancárias para o depósito ou praticou qualquer ato incompatível com a prescrição, significa querenunciou tacitamente.217

Diniz também explica a diferença entre renúncia expressa e renúncia tácita:

Como se vê, não se permite a renúncia prévia ou antecipada à prescrição a fim de não destruir sua eficácia prática, caso contrário todos os credores poderiam impô-la aos devedores, portanto, somente o titular poderá renunciar à prescrição após a consumação do lapso previsto na lei. Na renúncia expressa o prescribente abre mão da prescrição de modo explícito, declarando que não a quer utilizar e na tácita pratica atos incompatíveis com a prescrição, p. ex., se pagar dívida prescrita, se efetivar transição extrajudicial, se constituir garantia real ou fidejussória após o prazo prescricional, etc.218

Segundo Gonçalves, são dois os requisitos para a validade da renúncia: “[...] que a prescrição esteja consumada; [...] que não prejudique terceiro.”219

215GONÇALVES, Carlos Roberto.Direito civil brasileiro, volume 1:parte geral. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:

Saraiva, 2007. p. 474

216BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

217GAGLIANO, Pablo Stolze e FILHO, Rodolfo Pamplona.Novo curso de direito civil, volume 1:parte geral.

11. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 468.

218DINIZ, Maria Helena.Curso de direito civil brasileiro:teoria geral do direito civil. 24. ed. rev. e atual. de acordo com a reforma do CPC. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 394.

219GONÇALVES, Carlos Roberto.Direito civil brasileiro, volume 1:parte geral. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:

A prescrição poderá ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem aproveita, conforme afirma o art. 193 do Código Civil de 2002.220

Diniz complementa: “Pode ser invocada em qualquer fase processual; na contestação, na audiência de instrução e julgamento, nos debates, em apelação, em embargos infringentes, [...]”.221

Contudo, é inadmissível a arguição da prescrição perante o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal, eis que a esses Tribunais só cabe reexame de matéria já decidida.

Gonçalves enfatiza:

Se a prescrição, entretanto, não foi suscitada na instância ordinária (primeira e segunda instância), é inadmissível a sua arguição no recurso especial, perante o Superior Tribunal de Justiça, ou no recurso extraordinário, interposto perante o Supremo Tribunal Federal, por faltar o prequestionamento exigido nos regimentos internos desses tribunais, que têm força de lei.222

Com o advento da Lei n. 11.280, de 16 de fevereiro de 2006, fora revogado o art.

194 do Código Civil, que impossibilitava o magistrado reconhecer de ofício a prescrição; lei esta que também modificaria o disposto no § 5°, do art. 219, do Código de Processo Civil, o qual determinaria que a prescrição pudesse ser pronunciada de ofício pelo juiz.223

Artigo revogado

Art. 194.O juiz não pode suprir, de ofício, a alegação de prescrição, salvo se favorecer a absolutamente incapaz.224

Art. 219.A citação válida torna prevento o juízo, induz litispendência e faz litigiosa a coisa; e, ainda quando ordenada por juiz incompetente, constitui em mora o devedor e interrompe a prescrição.

[...]

§ 5º O juiz pronunciará, de ofício, a prescrição.225

220BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

221DINIZ, Maria Helena.Curso de direito civil brasileiro:teoria geral do direito civil. 24. ed. rev. e atual. de acordo com a reforma do CPC. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 395.

222GONÇALVES, Carlos Roberto.Direito civil brasileiro, volume 1:parte geral. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:

Saraiva, 2007. p. 475-476.

223GAGLIANO, Pablo Stolze e FILHO, Rodolfo Pamplona.Novo curso de direito civil, volume 1:parte geral.

11. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 469.

224BRASIL.Lei n. 11.280, de 16 de fevereiro de 2006. Revoga o art. 194 da Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-

2006/2006/Lei/L11280.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

225BRASIL. Código de Processo Civil.Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

A lei estabelece algumas causas que ocasionam o impedimento, a suspensão e a interrupção do curso do prazo prescricional. As causas que impedem ou suspendem o curso do prazo da prescrição estão elencadas do art. 197 ao art. 201, do Código Civil de 2002:

Art. 197.Não corre a prescrição:

I - entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal;

II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar;

III - entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a tutela ou curatela.

Art. 198.Também não corre a prescrição:

I - contra os incapazes de que trata o art. 3º;

II - contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou dos Municípios;

III - contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra.

Art. 199.Não corre igualmente a prescrição:

I - pendendo condição suspensiva;

II - não estando vencido o prazo;

III - pendendo ação de evicção.

Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.

Art. 201.Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários, só aproveitam os outros se a obrigação for indivisível.226

Para corroborar, Schlichting define as causas de suspensão e de impedimento da prescrição:

Impedimento da prescriçãoé a ocorrência jurídica que decorre de um fato- situação-jurídica que faz com que não se inicie a contagem do prazo estabelecido para que o agente pretensor busque, junto ao Poder Judiciário, a tutela relativa à sua pretensão. [...]Suspensão da prescriçãoé a ocorrência jurídica que decorre de um fato-situação-jurídica que faz com que a contagem do prazo estabelecido para que o agente pretensor busque, junto ao Poder Judiciário, a tutela relativa à sua pretensão, se já iniciado, fique em suspenso, até que cesse a situação suspensiva.227

Assim, o que distingue impedimento e suspensão é quanto ao termo inicial. No impedimento o prazo nem começa a fluir, enquanto na suspensão, tem-se o prazo iniciado, que conseqüentemente é “paralisado”, até que se dê por fim a causa suspensiva.228

226BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

227 SCHLICHTING, Arno Melo.Prescrição, decadência, preclusão, imprescritibilidade:código civil de 2002: identificação a priori: direito potestativo - ações de estado. Florianópolis: Momento Atual, 2004. p. 30.

228GAGLIANO, Pablo Stolze e FILHO, Rodolfo Pamplona.Novo curso de direito civil, volume 1:parte geral.

É neste sentido, a observação de Pereira: “[...] se não teve ainda início a prescrição, pela ocorrência de uma causa que se opôs ao seu começo, o que se verificou foi ter-se impedido e não suspenso o prazo prescricional [...]”.229

Também elencadas pelo Código Civil de 2002, estão as causas que interrompem o prazo da prescrição, vejamos:

Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á:

I - por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover no prazo e na forma da lei processual;

II - por protesto, nas condições do inciso antecedente;

III - por protesto cambial;

IV - pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em concurso de credores;

V - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;

VI - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor.

Parágrafo único. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper.230

Segundo Maria Helena Diniz as causas que interrompem o prazo prescricional são

“as que inutilizam a prescrição iniciada, de modo que o seu prazo recomeça a correr da data do ato que a interrompeu ou do último ato do processo que a interromper”.231

Analisando o artigo acima exposto, percebe-se em seu “caput” que a interrupção da prescrição poderá ocorrer apenas uma vez, daí a diferença para o impedimento e a suspensão do prazo prescricional, eis que estas não dispõem da quantidade que podem ocorrer.232

Quanto à causa estabelecida no inciso I, do art. 202 do Código Civil, também está prevista expressamente no Código de Processo Civil, que a interrupção da citação fará com que o prazo recomece a fluir por inteiro, retroagindo à data da propositura da ação.

Art. 219.A citação válida torna prevento o juízo, induz litispendência e faz litigiosa a coisa; e, ainda quando ordenada por juiz incompetente, constitui em mora o devedor e interrompe a prescrição.

229 PEREIRA, Caio Mário da Silva.Instituições de direito civil:introdução ao direito civil: teoria geral de direito civil. 22. ed. rev. e atual. de acordo com o Código Civil de 2002, por Maria Celina Bodin de Moraes. Rio de Janeiro: Forense, 2008. p. 696.

230BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

231DINIZ, Maria Helena.Curso de direito civil. 20. ed. rev. aum. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 339.

232VENOSA, Sílvio de Salvo.Direito civil:parte geral. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2005. p. 617.

§ 1º A interrupção da prescrição retroagirá à data da propositura da ação.233

O novel estatuto civil dispõe em seu art. 203, que a prescrição poderá ser interrompida por qualquer interessado.234

Venosa nos ensina o significado de pessoa interessada:

O titular do direito, o prescribente, é o maior interessado em interromper a prescrição. Geralmente, é ele quem a promove. O representante legal do prescribente pode promover a interrupção. O assistente dos menores relativamente capazes pode fazê-lo, assim como os representantes convencionais, pois contra os absolutamente incapazes não corre a prescrição. No mais, importa examinar no caso concreto quem possui interesse para promover a interrupção da prescrição. Em princípio, interrupção efetivada por quem não tenha interesse ou legitimação será ineficaz. Os terceiros, com legítimo interesse, podem promover a interrupção, tais como os herdeiros do prescribente, seus credores, os fiadores, etc.235

Ademais, ressalta-se que os efeitos da prescrição são pessoais, porém, admitem-se exceções; é o que o art. 204 e parágrafos, do Código Civil, dispõem:236

Art. 204. A interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros; semelhantemente, a interrupção operada contra o co-devedor, ou seu herdeiro, não prejudica aos demais coobrigados.

§ 1º A interrupção por um dos credores solidários aproveita aos outros;

assim como a interrupção efetuada contra o devedor solidário envolve os demais e seus herdeiros.

§ 2º A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não prejudica os outros herdeiros ou devedores, senão quando se trate de obrigações e direitos indivisíveis.

§ 3º A interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador.237

Por fim, Venosa nos ensina que existe a possibilidade de leis especiais – como é o caso da Lei de Benefícios, no direito previdenciário – disciplinarem sobre as causas de

233BRASIL. Código de Processo Civil.Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010.

234BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2010

235VENOSA, Sílvio de Salvo.Direito civil:parte geral. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2008. p. 560.

236GONÇALVES, Carlos Roberto.Direito civil brasileiro, volume 1:parte geral. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:

Saraiva, 2007. p. 484.

237BRASIL.Código Civil.Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:

impedimento ou suspensão do prazo prescricional: “Leis posteriores criaram outras situações de impedimento e suspensão, como é o caso, entre outros casos, do art. 440 da Consolidação das Leis do Trabalho: ‘Contra menores de 18 anos não corre nenhum prazo de prescrição’”.238

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