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Ainda escasseiam no Brasil estudos que abordem os programas voltados para a

“recuperação” de homens autores de violência, mas alguns já despontam como norteadores (BEIRAS, 2008, 2012; GOMES, 2010; GROSSI, 2004; MACHADO, 2004; MARQUES, 2007; NASCIMENTO, 2001). Soares (1999), comentando a experiência dos Estados Unidos onde os programas para homens surgiram quase em paralelo aos programas de atendimento às mulheres vítimas de violência, assim resume suas diretrizes gerais:

Os programas de controle da violência masculina podem variar na abordagem e na duração. Alguns deles seguem orientação estritamente pedagógica (anti-sexista), no estilo “conscientização”, ou discussão de temas com dinâmica de grupos de apoio.

Outros se definem pela natureza terapêutica e podem obedecer a estilo da terapia familiar, de casal, ou individual, assim como pode seguir inclinação behaviorista ou cognitivo/behaviorista (voltados, por exemplo, para a localização e superação de traumas passados). Há os que combinam as duas abordagens e os que adotam modelos dos grupos de auto-ajuda. De um modo geral, os programas obedecem a uma diretriz comum, que poderia ser identificada como uma modalidade cognitivo- comportamental, orientada por princípio de gênero (SOARES, 1999, p. 108).

Apesar de Soares (1999) ser uma entusiasta da possibilidade de aplicação dos grupos de homens como uma das estratégias para a diminuição da violência contra a mulher, ela afirma que o sucesso desses programas é duvidoso e sua avaliação complicada, já que o acompanhamento dos participantes depois que deixam o grupo é praticamente inviável.

Muitas feministas foram contra essa abordagem, pois acreditavam que focalizar os homens poderia diminuir sua responsabilidade à medida que se procuravam explicações psicológicas ou culturais para seus atos, favorecendo uma linha de raciocínio também vitimadora segundo a qual os homens teriam se constituído culturalmente como violentos. Esse viés introduziria ambiguidades nos papéis de vítima e agressor, já que o último também estaria marcado por constrangimentos sociais dos quais deveriam ser “redimidos” por vias pedagógicas.

A proposta dos grupos de reflexão de homens75 é basicamente gerar novos comportamentos e novas relações entre homens e mulheres. Longe de patologizar comportamentos, como descrito num livro sobre metodologia dos grupos, organizado pelo Instituto NOOS, pioneiro em trabalhos junto a homens agressores, estes grupos deveriam ser:

concebidos como espaços propícios à assunção de responsabilidades, à ampliação do autoconhecimento, à vocalização de experiências e valores associados à subjetividade masculina, à expansão de horizontes, à transformação da auto- imagem e ao reenquadramento das perspectivas individuais. Em duas palavras, um processo de “reflexão responsabilizante”...uma oportunidade para que os homens pudessem se comprometer em construir, com suas parcerias, presentes ou futuras, relações mais cooperativas e solidárias, a partir do reconhecimento da violência praticada (ACOSTA, FILHO e BRONZ, 2004, p. 7).

Cabe ressaltar pesquisa realizada por Toneli et al. (2010) que mapeia e analisa vários programas de atendimento a homens autores de violência contra a mulher e violência sexual,

75 Segundo Manual de Rotinas e Estruturação de Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, editado pelo Conselho Nacional de Justiça em 2010, citado em capítulo anterior, os Juizados especiais deveriam estimular junto à equipe multidisciplinar a criação do que denominaram “Serviço de

Responsabilização e Educação do Agressor” que seria “o equipamento responsável pelo acompanhamento das penas e das decisões proferidas pelo juízo competente no que tange aos agressores, conforme previsto na Lei 11.340/2006 e na Lei de Execução Penal. Esses serviços deverão, portanto, ser necessariamente vinculados ao sistema de justiça, entendido em sentido amplo (Poder Judiciário e Secretarias de Justiça Estadual). Entre suas atribuições, podem-se citar: a promoção de atividades educativas, pedagógicas e grupos reflexivos, a partir de uma perspectiva de gênero feminista e de uma abordagemresponsabilizante; e o fornecimento deinformações permanentes sobre o acompanhamento dos agressores ao juízo competente, por meio de relatórios e

documentos técnicos pertinentes”. (p. 40). Ver em:

<http://www.amb.com.br/fonavid/Documento_Manual%20Maria%20da%20Penha.pdf>

sejam ligados a instituições públicas ou civis. Nele, ressaltam-se, a possibilidade de despolitização desses programas e deslocamento do contexto (feminista) do qual surgiram. A descontextualização refere-se à observação de vários programas que não se orientavam pelos pressupostos feministas segundo os quais as causas da violência relacionam-se às desigualdades de poder entre homens e mulheres e à dominação masculina. No entanto, é fato que muitos homens que passam por estes programas aprendem a controlar sua violência, mas não deixam de se identificar e conduzir segundo valores tradicionais de masculinidade, que implicam formas mais sutis de opressão. A politização da atenção, junto à proposta de que os homens tenham, neste espaço, um momento para reconsiderar a própria compreensão de si enquanto pessoa socializada por um modelo de masculinidade opressivo, deve contribuir para uma das concepções mais consensuais dentro das diferentes linhas do feminismo: a de que a violência contra as mulheres apenas se extinguirá após mudanças culturais significativas (TONELI et al., 2010).

Como demonstrarei a seguir, assim como ocorre nos grupos de reflexão das usuárias do CREM, há uma nítida aposta por parte das técnicas em abordar as questões e temas propostos visando uma “transformação subjetiva/reforma de si”. Tal transformação, no caso dos homens, deve se dar via o desenvolvimento de habilidades nas relações interpessoais (como o autocontrole) que freiem impulsos agressivos próprios às constituições de gênero.

Não houve ao longo dos encontros nenhuma abordagem que contextualizasse as situações desde uma perspectiva mais histórica ou cultural e nem mesmo a conceituação sobre

“machismo” foi empreendida como mote para uma discussão que coletivizasse condutas e comportamentos masculinos postos em xeque no grupo.

Vale lembrar que meu objetivo inicial ao chegar ao grupo de reflexão era apenas ter acesso a homens autores de violência conjugal a fim de entrevistá-los. Apesar do foco na observação dos encontros se ampliar para a interação e os diálogos de técnicas e homens, mantive inicialmente o interesse em identificar aspectos identitários de gênero que prevalentemente surgissem nas narrativas dos homens como fatores engendradores dos delitos conjugais e da intimidade denunciados. Porém, nesse processo de ampliação do campo de observação na pesquisa, desloquei a questão que antes me colocava, para eles: o que esses homens percebiam nos conflitos da intimidade como oriundos de convenções de gênero? Os homens em várias dinâmicas e diálogos nos encontros constroem imagens de si e dos papeis relativos ao homem e imagens das mulheres e dos papeis relativos a elas. Os conflitos conjugais foram compreendidos muitas vezes como oriundos de incompatibilidades

inexoráveis entre os dois sexos, outras vezes como oriundos dos mais diversos problemas, como alcoolismo, doenças, briga com familiares, etc.

Antes de descrever o campo e a análise dos dados recolhidos, apresento brevemente as linhas teóricas que embasaram essa pesquisa quanto às discussões sobre identidade de gênero e suas repercussões nos estudos sobre violência contra a mulher.