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Primeiras pesquisas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 36-39)

Logo com o início das audiências de custódia, várias instituições se comprometeram a entender e avaliar o significado dessas audiências. No campo do direito, as pesquisas estão relacionadas ao doutrinamento jurídico. Os textos publicados por juristas se resumem em analisar a legalidade dessas audiências como também a sua real necessidade.

Um questionamento apresentado nos trabalhos indaga a necessidade de recorrer ao aparato dos tribunais para a concretização das audiências de custódia. O papel do delegado de polícia é colocado como uma autoridade judiciária que seria capaz de realizar a averiguação da necessidade da prisão em flagrante e, portanto, capaz de tomar as decisões necessárias para esse tipo de audiência. Além disso, se questiona a forma como a implementação das audiências ocorreram, considerada imposta pelo CNJ, sem alguma forma de diálogo ou sem uma lei específica (FAZZA, 2016).

Por outro lado, a custódia também é vista como um avanço à garantia dos direitos fundamentais, principalmente ao assegurar o direito de defesa e do contraditório. Defende-se que essas audiências são garantias mínimas para a legitimidade do processo judicial, necessárias para se chegar a uma decisão final (JUNIOR; PAIVA, 2014).

Dentro da sociologia, as pesquisas focaram em avaliar o funcionando das audiências de custódia. Após um ano de sua implementação, estudos iniciais mostram que todo o ritual de um julgamento é aplicado nas audiências. Em todo momento se preocupa em seguir o ritual estabelecido, utilizando linguagens próprias e de difícil compreensão do acusado, com o magistrado perguntando ao promotor de justiça e ao defensor sobre o caso, mas pouco preocupado em analisar a necessidade da continuação da prisão ou não. Assim, poucas questões são voltadas para o preso em si, além de que seu relato é desvalorizado e sem credibilidade. Essa situação se agrava se a pessoa presa já possui antecedentes registrados ou até mesmo pelo depoimento dos policiais. A atuação do defensor, principalmente o público, também merece destaque. Foi percebido que muitas vezes os defensores não possuem tempo anterior nem mesmo um espaço sigiloso para contato com o preso, o que prejudica a possibilidade do preso em denunciar abusos ou violências. Em casos mais extremos,

os defensores não chegaram a questionar a legalidade da prisão e pedir outro tipo de medida (BALLESTEROS, 2016).

As audiências, no Rio de Janeiro, foram regulamentadas pela resolução 29 de 24 de agosto de 2015. Efetivamente, elas iniciaram no dia 18 de setembro de 2015 após a implementação da Central de Audiências de Custódia no nono andar do Tribunal de Justiça. Atualmente, essa central foi transferida para a Cadeia Pública José Frederico Marques em Benfica. Lá também foi criado o centro de triagem, para onde todos os presos em flagrantes são encaminhados. Entre setembro de 2015 e junho de 2017 mais de oito mil audiências foram realizadas no Rio de Janeiro, sendo que em 57,44% houve a conversão da prisão em preventiva, em 42,56% dos casos foram concedidos a liberdade provisória. Além disso, 35,85% dos presos foram encaminhados para o serviço social11.

Um relatório produzido pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro após um ano da implementação, apenas com presos que pediram a assistência dessa instituição, mostra que o projeto de audiências de custódia se encontra consolidado na comarca central do estado. Além disso, chegam a ocorrer 30 audiências por dia, um número que indica cada vez mais a necessidade em se cumprir a determinação de apresentação ao juiz em 24 horas12.

Em relação à sua dinâmica, uma pesquisa produzida pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (2016) da Universidade Cândido Mendes, buscou analisar as relações entre os agentes jurídicos e as pessoas que ali eram apresentadas.

Observou-se que há certa robotização de alguns promotores e defensores, que na incumbência de fazer muitas audiências, repetiam de forma rápida e sistematizada as justificativas para a manutenção ou não das prisões. Verificaram também que há certa alienação dos presos ocasionada pela pouca preocupação dos agentes em que demais pessoas das salas entendessem o que ali aconteciam ou pelo linguajar técnico comum aos profissionais do direito. Por fim, também concluem que o destino da prisão depende muito da sorte do preso em ser colocado diante um juiz considerado progressista, garantista ao contrário de um juiz mais seletivo e repressivo (LEMGRUBER et al., 2016).

11 Dados disponíveis em: http://www.cnj.jus.br/sistema-carcerario-e-execucao-penal/audiencia-de- custodia/mapa-da-implantacao-da-audiencia-de-custodia-no-brasil Acessado em: 24/11/2017

12 Relatório disponível em: http://www.defensoria.rj.def.br/Documento/Institucional-pesquisas Acessado em: 24/11/2017

O Instituto de Defesa do Direito de Defesa realizou em nove estados brasileiros uma pesquisa de acompanhamento das audiências de custódia e buscou apresentar um panorama nacional dos dois primeiros anos da implementação. O relatório divulgado chama a atenção ao fato de o sistema de justiça se adaptou plenamente aos novos procedimentos, porém se verificou que os operadores de direito continuaram a adotar, em sua maioria as mesmas práticas e velhos padrões. Outro ponto de conclusão da pesquisa é que as audiências de custódia se tornaram de duma importância para o contato da pessoa preso com o profissional a sua defesa, dado ao fato que na maioria dos casos pesquisados esse contato não tinha acontecido na delegacia, no momento da prisão em flagrante (IDDD, 2017).

Outra pesquisa desenvolvida nos primeiros anos da realização das audiências de custódia no âmbito nacional buscou entender quais são os panoramas da aplicação de alternativas penais e sua relação com a redução do encarceramento. Assim, a audiência de custódia foi analisada como local que vem sendo aplicadas essas medidas. Os pesquisadores chegaram a conclusão que o tipo de crime está fortemente correlacionado à decisão de conversão para a prisão preventiva, de modo que roubo é o crime com a conversão da prisão mais frequente e o tráfico de drogas é o que mais desperta preocupação dos juízes entre os crimes sem violência. De forma geral, há um excesso de prisões provisórias entre os crimes sem violência. Além disso, também se destaca à importância dada aos antecedentes criminais para a justificativa da prisão (FBSB, 2018).

A pesquisa apresentada pelo Conselho Nacional de Justiça destaca também a forte unidade entre os promotores de justiça e os magistrados. Essa unidade se evidencia tanto na forma de condução das audiências quanto na convergência de encaminhamentos entre os profissionais. Dessa forma, por muitas vezes há uma confusão no papel de acusadores e julgadores, assim como a utilização de juízos morais em suas manifestações (idem, 2018).

Os relatórios apresentados nos primeiros anos de implementação do instituto das audiências de custódia estavam preocupados em demonstrar primeiramente se essas audiências tinham sido efetivamente iniciadas no âmbito nacional, principalmente porque a sua organização é de responsabilidade das justiças estaduais e, assim, cada estado poderia efetivar de maneira diferente. Outro ponto está na verificação se as audiências de custódia efetivaram um maior número de liberdade provisória, com ou sem medida cautelar, e gerenciamento sobre os relatos de maus

tratos policial no momento da prisão em relação à análise da prisão pelo juízo sem a presença do preso.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 36-39)

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