2.2 PRINCÍPIOS QUE NORTEIAM O INSTITUTO DA TUTELA ANTECIPADA
2.2.4 Princípio do Contraditório e da Ampla Defesa
Estabelece a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, a aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ele inerentes” (art. 5º, inc. LV da CF) 82.
Destarte, tal princípio “[...] consiste na igualdade de oportunidade de manifestação das partes em todos os atos do processo que influem nos direitos das partes” 83.
Na concepção de Humberto Theodoro Júnior,
O processo considera sob o prisma da igualdade ambas as partes da lide.
Confere-lhes, pois, iguais poderes e direitos. [...] consiste na necessidade de ouvir a pessoa perante a qual será proferida a decisão, garantindo-lhe o pleno direito de defesa e de pronunciamento durante todo o curso do processo84.
Em linhas que precedem estas, Hélio do Valle Pereira, assevera que:
[...] os participantes no processo têm o direito de ser eficazmente ouvidos, podendo trazer argumentos de fato e de direito que entendam relevantes, além de ficar reservada a possibilidade de acompanhamento permanente do feito. Isso implicará, ainda, a sempre cientificação dos atos processuais, inclusive com a imprescindível intervenção na produção da prova e a possibilidade de manifestação quanto aos atos que vão sendo praticados85.
81 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel Dinamarco. Teoria geral do processo, p. 61.
82 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 05 de outubro de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em 16 de agosto de 2010.
83 SCHLICHTING, Arno Melo. Teoria geral do processo: concreta, objetiva, atual, p.47.
84 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p.26.
85 PEREIRA, Hélio do Valle. Manual de direito processual civil: roteiros de aula – processo de conhecimento, p.51.
Assim sendo, tem-se que o princípio ora em comento, visa oportunizar de forma igualitária o direito à parte de manifestar-se acerca das alegações arrazoadas pelo outro litigante, bem como de fazer prova contrária, a fim de evitar o cerceamento de defesa.
Humberto Theodoro Júnior sublima que:
[...] quando se afirma o caráter absoluto do princípio do contraditório, o que se pretende dizer é que nenhum processo ou procedimento pode ser disciplinado sem assegurar às partes a regra de isonomia no exercício das faculdades processuais. [...] o direito de participar do contraditório é, nessa ordem, disponível. Logo, mesmo quando o juiz o desobedece, cometendo cerceamento de defesa, o processo ficará passível de nulidade, mas não será declarada se a parte interessada, presente nos autos, não a requerer em tempo útil, ou não opuser, de forma conveniente, ao prosseguimento do feito 86.
No atinente a esse aspecto, o professor Arno de Melo Schlichting, pondera:
Esse princípio não admite exceções, mesmo nos casos de tutelas cautelares de urgência e nos casos excepcionais em que o juiz provê, inaudita altera pars, a tutela requerida. Concedida liminarmente a medida cautelar requerida visando salvaguardar a devida eficácia de uma sentença que provirá, ou o bom processamento de uma ação, a Legislação Processual prevê atos processuais correlatos e imediatamente posteriores que garantirão ao requerido o contraditório e a ampla defesa, bem como o ressarcimento, da parte do requerente, dos prejuízos que este possa ter e que poderão advir da concessão da medida87.
Em suma, conclui-se que a garantia constitucional prevista no art. 5º, inc. LV da CF, propende garantir à parte o direito de ser informada de todos os atos e fatos que venham a integrar o processo, podendo, se assim entender, contradizê-los, a fim de obter ao final uma sentença justa88.
Findado os tópicos abordados no decorrer deste primeiro capítulo, conclui-se que o instituto da Tutela Antecipada veio a emergir no ordenamento jurídico com o fito de amenizar a extrema morosidade da concessão da Tutela Jurisdicional.
Buscou-se, ainda, demonstrar a eficácia da prestação jurisdicional, como meio de propiciar a efetiva justiça através de pronunciamentos judiciais, uma vez analisada a pretensão feita pela parte e constatada a existência de um direito juridicamente resguardado.
86 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento, p.28/29.
87 SCHLICHTING, Arno Melo. Teoria geral do processo: concreta, objetiva, atual, p.48.
88 SCHLICHTING, Arno Melo. Teoria geral do processo: concreta, objetiva, atual, p.48.
Na senda, registraram-se ainda os princípios constitucionais que norteiam o instituto cerne do presente trabalho, observada sua importância no que tange a possibilidade de melhor interpretação da situação fática e a conseguinte aplicação da norma ao caso concreto.
Desta feita, abordar-se-á no capítulo a seguir o conceito e as noções gerais acerca do instituto da Tutela Antecipada, as diferenças existentes entre a Tutela Antecipada e tutela cautelar, a forma de concessão da medida antecipatória pretendida, com apontamento aos pressupostos gerais (prova inequívoca e verossimilhança) e alternativos (dano irreparável e dano de difícil reparação aliado ao abuso do direito de defesa ou manifesto propósito protelatório do réu), necessários para a respectiva concessão da medida.
Destarte, alçada tais considerações, passa-se ao segundo capítulo do presente trabalho monográfico.
3 TUTELA ANTECIPADA
De início, insta ressaltar que o instituto da Tutela Antecipada veio a surgir no ordenamento jurídico brasileiro com o escopo principal de amenizar a morosidade para a efetiva prestação jurisdicional.
Ante a situação da extrema demora para a concessão da Tutela Jurisdicional, necessário se fez a positivação da Tutela Antecipada através da Lei 8.952/1994, com intuito de minimizar a problemática da lentidão do processo judicial, prestigiando o princípio da efetividade e celeridade da prestação jurisdicional.
Desta feita, imprescindível neste momento explanar de forma mais específica sobre o tema ora em baila.