seu contexto regras pertinentes a situações especiais, volvendo, porém, ao conteúdo ou objeto do Direito Civil.
Destarte, REALE75 apresenta que ao Direito Civil agrega-se, como suas vigas mestras, ou elementos basilares, os seguintes princípios que, numa sociedade democrática, condicionam toda a vida jurídica, a saber:
a) A idéia de que todo ser humano é sujeito de direitos e obrigações pelo simples fato de ser homem (princípio da personalidade);
b) O reconhecimento de que a geral capacidade jurídica da pessoa humana lhe confere o poder de praticar certos atos ou abster-se deles, segundo os ditames de sua vontade (princípio da autonomia da vontade);
c) A admissão de que esse poder implica a faculdade de outorgar direitos e aceitar deveres, nos limites da lei, dando existência a relações ou situações jurídicas, como os negócios jurídicos, em geral, e os contratos em particular (princípio da liberdade de estipulação negocial);
d) O reconhecimento de que o ser humano, por seu trabalho ou por formas outras que a lei contempla, pode exteriorizar a sua personalidade em bens imóveis ou móveis que passam a ser objeto exclusivo de seu querer, e de seu patrimônio (princípio da propriedade individual);
e) A idéia de que entre as situações jurídicas constituídas pelo livre querer dos indivíduos uma há que é a expressão imediata de seu ser pessoal, a família, a cobro de indébitas ingerência em sua vida íntima (princípio da intangibilidade familiar);
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f) A aceitação de que, entre os poderes que o ser humano exerce sobre os seus bens, inclui-se o de poder transmiti- los, no todo ou em parte, a seus herdeiros, a começar dos descendentes (princípios da legitimidade da herança e do direito de testar);
g) A função social dos direitos civis, da propriedade e dos negócios jurídicos (atos e contratos de natureza civil ou econômico-empresarial), a fim de que se conciliem as exigências do todo coletivo com os citados poderes conferidos aos indivíduos (princípio da solidariedade social).
É com base nestes princípios, ensina REALE76, “que se ordena o Direito Civil contemporâneo, situando suas regras ora em vários códigos, ora num Código Fundamental, ao qual, por justificado amor à tradição, se dá o nome de Código Civil”.
Outrossim, não poderíamos deixar de citar aqueles princípios que na visão de REALE77 como supervisor da comissão elaboradora e revisora do Anteprojeto do Código Civil, são considerados fundamentais ao atual Direito Civil Brasileiro, instituídos a partir do CC2002, são eles:
a) A eticidade: a participação dos valores éticos no ordenamento jurídico, sem o abandono, das conquistas da técnica jurídica que com aqueles deve se compatibilizar;
b) A socialidade: a superação do caráter individualista da Lei em favor do fortalecimento das instituições sociais e coletivas;
76 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito, p. 362.
77 REALE, Miguel. Novo Código Civil Brasileiro, p. 12-17.
c) A operabilidade: o estabelecimento de soluções normativas de modo a facilitar sua interpretação e aplicação pelo operador do Direito.
Vê-se, assim, que não obstante existirem princípios específicos caracterizadores do Direito Civil, estes por sua vez devem se submeter ou, melhor dizendo, devem ser observados à luz de outros princípios, mais gerais, que estabelecem as linhas mestras de todo o ordenamento jurídico de uma nação.
1.2.2 Princípios Relevantes do Direito Comercial
Tendo surgido na história como um direito especial de uma classe, a classe dos mercadores, atualmente o Direito Comercial, como já pudemos ressaltar anteriormente, perdeu sua característica de direito classista, para passar a reger, objetivamente, determinado campo da experiência jurídica privada.
Seu objetivo passou a ser a atividade negocial destinada a fins de natureza econômica, sendo essa atividade habitual e dirigida à produção de resultados patrimoniais. Neste diapasão destaca REALE78 que: “não existe comércio sem propósito de lucro. Se quem pratica uma atividade mercantil, não o faz por simples amadorismo, ou por paixão pelo trabalho, temos que compreender que é para obter uma vantagem de natureza patrimonial”.
Desta forma, conclui o autor que o Direito Comercial, entendido como especificação do Direito Civil, repousa sobre estes elementos ou princípios basilares:
a) A autonomia da vontade expressa, dinamicamente, numa atividade negocial, com propósito de lucro;
b) A estrutura empresarial;
c) A garantia e certeza da circulação e do crédito.
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Destarte, não olvidando as características gerais das normas de Direito Comercial, já indicadas nesta pesquisa, que também as diferenciam do Direito Civil, na visão de REALE79, o Direito Comercial segue, principalmente, estes três princípios gerais que o tornam uma especificação do Direito Civil ou Comum, dentro de um campo maior, o do Direito Privado.
1.2.3 Princípios Relevantes do Direito Empresarial
A questão relacionada aos princípios que regem o chamado Direito Empresarial está ligada diretamente à forma de sua conceituação. Se concebermos o Direito Empresarial como sendo o Direito Comercial, posição defendida, como por exemplo, por Waldirio BULGARELLI80, teremos que adotar para o Direito Empresarial os mesmos princípios que norteiam e justificam o Direito Comercial.
Seguindo, no entanto, a posição adotada por esta pesquisa onde o Direito Empresarial não pode ser concebido somente como o Direito Comercial, por se constituir em disciplina mais ampla do que este, consistindo no produto do diálogo de várias fontes legislativas convergentes que regulam todos os interesses decorrentes do desenvolvimento da atividade empresarial, é necessário afirmar que, dependendo do tipo de interesse a ser tutelado pela empresa, o Direito Empresarial, que possui grande interdisciplinaridade, envolverá um ou outro sistema ou microsistema jurídico que, por sua vez, já estão consagrados pelo Direito e que, portanto, serão regidos por princípios próprios que serão adotados in casu para solucionar estes conflitos.
Desta forma, podemos dizer, inicialmente, que os princípios relevantes que regem o Direito Empresarial serão aqueles adotados pelos próprios ramos do Direito que convergem entre si para tutelarem os interesses que regulam a atividade empresarial, como destacado alhures, provindo ora do Direito Civil, ora do Direito Comercial, como também do Direito Tributário, Direito Previdenciário, Direito do Trabalho, Direito Econômico, em face da intervenção do Estado na economia, entre outros.
79 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito, p. 364.
80 BULGARELLI, Waldírio. Tratado de Direito Empresarial, p. 46 a 50.
Voltaremos a este assunto ao tratarmos especificamente sobre os princípios dentro do estudo do Direito Empresarial no terceiro capítulo desta pesquisa.