1.3 A PRISÃO PROCESSUAL E SEU CARÁTER CAUTELAR
1.3.1 Espécies de prisão cautelar
1.3.1.1 Prisão em flagrante
A prisão em flagrante ao contrário das demais prisões processuais, não precisa ser cumprida através de decisão escrita e fundamentada da autoridade judiciária, uma
69 RANGEL. Paulo. Direito Processual Penal. p. 561.
vez que o autor do delito é encontrado praticando a infração ou ao seu término, sendo a atitude delituosa “manifesta e evidente”, o que justifica o caráter cautelar da prisão, conforme esclarece Guilherme de Souza Nucci70.
Elucida Paulo Rangel71 que a prisão em flagrante tem por objetivo impedir a fuga do autor da infração, assim como proteger a sociedade e as provas colhidas.
Destarte, a prisão em flagrante apesar de não precisar de prévia decisão escrita e fundamentada, também pode produzir seus efeitos, já que seu objetivo é impedir que o autor do delito empreenda fuga. Por isso, diante de uma situação de emergência e de necessidade, o interesse social deve prevalecer sobre o interesse individual.
Discorre Julio Fabbrini Mirabete72:
[...] a possibilidade de se prender alguém em flagrante delito é um sistema de autodefesa da sociedade, derivada da necessidade social de fazer cessar a prática criminosa e a perturbação da ordem jurídica, tendo também o sentido de salutar providência acautelatória da prova da materialidade do fato e da respectiva autoria.
Destarte, observa-se que essa espécie de prisão está diretamente vinculada ao momento do ato delituoso, já que constatada a ocorrência de uma infração penal procura-se localizar o seu autor, caso não se encontre mais na cena do crime. No entanto, para que ocorra a prisão em flagrante devem ser analisadas as possibilidades contidas no artigo 302 do Código de Processo Penal.
Segundo Fernando Capez73, a prisão em flagrante pode ser subdividida em três espécies, as quais obedecerão as determinações expressas nos incisos do artigo 302 do Código de Processo Penal:
a) Flagrante próprio, real ou verdadeiro: quando o agente está “cometendo a infração penal”
ou “acaba de cometê-la” (art. 302, I e II, do CPP);
b) Flagrante impróprio ou quase-flagrante: quando o agente “é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da infração” (art. 302, III, do CPP);
70 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo Penal e Execução Penal. p. 543.
71 RANGEL. Paulo. Direito Processual Penal. p. 562-3.
72 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal. p. 401.
73 CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal. p. 252.
c) Flagrante presumido ou ficto: quando o agente “é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração” (art.
302, IV, do CPP).
Não bastasse, Guilherme de Souza Nucci74, em atenção ao disposto no art. 301 do Código de Processo Penal, classifica o flagrante em facultativo e obrigatório, o primeiro é quando a prisão é realizada por qualquer pessoa do povo, e o segundo quando realizada por autoridades policiais e seus agentes, os quais possuem o dever de realizá-las (art.
301 do CPP). Ocorre que o flagrante facultativo constitui exercício regular do direito de qualquer cidadão e o flagrante obrigatório o estrito cumprimento do dever legal das autoridades policiais e de seus agentes.
Já no que tange às formalidades da prisão, o artigo 304 do Código de Processo Penal prevê que realizada a prisão, o condutor deverá apresentar o preso perante a autoridade policial, recebendo cópia do termo e recibo de entrega. Posteriormente, serão ouvidas as testemunhas, se procederá ao interrogatório do preso, e ao final será lavrado o auto de prisão em flagrante. Além disso, no prazo de 24 horas, o preso receberá a nota de culpa, que indicará os motivos da prisão, o nome do condutor e das testemunhas, bem como a assinatura da autoridade policial (art. 306 do CPP). Diante disso, deverá passar recibo da nota de culpa, ou, no caso de não saber, não puder ou não quiser, duas testemunhas deverão assiná- la (art. 306, parágrafo único, do CPP).
Destaca Guilherme de Souza Nucci75, que a Lei 11.449/07 alterou parte do procedimento, prevendo que realizada a prisão em flagrante, está deverá ser
“comunicada imediatamente ao juiz competente e à família do preso”. Já no prazo de 24 horas o auto de prisão em flagrante deverá ser encaminhado ao magistrado competente, e quando o preso não possuir Defensor, também deverá ser encaminhada uma cópia do auto de prisão em flagrante para a Defensoria Pública.
Observa-se que esta prisão, por não necessitar de prévia ordem escrita do magistrado, deve ser comunicada imediatamente à autoridade judicial, assim como encaminhado o auto de prisão em flagrante. Afinal, mesmo que os fatos não tenham sido previamente analisados pelo magistrado, após sua efetivação, torna-se imperativo que sejam analisadas as circunstâncias que originaram a prisão, se ela é necessária e se foram observadas todas as formalidades legais.
74 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo Penal e Execução Penal. p. 544
75 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Processo Penal e Execução Penal. p. 552.
Nesse diapasão, Guilherme de Souza Nucci76 afirma que o juiz deve avaliar a prisão podendo relaxá-la, por força do artigo 5°, LXV, da Constituição da República:
“a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária”, ou mantendo-a quando entender que seja necessária. O autor esclarece que o fumus boni iuris da prisão em flagrante é apenas a tipicidade, não precisando ser valorada a ilicitude e a culpabilidade, mesmo que sejam requisitos para configuração do crime.
Para ratificar, destaca-se entendimento de Fernando da Costa Tourinho Filho77: “Não há necessidade de serem examinados, naquele instante, todos os elementos integralizadores da infração”. Ou seja, para realizar a prisão em flagrante de um indivíduo, não é necessário que o condutor avalie a sua culpabilidade. Além disso, o magistrado também não deverá avaliar todas circunstâncias que envolvem os fatos como faz na sentença, pois nesta fase as provas ainda são precárias.
Por outro lado, pode-se dizer que a principal característica da prisão em flagrante delito está no fato de não necessitar de prévia determinação judicial, já que qualquer pessoa do povo poderá efetuar a prisão daquele que estiver em uma das situações previstas no artigo 302 do Código de Processo Penal. Contudo, tal prisão será submetida a análise do Judiciário, já que devem ser respeitadas as determinações legais e os direitos constitucionais do preso.