Para a análise dos dados das entrevistas foi utilizado o procedimento dos Núcleos de Significação (NS) proposto por Aguiar e Ozella (2013).
Essa reflexão metodológica sobre a apreensão dos sentidos estará pautada em uma visão que tem no empírico seu ponto de partida, mas com a clareza de que é necessário irmos para além das aparências, não nos contentarmos com a descrição dos fatos, mas buscarmos a explicação do processo de constituição do objeto estudado, ou seja, estudá-lo em seu processo histórico (p. 301).
Esse procedimento não está alheio a concepção de homem que se constitui na relação social, com a cultura, em que dialeticamente é constituinte e é constituído na e pela atividade, um sujeito que ao mesmo tempo é singular e coletivo, é síntese de múltiplas determinações, o que lhe torna humano (AGUIAR; OZELLA, 2013)
Na perspectiva de melhor compreender o sujeito, os significados constituem o ponto de partida: sabe-se que eles contêm mais do que aparentam e que, por meio de um trabalho de análise e interpretação, pode-se caminhar para as zonas mais instáveis, fluidas e profundas, ou seja, para as zonas de sentido.
Afirma-se, assim, que o sentido é muito mais amplo que o significado, pois o primeiro constitui a articulação dos eventos psicológicos que o sujeito produz frente a uma realidade. (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 226)
Desse modo, para nos aproximar da dimensão subjetiva da realidade, precisamos acessar as significações dos sujeitos que vivenciam ativamente a realidade e conhecer as contradições existentes na sociedade. Bock et al (2016) explicam que as significações dos sujeitos são utilizadas como recurso metodológico para compreender a dimensão subjetiva de um fenômeno social.
Para a organização e a análise propriamente dita dos dados produzidos é feita a partir da transcrição literal de todo o material (aqui nos referimos às entrevistas) e a seguir são realizados os seguintes procedimentos, conforme recomendado por Aguiar e Ozella (2006;
2013):
-Leituras flutuantes de todo material produzido na entrevista com cada participante; e,
-Destaque das frases dos sujeitos que tiveram maior relevância, mais frequência, ou que tiverem maior carga emocional, recorrência, ambivalência, e/ou frases em tom de insinuação, formando assim os pré-indicadores.
Esse é um momento em que o pesquisador faz a seleção dos pré-indicadores também guiada pelo objetivo da sua pesquisa. “Os pré-indicadores são, portanto, trechos de fala compostos por palavras articuladas que compõem um significado, carregam e expressam a totalidade do sujeito e, portanto, constituem uma unidade de pensamento e linguagem”
(AGUIAR; OZELLA, 2013, p. 309);
Em seguida, foi feita a aglutinação desses pré-indicadores, conforme a similaridade, ou contraposição, ou complementaridade, formando agora os indicadores. Neste momento inicia o movimento em que as contradições vão surgindo, embora não seja o momento ainda interpretativo, mas se encaminha para o processo de nuclearização. “Estes critérios para aglutinação não são necessariamente isolados entre si. Entendemos desse modo, que os indicadores só adquirem algum significado se inseridos e articulados na totalidade dos conteúdos temáticos contidos nas expressões do sujeito” (AGUIAR; OZELLA, 2013, p. 309);
Posteriormente, esses indicadores foram articulados formando os NS que nomeamos tematicamente. Na composição da nomeação utilizamos falas dos participantes. “Os núcleos de significação expressam o movimento de abstração que, sem dúvida, contém o empírico, mas pela sua negação, permitindo o caminho em direção ao concreto. Buscamos, a partir do que foi dito pelo sujeito, entender aquilo que não foi dito” (AGUIAR; OZELLA, 2013, p.
308). Por isso que se deve ir além da aparência dos fatos e apreender também as conexões que movimentam o fenômeno, saindo do empírico e avançando para uma análise do concreto pensado.
Os núcleos devem ser construídos de modo a sintetizar as mediações constitutivas do sujeito; mediações essas que constituem o sujeito no seu modo de pensar, sentir e agir. Devem, assim, ser entendidos como um momento superior de abstração, o qual, por meio da articulação dialética das partes – movimento subordinado à teoria –, avança em direção ao concreto pensado, às zonas de sentido. Assim sendo, o processo de construção dos núcleos de significação já é construtivo-interpretativo, pois é atravessado pela compreensão crítica do pesquisador em relação à realidade (AGUIAR;
OZELLA, 2013, p. 310).
A análise dos NS é a realidade pensada na sua concretude.
A partir das entrevistas foram construídos três NS:
- NS 1: O que dizer do ensino remoto? É horrível! Nada substitui uma aula presencial.
-NS 2: Barreiras e desafios no contexto das aulas remotas: Não lembram que tem aluno cego na aula.
-NS 3: O processo educacional inclusivo em meio à pandemia: não basta apenas você dar uma bolsa de mil reais pra comprar um smartphone, um tablet ou notebook.
Após a construção dos NS, “a análise se inicia por um processo intranúcleo avançando para uma articulação internúcleos. Em geral, este procedimento explicita semelhanças e/ou contradições que vão novamente revelar o movimento do sujeito” (AGUIAR; OZELLA, 2013, p. 310).
Na análise intranúcleos os indicadores se articulam num movimento que desvela as contradições e as mediações constitutivas do fenômeno, avançando para a compreensão da totalidade. Essa análise se faz apoiada nas categorias do MHD e da PSH, que buscam interpretar e explicar, numa síntese teórica, as significações do sujeito que compõem a dimensão subjetiva da realidade do fenômeno estudado nesta pesquisa.
E, na análise internúcleos, “o intuito é penetrar e se apropriar da realidade abordada e, com isso, tecer considerações que, nesse momento da análise, reúnem melhores condições teóricas para explicar os nexos que compõem a totalidade histórica do fenômeno em evidência” (PENTADO; AGUIAR, 2018, p. 541).
Esse movimento de análise deve “ser entendidos como um momento superior de abstração, o qual, por meio da articulação dialética das partes – movimento subordinado à teoria –, avança em direção ao concreto pensado, às zonas de sentido” (AGUIAR; SOARES;
MACHADO, 2015, p. 70).
No que tange à sessão reflexiva, optamos por utilizá-la para reiterar, ou complementar os posicionamentos e as críticas apontadas pelos NS na discussão dos dados. Considerando que, numa análise preliminar, observamos que os dados obtidos na sessão reflexiva não agregavam informações novas.
6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este capítulo é composto pela análise de três NS separadamente e da análise internúcleos. Nesse sentido, será explícita a dimensão subjetiva da realidade educacional vivenciada durante esse novo formato de ensino. Para tanto, conheceremos os mecanismos que movimentam o fenômeno e o contexto do qual ele é/faz parte. Com isto, o movimento heurístico realizado e apoiado pelas categorias da PSH e do MHD, que emergiram durante esse processo, explicitou a realidade educacional vivenciada pelos universitários com DV nesse modelo de ensino implantado durante a pandemia da Covid-19.
As categorias irão descortinar o que o imediatismo não mostra, e a partir dos dados empíricos faremos o movimento do concreto real para o concreto pensado. “São as categorias que permitem ir além do imediato, da aparência dos objetos, para compreendermos sua gênese e seu movimento” (BOCK; AGUIAR, 2016, p. 48).
Desse modo, o conhecimento do fenômeno social tem “como base empírica, as falas dos sujeitos, sendo nossa meta ultrapassar a pseudoconcreticidade que elas nos oferecem e buscar as mediações constitutivas, de modo a produzirmos sínteses explicativas sobre a realidade em foco” (AGUIAR; et al, 2016, p. 24)