A capacidade de inovar também está fortemente condicionada ao conhecimento gerado fora da empresa, o qual é captado através de processos de aprendizagem que ocorrem nas relações entre firmas e entre estas e outros tipos de organizações (Lundvall, 1992).
Os processos de aprendizagem, gerados por fontes externas à empresa, têm origem na interação entre uma firma e outra(s); outra(s) firma(s) concorrentes ou não; institutos de pesquisa, universidades e poder público. Outras duas formas de captação de conhecimento externo também podem ocorrer através da mobilidade de capital humano e dos processos de imitação, sendo esses conhecidos na literatura como spillovers.
A seguir, será apresentada uma síntese de cada um desses processos de aprendizagem.
Vale ressaltar, que as análises desenvolvidas a seguir podem ser generalizadas tanto para os processos cognitivos ocorridos dentro dos limites de cada SLP, ou aqueles externos a eles.
4.2.1 Aprendizagem por Interação
A geração de conhecimento através de interações entre os agentes do SLP talvez seja o fenômeno mais estudado pela literatura especializada (Lundvall, 1985, Johnson, & Lundvall, 2000, Schmitz, 1997, Humphrey, 1998, Humphrey & Schmitz, 1998, Maskell, 2001). Essa literatura tem mostrado que a presença de conhecimentos complementares e de comportamento cooperativo origina uma interação cognitiva entre os parceiros o que, por sua vez, favorece a geração de novos conhecimentos.
Assim, a performance econômica da inovação não depende somente da capacidade individual da empresa em inovar, mas, sim, de como ela interage com outras empresas, setores financeiros, organizações de pesquisa e governos (Johnson & Lundvall, 2000, Lundvall, 1992). Quando agentes, que detêm conhecimento, interagem, a combinação de seus conhecimentos é responsável pelo surgimento de inovações.
Além disso, Belussi (2005) afirma que o crescimento das potencialidades dos SLPs está relacionado ao fato de que a acumulação local de know-how e conhecimento tácito não é simplesmente transferível ou fácil de imitar. Desse modo, uma densa rede de firmas inter-
relacionadas representa um laboratório ideal para a intensificação e experimentação de aprendizagem para a inovação.
A aprendizagem, via interação, pode ocorrer entre a firma e seus clientes, entre a firma e seus fornecedores, entre a firma e seus concorrentes ou, também, entre ela e centros de pesquisa, universidades e outras organizações, como o poder público, quando ocorre a promoção indireta do desenvolvimento tecnológico através de uma ampla gama de políticas públicas como: regulamentações, programas empresariais e de incentivos e fomento.
A interação entre a firma e seus clientes ou entre a firma e seus fornecedores gera conhecimento, pois ela é composta por um conjunto de experiências e know-how. Assim, fornecedores de partes ou produtos semi-acabados, subcontratadas e clientes podem formar uma densa rede que promove trocas de conhecimento, através da geração de novas soluções tecnológicas, novos produtos e processos, ou mesmo melhorias em produtos e processos já existentes.
O que acontece freqüentemente em SLPs é o envolvimento de subcontratadas, ou fornecedores, no processo de desenvolvimento de novos produtos. Similarmente, as firmas fornecem subsídios e dão sugestões de melhorias para a indústria de bens de capital, e vice- versa, desde que haja um clima de cooperação entre elas. Assim, a interação entre empresas representa uma importante prática organizacional que faz com que elas, além de complementarem suas competências, diminuam as distâncias cognitivas na busca de novos conhecimentos.
Nesse sentido, de acordo com Garcia (2001), destaca-se o caráter intrinsecamente social e coletivo do processo de aprendizado interativo, que não ocorre apenas dentro das fronteiras da firma, mas que requer contribuições conjuntas dos agentes envolvidos, que sejam voltadas à solução de problemas complexos, principalmente por meio do estabelecimento de códigos comuns de comunicação e coordenação.
De acordo com Belussi & Gottardi (2000), o espectro dessa interação será função do nível de descentralização das atividades, vale dizer, quanto mais a firma é verticalizada, menos ela terá oportunidades de interagir. Além disso, esse espectro será função, também, do nível de capacidade de inovação dos agentes econômicos que compõem a rede.
Além disso, Lundvall (1985) reconhece a importância do papel desempenhado pelas instituições14 na determinação da direção e da intensidade de como as atividades de inovação ocorrem, pois o arcabouço institucional exerce impacto relevante na maneira dos agentes econômicos se comportarem e na conduta e desempenho do sistema como um todo.
De fato, conforme Vargas (2004, p. 1):
Apesar da proximidade geográfica representar a base inicial para a existência de aglomerações produtivas, ela não se constitui numa condição suficiente para a existência de processos interativos de aprendizado e de dinâmica inovativa local. Na medida em que o aprendizado constitui-se num processo social, o sucesso dos processos de aprendizado tecnológico reside não somente na proximidade geográfica, mas também em outras formas de proximidade relativas, por exemplo, os laços culturais e institucionais, que garantem a existência de sistemas locais de inovação.
4.2.2 Aprendizagem por Imitação
A imitação de um novo produto lançado por um concorrente, que pode ser considerada como uma captação de spillover, é somente uma dimensão de um processo mais complexo que guia a criação de novos conhecimentos, pois só existirá um processo de imitação inovativa quando a firma que imita for capaz de combinar o conhecimento que ela adquiriu, através do estudo do produto, do seu processo de fabricação, ou da estratégia usada pelo concorrente com o seu próprio estoque de conhecimento que é, pelo menos, parcialmente diferente daquele do concorrente.
14 As instituições formam o conjunto de hábitos comuns, rotinas, práticas estabelecidas, regras ou leis que regulam as relações e as interações entre indivíduos, grupos e organizações (Edquist, 2001).
A imitação é um fenômeno muito comum em SLPs, pois as firmas se observam mutuamente, interceptam as informações que circulam no SLP (spillovers) e estudam os produtos, processos e estratégias das suas concorrentes.
É claro que as firmas imitadas consideram isso algo negativo, mas esse comportamento, de certa forma, nutre um circuito de imitação e inovação, uma vez que as firmas imitadas são obrigadas a desenvolver novas pesquisas e lançar novas idéias, fato indicativo de uma dinâmica contínua, o que é positivo.
4.2.3 Mobilidade de Mão-de-Obra
Uma outra forma bastante comum de captação de spillovers de conhecimento consiste na mobilidade de mão-de-obra, também denominada human capital mobility.
As formas mais comuns de mobilidade de mão-de-obra constituem-se na participação em feiras, eventos, congressos, seminários, visitas técnicas, treinamentos conjuntos, rotatividade de pessoal e, por que não, por intermédio de contratação de serviços de consultoria. Essas atividades permitem aos indivíduos e as firmas o acesso a novos conhecimentos até então não disponíveis.
Entretanto, a mobilidade de mão-de-obra só vai permitir a geração de novos conhecimentos quando o estoque de conhecimento de um indivíduo for mesclado com o recém adquirido na busca de soluções originais para os problemas existentes. Somente dessa forma tal processo de interação pode gerar novos conhecimentos. Caso contrário, a mobilidade de mão-de-obra só foi capaz de trazer novas informações.
A habilidade em desenvolver/desdobrar, e usar o conhecimento individual e a habilidade de criar, transferir, juntar, integrar e explorar os recursos de conhecimento torna-se a essência da firma (Teece, 1998). Conseqüentemente, a capacidade de controlar e avaliar a
mobilidade da mão-de-obra é uma capacidade dinâmica. Dessa forma, a mobilidade permite a transferência de conhecimento bem como a sua capacidade de replicação.
Em resumo, pode-se afirmar que a geração de conhecimento não pode ser considerada um simples resultado de esforços internos de P&D, uma vez que ela representa o resultado de complexas interações de diferentes meios de absorção, uso e criação de novos conhecimentos, baseados em processos de aprendizagem, esforços formais e informais de pesquisa, interações entre diferentes organizações, diferentes usos de conhecimentos tácitos e codificados, além da imitação e aquisição de tecnologias.