3. Estrutura e funcionamento do Programa Abrindo Espaços
3.3 Atores
3.3.2 Professores
Em alguns momentos, observa-se que a resistência dos diretores pode dificultar a realização das atividades, como sugerem os depoimentos a seguir:
A direção da escola tem sido muito fechada. O envolvimento da escola, mesmo, é pouquíssimo. A diretora só aparece na minha sala quando sabe que vocês [da UNESCO] vão aparecer. Durante esse tempo que vocês não vêm, eu não vejo a cara da diretora.(Grupo focal com oficineiros, Abrindo Espaços, BA)
A escola se envolve muito pouco, a diretora, desde sete meses que eu estou aqui, ela só veio um dia e não vem ninguém que trabalha aqui na escola durante a semana. (Grupo focal com oficineiros, Abrindo Espaços, BA)
O diretor tem um papel fundamental dentro da escola, uma vez que é ele o responsável pelo que acontece nesse espaço. Naquelas envolvidas com o Programa, tem-se constatado que a sua presença tem igual importância. Embora a presença dos diretores seja um aspecto positivo em grande parte das escolas, em algumas delas, os eles não apresentam disponibilidade de comparecer às atividades realizadas nos finais de semana, o que resulta em significativa diferença entre umas e outras.
certo, ao fato de que muitos trabalham em vários estabelecimentos durante a semana e mesmo aos sábados, o que os impossibilita de participação na vida escolar além do limite de suas próprias aulas: Está sendo impossível por falta de tempo, também sou da rede particular(...)meu único dia é domingo; trabalho os três turnos, aos sábados ainda trabalho fora. E vira essa confusão toda.
Porém, o que possivelmente tem peso decisivo é a sobrecarga de trabalho sem compensação financeira para uma categoria cujos ganhos são bastante reduzidos.
Questões como essas se traduzem, freqüentemente, no alheamento de muitos deles com relação às demandas do Programa, resultando, por vezes, em incompatibilidades operacionais: a impossibilidade de uso de quadras de esporte, a interferência nas aulas de reposição que teriam lugar aos sábados8, etc.
Há também os que alegam não participar por não terem sido formalmente convidados ou por não disporem de informações suficientes: Quando o Programa começou, não recebi logo o convite. Conheço superficialmente. Os professores dizem ter sido informados sobre o programa algumas vezes pela:
Imprensa e desconhecer como é que o Programa trabalha.
Na opinião de alguns jovens colaboradores, os professores não participam por não possuírem entrosamento com a comunidade e com a escola:Porque não entendem a comunidade dentro da escola. Esses jovens apontam que não existe relação ente escola e Programa: São dois mundos.(...)a escola, às vezes, intimida e afasta as pessoas do Programa. Alguns supervisores afirmam que os professores não se envolvem:Professor mesmo para participar é muito difícil; (...) talvez pela dificuldade de sair de casa no final de semana.
8 Para cobrir a carga horária mínima prevista por lei, comprometida pela realização de greve dos professores em 2002, a Secretaria de Estado de Educação determinou a reposição de aulas nos finais de semana. Em função disto, o Abrindo Espaços passou a ocorrer, simultaneamente, com aulas regulares.
Vale, aqui, refletir sobre as distintas interpretações que uma ação como o Abrindo Espaços suscita. Alguns o identificam como uma saudável possibilidade de acesso a espaços públicos para uma considerável parcela de pessoas que se acham excluídas deles, para outros, estigmatiza-se como um “programa para pobres” ou como atividade incompatível com o perfil da escola:
Os professores? Eles não participam muito. É raro ter algum professor aqui, no final de semana. Eles não têm muito esse entrosamento com a comunidade e com a escola(...). Sempre tem uns que são contra, porque ainda não entendem essa parte, da comunidade dentro da escola. (Entrevista com jovem colaborador, Abrindo Espaços, BA)
Deve-se atentar, ainda, para o fato de alguns atribuírem conotações de cunho político à ação, como sugere a fala de um supervisor:Os professores (...)a impressão que eles tinham é que o Programa seria voltado para a política. Enfim, uns vêm, se aproximam, fazem(...),mas outros ficam um pouquinho distantes, entendeu?
Entretanto, a presença, direta ou indireta, de diversos professores nas atividades do Abrindo Espaços mostra que é possível mudar esse quadro, como atestam vários depoimentos de coordenadores:O primeiro oficineiro da gente, aqui, foi um professor do colégio. Vai fazer um ano aqui com a gente.
É a oficina mais procurada, a dança de salão. E olhe que ele é o professor de matemática, ele participa!
A participação dos docentes quase sempre aparece relacionada a suas próprias atividades e qualificações específicas. Em algumas áreas, esse aspecto torna-se mais marcante, como no caso de professores de educação física e de informática que se colocam à disposição do Programa para colaborar em oficinas. Segundo depoimento de um supervisor: (...)alguns professores se envolvem, nós temos um professor
que é instrutor de informática, está aqui todo sábado e trouxe amigos para participar do projeto. É assim, alguns se envolvem e outros não, são indiferentes.
É importante ressaltar que o processo de mobilização dos professores pelo Programa se dá aos poucos e, muitas vezes, por suas vantagens “marginais”, como, por exemplo, a possibilidade de contribuir para o rendimento dos alunos que necessitam de algum tipo de reforço ou opção de atividades:
Ah! Tem uma coisa que tem sido legal... Eles, os professores – não digo todos – a gente já conquista: Tem uma oficina de que esse aluno possa participar? É que ele está sentindo dificuldade, ele está muito agressivo, ele está aprontando na sala, será que não tem uma oficina em que ele possa canalizar tudo isso? Eles mesmos têm indicado oficinas para esses alunos com problemas e para outros também.
(Entrevista com supervisor, Abrindo Espaços, BA) Constata-se que os professores têm pouca participação no Programa, na medida em que eles afirmam não ter disponibilidade de tempo. Verifica-se que sua presença não apenas é importante, como, em alguns casos, é necessária, porque dominam conhecimentos essenciais seja em conseqüência de sua função na escola ou que a ela ultrapasse.
Enfim, essa possibilidade de participação mais efetiva no Programa mostra que é possível existirem relações viáveis entre o seu trabalho mais específico de “sala de aula” e as alternativas do Abrindo Espaços.