• Nenhum resultado encontrado

(Bruna Camillo Bonassi e Rita Flores Müller)

A feminização da profissão e a presença das mulheres na Psicologia

Bruna Camillo Bonassi e Rita Flores Müller

O que significa ser mulher no mundo em que vivemos?

Ainda que próximos do século XXI, que perdas, que custos, que sofrimentos, isso implica? São perguntas que a Psicologia precisa se colocar neste final de milênio sob o risco de perder o bonde da História, bonde este que as mulheres não estão se recusando a conduzir.

Siqueira (2008, p. 258)

Frequentemente quando se pergunta sobre a majoritária presença de mulheres nos cursos de graduação em Psicologia no Brasil, ouve-se o argumento naturalizado de que – afinal de contas – as mulheres são a maioria da população brasileira e, quiçá, mundial17. Os últimos levantamentos censitários corroboram parte da argumentação18, embora não sustentem a veracidade desta forma de entender a questão, pois não se trata de uma relação de causa e efeito. Refletir sobre a feminização persistente19 (LOPES

& LEALNA, 2005) na Psicologia é um desafio e implica lidar com algumas heranças históricas nas quais nos constituímos como sujeitos psi.

Neste texto, o termo “feminino” está sendo usado no sentido

17 Baseado especialmente nos relatos de grupos focais da pesquisa qualitativa.

18 Segundo o relatório As mulheres do mundo 2010: tendências e estatísticas (ONU, 2010), existem aproximadamente 57 milhões de homens a mais do que mulheres no mundo; e essas vivem mais que os homens em todas as regiões do planeta. De acordo com o resultado do censo demográfico do IBGE de 2010, existem 95,9 homens para cada 100 mulheres, ou seja, existem 3,9 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil. Em 2000, para cada 100 mulheres, havia 96,9 homens. Acentuou-se, portanto, a predominância feminina na composição por sexo da população do Brasil.

19 Parte do título do artigo de Marta Júlia Marques Lopes e Sandra Maria Cezar Lea: “A feminização persistente na qualificação profissional da enfermagem brasileira”. Importante para refletir sobre alguns pontos de encontro quando se discutem profissões femininas e seu processo de feminização. Ver: Lopes & Lea (2005).

mais comum de um sexo em oposição ao outro, o masculino. Da mesma forma, as referências à “feminização” da profissão remeterão, neste momento, ao aumento da população feminina em determinada área de atuação profissional, no mesmo sentido citado por Richter & Griesel: “Howard usou o termo ‘feminização’

pela primeira vez em 1987 para descrever o número crescente de mulheres fazendo psicologia” (1999, p. 134, tradução livre).

Globalmente, o termo feminização estende-se aos estudos sobre a feminização da pobreza e das políticas de governo, a feminização da Aids, da velhice e das chefias domiciliares. No tocante à feminização da Psicologia, o termo também é usado para identificar o masculino com a Psicologia “científica” e o feminino com a “aplicada”, tomado pejorativamente e com forte herança iluminista na clivagem racionalidade/sensibilidade.

Conforme salientam Richter e Griesel:

Na mídia, feminização é usado para remeter à crescente influência de ideias e atitudes especificamente colocadas por mulheres e, desta perspectiva, é visto como um dos principais movimentos globais e ecológicos de nosso tempo. Na psicologia, no entanto, o termo é associado com efeitos negativos reais ou percebidos, incluindo um movimento adicional e acelerado na disciplina de uma base científica para uma base aplicada (RICHTER &

GRIESEL, 1999, p. 134, tradução livre).

Como dito anteriormente, a feminização da Psicologia não pode ser analisada de forma linear em relação à feminização da população, considerando-se que a Psicologia como ciência e profissão não é um bloco homogêneo. Se as mulheres são a maioria, as diferentes incidências da divisão sexual do trabalho indicam a distribuição social e simbólica de quem executa o que e onde na Psicologia. Em uma breve alusão ao aforisma de Jacques Lacan (1982), nem A mulher nem A Psicologia existem no sentido universalizante do termo e só adquirem sentido neste capítulo se pudermos abarcar a diversidade que cada um dos termos comporta e extravasa.

Nesse sentido, o slogan da campanha do Conselho Federal de

Psicologia (CFP) – Psicologia: uma profissão de muitas e diferentes mulheres20 – é um convite à visibilidade e à implosão dos ideais universalizantes. Primeiramente, da visibilidade das mulheres tomadas uma a uma. Em segundo lugar, do próprio feminino colocado na pauta da agenda da profissão que não se contenta mais com a repetição (deveras empoeirada) de que “a Psicologia é uma profissão feminina”. Portanto, o fio de meada que se destaca é o significante “feminização” e o que este nos possibilita como categoria de análise: quais marcas identitárias estão inscritas na Psicologia a partir dele? Como cada um/uma de nós se reconhece como sujeito na feminização dos saberes/fazeres da profissão?

Longe de serem respondidas neste momento, estas questões têm balizado os olhares possíveis no horizonte das reflexões que a própria pesquisa quantitativa dá a ver como produção de conhecimento para o futuro próximo da Psicologia.

Em A história da psicologia moderna, Duane P. Schultz e Sydney Ellen Schultz (2011) dedicam parte do capítulo 1 (O estudo da história da Psicologia) a abordar as “forças contextuais”

do surgimento da Psicologia como ciência, ou o Zeitgeist como

“ambiente intelectual e cultural ou espírito do período” (SCHULTZ

&SCHULTZ, 2011, p. 10). Analisando o Zeitgeist da Psicologia, os autores não deixam de fora o preconceito e a discriminação por raça, religião e sexo, a partir das perguntas: “quem está apto a ser um psicólogo? Onde ele ou ela pode trabalhar?” (SCHULTZ &

SCHULTZ, 2011, p. 12).

A discriminação disseminada contra as mulheres existiu por toda a história da psicologia. Há inúmeros exemplos em que as mulheres não eram admitidas no programa de pós-graduação ou eram excluídas do corpo docente.

Mesmo quando estavam capacitadas a ocupar essas posições, recebiam salários inferiores aos dos homens e encontravam barreiras para obter promoção ou uma titularidade. Por muitos anos, a única posição acadêmica tipicamente acessível às mulheres encontrava-se nas faculdades exclusivamente femininas e, mesmo assim,

20 Disponível em: http://mulher.pol.org.br/apresentacao acesso em 25 de março de 2013.

muitas dessas entidades cometiam uma forma própria de discriminação, recusando a contratação de mulheres casadas. A justificativa dada era de que a mulher não estava capacitada a administrar ao mesmo tempo a vida doméstica e a carreira como docente. (SCHULTZ &

SCHULTZ, 2011, p. 12)

Importantes registros históricos de discriminação e cerceamento da presença de mulheres em determinados espaços são elencados no capítulo de Schultz e Schultz, o que contribui para a escrita da memória e da historiografia da Psicologia. No entanto, em relação a outras disciplinas e profissões acadêmicas,

“os registros da Psicologia relativos à igualdade no tratamento entre homens e mulheres são muito mais explícitos” (p. 12).

Diferença significativa é pontuada, por exemplo, na comparação de psicólogas com médicas e advogadas, pois a APA foi a primeira sociedade científica a admitir mulheres. Se entre 1893 e 1921 a APA elegeu 79 mulheres como membros (15% do total de associados desse período), “outras associações profissionais negaram totalmente a participação das mulheres durante muitos anos” (SCHULTZ & SCHULTZ, 2011, p. 13).

As mulheres na Psicologia em outros países

A maior quantidade de dados hoje disponibilizados sobre a presença das mulheres na Psicologia e os efeitos daí decorrentes se referem aos Estados Unidos e ao Canadá, embora recentemente diversos países ao redor do mundo tenham realizado esforços de investigação sobre a temática (SKINNER, K., & LOUW, J., 2009;

RICHTER, L. M., & GRIESEL, R. D., 1999; DENMARK, F. L., 1998;

BOULON-DÍAZ, F.; 2012). Na análise de publicações sobre o tema escolhido para este trabalho21, verificou-se que, atualmente,

21 Entre agosto e setembro de 2012, foi realizada uma busca em bases de dados reconhecidas nacional e internacionalmente. Foram elas: “Scielo” e “EBSCO HOST”, prioritariamente. Além disso, o recurso à base de pesquisa “Google acadêmico” não foi dispensado. Os descritores utilizados para este garimpo foram “mulheres/Woman”, “psicologia/psychology”, “feminilização da psicologia/

feminization of psychology” e “profissão feminina”.

a predominância feminina na profissão é uma realidade em grande parte dos países, ao contrário do que indicava a maioria dos dados sobre a situação, três décadas atrás.

Na pesquisa bibliográfica realizada, Florence Denmark destacou-se como importante nome na Psicologia mundial.

Inovadora no campo da Psicologia das mulheres e cofundadora da Associação de Mulheres em Psicologia (Association for Women in Psychology), foi a primeira professora a lecionar a disciplina Psicologia das Mulheres (Woman’s Psychology) em cursos de doutorado. Em seu artigo de 1998 – Women and Psychology:

An International Perspective –, a autora analisa a distribuição percentual de membros da American Psychological Association (APA) na década de 1970. Em 1979, nos Estados Unidos apenas 29% dos membros da APA eram mulheres.

Tal diferença se refletia na distribuição dos cargos e na remuneração (DYER, apud DENMARK, 1998): enquanto os homens se concentravam em cargos de pesquisa altamente remunerados e em cargos administrativos, as mulheres eram mais numerosas em cargos de ensino com baixa remuneração e em posições de atendimento. No ensino superior, apenas 7,5%

dos cargos de professor titular eram ocupados por mulheres. Em 1991, o quadro já se mostrou diferente: as mulheres conquistaram 61% dos doutorados, revertendo a situação observada nos vinte anos anteriores. Em 1998, 68% dos candidatos a doutorado em Psicologia em período integral eram mulheres (DENMARK, 1998). Já em 2001, 50% dos membros da APA eram mulheres e tal número havia aumentado para 53% em 2005 (AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 2006). Dos membros considerados Fellows (designa uma divisão da APA de membros de elite com inovações em seus campos), 26% eram mulheres.

Segundo dados da mesma associação (APA, 2006), as subdivisões da Psicologia estadunidense são ocupadas por mulheres da seguinte forma: Psicologia do Consumidor: 14%;

Psicologia Teórica, 19%; Psicologia Social das Mulheres, 97%;

Psicanálise, 58% e Psicologia do Desenvolvimento, 58,2%. No entanto, o número de divisões com 50% ou mais de mulheres teve um ligeiro aumento, de 13,5% para 18,9%, a partir de 2000.

O número de mulheres que atuam como diretoras executivas estaduais, provinciais e territoriais das associações psicológicas dos Estados Unidos foi de 68,8% em 2005.

Na década de 1970, o cenário no Canadá era muito próximo ao dos Estados Unidos. Em 1975, as mulheres representavam 22% dos membros da Canadian Psychology Association (CPA) e estavam concentradas nas áreas de aplicação de testes, em detrimento da participação no ensino e na pesquisa, ou em cargos administrativos (DENMARK, 1998). O panorama se alterou entre 1994 e 1995 para uma porcentagem mais favorável às mulheres, constituindo essas 68% dos doutorandos canadenses. Em 1995, o percentual de mulheres entre os membros da CPA era de 49%.

Já em 2001, segundo Boatswain et al. (2001), 55% dos membros da associação eram mulheres.

Em contraste com o encontrado nos EUA e Canadá no final da década de 1970, na América Latina a porcentagem de mulheres era muito maior, chegando a atingir 85% em alguns países (DENMARK, 1998). A autora apresenta duas hipóteses para explicar tal maioria. A primeira coloca como elemento central a imagem da Psicologia nos países latino-americanos como uma profissão eminentemente feminina – e a tendência correlativa dos homens a escolher profissões tradicionalmente masculinas.

A segunda hipótese é pautada na questão da remuneração do trabalho na Psicologia, profissão tradicionalmente feminina, o salário não seria suficiente para prover financeiramente uma família (posto historicamente masculino), mas seria suficiente para contribuir com a renda familiar. Cabe assinalar que, mesmo sendo as mulheres maioria na Psicologia em geral na América Latina, os homens eram a maioria em corpos editoriais de influência.

Na Psicologia porto-riquenha, as mulheres são maioria e, segundo Frances E. Boulon-Diáz, Membro do Conselho de Representantes da APA representando a Associação de Psicólogos de Porto Rico (2012), seu número continua a crescer.

A participação feminina no contexto organizacional também é elevada, embora ainda não corresponda à proporção de mulheres na profissão: até 2012, dos 53 presidentes da Asociación de Psicología de Puerto Rico, apenas 26 foram mulheres.

Saindo das Américas e indo para a África, Kerry Skinner e Johann Louw22 (2009) afirmam que em 2004, na África do Sul, 68%

de todos os psicólogos inscritos eram mulheres. Na área clínica, a supremacia feminina era ainda mais evidente, como apontado por uma pesquisa realizada por Linda Richter23 e Dev Griesel (1999) que mostrou que 80% dos psicólogos clínicos na África eram mulheres. Segundo Skinner e Louw (2009), a Psicologia clínica é a área com maior concentração de mulheres psicólogas na África do Sul. Outras áreas da Psicologia (aconselhamento, Psicologia educacional, trabalho e pesquisa) também foram analisadas pelos autores, revelando que apenas na área organizacional/trabalho não havia maioria feminina. Essa informação levou Kerry Skinner e Johann Louw (2009) a se engajarem na discussão da hipótese proposta por Stephen Frosh24 (1992) na relação entre as mulheres e a chamada soft Psychology. Traduzida como uma Psicologia leve e fácil, estaria orientada às pessoas que se preocupam com a subjetividade, as experiências pessoais, com o carinho, a intuição e as emoções. A hard Psychology – traduzida literalmente como psicologia dura, difícil – e que inclui, por exemplo, a Psicologia experimental, além de todas as áreas que guardam uma interface forte com a estatística, a fisiologia, a ciência cognitiva – ficaria para os homens. Segundo Frosh (1992),

Psychology shows how much is infiltrated by standard masculine when it adopts the following strategy: instead of looking inside, at emotions and feeling, at the subjective structures of the self, it looks at action alone, it measures

22 Kerry Skinner é uma Psicóloga da Educação, registrada no Conselho de Profissões da Saúde da África do Sul. Johann Louw é professor no Departamento de Psicologia na University of Cape Town.

23 Linda Richter é considerada uma Distinguished Research Fellow (Companheira de Pesquisas Notáveis – um cargo de elite) no Conselho de Pesquisa de Durban e especialista sênior de crianças vulneráveis no Fundo Global de luta contra a Aids, tuberculose e malária. Dev Griesel é pesquisador e professor no Curso de Ciências Sociais na Universidade de Natal Pietermaritzburg. Linda e Dev são casados e têm conduzido pesquisas juntos em inúmeros assuntos envolvendo crianças, mulheres e famílias (RICHTER & GRIESEL, 1999).

24 Stephen Frosh trabalha na universidade de Birkbeck, Londres, com a aplicação da Psicanálise em questões sociais, gênero cultura e raça.

and calibrates and avoids the issue. ‘Hard’ and ‘Soft’ we go: hard-soft, tight-loose, rigid-pliable, dry-fluid, objective- subjective, masculine-feminine. (p. 154)25

Afora os já citados, as informações encontradas sobre a presença das mulheres na Psicologia em outros países são escassas. Em pesquisa realizada por Denmark (1998), foi analisado o status da mulher na Psicologia no Canadá, México, na América Central e do Sul, Europa, Ásia e Austrália, por meio de oitenta questionários enviados para clínicos e pesquisadores dos mais diversos países.

Quarenta dos questionários voltaram respondidos, provenientes do Canadá, México, América Central e do Sul, Europa, Ásia e Austrália.

A autora observa que alguns questionários chegaram muito tarde para serem incluídos na análise total da amostra. Abaixo seguem alguns de seus resultados.

No cenário francês, as mulheres eram sub-representadas nos processos de seleção marcadamente dominados pelo sexo masculino. Na Irlanda, dos cinco departamentos de Psicologia pesquisados em 1998, todos eram representados por homens26. Em 1994, as mulheres eram 21% do corpo acadêmico, sendo 4% professoras e 12% professoras senior. Em Israel, havia relativamente poucas mulheres na academia e ainda menos que exerciam a profissão. No Paquistão, o departamento de Psicologia

25 “A Psicologia mostra o quanto é infiltrada por padrões masculinos quando se adota a seguinte estratégia: em vez de olhar para dentro, para as emoções e sentimentos, as estruturas subjetivas do eu, se olha para a ação sozinha, se mede se calibra e se evita o problema. ‘Difícil’ e ‘Fácil’ vamos lá: difícil- fácil, apertado-solto, flexível-rígido, seco-fluido, objetivo-subjetivo, masculino- feminino” (tradução das autoras).

26 As informações precisas encontradas na citada publicação podem ser lidas no original: “Currently in Ireland, there are five departments of psychology, four of which offer accredited degrees. Every department is headed by a male. This appointment is not based on rotation, and thus he holds this position until retirement. The head of the department and maybe one other senior person are typically the only ones allowed to hold the title “professor.”

Others are called “doctor” or “lecturer.” As of 1994, women were 21% of the academic staff, 4% of professors, and 12% of senior lecturers. Promotion is highly competitive and includes facing a board comprised largely of men”.

(p. 470)

pesquisado tinha uma esmagadora maioria de pesquisadoras e professoras altamente qualificadas, porém na concorrência por vagas de diretoria essas eram preteridas em relação aos homens, prioritariamente escolhidos27. Na Suíça, os homens predominavam na produção de pesquisa em Psicologia. Em 1995, apenas quatro de 50 professores (provenientes das faculdades entrevistadas) eram mulheres.

Virginia Staudt Sexton28 e John D. Hogan29 (1992) apontaram, baseados numa pesquisa com 45 países, que a Psicologia no mundo tende a ser uma profissão feminina. Eles elencam seis países onde a Psicologia é altamente dominada por mulheres:

República Dominicana (95%); Filipinas, onde a proporção de mulheres psicólogas foi de 5:1; Iugoslávia e Argentina, onde a proporção foi de 4:1 e Venezuela e Polônia, onde a razão foi de 3:1, e em Israel, de 2:1. Apontam também que de todos os países que responderam sobre a frequência de homens e mulheres apenas Austrália, Canadá, Egito, Japão, Coreia, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul e Estados Unidos da América afirmaram ter maioria de homens na profissão. Sexton e Hogan dizem que, aparentemente, na Colômbia a quantidade de homens na profissão parece estar aumentando, o que reforça o estudo de Stevens e Wedding (2004), citados por Skinner & Louw (2009), que identificaram os seguintes países com maioria feminina:

Espanha (75%), África do Sul (70%), Colômbia (entre 60 e 70%) e Israel (60%).

Em relação à África do Sul, os achados de Sexton e Hogan

27 As informações a respeito do Paquistão são pouco detalhadas. No original, lê-se: “The psychology department has an overwhelming majority of highly qualified, extremely competitive and competent researchers and teachers (female). However, when the top position of professor was advertised, a male colleague was selected not because he was the best, he was much older and rated equally and at par with two female colleagues”. (p. 470)

28 Virginia Staudt Sexton foi uma importante pesquisadora na área de psicologia e religião e de estudos feministas. Durante sua carreira, foi fortemente envolvida com a APA, tendo sido presidente de duas de suas divisões.

29 Professor de Psicologia na St. John’s University, John D. Hogan conduziu suas principais pesquisas na área de teoria piagetiana e criatividade, na psicologia do desenvolvimento e educação, e na historia da Psicologia.

contrastam o encontrado por Skinner e Louw, em que a feminização da Psicologia na África do Sul é notável. Para tentar explicar essa discrepância recorremos a outra passagem do livro de Sexton e Hogan: “In most countries, including those which there are currently more male psychologists, female students are in the majority, suggesting changes for the future” (SEXTON

& HOGAN, 1992, p. 469), em tradução literal: “Na maioria dos países, incluindo aqueles que atualmente existem mais homens psicólogos, estudantes do sexo feminino são maioria, sugerindo mudanças para o futuro “. Tendo em vista que o estudo de Sexton e Hogan foi publicado em 1992 e o de Skinner e Louw em 2009, há entre eles um período considerável para ocorrer mudanças significativas.

Considerações finais

Na tentativa de mapeamento bibliográfico sobre a feminização da Psicologia em outros países, deparamo-nos com a escassez de uma produção específica ou direta sobre o tema. Considerada em sua positividade, lidar com os silêncios que constituíram a Psicologia desde seu advento como ciência é o que a ausência dessa produção evidenciou para nós. Neste caso, ao não encontrar algo, aceitamos o fato de que o encontramos em seu estado latente de pura presença. A majoritária presença de mulheres na Psicologia parece ganhar força como objeto de análise em sua aparente familiaridade, porque se trata justamente de “levantar a ponta do véu” a que se referem Louise Lhullier e Jéssica Roslindo no primeiro capítulo do presente livro. A pergunta pode ser elaborada da seguinte forma: como falar da maioria de mulheres na história da Psicologia majoritariamente masculina? É preciso que se fale. Que falemos delas.

Referências

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Women in the American Psychological Association. Disponível em: American Psychological Association, <http://www.apa.org/pi/women/committee/

wapa-2006.pdf. 2006>. Acesso em: 2 outubro 2012.

BOATSWAIN, S.; BROWN, N.; FIKSENBAUM, L.; GOLDSTEIN, L.; GREENGLASS, E.; NADLER, E.; PYKE, S. W. Canadian feminist psychology: Where are we now? Canadian Psychology, v. 42, p. 276-285, 2001.

BOULON-DÍAZ, F. Participación y liderazgo femenino en la profesión de psicología en Puerto Rico. Revista Puertorriqueña de Psicología, n. 23, p. 127-138, 2012.

DENMARK, F. L. Women and Psychology: An International Perspective. American Psychologist. v. 53, p. 465-473, 1998.

FROSH, S. Masculine ideology and psychological therapy. In:

M. USSHER & P. NICOLSON (Eds.), Gender issues in clinical psychology. Londres: Routledge, p. 153–170, 1992.

LACAN, J. Seminário XX: mais, ainda. Tradução M. D. Magno.

Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1982. Tradução de Le seminaire XX:

encore.

LOPES, M. J.M.; LEA, S. M. C. A feminização persistente na qualificação profissional da enfermagem brasileira. Cadernos Pagu, n. 24, jan./-jun. de 2005, p. 105-125, 2005.

RICHTER, L. M., & GRIESEL, R. D. Women psychologists in South Africa. Feminism & Psychology, v. 9, p. 134–141, 1999.

SCHULTZ, D. P. & SCHULTZ, S. E. História da psicologia moderna. Tradução Suely Sonoe Murai Cuccio. São Paulo:

Cengage Learning, 2011.

No documento Quem é a Psicóloga brasileira (páginas 78-92)

Documentos relacionados