2. QUALIDADE DE VIDA
2.2. QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO
Discutir QV, nos leva a considerar a questão da nossa realidade profissional, e consequentemente associar QV no trabalho (QVT). Discutir QVT implica discutir a relação entre patrões e empregados, e estas relações mostraram-se em alguns momentos da história humana desfavorável ao empregado.
No Brasil estas relações foram marcantes no passado, e ainda hoje se percebe em alguns locais uma remuneração menor, condições de trabalho insalubres, segregação e discriminação feminina.
Segundo a autora Carmen Lúcia Antunes Rocha Professora de Direito Constitucional da PUC de Minas Gerais que cita a regra da desigualdade, só quem tinha poder e riqueza era detentor de direitos e privilégios. Aos demais, restava aceitar os mandos e desmandos dos poderosos. Rocha (1990).
O processo histórico do movimento operário e das correlações de forças entre trabalhadores, patrões e estado, pode explicar o condicionamento a que foi submetida à população, tornando quase invisível os efeitos das condições de trabalho, na saúde do trabalhador (DEJOURS, 2015, p.118).
No entanto, melhores condições de trabalho propriamente ditas, tais como, local, garantias assistenciais, saúde, registro para fins de aposentadoria, entre tantas, os empregados foram conquistando pela influência de sindicatos, e principalmente pelas lutas operárias.
Outro aspecto que passa a ser considerado é a ligação entre a procura da qualidade dos produtos, das técnicas e tecnologias e a melhoria do ambiente de trabalho, Almeida (2012). A saúde do trabalhador afeta diretamente a qualidade do
serviço. Para melhorar a produção, foi necessária uma reestruturação no ambiente de trabalho, afirma este autor.
A melhoria da QVT passa a ser apontada por pesquisadores como um dos fatores que aumentam a motivação e o comprometimento dos empregados com os resultados das organizações. Só é excelente a empresa que estende excelência à QV de seus funcionários. Afinal, como se pode alcançar a qualidade dos produtos ou serviços se não houver QV pessoal e profissional de quem os faz?
Para um funcionário prestar um bom serviço, é preciso que saiba, que possa e que queira fazê-lo. Saber fazer é uma questão de conhecimentos, habilidades e atitudes. Poder fazer é uma questão de ter e poder usar os recursos necessários. Querer fazer é uma questão volitiva que depende do estado de ânimo, da satisfação das pessoas quando realizam o trabalho, (Luz, 2003, apud NOVAES 2014, p.131).
Portanto, o terceiro aspecto “querer fazer” está associado à QV dos trabalhadores e este, passa a ser considerado como um item de importância no ambiente de trabalho.
Entre os estudiosos que definem QVT Limongi- França (2009) doutora em administração pela USP, dirigindo o núcleo e laboratório de estudos e pesquisas em gestão de QVT, afirma que:
Qualidade de vida no trabalho seria o conjunto de ações de uma empresa que envolve diagnóstico e implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais dentro e fora do ambiente de trabalho, visando propiciar condições plenas de desenvolvimento humano para e durante a realização do trabalho.
(2009, p.35)
Essa nova visão empresarial mudou o rumo do conceito de trabalho, de segurança e de higiene dentro das fábricas. Os autores, Almeida, Gutierrez e Marques (2012) afirmam que os avanços tornaram-se significativos, tanto em países desenvolvidos como subdesenvolvidos; todo este processo levou à preocupação com a responsabilidade social e à criação de selos de qualidade para serviços, produtos e clientes, como a criação do ISO‟s; do SA 8000 e OHAS 18001.
O mundo do trabalho tem sido marcado por transformações profundas onde existe uma deterioração crescente da QV nos diversos âmbitos do trabalho humano.
Nós, todos os seres humanos deste planeta, que temos o privilégio de testemunhar um novo século, somos descendentes de uma
história magnífica. Para o bem ou para o mal, somos os herdeiros do legado da modernidade. (O‟SULLIVAN, 2004, p. 25).
Este autor destaca que os países desenvolvidos, do 1º mundo, com o objetivo de produzir cada vez mais, estão destruindo o planeta. Discute nossa responsabilidade nesta condição, onde o planeta emite sinais de socorro, comparado com um ser humano em estado terminal.
Cita entre outros fatos, que produzir é necessário, mas que se deve respeitar o meio ambiente, e pensar de maneira globalizada, pois o que se faz em qualquer canto do planeta afeta a todos. Para ele a palavra de ordem é; sustentabilidade e educação ambiental.
Porém, a mudança rumo à modernização, se torna inevitável em um mundo globalizado, de rápidas transformações, de um capitalismo mundial integrado, da busca cada vez maior em produzir bens em todos os setores, dos novos sentidos de trabalho e das relações de trabalho, bem como outras relações entre os seres humanos, assim como das continuas desigualdades sociais.
Após um período fecundo para melhorias da relação saúde-trabalho, no último século, teve lugar o estudo de melhorias da saúde física do trabalhador.
Porém, o trabalho e os afetos a ele relacionados eram considerados como não relevantes, pois o que mais se privilegiava estava ligado à capacidade de trabalhar do indivíduo, Sznelwar, et al (2011). O estudo do sofrimento mental que resulta da organização do trabalho é mau conhecido pelos próprios trabalhadores, ocupados que estão em seus esforços para cumprir suas obrigações trabalhistas, afirma Dejours (2015).
Este é o objeto de estudo da psicopatologia do trabalho, novo campo de estudo interdisciplinar, que busca discutir as relações entre trabalho e vida mental, que escapam a outras ciências humanas. Alguns aspectos da abordagem da psicopatologia do trabalho de Cristophe Dejours contribuíram com nossas análises sobre a QV no exercício docente. Estes temas foram discutidos no capítulo 3 sobre as Psicopatologias do Trabalho.
Abordar estas questões de QVT, nos aproxima da discussão sobre a QV no exercício docente. O professor apesar de exercer uma profissão com características diferentes de muitas outras, pois é uma profissão de interações humanas, para melhor cumprir o seu papel, necessita ter acessível a si, as mesmas satisfações no exercício profissional.
Em uma primeira análise, ter QV pressupõe ter satisfeitas todas as necessidades básicas, previstas na constituição (1988) no art. 3º parágrafo IV que cita: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, portanto é direito de todos a promoção de bem estar, ao alcance de qualquer cidadão, e nesse ponto os professores também se incluem.
Ter QVT pressupõe cuidados com diversos aspectos que compõem a nossa vida diária. No exercício docente, a falta da QVT do professor, interfere na qualidade de seu trabalho, e isso interfere na QV dos alunos, pois a qualidade da aprendizagem fica comprometida. Assim, a QV de professores e alunos é um aspecto a ser considerado no processo de ensino/aprendizagem e na construção de uma vida saudável e produtiva. Na formação de professores, propomos este estudo com duas finalidades interligadas: melhorar a atuação do futuro professor com seus alunos nesses aspectos e as condições de trabalho dos mesmos.
Na LDB, Lei nº 9.394/96 encontramos no art. 2º que: “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.