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Questões de gênero e maternidade

PRIMEIROS PASSOS

4. Questões de gênero e maternidade

A “entrada” das mulheres na História é algo relativamente recente.

Com esta afirmação entendemos que foi a partir do movimento fe- minista que questões pertinentes às mulheres passaram a ser tema de trabalhos científicos. A referência ao feminismo nesta pesquisa não busca oferecer um posicionamento ideológico, de modo que apesar das diferentes correntes que se formaram a partir deste mo- vimento e das críticas aos modelos adotados e/ou impostos pelas mesmas (PATAI, 2010), o que se busca considerar diz respeito a um conjunto de transformações que ganharam espaço a partir das ma- nifestações que podem ser designadas como tais.

Até então, a representatividade da mulher em trabalhos acadê- micos se esgotava em posições coadjuvantes em relação à centrali- dade da figura masculina. O incômodo gerado por tal unilateralida- de ficou mais nítido a cada nova proposta teórica e metodológica para estudar a mulher em diferentes tempos e espaços, realizada, na maior parte das vezes, por pesquisadoras também mulheres.

Foi assim que historiadoras reinterpretaram documentação já conhecida e passaram a buscar fontes alternativas que pudessem dar conta de iluminar uma história também feita por mulheres. Ao mesmo tempo, antropólogas foram em busca de diferentes culturas para colocar em questão os papéis feminino e masculino, buscando intensamente a desnaturalização dos estereótipos engendrados a partir destes.

O debate trazido à tona pelo movimento feminista, além de expor novos estudos e temas, procurou enfrentar questões pertinen- tes às formas de explicação acerca da mulher e sua história, ou seja, passou a questionar também os procedimentos teóricos e metodoló- gicos para fazê-lo. Visões binárias ou universalistas já não eram mais

capazes de satisfazer tantos comportamentos e trajetórias. As cate- gorias utilizadas mostravam-se ineficazes quando o problema era refletir acerca das relações estabelecidas em uma sociedade forma- da por homens e mulheres.

Seja a busca pela igualdade de direitos ou pela garantia da di- ferença que se desenha entre mulheres e homens, o fato é que estas foram questões que impulsionaram a proposição de uma nova cate- goria analítica: gênero. Joan Scott aborda a problemática da utiliza- ção desta categoria em sua relação com aspectos que envolvem sexo, classe e etnia:

O termo gênero faz parte de uma tentativa empre- endida pelas feministas contemporâneas para reivin- dicar um certo terreno de definição, para insistir so- bre a inadequação das teorias existentes em explicar as desigualdades persistentes entre as mulheres e os homens. (SCOTT, 1990, p. 13)

Sem pretender esboçar uma revisão bibliográfica sobre a ques- tão, vale ressaltar que a dimensão relacional do gênero foi desde o início de sua utilização terreno fértil para pensar das formas mais variadas as condições vivenciadas não somente por mulheres, mas também por homens, lembrando que ao abordar um destes integran- tes do cenário social, o seu “oposto” inevitavelmente será incluído.

A trajetória do que podemos denominar “teoria feminista” ou mesmo os trabalhos que foram se construindo a partir da nova abor- dagem de gênero é indubitavelmente marcada pelo tema da mater- nidade – isto sem contar a atuação das mulheres nos espaços públi- cos. Este é o caso da origem das manifestações de cunho feminista no final do século XIX, quando as exigências das mulheres estavam embasadas em seu papel como mães. Isto inclui a proposta de uma remuneração para esta atividade, considerada o eixo da vida e da identidade feminina. O chamado “feminismo maternalista”, embora não tenha obtido os resultados almejados, foi ocasião em que foi

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possível verificar tanto as mudanças no comportamento das mulhe- res quanto a reação da sociedade a tais proposições.

Este feminismo, enfraquecido após a Primeira Guer- ra Mundial, reclamava simultaneamente a igualda- de de direitos econômicos e políticos e o reconheci- mento social da maternidade, cujo valor era considerado igual, se não superior, ao das atividades masculinas. (THÉBAUD, 1994, p. 432)

Esta fase do movimento foi seguida por outras aspirações, as quais se mostravam cada vez mais “radicais” no que diz respeito ao questionamento do papel da mulher na sociedade. A produção acer- ca de temas relativos às mulheres paralelamente foi sendo acrescida por reflexões que, realizadas por mulheres ou homens, deram mar- gem para a formação de um intenso debate, cujas linhas gerais apre- sentarei brevemente.

A obra de Lévi-Strauss (1956, 1982), sobretudo no campo da Antropologia, foi ponto de partida para diversas discussões ao fun- damentar o surgimento da organização da sociedade na fronteira entre natureza e cultura, o que se daria por meio das relações de parentesco, da instauração do tabu do incesto e da troca de mulheres entre as famílias. Desta forma, ofereceu alguns dos elementos que embasaram a crítica de toda uma linha de pesquisas, como é o caso da desenvolvida por Gayle Rubin (1986). A centralidade do papel da mulher no contexto que se forma é a fonte do que seria denominada

“opressão universal das mulheres”. A mulher vista desta forma é, portanto, reduzida ao papel que desempenha no espaço privado e na vida familiar. Ou seja, é a partir da perspectiva de mãe e esposa que a mulher construiria sua identidade. Tal explicação para a suposta opressão universal da mulher, no entanto, desconsidera situações culturais que não correspondem a tal organização.

A naturalização do papel da mulher enquanto esposa e mãe é o ponto chave a partir do qual se buscou construir a crítica de toda

uma corrente feminista. A Antropologia foi espaço privilegiado ao possibilitar a visualização de culturas nas quais as mulheres desem- penham papéis profundamente distintos dos observados na cultu- ra ocidental, como demonstra caso estudado por Strathern (2006), para citar apenas um exemplo. Além de questionar a ideia de uma dominação universal sobre as mulheres, trabalhos como este bus- cam confirmar a ausência de uma natureza inata acerca da posição ocupada por homens e mulheres e ainda impulsionam uma crítica às formas analíticas baseadas em explicações universalizantes ou dicotômicas.

Desta forma, é possível abordar certo paralelismo entre os ques- tionamentos sugeridos no âmbito teórico e as atitudes que vão to- mando corpo socialmente. À medida que o papel da mulher enquanto mãe é visto como uma das várias possibilidades que se colocam, ficam mais evidentes atitudes múltiplas com relação à maternidade.

Ainda que a recusa a este papel não seja exclusividade do século XX, a força conquistada pelo movimento feminista, sobretudo na déca- da de 1960, tornou menos complicadas posturas anteriormente en- tendidas como antinaturais.

A exacerbação do caráter natural conferido ao papel de mãe ainda no século XIX fazia com que comportamentos diferenciados ou contrários ao “ser mãe” fossem tidos como patológicos e mesmo criminosos, como observa Magali Engel:

A perda do senso moral não colocaria em primeiro plano a questão ética de que nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de outro, mas sim de que uma mulher cujo comportamento revelasse uma sexualidade anormal e uma ausência ou insuficiên- cia do amor materno seria histérica e, portanto, po- tencialmente criminosa. (ENGEL, 1997, p. 328)

Mesmo a apresentação de desejo sexual por parte das mulhe- res era considerada característica anormal:

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No final do século XIX, tais concepções adquiriam uma legitimidade cada vez mais sólida nos meios científicos, à medida que eram reafirmadas, funda- mentadas e justificadas por especialistas de reno- me… Partia-se do princípio de que, por natureza, na mulher, o instinto materno anulava o instinto sexu- al e, consequentemente, aquela que sentisse desejo ou prazer sexual seria, inevitavelmente, anormal.

(Ibid., p. 340)

Assim sendo, mulheres antes vistas como “anormais” por não quererem, não poderem ter filhos ou simplesmente por sentirem prazer sexual, puderam se apresentar à sociedade como normais.

Mais que isso, mulheres cuja opção sexual era a de estabelecer rela- ções com pessoas do mesmo sexo também passaram a ser vistas não somente com mais frequência, como com cada vez mais naturalida- de, assim como o desejo de maternidade nessas condições.

As novas posturas percebidas entre as mulheres foram acom- panhadas por comportamentos alternativos também por parte dos homens, o que tornou possível identificar significados inéditos no papel atribuído ao pai. A ideia de família da mesma forma sofreu importante ampliação, não sendo mais coerente aceitar um modelo único. A família nuclear marcadamente característica da sociedade burguesa, mesmo que em poucos momentos e espaços tenha sido majoritária, foi o modelo imposto como ideal.

De acordo com os supostos de tal configuração familiar exem- plar, os espaços público e privado se antagonizavam, assim como os papéis assumidos em cada um. Mulheres e homens passaram a ter funções específicas e estas começaram a ser reconhecidas socialmente como as mais adequadas. A casa, a família e os filhos, embora pre- sentes na vida da grande maioria das mulheres, não possuem os mesmos contornos para cada uma delas. Não é novidade historica- mente que muitas mulheres são as mantenedoras de seus lares e, desta forma, conciliam a casa e a rua para obter as condições mate- riais de manutenção da família e os cuidados com a prole.

Nas ruas, as mulheres sabem se manifestar. Elas con- duzem os motins por alimentos, ligados à carestia do pão, tão frequentes pelo menos até 1848, os chari- varis contra os proprietários responsáveis pelo au- mento dos aluguéis, elas que são as administradoras do lar, as guardiãs do orçamento. Elas se associam aos homens durante as jornadas revolucionárias que pontilham o século, presentes sobretudo em 1830…

(PERROT, 2001, p. 217)

Segundo Michelle Perrot, o retraimento da mulher na socieda- de francesa por ela estudada é, portanto, mais recente:

Paralelamente a esse retraimento da mulher real, desenvolve-se uma ampliação de imagens. A mulher enfeita a cidade, como enfeita a casa (retratos de mulheres, quadros de mulheres, fotos de mulheres), as igrejas (culto de Virgem Maria). Visualmente, a mulher está tanto mais presente quanto existe a ten- dência a limitar seu papel e sua presença por outras vias. (Ibid., p. 219)

Mais recentemente é possível notar indiscutível apelo à parti- cipação paterna nos cuidados dos filhos e no compartilhamento de atividades domésticas com as mulheres. A propaganda publicitá- ria é vigorosa nestas sugestões que, embora cada vez mais verificá- veis na prática, são transformações que ocorreram em meio à manu- tenção de uma série de concepções que poderíamos denominar

“tradicionais”.

Questões ligadas ao surgimento de novas tecnologias de repro- dução não podem ser desconsideradas neste contexto de discussão acerca da maternidade. A possibilidade de desvincular os aspectos biológicos na reprodução humana remete ao questionamento de qual é o papel de mães e pais na criação dos filhos. A concepção pautada

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na relação sexual propriamente dita passa a ser uma dentre outras possibilidades e, assim, a necessidade fisiológica da manutenção de relações sexuais entre homens e mulheres pode ser colocada em segundo plano (STRATHERN, 1995). Tais novas possibilidades colo- cam-nos distantes da revolução dos anticoncepcionais. Agora não somente pode-se escolher ter ou não filhos, mas questiona-se a pró- pria necessidade dos homens enquanto pais. A reprodução cede lu- gar à criação e educação dos filhos e inegavelmente os papéis se ampliam e pluralizam.

Mesmo considerando as manifestações feministas que tiveram lugar na sociedade brasileira, a questão materna é indissociável das principais reivindicações, como atesta a presença permanente dos temas do aborto e do planejamento familiar. A despeito de seu cará- ter polêmico, estes foram assuntos de destaque no movimento femi- nista, sobretudo, na década de 1980 – momento também marcado pela Constituinte, que apresentou importantes avanços em termos de direitos da mulher. No que diz respeito ao planejamento familiar, este era um ponto conflituoso entre mulheres das classes sociais mais abastadas e as das camadas populares:

O planejamento familiar sempre fora entendido no Brasil como controle da natalidade das populações pobres… Ora, se isso parecia um direito para as mulheres intelectualizadas de classe média, tomava ares de política pública conservadora quando o alvo eram as camadas populares. Isso fez com que as fe- ministas passassem a ter um grande papel na elabo- ração de projetos de planejamento familiar que bus- cassem atender as mulheres das camadas populares sem cair em políticas discriminatórias. (PINTO, 2003, p. 83)

Com relação ao aborto, em que pesem os apelos religiosos para sua proibição, a proposta de sua legalização foi a terceira emenda

popular promovida pelas mulheres durante o período da Constitu- inte, recolhendo 33.338 assinaturas. Apesar do número expressivo de adesões, tal emenda não teve repercussão na Assembleia Consti- tuinte (PINTO, 2003).

A relevância de tais questões encontrou algum respaldo nas conquistas obtidas pelas mulheres no âmbito da nova Constituição, como pode ser observado nos seguintes direitos:

[..] às presidiárias serão asseguradas condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação;

• licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário com duração prevista de centro e vinte dias;

• fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamen- to familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer for- ma coercitiva por parte das instituições oficiais ou privadas. (PINTO, 2003, p. 78)

Ampliando o olhar para outras partes da América Latina, veri- ficamos que há diferenças substanciais entre o movimento de mu- lheres latino-americanas e o das norte-americanas, por exemplo. Neste sentido, o marianismo é exemplo de que nem sempre as exigências femininas se identificam. Este ponto corrobora não somente a exis- tência de “feminismos”, mas mantém o questionamento a respeito de uma dominação universal das mulheres. Isto se dá na medida em que são as mulheres mesmas que, em alguns casos, lutam pela ma- nutenção das desigualdades verificáveis entre os gêneros. Sua rei- vindicação está pautada no domínio do espaço doméstico e do de- sempenho dos papéis considerados femininos, ou seja, os de esposa e mãe.

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Apropriando-se do machismo na consecução dos seus próprios interesses, as mulheres latino-ameri- canas tornaram-se beneficiárias desse mito. Essa perspectiva, sem dúvida, reelabora o discurso e re- tira a mulher da condição de vítima. (SAMARA, 1997, p. 21)

Tendo em vista tais singularidades, a autora aborda o teor das desigualdades entre homens e mulheres partindo do princípio de que estas podem estar calcadas na educação transmitida privilegia- damente da mãe para os filhos, onde estaria, portanto, a origem das desigualdades de gênero.

Verificamos, desta forma, que vivenciamos momento marcado pela simultaneidade de ideias a respeito de qual seria a identidade feminina por excelência. A exposição que até aqui apresentamos pretendeu dar conta de reforçar a existência não somente de “femi- nismos”, mas de que não há uma única Mulher e sim mulheres. Da mesma maneira, a possibilidade de múltiplas identidades, as quais se moldam de acordo com as circunstâncias vivenciadas ao longo de suas trajetórias.

Podemos dizer que a maternidade hoje é discutida de forma aberta enquanto apenas mais uma dentre as várias escolhas possí- veis no universo feminino, aparentando ser mesmo uma questão ultrapassada para certos grupos. Entretanto, “ser mãe” continua sen- do elemento definidor da identidade das mulheres, seja a partir da rejeição da maternidade ou de sua aceitação. A insistência do tema sugere sua relevância e, ainda que represente um incômodo para quem apresenta posição supostamente definitiva a seu respeito, a maternidade está intimamente ligada aos papéis assumidos pelas mulheres na contemporaneidade.

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