Diversos teóricos já apontaram para duas mudanças na sociedade brasileira no final do século XIX que abriram as portas para a absorção das teorias raciais europeias por aqui: a abolição da escravidão, em 1888, e a proclamação da república em, 1889 (MUNANGA, 2019; ORTIZ, 2006; SCHWARCZ, 1993, 2012). Com a imposição legal da igualdade entre todos os habitantes do país e um novo sistema de governo fundado nas bases do positivismo, as ideias de que grupos humanos representavam raças que eram biologicamente distintas chegaram como uma manutenção da estrutura de dominação social.
O Brasil era relativamente novo na prática e consumo da ciência. As primeiras instituições com caráter científico só foram fundadas após a chegada da família real portuguesa em 1808, inicialmente apenas como extensões do poder português. Como observa Schwarcz (1993), foi só a partir da secunda metade do século XIX, principalmente da década de 1870 em diante, com o fortalecimento da economia do café, que criou centros econômicos no Sudeste, e com o desenvolvimento de novos campos de pesquisa, que um grupo mais forte de intelectuais se formou no país.
As ideias raciais europeias e estadunidenses foram vistas por esse grupo intelectual como a explicação para as questões que se mostravam cada vez mais pertinentes para um país que estava prestes a abolir a escravidão e colocar um novo regime de poder. A partir de 1870, muitas discussões dos intelectuais se voltaram para a questão racial e a hierarquia social, além da identidade nacional (Munanga, 2019). Para Schwarcz (1993), o Brasil, nesse período, estava interessado em se destacar dos outros países da América Latina e se aproximar dos modelos europeus de civilização. A ciência tornara-se uma forma de conhecimento com alto grau de importância perante a sociedade, com um país que quer se mostrar moderno. Mas:
O que se valorizava nesse momento, porém, não era tanto o avanço científico, entendido enquanto incentivo a pesquisas originais, e sim uma certa ética científica, uma “cientificidade difusa” e indiscriminada. Tanto que se consumiram mais manuais e livros de divulgação científica do que obras ou relatórios originais.
A ciência penetra primeiro como “moda” e só muito tempo depois como prática e produção (SCHWARCZ, 1993, p. 41).
Essa devoção à ciência é tratada comicamente por Machado de Assis no conto O Alienista, uma história sobre o médico Simão Bacamarte, que chega na vila de Itaguaí obcecado pelo seu conhecimento científico. Inclusive, escolhe sua esposa a partir de critérios científicos, por possuir
“condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; está assim apta para dar-lhes filhos robustos sãos e inteligentes” (ASSIS, 2011, p. 39). Os filhos, porém, nunca chegam.
Determinado a curar a loucura de toda forma, interna no seu asilo cada vez mais pessoas, alterando várias vezes o que seriam os critérios da loucura, chegando a considerar pessoas com traços morais muito marcados (como habitantes muito honestos), os verdadeiros loucos. Quase prende a cidade inteira em nome da ciência. Por fim, interna-se como o único louco que deveria ser curado.
Porém, as teorias europeias em suas formas “puras” não coincidiam com a realidade nacional, já que o alto número de mestiços do país impedia a adoção total dos pressupostos de pureza que eram divulgadas no Velho Continente. O que aconteceu nestas terras foi uma adaptação das ideias para que se encaixassem nos aspectos raciais do país, assim, as teorias diversas foram modificadas e até unidas para alcançar uma explicação satisfatória para a situação em que o Brasil se encontrava.
Do darwinismo social adotou-se o suposto da diferença entre as raças e a sua natural hierarquia, sem que se problematizassem as implicações negativas da miscigenação. Das máximas do evolucionismo social sublinhou-se a noção de que as raças humanas não permaneciam estacionadas, mas em constante evolução e
“aperfeiçoamento”, obliterando-se a ideia de que a humanidade era uma.
Buscavam-se, portanto, em teorias formalmente excludentes, usos e decorrências inusitados e paralelos, transformando modelos de difícil aceitação local em teorias de sucesso (SCHWARCZ, 1993, p. 24–25).
Apesar dessa fusão de teorias, ainda é possível distinguir duas visões contrastantes sobre as questões raciais, principalmente no que diz respeito à mestiçagem, que se estabeleceram durante a Primeira República: um grupo vai advogar pela mestiçagem, defendendo que o elemento branco, por ser o mais forte, vai aos poucos absorvendo e derrotando os traços inferiores das outras raças, enquanto outro grupo defenderá que é um erro continuar com a mistura entre as raças biologicamente diferentes.
Como representante do primeiro grupo se destaca o advogado e crítico literário sergipano Silvio Romero. Ele defendia uma visão da existência biológica das raças que se adaptava a realidade da mestiçagem no Brasil. Para o autor, era impossível e inverossímil pensar em pureza de sangue para defender um tipo brasileiro, em uma de suas citações mais famosas declara: “todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas ideias”. Romero acreditava que a única forma certa de olhar para a formação de um tipo brasileiro é a partir da mistura:
A história do Brasil, como deve hoje ser compreendida, não é, conforme se julgava antigamente e era repetido pelos entusiastas lusos, a história exclusiva dos portugueses na América. Não é também, como quis de passagem supor o romanticismo, a história dos Tupis, ou, segundo o sonho de alguns representantes do africanismo entre nós, a dos negros em o Novo Mundo.
É antes a história da formação de um tipo novo pela ação de cinco fatores, formação sextiária em que predomina a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas idéias. Os operários deste fato inicial têm sido: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira (ROMERO, [s. d.], p. 2).
Para Romero, a superioridade natural dos brancos era inquestionável, porém, ele defendia que não havia como fugir da mistura de raças que fez parte da fundação do país, então, acreditava que o futuro do país estaria na continuada mistura de brancos com as outras raças, até que a parte superior absorvesse todos as outras em um povo uniforme (Munanga, 2019; Ramos; Maio, 2010;
Schneider, 2011; Schwarcz, 2012). Partindo da literatura científica em voga na época, o autor apresentava a sua defesa da mestiçagem sempre com a clareza de que o elemento branco é o único vencedor possível do encontro das raças:
Applicando as leis de Darwin á literatura e ao povo brazileiro, é facil perceber que a raça que ha de vir a triumphar na lucta pela vida, neste paiz, é a raça branca. A familia selvagem e a negra, uma espoliada pela conquista, outra embrutecida pela escravidão, pouco, bem pouco, conseguirão directamente para si. Os seus recursos volver-se-hão em vantagem dos brancos. Prova-o o facto do cruzamento em que tendem a dominar o typo e as tendencias do europeu, ajudado pela mescla do sangue selvagem e negro, o que mais o habilita a supportar os rigores do nosso clima. (ROMERO, 1880, p. 48–49)
O autor era um grande defensor da ciência, como um dos maiores representantes da chamada “geração de 1870”, que define o grupo de intelectuais com novas perspectivas teóricas sobre a nação, com um grande apreço pelo conhecimento científico. Romero acreditava que era o dever dos pensadores se debruçarem sobre os problemas sociais do país, o que não era feito pelos
“homens de letras”, mais preocupados com os alargamentos das avenidas do que com o desemprego e a fome do resto do país (Romero, 1987).
Esse seu posicionamento levou a um embate com Machado de Assis, que o criticou pela falta de estilo e pela pretensão científica em seus escritos em um artigo sobre a nova geração de escritores e intelectuais. Depois, Romero respondeu com o livro Machado de Assis, estudo comparativo da literatura brasileira, no qual, além de criticar a estilística da produção machadiana, também questionou a falta de comprometimento com a realidade social (Schneider, 2016). Para Schwarcz (1993, p. 51), essa polêmica representa muito bem a nova mentalidade em voga na virada
do século desses “homens de ciência” que “de dentro das instituições das quais participavam tendiam a se auto representar como fundamentais para as soluções e destinos do país”. O advogado acreditava que grande parte da questão nacional girava em torno do problema da raça brasileira, ainda em via de se unificar em uma única configuração por meio da mistura.
Se Romero observa a mestiçagem como inescapável e a única forma de se obter a homogeneidade nacional, nunca tira de vista que o branco é o único que pode fornecer as características necessárias para atingir a civilização nestas terras. Mesmo quando admite o papel importante do mulato (principalmente da mistura entre branco e negro) na sociedade, sempre reforça que só foi possível que esse elemento tivesse atuação destacável pela porção da raça superior em seu sangue:
Nas republicas hespanholas o cruzamento mais extenso foi do branco e do indio;
entre nós foi do branco com o preto. Este, depois do europeu, é o principal factor da nossa vida intellectual, politica, economica e social. Temos com elle uma grande divida: restabelecer na historia o quinhão que lhe pertence, por si, e por seus descendentes mulatos, maximè por estes últimos. Uma cousa é para notar: eu desafio a que me monstrem em toda a historia brazileira de quatro séculos, um só typo nacional, mais ou menos notável, que haja sido negro ou caboclo puro.
(ROMERO, 1880, p. 49)
Munanga (2019) observa que o advogado fez várias previsões durante sua vida para o desaparecimento total dos elementos negro e indígena da sociedade brasileira, mudando várias vezes uma data estimada para a conclusão desse projeto que segue a ordem da seleção natural, cada vez aumentando mais o tempo (100, 200, 300, chegando até 800 anos), demonstrando assim a fragilidade desse pensamento e sua pouca cientificidade, por mais que Romero se enxergasse como um dos defensores do verdadeiro saber científico no país.
Silvio Romero é um dos principais propositores da teoria do embranquecimento, que será mais tarde desenvolvida no imaginário social dentro da ótica (e da desculpa) da democracia racial.
Acreditando que cada geração trará a raça brasileira mais próxima do branco, a miscigenação é vista como uma forma de salvar a nação dos elementos das raças inferiores:
A minha these, pois, é que a victoria na lucta pela vida, entre nós, pertencerá, no porvir, ao branco; mas que este, para essa mesma victoria, attentas as agruras do clima, tem necessidade de aproveitar-se do que de util as outras duas raças lhe podem fornecer, maximè a preta, com que tem mais cruzado. Pela selecção natural, todavia, depois de prestado o auxilio de que necessita, o typo branco irá tomando a preponderancia até mostrar-se puro e bello como no velho mundo. Será quando já estiver de todo acclimatado no continente. Dous factos contribuirão largamente para tal resultado:— de um lado a extinccão do trafico africano e o
desapparecimento constante dos indios, e de outro a emigração européa!
(ROMERO, 1880, p. 53)
Também uma representação muito famosa é a pintura de Modesto Brocos, A redenção de Cam, que apresenta uma família onde a avó preta agradece aos céus o fato de sua filha mulata ter se casado com um homem português e concebido um filho branco.
Figura 4 - quadro A Redenção de Cã
Fonte: Museu Nacional de Belas Artes
Essa visão, porém, encontrava um contraponto em parte da intelectualidade da época, que não enxergava na mistura uma salvação, mas sim uma maldição. Os defensores da segunda vertente entendiam que a mestiçagem só atrasaria a construção de um povo forte e que os elementos inferiores, ao invés de serem absorvidos, atuariam na deterioração dos tipos superiores (Munanga, 2019; Schwarcz, 1993).
Um dos representantes mais notáveis dessa linha de pensamento foi o médico maranhense Raymundo Nina Rodrigues. Influenciado fortemente pela antropologia criminal de Cesare Lombroso, defendia que o foco no combate à criminalidade deveria ser o criminoso e não o ato em si. Para o médico, o grande problema do código penal brasileiro era assumir uma universalidade de nível mental que não existia no Brasil (Rodrigues, 2011; Santos, 2002).
Em um de seus livros mais famosos, As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (1894), Nina Rodrigues defende sua tese de que a suposição do livre-arbítrio é uma farsa e que não é possível julgar todos os povos pela mesma régua, já que cada grupo possuiria graus diferentes de
evolução. Para o autor, é impossível tentar igualar os processos mentais das diferentes raças, ou acreditar que todos podem chegar no mesmo nível:
A concepção espiritualista de uma alma da mesma natureza em todos os povos, tendo como consequência uma inteligência da mesma capacidade em todas as raças, apenas variável no grau de cultura e passível, portanto, de atingir mesmo num representante das raças inferiores, o elevado grau a que chegaram as raças superiores, é uma concepção irremissivelmente condenada em face dos conhecimentos científicos modernos. (RODRIGUES, 2011, p. 1)
Prova disso, segundo Nina Rodrigues, é o total fracasso nas tentativas de civilizar os povos indígenas da América, que, ao contrário do que defendiam os missionários cristãos e os indigenistas, não possuem qualquer preparo para habitar os mesmos espaços que os brancos, pois não é apenas uma questão de adaptação cultural, mas sim de pura inferioridade biológica:
O que é feito hoje das civilizações bárbaras brilhantes, complexas e poderosas que, ao tempo da descoberta da América, ocupavam o México e o Peru?
Dissolveram-se, desapareceram totalmente na concorrência social com a civilização europeia, muito mais polida e adiantada. Onde estão as colônias prósperas e civilizadas dos selvagens brasileiros que a abnegação sincera e convencida dos nossos missionários se gloriava, em santa ingenuidade, de haver conquistado para o rebanho do Senhor? A verdade é que o selvagem americano erra ainda hoje nos centros desertos das nossas florestas virgens, sempre refratário e sempre a fugir da civilização europeia, que de todos os lados o assedia e aperta, preparando ao mesmo tempo a sua próxima extinção total. A verdade é que apenas pela mestiçagem se pode ele incorporar à nossa população, incapaz como estava socialmente, de receber e adotar por si a civilização europeia importada com os colonizadores. (RODRIGUES, 2011, p. 3)
Gislene Aparecida dos Santos (2002) observa que o médico trava um diálogo delicado e bastante peculiar com o iluminismo. Primeiro, por negar a existência de valores e morais universais e por achar absurda a ideia de uma justiça que sirva para todos. Chega a fazer graça com as declarações dos Direitos do Homem, “Houve até quem pretendesse civilizar os algerianos, fazendo- os conhecer os direitos do homem e do cidadão, cuja declaração chegou a ser lida pública e somente às massas, que sem dúvida nada perceberam, além das pompas do espetáculo” (RODRIGUES, 2011, p. 3). Além disso, ele questiona a ideia de livre-arbítrio, outro ponto fundamental para a liberdade posta pelo pensamento iluminista. Assim, o autor coloca os seus ideais de um estado natural inalterável acima dos acordos sociais propostos pelo direito, elegendo as ciências biológicas como as ideias para se estudar os criminosos.
A crença em direitos universais, inalienáveis, naturais que serviriam como suporte à atribuição da liberdade (considerada como um desses bens/direitos) a todos os homens pautava-se na crença em uma natureza humana uma. Ao contestar a universalidade de valores em nome da evolução, Nina relativiza os direitos dos
homens, seu direito à liberdade e se contrapõe ao jus-naturalismo. Para tal, associando tanto os argumentos recolhidos da tradição jurídica quanto aos recolhidos da tradição filosófica e demonstrando, a seu modo, que o direito natural (em seu texto representado pelo livre-arbítrio) não pode ser compreendido como um direito, pois não tem valor coercitivo, e não pode ser compreendido como natural, pois foge aos cânones do que ele compreendia como natureza. (SANTOS, 2002, p. 138)
Boa parte de seu livro é dedicada a rebater a tese do jurista pernambucano Tobias Barreto, que, segundo Nina Rodrigues, se desvirtuou das suas próprias ideias filosóficas para defender o livre-arbítrio com medo da impunidade. Segundo o médico, a ideia de que a vontade humana é uma característica da liberdade humana, como definiu Barreto, é falaciosa, já que todas essas ações são frutos da própria natureza das raças. “A escolha é fruto de estados psíquicos que não são outra coisa que manifestação fisiológica. A vontade, portanto, é determinada pela natureza” (SANTOS, 2002, p. 139).
Fica claro, então, que, para Nina Rodrigues, todas as ações sociais, por mais espontâneas ou independentes que possam parecer, não passam de reflexos da condição biológica dos seres. A seleção social, usada como uma explicação para o livre-arbítrio por Barreto, nada mais é do que um reflexo da seleção natural. Não há como escapar da força da natureza, não existe desculpa, na visão do médico, para considerar qualquer forma de ação que aconteça fora do reino das leis biológicas (Rodrigues, 2011; Santos, 2002). Porém, afirma Nina Rodrigues, esse argumento em nenhum momento levará à impunidade geral que teme Tobias Barreto.
O autor segue afirmando o grande erro que o código penal brasileiro comete ao considerar todos iguais perante a lei, excluindo a categoria de raça e criando um ambiente que iguala “os descendentes do europeu civilizado, os filhos das tribos selvagens da América do Sul, bem como os membros das hordas africanas, sujeitos à escravidão” (RODRIGUES, 2011, p. 25). Se o criminoso deve ter consciência de si próprio, como admite Tobias Barreto, como os tipos não- brancos, argumenta Nina Rodrigues, podem ser julgados da mesma forma que os brancos? Se o direito é uma criação que está fortemente atrelada à sociedade que a cria, como é possível cobrar daqueles menos desenvolvidos as mesmas responsabilidades?
Se, de fato, a evolução mental na espécie humana é uma verdade, à medida que descermos a escala evolutiva, a mais e mais nós deveremos aproximar das ações automáticas e reflexas iniciais. Deste jeito, nas raças inferiores, a impulsividade primitiva, fonte e origem de atos violentos e antissociais, por muito predominarão sobre as ações refletidas e adaptadas, que só se tornaram possíveis, nas raças cultas e nos povos civilizados, com o aparecimento de motivos psíquicos de uma ordem moral mais elevada. (RODRIGUES, 2011, p. 30)
Nina Rodrigues segue, durante todo o As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, apontando a impossibilidade dos grupos inferiores de serem civilizados e receberem os mesmos tratamentos que os brancos pela lei. Dos grupos de indígenas selvagens ou de africanos transplantados de seu continente natal, assume que ninguém questiona a total falta de valores morais que possam se igualar aos europeus. Depois, rebate aqueles que acreditam que os nativos catequisados possam ser civilizados ao citar exemplos do folclorista Couto de Magalhães e do jornalista José Verissimo que atestam o fracasso na tentativa de integrar essa raça à nossa sociedade, “o índio extinguiu-se, ou está em via de extinção completa, mas não se civilizou”
(RODRIGUES, 2011, p. 46). Sobre as tentativas de civilização do africano, embora admita que alguns poucos negros tenham características admiráveis, como Toussaint L'Ouverture, concorda com Silvio Romero na proposição de que nunca existiu uma verdadeira civilização negra e que qualquer tentativa está fadada a falhar, como foi o caso da Revolução Haitiana.
O negro não tem mau caráter, mas somente caráter instável como a criança, e como na criança – mas com esta diferença que ele já atingiu a maturidade do seu desenvolvimento fisiológico –, a sua instabilidade é a consequência de uma celebração incompleta. Num meio de civilização adiantada, onde possui inteira liberdade de proceder, ele destoa... como eram nossos países d’Europa, essas naturezas abruptas, retardatárias, que formam o grosso contingente do delito e do crime. As suas impulsividades são tanto melhor e mais frequentemente frequentadas para o ato antissocial, quanto às obrigações da coletividade lhes aparecem mais vagas, quanto elas são, em uma palavra, menos adaptáveis às condições de sua moralidade e do seu psíquico. O negro crioulo conservou vivaz os instintos brutais do africano: é rixoso, violento nas suas impulsões sexuais, muito dado à embriaguez e esse fundo de caráter imprime o seu cunho na criminalidade colonial atual. (RODRIGUES, 2011, p. 49)
Santos (2002) observa que Nina Rodrigues enxerga o convívio entre diferentes raças como uma patologia que cria nos tipos “inferiores”, pela pressão de estar constantemente dentro de uma sociedade acima de suas capacidades, seres anormais que não são tratados de forma correta pelo direito brasileiro. Porém, concede a negros e indígenas uma responsabilidade penal atenuada, o que para autora significa uma relativização “do direito à cidadania, à liberdade, à humanidade” e que
“não podem ser considerados plenamente humanos, vagando entre a animalidade (selvageria primitiva) e a humanidade (civilização europeia)” (SANTOS, 2002, p. 145).
Quando chega a questão do mestiço, o médico se mostra ainda mais duro em suas afirmações. Baseando-se em Agassiz e Spencer, defende que a mistura de raças gera um ser com um tipo mental sem valor, “que não serve nem para o modo de viver da raça superior, nem para o