Tendo em vista os resultados das amostras monitoradas no período de 2013 a 2015, devem-se propor medidas de forma a intervir nos reais riscos decorrentes da presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos monitorados, além de ações voltadas para promover o uso racional de agrotóxicos no campo. No PARA, assim como em programas de outros países e blocos econômicos, as medidas a serem adotadas também devem primar pela otimização de recursos, levando-se em consideração a capacidade analítica e recursos disponíveis. Diante disso, a Anvisa faz as seguintes recomendações, com vistas a minimizar os riscos decorrentes da exposição aos resíduos de agrotóxicos.
a) Considerando os elevados níveis de detecções irregulares relativas ao acefato e ao clorpirifós nas amostras de tomate de mesa, as quais revelam indícios da ocorrência da prática proibida de aplicação costal, recomenda-se avaliar a possibilidade de restringir a comercialização de agrotóxicos a embalagens de maior volume, adequadas somente para aplicação mecanizada. A medida visa reduzir a exposição dos trabalhadores a essas substâncias e, assim, diminuir situações de intoxicação.
b) Considerando as irregularidades identificadas pelos resultados do programa, recomenda-se ainda que as empresas registrantes de agrotóxicos avaliem esses resultados, com o objetivo de intensificar o desenvolvimento de projetos de educação sanitária a campo, de manejo e de produção de materiais de treinamento para usuários dos produtos utilizados nas culturas monitoradas no programa.
c) Recomenda-se aos órgãos responsáveis pela orientação aos produtores, representados principalmente pelas instituições estaduais de extensão rural, de difundirem a informação com o objetivo de levar aos agricultores a importância e necessidade da utilização de BPA. Tais práticas podem evitar a exposição indevida aos agrotóxicos, por exemplo, quando produtores rurais utilizam agrotóxicos não autorizados para a modalidade de aplicação costal.
d) Considerando as situações em que mais de um resíduo de agrotóxico foi detectado uma mesma amostra aliada a possibilidade de tais substâncias terem o mesmo mecanismo de ação tóxica, recomenda-se ainda aos órgãos de assistência técnica, a realização de campanhas educativas destinadas, em especial, à agricultura familiar,
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visando informar o produtor rural dos riscos ocupacionais da exposição aos agrotóxicos com o mesmo modo de ação na mesma safra, como exemplo, substâncias pertencentes ao grupo dos organofosforados, dos triazóis, entre outros.
A opção de produzir alimentos a partir da abordagem de Produção Integrada(PI)38 também deve ser melhor disseminada.
e) Recomenda-se aos órgãos de controle das esferas federais e estaduais, respeitando- se suas competências, a intensificação de ações de fiscalização dos pontos de vendas, da indicação, da manipulação e da aplicação dos agrotóxicos nos locais de produção. O relatório do PARA detalha as irregularidades e o risco dietético. Tais informações podem ser levadas em consideração na priorização dessas ações.
f) Considerando-se os resultados da triagem de avaliação do risco aguda, recomenda- se avaliar os LMRs estabelecidos para os ingredientes ativos beta-cipermetrina, imazalil e metidationa em laranja e para clorpirifós em maçã, os quais podem estar ocasionando a extrapolação da DRfA.
g) A fim de ampliar o leque de agrotóxicos de menor toxicidade que podem ser utilizados pelos agricultores, os órgãos responsáveis pela avaliação e controle de agrotóxicos no país publicaram a INC n. 1 de 2014, que disciplina o registro de produtos para CSFI. A medida facilita a inclusão dessas culturas nas monografias de agrotóxicos da Anvisa. Diante disso, recomenda-se maior empenho por parte das empresas em utilizar os mecanismos previstos na referida INC, tendo os resultados do PARA como subsídio para orientar o planejamento referente aos pleitos de inclusões dessas culturas. Pode-se citar, como exemplo, a situação da goiaba, para a qual existem apenas três inseticidas autorizados e foram detectados 21 inseticidas que não são permitidos para a cultura.
h) Recomenda-se a inclusão de dados relativos à primeira infância na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE. A última pesquisa, de 2008/2009, contemplou dados de consumo de alimentos e de peso corpóreo de consumidores a partir de 10
38 A Produção Integrada Agropecuária (PI Brasil) está focada na adequação de sistemas produtivos para geração de alimentos e outros produtos agropecuários de alta qualidade e seguros, mediante a aplicação de recursos naturais e regulação de mecanismos para a substituição de insumos poluentes, garantindo a sustentabilidade e viabilizando a rastreabilidade da produção agropecuária. O arcabouço legal baseia-se nas Instruções Normativas do Mapa n. 12 e n. 20 de 2001.
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anos de idade e a ausência dos dados impossibilita que o risco seja avaliado adequadamente para as crianças com idade inferior. Os controles de resíduos de agrotóxicos em alimentos realizados por instituições de referência internacional enfatizam a análise de produtos de alimentação infantil da primeira infância, visando proteger uma das parcelas da população mais suscetíveis a possíveis efeitos adversos ocasionados pela exposição a agrotóxicos pela dieta.
i) A legislação que define os princípios e os procedimentos para a rastreabilidade de produtos vegetais in natura destinados ao consumo humano deverá ser publicada, com vistas a subsidiar as ações de fiscalização pelos órgãos de controle. Contudo, independente da publicação da norma, recomenda-se que a rastreabilidade dos alimentos seja assegurada em todas as etapas da cadeia de produtos vegetais in natura. O mercado varejista, por sua vez, deve melhor qualificar seus fornecedores, buscando identificar a origem dos produtos a serem ofertados ao consumidor. Essa ação contribui para a identificação das áreas de produção agrícolas mais críticas quanto ao uso irregular de agrotóxicos.
j) As ocorrências de detecções de resíduos de agrotóxicos banidos ou não registrado no país deverão ser encaminhadas aos órgãos de repressão, visando mitigar o uso ilegal dessas substâncias. Tais detecções representam cerca de 0,03% do total de amostras analisadas e podem estar relacionadas a contrabando.
k) Tendo em vista a existência dos programas brasileiros federais que atuam no controle de resíduos de agrotóxicos, seria mais efetivo que essas ações fossem desenvolvidas conjuntamente, de forma complementar, mantendo a autonomia de cada órgão no desempenho de suas atribuições. Nessa perspectiva, a integração coordenada desses programas deve ampliar a eficácia das ações de gestão do risco, diminuir as irregularidades e, ao mesmo tempo, fomentar o uso racional de agrotóxicos na produção de alimentos.
l) Recomenda-se também o estabelecimento de parcerias com outras instituições, como Embrapa, Emater, Sindicatos, Ministério do Trabalho, entre outros, para auxiliar nas ações educativas relativas à orientação de produtores quanto ao uso correto de agrotóxicos. O Grupo de Trabalho de Educação e Saúde sobre Agrotóxicos
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(Gesa), criado pela Anvisa, também poderá contribuir no desenvolvimento dessas ações.
m) Deve-se promover a ampliação de programas de monitoramento realizados pela esfera estadual, com o objetivo de incrementar o número de amostras e de alimentos monitorados e de pontos de coleta, buscando avaliar alimentos que melhor representem a realidade de consumo do Estado.
O PARA pretende promover uma produção de alimentos de origem vegetal seguros no país, para que a população possa aumentar o consumo de alimentos saudáveis, sem que isso venha trazer um incremento no risco de efeitos adversos à saúde, no tocante aos resíduos de agrotóxicos.
Nesse sentido, a efetivação das recomendações propostas será acompanhada pela Anvisa e os resultados dessas ações serão avaliados no âmbito do PARA nos próximos monitoramentos. Caso sejam evidenciadas as mesmas situações de potencial de risco dietético ou ocupacional, medidas mais restritivas poderão ser adotadas para mitigar os riscos identificados.
Recomendações aos Consumidores
Em relação aos consumidores, recomenda-se a opção por alimentos rotulados com identificação do produtor, o que pode contribuir para o comprometimento dos produtores em relação à qualidade dos seus produtos e à adoção de BPA. Desta forma, eles colaboram e fomentam as iniciativas dos programas estaduais e das redes varejistas de garantir a rastreabilidade e o controle da qualidade dos alimentos.
Importante também destacar que os agrotóxicos aplicados nos alimentos têm a capacidade de penetrar no interior de folhas e polpas do vegetal, e que os procedimentos de lavagem e retirada de cascas e folhas externas das mesmas, apesar de incapazes de eliminar aqueles contidos em suas partes internas, favorecem a redução da exposição aos resíduos de agrotóxicos, principalmente quando a casca é comestível.
Para diminuição dos níveis residuais de agrotóxicos na casca, recomendamos lavagem com água corrente, podendo-se utilizar também uma bucha ou escovinha destinadas
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somente a essa finalidade, considerando que a fricção igualmente auxilia na remoção de resíduos químicos presentes na superfície do alimento. A higienização dos alimentos com solução de hipoclorito de sódio tem o objetivo de diminuir os riscos microbiológicos, mas não de eliminar resíduos de agrotóxicos.
Ademais, a opção pelo consumo de alimentos da época, ou produzidos com técnicas de manejo integrado de pragas, que em geral recebem uma carga menor de produtos, reduz a exposição dietética a agrotóxicos. Também deve ser considerada a escolha por alimentos oriundos da agricultura orgânica ou agroecológica, os quais contribuem para a manutenção de uma cadeia de produção ambientalmente sustentável.
Ressalta-se que o Ministério da Saúde recomenda que os alimentos in natura ou minimamente processados, em grande variedade e predominantemente de origem vegetal, devem ser a base de uma alimentação nutricionalmente equilibrada, saborosa, culturalmente apropriada e promotora de um sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável. 39
Por fim, é importante destacar que o consumo regular de frutas, legumes e verduras está associado a um menor risco de contrair certos tipos de câncer e outras doenças crônicas não transmissíveis, devido à presença de fibras e compostos fitoquímicos, como flavonoides e antocianinas, que agem como antioxidantes naturais (por ex., licopeno no tomate, resveratrol na uva, etc.), entre outros componentes reconhecidamente benéficos à saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o consumo de pelo menos 400 g/dia destes alimentos, para que se possa obter um ganho nutricional expressivo na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.40 Isso significa que é preciso aumentar em ao menos três vezes o consumo diário médio atual de frutas, legumes e verduras da população brasileira, para que seja atingido este patamar.
39 Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª Edição, pg. 49, 2014.
40 Apud Jaime, P.C. et al - Fatores associados ao consumo de frutas e hortaliças no Brasil, 2006. Rev. Saúde Pública v.
43, supl. 2, p. 57-64, 2009.
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ANEXOS
ANEXO I – AÇÕES DESENVOLVIDAS PELAS VIGILÂNCIAS ESTADUAIS E MUNICIPAIS