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Reconhecimento por estima ou solidariedade

No documento Dissertação Ana Alice - UEFS (páginas 64-67)

3.2 Educação como luta por reconhecimento segundo a teoria de Honneth

3.2.2 Reconhecimento por estima ou solidariedade

Para além do reconhecimento jurídico, os sujeitos precisam “de uma estima social que lhes permita referir-se positivamente a suas propriedades e capacidades concretas”.

(HONNETH, 2009, p. 198). Em relação a esse tipo de reconhecimento, Honneth (2009)

afirma que Hegel nomeou de “eticidade” o reconhecimento próprio da estima mútua e, para Mead, esse reconhecimento se referia ao modelo de divisão do trabalho. Por conseguinte, diante dessa concepção, Honneth afirma que:

um padrão de reconhecimento dessa espécie só é concebível de maneira adequada quando a existência de um horizonte de valores intersubjetivamente partilhado é introduzido como seu pressuposto; pois o Ego e o Alter só podem se estimar mutuamente como pessoas individualizadas sob a condição de partilharem a orientação pelos valores e objetivos que lhes sinalizem reciprocamente o significado ou a contribuição de suas propriedades pessoais para a vida do respectivo outro.

(HONNETH, 2009, p. 199).

Então, Honneth (2009) apresenta um tipo de comunidade de valores: o reconhecimento por estima; logo, a estima social refere-se ao particular e tem o propósito de caracterizar os seres humanos em suas diferenças. Com isso, Honneth (2009, p. 199) diz que

“esse reconhecimento requer um medium social que deve expressar as diferenças de propriedades entre sujeitos humanos de maneira universal, isto é intersubjetivamente vinculante”, já o direito moderno reflete o medium de reconhecimento das propriedades universais dos sujeitos de forma diferenciada. Podemos afirmar que a lei pura ou a Política Institucional de Educação Inclusiva da UEFS cai na abstração e não dá conta dos casos concretos dos discentes com necessidades educacionais e, por isso o reconhecimento social é tão importante, na medida em que a estima faz com que reconheçamos o valor do outro.

Dessa forma, Honneth (2009) chama a atenção para o fato de que essa luta não está apenas na força simbólica, mas na capacidade que têm os movimentos sociais em influenciar o acolhimento das demandas coletivas por propriedade e por capacidades, na esfera pública, elevando assim o valor social e a reputação de seus membros e, por isso a importância da luta por reconhecimento dos discentes com necessidades educacionais da UEFS. Essa luta possibilita ampliar o olhar para a inclusão desses discentes no Ensino Superior, visando um trabalho coletivo de todos os membros da comunidade universitária, que reconhece e estima esses discentes, reforçando a prática de atenção psicossocial voltada para a inclusão no Ensino Superior.

Diante do que foi apresentado, Honneth (2009) afirma que a solidariedade nas relações de grupo pode gerar a experiência de resistência comum contra a repressão política, que vai produzir valores intersubjetivos, possibilitando que cada um aprenda e reconheça o significado das capacidades e das propriedades do outro. Segundo Honneth (2009, p. 210):

“na experiência partilhada de grandes fardos e privações, origina-se num átimo uma nova

estrutura de valores que permite mutuamente aos sujeitos estimar o outro por realizações e capacidades que antes não tiveram importância social”.

Destarte, para Honneth (2009) quando a pessoa é desrespeitada, em razão do reconhecimento, é retirado o assentimento social de sua autorrealização que foi conquistada pela solidariedade dos grupos. Mas, Honneth assegura que:

um sujeito, só pode referir essas espécies de degradação cultural a si mesmo, como pessoa individual, na medida em que padrões institucionalmente ancorados de estima social se individualizam historicamente, isto é, na medida em que se referem de forma valorativa às capacidades individuais, em vez de propriedades coletivas;

daí essa experiência de desrespeito estar inserida também, como na privação de direitos, num processo de modificações históricas. (HONNETH, 2009, p. 218).

Conforme o exposto, podemos reafirmar que a estima social é um fator preponderante para o reconhecimento do sujeito em uma comunidade de valores voltada para o respeito à diferença e à diversidade. Por isso, a importância da comunidade acadêmica da UEFS construir valores coletivos baseados no reconhecimento dos discentes com necessidades educacionais ao invés de desrespeitá-los.

Podemos dizer, com base na teoria do reconhecimento, que as lutas sociais propiciam a ampliação das relações de reconhecimento na construção de uma comunidade que vise uma concepção de “vida boa”, ou seja, estabelecendo a “eticidade”. Com isso, Honneth (2009) quis dizer que os indivíduos constroem uma relação positiva de si mesmos quando conseguem ser respeitados por todos os membros através da criação de uma comunidade de valores, que seja partilhada por todos numa construção coletiva e universal, isto é, pela eticidade.

Por conseguinte, Honneth (2009) afirma que nas sociedades modernas a solidariedade se coaduna com relações sociais simétricas de estima entre os sujeitos individualizados, ou seja, autônomos. Então, o autor expõe que:

estimar-se simetricamente nesse sentido significa considerar-se reciprocamente à luz de valores que fazem as capacidades e as propriedades do respectivo outro aparecer como significativas para a práxis comum. Relações dessa espécie podem se chamar “solidárias” porque elas não despertam somente a tolerância para com a particularidade individual da outra pessoa, mas também o interesse afetivo por essa particularidade: só na medida em que eu cuido ativamente de que suas propriedades, estranhas a mim, possam se desdobrar, os objetivos que nos são comuns passam a ser realizáveis. (HONNETH, 2009, p. 211, grifo nosso).

Isso posto, as relações solidárias tornam possível uma comunidade de valores compartilhada por todos que são simétricos entre si, por isso, vale ressaltar que:

simétrico significa que todo sujeito recebe a chance, sem graduações coletivas, de experienciar a si mesmo, em suas próprias realizações e capacidades, como valioso para a sociedade. É por isso também que só nas realizações sociais que tínhamos em vista com o conceito de “solidariedade” podem abrir o horizonte em que a concorrência individual por estima social assume uma forma isenta de dor, isto é, não turvada por experiências de desrespeito. (HONNETH, 2009, p. 211, grifo nosso).

O trabalho realizado pelo NAPP, GPT e GEPEE, que visa acolher as demandas dos discentes com necessidades educacionais com base na teoria do reconhecimento apresentada, poderá contribuir com as discussões da inclusão na comunidade universitária da UEFS ao reafirmar que as relações estabelecidas com esses discentes devem ser solidárias e primar pelo respeito aos direitos desses discentes.

No documento Dissertação Ana Alice - UEFS (páginas 64-67)