4 VIOLÊNCIA E CLÍNICA
A segunda opção se referia a um rapaz com quem a jovem havia se envolvido há algum tempo, pouco antes de se envolver com o pai de seu filho. Tratava-se de um homem 15 anos mais velho que ela e que morava em uma comunidade próxima à praça onde Juliana ficava. Conheceram-se em uma cena de uso de substâncias psicoativas e a relação deles era apenas sexual. Nunca perdeu o contato com Juliana e, de tempos em tempos, a assediava para que tivessem relações sexuais. Ao saber de sua gravidez, convida-a para morar em sua casa no intuito de assumir a paternidade de seu filho. Juliana se decide por essa opção e se justifica abraçando seu filho: “eu fiz isso por ele”.
Morar com esse homem fez a vida de Juliana mudar completamente. Seu atual parceiro provia a casa e a comida, mas, em troca disso, exigia dela que não falasse com nenhum outro homem, que não saísse de casa sem sua companhia, que mantivesse sua casa sempre limpa e arrumada e que a jovem nunca negasse sexo quando ele quisesse. Toda vez que ela deixava de cumprir alguma de suas exigências, seu parceiro a espancava e jogava em sua cara que ela estava sozinha no mundo, que se saísse da casa dele perderia seu filho para a justiça.
Juliana morria de medo de perder seu filho para a justiça. Achava que, caso isso ocorresse, seu filho teria o mesmo destino que o dela. Não queria que seu filho sofresse tudo que sofrera, passasse por tudo que passou. Então, por seu filho, a jovem permanecia na casa desse parceiro.
Durante o tempo em que Juliana ali esteve, o pai de seu filho reapareceu. A jovem passou a temer pela vida de seu antigo namorado, pois seu atual parceiro já havia falado para toda a comunidade que o filho que ela carregava era dele. Como sua vivência com ele mostrava que se tratava de uma pessoa bem agressiva e violenta, achava que se ele soubesse quem era o pai poderia fazer algum mal a este. Assim, envia uma mensagem através de um de seus “irmãos de pista” endereçada ao pai de seu filho, dizendo que não a procurasse, pois, agora, ela estava em outro relacionamento. Mais uma vez a jovem se justifica: “precisei fazer isso. Não tinha outro jeito”. Abraçou o seu filho e disse novamente: “eu fiz isso por ele”.
Depois disso, o pai de seu filho sumiu e só voltou a aparecer tempos depois, após a jovem já ter dado à luz.
Certo dia, Juliana foi surpreendida por uma notícia. Descobriu que seu atual parceiro havia estuprado uma jovem num local próximo à praça onde ela vivia. Isso foi o estopim para ela. Até então, havia suportado todos os excessos dele, mas isso foi demais para ela. Decide, então, pedir ajuda para seu irmão biológico, pois julgava que a praça não era o melhor lugar para ficar na condição de grávida. Arruma suas coisas e espera seu parceiro chegar em casa,
pois estava trancada no local. Quando deu a notícia a seu parceiro, este a espancou. Juliana conta que tentou proteger a barriga, mas, mesmo assim, ele deu muitos chutes em suas costelas. Durante seu espancamento, Juliana consegue golpeá-lo e, enquanto seu parceiro se recuperava, correu para fora de casa, sem suas coisas, apenas com a roupa do corpo. As últimas palavras dele foram: “não importa para onde você vá, eu irei atrás de você. Acabarei com sua raça e com quem estiver com você!”.
Essas palavras fizeram Juliana repensar seus planos: “Como poderia voltar para casa do meu irmão e colocar ele, sua esposa e seus filhos em risco? Não podia fazer isso com ele”.
Se antes a vergonha a impedia de retornar para a casa de seu irmão biológico, agora, o medo se somava à vergonha. O mesmo poderia acontecer se retornasse à praça, mas lá ela se sentia mais protegida e sabia que seu parceiro não faria mal a ela e a seus “irmãos de pista” com tanta facilidade. Sendo assim, ela decide retornar à praça, local onde fica até ser acolhida pela instituição da assistência, conforme os acontecimentos já narrados.
A violência é uma marca na vida de Juliana. Esse foi apenas um entre vários relatos feitos pela jovem sobre os momentos em que a violência compareceu em sua vida. É em torno das situações violentas que a história de sua vida é narrada e, por isso, a violência se naturalizou não só como um passado vivido, mas também como um destino já esperado. Ao escutar esse relato, foi perguntado para Juliana: “por que você sempre se sacrifica por alguém?” A jovem não respondeu nada. Apenas chorou. Algumas semanas depois, aconteceu um conflito na casa entre a jovem e outra mulher acolhida na instituição. Juliana, ao ser acolhida, perguntou: “porque todos me machucam?” A partir disso, suas consultas passaram a girar em torno desta questão: “ser machucada/ deixar ser machucada”.
A escuta de situações em que a violência comparece é um exercício muito delicado.
Primeiramente porque os limites entre os envolvidos parecem não conseguir ser bem delimitados. Isso fica mais claro, à medida em que vamos nos questionando sobre a parcela de responsabilidade de cada um nos acontecimentos que deslancharam a situação de violência – o que fez cada um para que chegasse a tal ponto? O que é seu e o que é do outro? Isso se radicaliza quando vemos o fenômeno por meio de narrativas diferentes. Dependendo do ponto de onde se escuta, não se sabe quem é a vítima e quem é o agressor no evento violento. Além disso, existe um risco muito grande de intervenções que podem cair em uma dialética de culpabilização daquele que foi atravessado pela violência. Desse modo, como poderíamos operar o dispositivo da psicanálise respeitando essas delicadezas?