Define a CRFB/88, em seu art. 7º, inciso XIV95:
Art. 7º: São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
XIV - jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva;
Como visto, só é aceita a jornada ininterrupta de seis horas, ou ainda menor, caso assim seja acordado em negociação coletiva. Em
94 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 2006 p. 192
95 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.11
caso de jornada superior, é necessário que seja estipulado período de descanso, no que reza o art. 71 da CLT96:
Art. 71 - Em qualquer trabalho contínuo, cuja duração exceda de 6 (seis) horas, é obrigatória a concessão de um intervalo para repouso ou alimentação, o qual será, no mínimo, de 1 (uma) hora e, salvo acordo escrito ou contrato coletivo em contrário, não poderá exceder de 2 (duas) horas.
Da inobservância do disposto acima, correrá por parte do empregador a necessidade de pagamento de adicional sobre o valor pago por hora de trabalho, como define o §4º do mesmo artigo97:
§ 4º - Quando o intervalo para repouso e alimentação, previsto neste artigo, não for concedido pelo empregador, este ficará obrigado a remunerar o período correspondente com um acréscimo de no mínimo 50% (cinqüenta por cento) sobre o valor da remuneração da hora normal de trabalho.
Ocorre que, não raro, as Convenções Coletivas de Trabalho abordam tal intervalo, minimizando-o ou até mesmo suprimindo o período de descanso nas cláusulas. Apesar do Direito do Trabalho prestar homenagem à seara conciliatória, tal possibilidade é inexistente, uma vez ser o período de descanso de uma hora ser considerado condição para redução de riscos inerentes ao trabalho, ao título de norma de segurança, uma vez que visa evitar a estafa do empregado.
Com efeito, este é o entendimento da Orientação Jurisprudencial nº 342, SDI – I98:
É inválida cláusula de acordo ou convenção coletiva de trabalho contemplando a supressão ou redução do intervalo intrajornada porque este constitui medida de higiene, saúde e
96 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.127
97 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.127
segurança do trabalho, garantido por norma de ordem pública (art. 71 da CLT e art. 7º, XXII, da CF/1988), infenso à negociação coletiva.
Cabe também a citação ao inciso XXII do art. 7º da CRFB/88 mencionado na OJ99:
XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;
Em síntese, o intervalo intra-jornada mínimo de uma hora em casos de jornada contínua superior a oito horas é requisito obrigatório no contrato de trabalho, não podendo ser suprimido, ainda que a Convenção Coletiva que o minore tenha sido devidamente aprovada e esteja em plena vigência. A título de exemplo prático, veja-se da decisão da 3ª Turma do TRT 10 – DF, por Coutinho100:
EMENTA: COMPANHIA DO METROPOLITANO DO DISTRITO FEDERAL. ACORDO COLETIVO DE TRABALHO QUE FLEXIBILIZA O INTERVALO INTRAJORNADA. A avença coletiva impõe disciplina equivocada sobre o intervalo intrajornada, uma vez que burla norma que tem por objetivo proteger a saúde e a segurança do trabalho, preservando a higidez física e mental do obreiro durante a prestação diária de serviços (Maurício Godinho Delgado, in Curso de Direito do Trabalho), ou seja, viola a inovação legislativa prevista no art.
71, § 4º da CLT que tem por escopo obstar o abuso dos empregadores ao não conceder o descanso intrajornada ao empregado. Dentro deste contexto, é forçoso concluir que a regra convencional, resultante na concessão de tempo inferior a uma hora de intervalo quando a jornada de trabalho diária é
98 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.1537
99 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.12
de 8 horas, atrai a aplicação da norma do §4º, do Artigo 71, da CLT. Recurso conhecido e provido.
A ementa citada aborda norma convecional em específico, com a seguinte redação, conforme apresenta o acórdão da ementa supra transcrita:
28ª JORNADA DE TRABALHO - A jornada de trabalho dos empregados do METRÔ-DF, mesmo quando em treinamento, será fixada de acordo com as necessidades administrativas e operacionais e terá duração média de 8 (oito) horas diárias, perfazendo a média anual de até 40 (quarenta) horas semanais.
PARÁGRAFO PRIMEIRO - Os empregados que desenvolvem atividade de operação e manutenção, poderão ter jornada média de 8 (oito) horas, com intervalo de 30 (trinta) minutos, nela inclusos, para refeição ou descanso. A jornada será fixada mediante combinação de escalas fixas em turnos ininterruptos, conforme previsto no item XIV, DO art. 7º, da Constituição Federal) (fls. 278/279)101.
Em análise da cláusula, aborda, ao final:
(...)
Dentro deste contexto, é forçoso concluir que o equívoco constante em norma convencional, resultante na concessão de menos de uma hora de intervalo intrajornada quando a jornada de trabalho diária é de 8 horas, por si só, atrai a aplicação da norma prevista no art. 71, §4º da CLT.
100 Juiz Grijalbo Fernandes Coutinho. Acórdão TRT-00076-2007-006 3ª Turma Do TRT 10.
Disponível em: < http://diap.ps5.com.br/file/1493.doc >. Acessado em: 22 out. 2008.
101 Juiz Grijalbo Fernandes Coutinho. Acórdão TRT-00076-2007-006 3ª Turma Do TRT 10.
Disponível em: < http://diap.ps5.com.br/file/1493.doc >. Acessado em: 22 out. 2008.
Ao violar a regra, independente do tempo destinado ao intervalo, a empregadora arca com a totalidade de indenização prevista no Artigo 71,§ 4º, da CLT.
O fato de o acordo coletivo de trabalho autorizar o intervalo de trinta minutos para jornada de oito horas, não exclui, por si só, a obrigatoriedade legal de concessão do intervalo mínimo de 1 hora, previsto no art. 71, caput, da CLT, em face de sua notória ilegalidade. Não é condição mais benéfica para o empregado toda e qualquer ação tendente a comprometer a sua saúde física e mental.
Isso porque, o intervalo intrajornada é garantido por norma de ordem pública, cuja negociação coletiva de caráter reducionista é inconstitucional e ilegal. 102
O exemplo abordado acena em anuência ao já exposto aqui: a cláusula de Convenção Coletiva que torne o intervalo intra-jornada mais exíguo que o mínimo de uma hora é, via de regra, inválida, sendo indiferente a existência desta no pleito ao percebimento à verba trabalhista do art. 71, §4º da CLT. Com efeito, o único modo de diminuir a hora mínima é nos termos do §3º do art. 71103, in verbis:
§ 3º - O limite mínimo de 1 (uma) hora para repouso ou refeição poderá ser reduzido por ato do Ministro do Trabalho quando, ouvida a Secretaria de Segurança e Higiene do Trabalho, se verificar que o estabelecimento atende integralmente às exigências concernentes à organização dos refeitórios e quando os respectivos empregados não estiverem sob regime de trabalho prorrogado a horas suplementares.
102 Juiz Grijalbo Fernandes Coutinho. Acórdão TRT-00076-2007-006 3ª Turma Do TRT 10.
Disponível em: < http://diap.ps5.com.br/file/1493.doc >. Acessado em: 22 out. 2008.
103 HORCAIO, Ivan. Vade mecum trabalhista. 2005. p.127
Como se vê, a redução só é admita por ato do próprio Ministério do Trabalho, e somente quando este tomar como conveniente esta, verificando que o local de trabalho apresenta refeitório nos termos do regulamentado e os empregados não estiverem em regime de trabalho prorrogado a horas suplementares.
Não há de se confundir esse ato administrativo do Ministério do Trabalho com o depósito da CCT na DRT; tampouco se deve entender que a aprovação da redução pelos empregados substitua a necessidade da intervenção ministerial.
Também se alinha a este entendimento o Egrégio Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina, conforme dispõe, em acórdão104:
Ementa: INTERVALO INTRAJORNADA. REDUÇÃO.
PREVISÃO EM NORMA COLETIVA. INVALIDADE. Segundo entendimento do Colendo Tribunal Superior do Trabalho, consubstanciado na Orientação Jurisprudencial nº 342 da SDI-1,
"é inválida cláusula de acordo ou convenção coletiva de trabalho contemplando a supressão ou redução do intervalo intrajornada porque este constitui medida de higiene, saúde e segurança do trabalho, garantido por norma de ordem pública (art. 71 da CLT e art. 7º, XXII, da CF/1988), infenso à negociação coletiva".
(...)
Para que seja possível a redução do intervalo intrajornada, necessário que seja respeitado o disposto no § 3º do art. 71 da CLT, expresso nos seguintes termos: o limite mínimo de uma hora para repouso ou refeição poderá ser reduzido por ato do Ministro do Trabalho, quando, ouvida a Diretoria de Relações de
104 - Juiz Gerson P. Taboada Conrado. Acórdão Nº: 02281-2007-048-12-00-4. Publicado no TRTSC/DOE em 09-10-2008. Disponível em:
Trabalho, se verificar que o estabelecimento atende integralmente às exigências concernentes à organização dos refeitórios e quando os respectivos empregados não estiverem sob regime de trabalho prorrogado a horas suplementares.
A previsão nas normas coletivas, legitimando a redução do intervalo mínimo intrajornada, não afasta o requisito legal acerca da exigência de autorização do Ministério do Trabalho e Emprego. Assim, constatada a inobservância do pressuposto legal que autorizaria, em tese, a redução do intervalo, outra não é a conseqüência da infração, que não a condenação da empresa ao pagamento, como extra, do tempo correspondente à supressão do intervalo intrajornada.
Assim, ante o exposto, desenha-se claro a impossibilidade de isenção ou diminuição do intervalo intra-jornada abaixo do mínimo legal de uma hora com base tão somente em disposto em norma coletiva, sendo cláusula de CCT que disponha em contrário inválida. Validá-la sem o devido acinte do Ministério do Trabalho seria ferir direito assistido ao empregado do descanso e comodidade necessários para que possa exercer sua atividade de maneira saudável e digna.
3.3 CLÁUSULA QUE PREVÊ A OBRIGATORIEDADE DE ASSOCIAÇÃO OU