PROMOVENDO AÇÕES EDUCATIVAS SOBRE TOXOPLASMOSE ENTRE
apresentar até 100% de chance de transmissão ao feto (ROBERT-GANGNEUX et al., 2012;
REMINGTON et al., 2015).
A infecção da gestante ocorre por via oral por meio da ingestão de cistos teciduais presentes em carne crua ou mal cozida e/ou ingestão acidental de oocistos eliminados pelas fezes de felídeos e dispersos em água ou solo (CUNHA et al., 2016; MONTOYA et al., 2008; TENTER et al., 2000).
O protozoário pode atravessar a placenta, e infectar o feto, podendo-o levar a diversas consequências como a morte intrauterina, retardamento mental, coriorretinite e cegueira (EVANGELISTA et al., 2017). A transmissão congênita pode culminar em diversos resultados dependendo da cepa, virulência e genótipo do agente associado, bem como da imunidade da gestante, parasitemia materna, idade gestacional e quimioterapia instituída (CARNEIRO et al., 2013).
A educação em saúde é a única estratégia capaz de reduzir os riscos de exposição das gestantes ao T. gondii (RODRIGUES et al., 2015; MOURA et al., 2016). A prevenção é a medida mais eficaz para combater a toxoplasmose gestacional (RODRIGUES et al., 2015; EVANGELISTA et al., 2017; MOURA et al., 2016). A prevenção primária inclui programas de educação em saúde voltados principalmente para gestantes soronegativas;
a prevenção secundária baseia-se no rastreamento sorológico para detecção de soroconversão; e a prevenção terciária atua sobre o recém-nascido infectado, evitando o desenvolvimento de sequelas por meio da instituição de tratamento (PAUL et al., 2001;
CONTIERO-TONINATO et al., 2014).
No Brasil, inexistem notificações de toxoplasmose congênita em muitas localidades, o que dificulta a vigilância do agravo além do fato de que muitas mulheres ainda não realizam o pré-natal ou procuram o serviço de maneira tardia, o que dificulta o controle efetivo da doença (ROSA et al., 2014; VAZ et al., 2011).
As taxas de incidência de toxoplasmose congênita no Brasil são variáveis dependendo da região do país analisada e do método diagnóstico empregado e situam-se entre 0,2 a 5,0 casos por mil 1.000 nascimentos (NETO et al., 2000; SEGUNDO et al., 2004). Pesquisa realizada em São José do Rio Preto no estado de São Paulo verificou infecção por T. gondii em gestantes com soroprevalência de 2% para anticorpos IgManti-T. gondii (MATTOS et al., 2011).
A identificação do conhecimento das gestantes sobre a doença permite a utilização de uma abordagem profissional mais adequada (EVANGESLITA et al., 2017), focando nos
possibilitando a compreensão mais exata sobre a história natural da doença, o que permite uma melhor prevenção (BERNARDES et al., 2008).
O objetivo do trabalho foi relatar as experiências vivenciadas durante as ações educativas desenvolvidas com gestantes atendidas em uma unidade da atenção primária, sobre a temática da toxoplasmose, suas formas de transmissão e prevenção.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um relato de experiência de um projeto de extensão realizado durante o Curso de Especialização em Saúde Pública da Universidade Federal do Acre. O projeto foi desenvolvido no mês de setembro de 2017 na Unidade de Saúde da Família Dr. Nímio Insfran Martinez no município de Rio Branco, Acre. Participaram das atividades do projeto grávidas entre o primeiro e segundo trimestre de gestação, vinculadas ao grupo de gestantes da unidade de saúde.
Utilizou-se como estratégia metodológica para a realização do projeto a pesquisa- ação, um método que une técnicas de pesquisa social, com as quais se forma uma estrutura coletiva, participativa e ativa no nível da captação da informação, exigindo, portanto, a participação direta das pessoas envolvidas no problema investigado (GONÇALVES et al., 2004).
Durante o projeto de extensão foram realizados 4 encontros onde foram aplicadas as fases da pesquisa-ação:
a) Fase exploratória: realizou-se a aplicação de um questionário no intuito de identificar os pontos críticos do conhecimento sobre a toxoplasmose e as características sociodemográficas das gestantes.
b) Fase de planejamento das ações: foram definidas, juntamente com as gestantes, as formas de abordagens que seriam utilizadas nas ações e atividades, tendo sido delimitada nesta fase a realização de palestras e rodas de conversa.
c) Fase de execução: foi dividida em 2 encontros onde foram abordados os temas:
O que é toxoplasmose, formas de prevenção e mitos sobre a transmissão. Os encontros iniciavam com a realização de uma palestra com exibição de slides utilizando ferramentas de animação, notícias e um design adaptado às gestantes. Ao final de cada palestra,
realizava-se uma roda de conversa com o objetivo de fomentar a participação de cada participante sobre seu entendimento, dúvidas e experiências sobre a temática apresentada.
d) Fase de avaliação: foi realizada de forma contínua durante o decorrer da pesquisa- ação, atentando-se ao nível de participação das gestantes no que se refere às respostas dadas aos questionamentos e aos relatos pessoais sobre a temática. Após o término dos encontros, era redigido pelos pesquisadores um relatório como forma de registro dos discursos das participantes e percepção dos pesquisadores.
Os dados quantitativos foram digitados no programa Microsoft Excel onde foram calculadas as frequências absolutas e relativas. Para a análise qualitativa, realizou-se a leitura e análise das respostas e relatos para identificação das ideias principais, expressões e reações das gestantes.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram dos encontros 16 gestantes, sendo que a maioria encontrava-se na faixa etária entre 18 e 24 anos (59,0%), tinha ensino fundamental (34,0%), cor parda (73,0%), casada (64,0%) e com renda familiar de até um salário mínimo (67,0%). Quanto ao número de gestações, a maior parte era multípara (42,0%) e relataram ter realizado o exame sorológico para toxoplasmose (58,0%).
Na pesquisa realizada por Dias et al. (2011) sobre fatores associados à infecção por T. gondii em gestantes atendidas nas Unidades Básicas de Saúde de Rolândia – Paraná, identificou-se a baixa escolaridade, baixa renda familiar e mais de uma gravidez como fatores de risco para a toxoplasmose gestacional. Em outro estudo realizado por Câmara et al. (2015) com 561 gestantes verificou-se associação entre a infecção por T.
gondiie e multiparidade. De forma semelhante, Bittencourt et al. (2012) verificaram que o baixo nível de escolaridade e mais de uma gestação foram fatores de risco para a toxoplasmose. De acordo com Avelar (2013), as características sociodemográficas são importantes aspectos no ciclo de transmissão da doença, tendo em vista que as baixas condições socioeconômicas propiciam a condições ambientais e comportamentais que favorecem a disseminação do agente, principalmente durante o período gravídico.
Em relação ao conhecimento sobre o tema, dentre os diversos aspectos analisados, verificou-se que as formas de transmissão e prevenção da toxoplasmose foram os pontos que as gestantes apresentaram maior deficiência de informações, conforme relatos abaixo:
“É só não criar gato em casa.” (Gestante 1, 20 anos);
“Gato é um perigo nisso.” (Gestante 2, 18 anos);
“Tem que evitar pegar em gato, essas coisas.” (Gestante 3, 21 anos);
“É um perigo essas coisas de gato.” (Gestante 4, 23 anos);
“Parece que mata até o bebê né?” (Gestante 5, 19 anos).
Também ficou evidente a forte crença popular de que o principal agente transmissor da toxoplasmose para as gestantes é o gato doméstico. Neste sentido, os relatos evidenciaram a ideia equivocada de que apenas criar gato doméstico próximo a gestante é o fator de risco para transmissão da doença.
Uma das gestantes demonstrou o posicionamento de que o simples contato com o gato era suficiente para a transmissão da toxoplasmose ao referir:
"Eu não quero nem chegar perto de gato, minha irmã teve que se livrar até dos dela”
(Gestante 6, 22 anos).
Segundo, Fragata (2014) estes posicionamentos e conhecimentos reforçam e contribuem para o abandono de gatos em virtude do receio de gestantes em adquirir a toxoplasmose.
De todas as gestantes, apenas uma descreveu a forma correta de transmissão da doença ao dizer:
“Parece que pega ingerindo as fezes do gato e também através da alimentação”
(Gestante 7, 25 anos).
Contudo, a maioria das grávidas demonstrou entender que a toxoplasmose era adquirida através do simples contato com o animal felino, fato este que pode prejudicar a prevenção efetiva da doença, uma vez que o desconhecimento sobre o modo correto de infecção propicia risco de exposição ao agente.
De acordo com Moura et al. (2016), a baixa escolaridade e nível socioeconômico são importantes fatores determinantes para o baixo conhecimento sobre toxoplasmose entre as gestantes, fato este que pode justificar os resultados encontrados na presente pesquisa.
Durante os encontros, constatou-se uma surpresa das gestantes sobre as principais formas de transmissão da toxoplasmose que seriam a ingestão de alimentos não higienizados ou através do consumo de carne crua ou mal passada. Durante as rodas de conversa percebeu-se que nenhuma das gestantes sabia que existiam outros animais, como bovinos, suínos e silvestres participando do ciclo epidemiológico de T. gondii, além do gato doméstico, confirmado pelo relato:
“Não fazia ideia que se pudesse pegar toxoplasmose pela comida” (Gest.8, 23 nos).
O estudo realizadom por Branco et al. (2012) em Maringá – Paraná, apontou que 42,0% das gestantes entrevistadas consumiam carne crua, 13,63% afirmaram consumir leite in natura e 20,84% relataram não lavar utensílios ao trocar de alimento. Apenas 16,23% disseram ter recebido alguma informação sobre a prevenção da toxoplasmose durante a gestação.
Ao final dos encontros verificou-se efeito positivo das ações e atividades, pois quando questionadas as gestantes passaram a responder corretamente sobre as formas de transmissão e prevenção da doença, conforme relatos abaixo:
“Tem que lavar verduras e alimentos.” (Gestante 2, 18 anos);
“Limpar a caixa de areia do gato direito.” (Gestante 6, 22 anos);
“Comer carne de boa procedência e bem cozida.” (Gestante 4, 23 anos);
O medo eminente de contato com o felino doméstico demonstrado no início da pesquisa-ação, constatado no questionário inicial foi substituído por uma compreensão de que boas práticas de higiene e manejo são mais importantes do que evitar o total toque à superfície da pele ou pelos do gato, constatado pelo relato:
“Não é preciso se livrar dos gatos e só tomar os cuidados necessários na hora de fazer a comida”(Gest. 1, 20 anos).
Boas práticas de higiene e alimentação das gestantes são suficientes para prevenir a toxoplasmose gestacional e congênita. Para isso, a prevenção da toxoplasmose é a estratégia mais importante a ser utilizada (BRANCO et al., 2012).
Trabalhos realizados na Europa demonstram que a educação em saúde voltada para a toxoplasmose gestacional provocou redução de 63,0% na taxa de soroconversão materna (FOULON et al., 1994). Na Polônia, por exemplo, o conhecimento populacional sobre os fatores de risco associados ao modo de infecção pelo T. gondii quase dobrou em quatro anos de atividades de educação em saúde (PAWLOWSKI et al., 2001).
4. CONCLUSÃO
As respostas iniciais sobre o conhecimento da doença mostraram que as gestantes desconheciam as principais vias de infecção e as formas de transmissão e prevenção da toxoplasmose, porém depois das ações e atividades de educação em saúde houve ampliação do conhecimento sobre a doença entre as participantes.
Dessa forma, ficou evidente a necessidade de se estabelecer medidas de educação em saúde voltadas para a prevenção da toxoplasmose, uma vez que o conhecimento adequado leva a uma redução concreta dos riscos de exposição.
5. REFERÊNCIAS
AVELAR, J.B. Toxoplasmose crônica em gestantes. Avaliação da prevalência, fatores de risco e acompanhamento de um grupo de recém-nascidos em Goiânia – Goiás.
2013. 105 f. Tese (Doutorado em Medicina Tropical e Saúde Pública) Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2013.
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BITTENCOURT, L.H.F.B. et al. Soroepidemiologia da toxoplasmose em gestantes a partir da implantação do Programa de Vigilância da Toxoplasmose Adquirida e Congênita em municípios da região oeste do Paraná. Rev Bras Ginecol Obstet., v.34, n. 2, p. 63-68, 2012.
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CARNEIRO, A. et al. Genetic Characterization of Toxoplasma gondii Revealed Highly Diverse Genotypes for Isolates from Newborns with Congenital Toxoplasmosis in Southeastern Brazil. Journal of Clínical Microbiology., v. 51, p. 901-907, 2013.
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