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Relendo imagens, pensando representações

geral.

A obra que serviu como referência para o trabalho chama-se “Rapaz com cachimbo”, feita em 1905 por Pablo Picasso. Não discutiremos aqui o que poderia ou não estar representado na imagem, nos interessa a maneira como os jovens reconfiguraram a imagem inicial, e como, a partir de um mesmo referencial, é possível vislumbrar a diversidade de produções resultantes. As releituras deram-se com a proposição de manter o posicionamento inicial do jovem retratado na obra, reconfigurando e contextualizando sua natureza nos desenhos produzidos.

A própria atividade do desenho já nos remete a uma natureza orgânica e artesanal do trabalho, tarefa nem sempre encarada positivamente pelos alunos dessa faixa etária (entre 14 e 16 anos). Alguns jovens encaram essa atividade como uma referência ao universo infantil, criando certa resistência em aceitá-la como possibilidade de experimentar habilidades frustradas ao longo da vida escolar.

Além da constatação desta resistência inicial, ora justificada pela falta de coordenação para exercer tão tarefa, ora questionada por seu propósito duvidoso ao se tratar de adolescentes e não crianças, torna-se perceptível um desconforto que vai além das primeiras impressões. Alguns alunos insinuam certo constrangimento ao “se expor” produzindo um desenho.

Após as primeiras aulas, desenvolvendo um grau de aproximação com os alunos, costumo deixar clara a seguinte proposição: ao criar deixamos, com mais ou menos intensidade, um pouco de nós neste vestígio que é o trabalho resultante. Nele não finda nossas intenções, nem cabe uma ideia inteira, ele vira a parte que sobra da costura entre pensamento, sensação e memória. Na experiência do desenho, esse pouco de nós é talvez ainda mais perceptível, já que além da imagem produzida, e de tudo que ela carrega como relações possíveis, temos o gesto pessoal impregnado a partir da matéria. Gesto que se mostra intensamente nesta simples atividade de releitura.

Ainda que consideremos a habilidade como um instrumento importante para a produção de um desenho, já que este é resultante de uma tradução do que se inicia no olhar, atravessando a cognição e os sentidos, é possível perceber que sua manifestação vai além desta constatação inicial. Habilidades técnicas e inventivas cruzam-se às experiências pessoais e coletivas, trazendo para a superfície do papel resoluções deste espaço que ultrapassam fórmulas ou regras estéticas.

A partir destas reflexões iniciais, lançamos nosso olhar de fato para os desenhos de quatro alunos, que aqui identificaremos como: Paulo, Patrícia, Mateus e Moisés.

Figuras 9 e 10. “Rapaz com cachimbo”, 1905, Pablo Picasso e releitura de Paulo.

Fonte: EEEFVM, 2016. Registro pessoal de trabalho realizado por alunos em sala de aula.

Paulo produz sua releitura com certo grau de aproximação, preservando alguns detalhes da imagem observada, nos fazendo pensar no próprio sentido de reprodução e de semelhança. Sejam nas dobras da roupa ou na expressão facial, vemos o resultado de um olhar minucioso para a obra que serviu de referência. Cruzaremos a observação das imagens à proposição de Gagnebin, que trata de semelhança e reprodução, analisando sua reflexão a seguir:

Com efeito, tendemos demais a assimilar semelhança, similitude (Ä hn lichkeit) com reprodução (Abbildung), a pensar que a imagem de uma coisa é a sua cópia. Ou ainda, a definir a semelhança em termos de identidade, dizendo que dois objetos são semelhantes quando apresentam um certo número de mesmos traços. Benjamin tenta pensar a semelhança independentemente de uma comparação entre elementos iguais, como uma relação analógica que garanta a autonomia da figuração simbólica. A atividade mimética sempre é uma mediação simbólica, ela nunca se reduz a uma imitação (GAGNEBIN, 1993, p. 80).

“Pensar que a imagem de uma coisa é a sua cópia” conduziria em um esvaziamento do sentido próprio do referencial e das imagens produzidas a partir dele. Essa atividade mimética de que trata Gagnebin carrega em seu cerne, em maior ou menor grau, as experiências que trazem o rastro do passado e as perspectivas do novo às produções humanas. Podemos supor, ao olhar para a imagem produzida por Paulo, que sua feitura atravessou um pedaço de tempo e que esse processo acarretou em uma variedade de pensamentos e sensações. No entanto,

nunca saberemos de fato o que foi produzido em Paulo, para além da imagem resultante que observamos. Assim, a releitura jamais encerraria em si mesma o acontecimento que culminou nela, dando à atividade mimética um caráter processual que extrapola sua natureza como princípio de reprodução.

Figura 11. Releitura de Patrícia

Fonte: EEEFVM, 2016. Registro pessoal de trabalho realizado por alunos em sala de aula.

O “rapaz com cachimbo” de Patrícia adquire uma fisionomia bem diferente da imagem referencial, ganha uma máscara em seus olhos e dois acompanhantes inusitados nos ombros. Uma relação sutil entre representações do “bem” e do “mal” se faz ao redor da figura principal, assim a imagem passa a carregar uma metáfora de forças opostas.

A releitura provém muito mais das reflexões de Patrícia, instigadas pela imagem referência, do que dela em si. E esse caminho que o processo criativo faz até culminar na imagem resultante é um percurso de infinitas vias, e os embates que se dão no silêncio desse acontecimento são impulsionados por memórias e trajetórias, que se cruzam com a experiência do presente.

A imitação é essa vida secreta e veicular das formas. O sensível exprime metafisicamente essa capacidade secreta de absoluta transmissibilidade e de infinita apropriabilidade das formas. A imagem não é, assim, apenas o absolutamente transmissível, mas também o infinitamente apropriável” (COCCIA, 2010, p. 59).

Figura 12. Releitura de Mateus

Fonte: EEEFVM, 2016. Registro pessoal de trabalho realizado por alunos em sala de aula, .

Mateus reconfigura drasticamente a imagem observada, a coloca de fato em outro tempo. Utilizando referências imagéticas da atualidade, transforma o “rapaz com cachimbo”, de um século atrás, em um jovem que poderíamos encontrar nas esquinas do nosso tempo. O boné e as marcas impressas nele, as letras no casaco e o cordão de diamante nos remetem ao consumo e ao status tão impregnados na sociedade atual.

Torna-se clara uma das tantas possibilidades de contextualização a partir de uma mesma imagem, e esta interpretação traz os símbolos que são repetidos no universo de Mateus e de tantos outros jovens. Marcas e estilos orientam a forma como muitos jovens se apresentam no mundo, ao mesmo tempo em que expõem uma reflexão latente sobre as visões

que produzem sobre ser e ter.

As formas de expressão dos jovens produzem símbolos que se renovam em uma relação mútua entre tendências que o mercado apresenta e as maneiras de viver e de se fazer ver destas juventudes. Assim, o discurso de uma via única, onde os jovens são influenciados exclusivamente pelo que é produzido a partir do mercado, limita e torna superficial qualquer leitura sobre suas escolhas.

Quando Mateus desenha marcas na roupa e nos adereços da figura que retrata, ele de fato localiza sua representação em um tempo e imprime determinado valor cultural à figura.

Mas se pensarmos nas estratégias de mercado que partem das representações juvenis como foco de produção, é possível identificar uma via de mão dupla, onde os jovens são consumidores e, ao mesmo tempo, referenciais que movimentam esse mercado produtivo.

Na escola estes jovens desfilam suas referências visuais numa variedade que multiplica a lógica do se sentir comum. E as mesmas peças, os mesmos objetos, as mesmas formas de configurar esteticamente os slogans que carregam em seus corpos, deixam de ser

“mesmas” na medida em que dialogam com suas maneiras próprias de se movimentar, de se expressar e de imprimir sua presença no mundo.

Figura 13. Releitura de Moisés.

Fonte: EEEFVM, 2016. Registro pessoal de trabalho realizado por alunos em sala de aula.

Moisés desvencilha-se da forma de representação “limpa” e ordenada da obra referência, trazendo uma carga expressiva para o desenho que nos remete ao próprio gesto como característica que confirma a presença física do criador na imagem. O caráter artesanal do desenho se faz presente, a força que Moisés imprime em cada traço, a intensidade maior ou menor de resolver cada parte do trabalho não se perdeu, ao menos totalmente, com qualquer ato de correção que possa ter acontecido ao longo do processo de produção do trabalho. O tempo objetivo gasto ao se fazer o desenho não pode ser contabilizado em seu resultado, mas a expressão desse tempo e da mão de quem o produziu aparece como rastro no que nos é visível.

A imagem da obra utilizada como referência para o trabalho já é em si uma releitura de outra realidade. Não é de fato o “rapaz com cachimbo”, não sabemos nem se o rapaz e o cachimbo existiram de fato. Não sabemos se, caso tenham existido, são representados com certa aproximação da realidade. Independente disso, por ser uma pintura, resultado de material impregnado a uma superfície, já é outra coisa, carrega uma significação que o real não contém.

Por sua vez, o desenho de Moisés também é outra coisa, descolada da obra referência e ainda mais distante da realidade que a inspirou. Seu desenho não é “expressão codificada de um pensamento ou de um sentimento”, e se ele já não é uma tradução do que acarretou o gesto inicial, nossa reflexão sobre o desenho se apresenta definitivamente como outra coisa que não um discurso definitivo sobre o que vemos.

Se permitir lançar e repetir olhares sobre as imagens, pode ser uma chave para resgatar ao menos os vestígios do “que se agita em meu frasco” (BARTHES, 1984, p.24). É “o que se agita” que se possibilita revisitar, já que a produção de saberes sobre si e sobre o outro se intensifica a partir de revisitações. Revisitar as imagens produzidas pelos jovens permite redefinir a experiência do tempo, resgatar sentidos que permanecem empilhados nas camadas sobrepostas de memórias.

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