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Representações sociais e seus processos formadores

CAPÍTULO I REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E EDUCAÇÃO: PERSPECTIVA

1.1. A Teoria das Representações Sociais

1.1.3. Representações sociais e seus processos formadores

41 Conforme abordado anteriormente, a TRS se apresenta com uma teoria que busca investigar a construção das representações de forma a evidenciar como se dá este processo desde o momento da assimilação do novo, daquilo que inicialmente emerge como não familiar, até a sua integração aos universos consensuais. Dois dos principais processos que contribuem para a construção das representações e se apresentam como formadores da mesma são: ancoragem e objetivação. Tais processos são responsáveis pela consolidação social da representação e de seu objeto e é justamente a partir deles que se torna possível verificar como o procedimento de familiarização do objeto acontece.

Segundo Jodelet (2001), a ancoragem corresponde ao processo de recepção de um novo conteúdo com o objetivo de torná-lo familiar, transformando-o e integrando-o ao campo do pensamento pré-existente. Este processo possui um papel de agregar todo elemento até então inexplorado e desconhecido em algo conhecido e comum ao âmbito social e ideacional. Considera-se, dessa forma, a ancoragem como uma função cognitiva imprescindível para a representação, tendo em vista o seu poder de assegurar a incorporação dessa representação no social.

Santos (2005) descreve o processo de ancoragem como aquele que se destaca justamente pela inclusão do objeto numa série de pensamentos preexistentes, dando- lhe significações. A autora ainda revela que é através da comparação de elementos já conhecidos que o processo de ancoragem transforma o desconhecido em familiar.

Neste processo, observa-se a presença de três movimentos, sendo: a) atribuição de sentido (a implantação de uma representação filia-se a uma gama de significados vinculados e categorizados a partir de saberes e valores já existentes na cultura); b) instrumentalização do saber (denota funcionalidade à representação, tendo em vista que a torna uma teoria de referência que auxilia no entendimento do mundo social);

c) e enraizamento no sistema do pensamento (inserindo-se num sistema de representações já existentes).

No que se refere à objetivação, é possível destacá-la como o processo responsável por tornar aquilo que é abstrato em concreto. Ela apresenta como uma de suas funções o trabalho de promover e tornar mais fácil a comunicação dentro de um grupo, “[...] embora isso se faça pela dissociação do objeto do quadro científico ou ideológico que lhe dá sentido. O objeto apropriado pelo grupo não se distingue da representação deste objeto”. (CHAMON, 2014, p. 306).

42 Enquanto a ancoragem possibilita a assimilação do novo no universo do pensamento existente, a objetivação recebe a novidade e busca integrá-la nas estruturas das práticas do dia a dia. Moscovici (1978) entende o processo de objetivação como aquele que permite que o esquema conceitual se torne real, fazendo com que uma imagem assuma sua correspondência material, dando, dessa forma, concretude a um conceito específico

Em referência a Jodelet, Alves-Mazzotti (2000) conta que, para a referida autora, a objetivação de um conceito específico, por parte dos indivíduos, subordina- se fundamentalmente à condicionantes culturais e à estrutura de valores de um grupo.

A partir disto, os dados que são captados acerca de um conceito ou objeto necessitam ser organizados para que possam apresentar uma imagem coerente, sendo como resultado deste processo uma construção formal de um saber em nível de senso comum.

De acordo com Santos (2005), o processo de objetivação também apresenta três movimentos: a) a seleção e a descontextualização (para uma maior compreensão e análise do objeto, os sujeitos retiram do objeto alguns dados a partir de saberes anteriores e de um aglomerado total de informações, somente algumas são fixadas pelo sujeito); b) a formação de um núcleo figurativo (a edificação de um núcleo imaginante alicerçado na transformação do conceito); c) e por último, a naturalização dos elementos (aspectos que foram produzidos socialmente passam a ser compreendidos como aspectos da realidade do objeto).

Conforme Almeida, Santos e Trindade (2014), a naturalização pode ser descrita como “[...] processo que concede, de maneira geral, ao conceito abstrato uma realidade percebida e, particularmente, ao modelo figurativo, um status de evidência”

(p. 368). Ao final de todos esses processos, a representação transforma-se num quadro cognitivo e torna-se modelo para a impressão e o julgamento sobre as coisas, de forma que o resultado desse processo servirá para orientar as condutas dos indivíduos, além de dar um significado aos acontecimentos. Jodelet (2001) defende que:

[...] A naturalização das noções lhes dá valor de realidades concretas, diretamente legíveis e utilizáveis na ação sobre o mundo e os outros. De outra parte a estrutura imagética da representação se torna guia de leitura e, por generalização funcional, teoria de referência para compreender a realidade (p. 39).

43 Desse modo, compreende-se que a naturalização das ideias dá a elas uma estima de realidades objetivas, tornando-as mais compreensíveis e úteis para a ação humana e de seus grupos. Este processo propõe um conteúdo melhor elaborado do objeto, permitindo que o mesmo seja recebido de maneira natural.

Referenciando Vala (1997), Dias (2013) revela que é por meio do processo de naturalização que as informações do pensamento são ordenadas, tornando-se elementos da realidade palpável. Desse modo, aquilo que era do campo figurativo se se torna um novo elemento da realidade tangível adquirindo uma materialidade. Ou seja, “[...] os conceitos tornam-se equivalentes à realidade e o abstrato torna-se concreto através da sua expressão em imagens e metáforas”. (CABECINHAS, 2004, p. 128).

Villas Boas (2010) explica que, através da naturalização, a imagem formada se naturaliza e é compreendida como real, sendo assim, os componentes do esquema figurativo são apreendidos pelos sujeitos como uma manifestação direta daquilo que se representa no momento. Os conceitos se decompõem em categorias coletivas de linguagem e exprimem diretamente a realidade. O autor ainda destaca que:

[...] a naturalização da novidade em que o abstrato se transforma em concreto, somente se completa quando esta se inscreve não apenas nas relações intergrupais, mas também nos sistemas de pensamento preexistentes por meio da ancoragem. (VILLAS BOAS, 2010, p.393).

É justamente por conta disso que, quando se reconhece os elementos dos quais uma representação está ancorada, identificam-se também as esferas de conhecimento que compõem seus significados mais universais.

Como exemplo do processo de naturalização, é possível notar que aspectos produzidos socialmente no contexto hospitalar e clínico podem passar a ser compreendidos como aspectos da realidade de um objeto que se insere no ambiente escolar. As dificuldades escolares, os problemas de atenção e aprendizado, os desvios de comportamento presentes no cenário educacional passam a ter o seu significado atrelado às questões médicas. Mesmo necessitando de resoluções mais complexas, estes desafios vão sendo tratados com o uso de medicamentos, assim, um saber da área da Saúde é incorporado pela área da Educação de forma a naturalizar e legitimar a prática do uso de medicamentos para solucionar demandas da prática educativa. Diante desse exemplo, é importante que se entenda que o processo de naturalização de significados sobre objetos diversos pode ser constituído

44 por diferentes lógicas de pensamento, portanto, é fundamental que se compreendam as origens destes pensamentos comuns e suas consequências nas práticas sociais.