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RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO A sociedade continua em processo de evolução. Desde os primórdios da

DESPORTO: FENÔMENO COM REPERCUSSÃO SOCIAL, ECONÔMICA, AMBIENTAL E REFLEXOS JURÍDICOS

3.3 RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO A sociedade continua em processo de evolução. Desde os primórdios da

3.3 RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO

Na prática se tem a mitigação da autonomia do direito civil em prol de uma interpretação à luz da Constituição Federal, de modo que os fundamentos da validade jurídica do direito civil necessitam encontrar respaldo nas normas constitucionais. Trata- se daquilo que a doutrina conhece por “constitucionalização do direito civil” ou de

“direito civil constitucional”187.

Nesse contexto de conjugação dos avanços da sociedade de massa e de consumo e de relações universais com a evolução do direito como ciência, a Constituição Federal de 1988 adotou entre os seus princípios fundamentais “a defesa do consumidor”, consoante preceito do seu art. 5°, XXXII, assim como elevou a defesa do consumidor a status de princípio geral da atividade econômica – art. 170, V, da CRFB/88.

Consoante preleciona Paulo Roque KHOURI:

Esse direito é reconhecido no texto constitucional como fundamental porque o consumidor busca no mercado, na qualidade de não profissional, de destinatário de tudo o que o mercado produz, a satisfação de suas necessidades essenciais de alimentação, saúde, educação, segurança, lazer, etc188.

A partir da inclusão da defesa do consumidor como direito fundamental constitucionalmente protegido, aos operadores do direito surge a obrigação e o dever de aplicar a efetiva defesa deste ente indiscutivelmente vulnerável.

Consoante GARCIA, com a nova roupagem dada ao direito privado, a Constituição Federal de 1988 “(...) funciona como centro irradiador e marco de reconstrução de um direito privado brasileiro mais social e preocupado com os vulneráveis”189.

Repisa-se: os direitos fundamentais não devem ser observados tão-somente nas relações entre indivíduos e estado (eficácia vertical dos direitos fundamentais), mas também no âmbito das relações privadas, entre particulares. A aplicação dos direitos fundamentais previstos constitucionalmente nas relações privadas é foco da

187 GARCIA, Leonardo de Medeiros. Direito do consumidor. 4 ed. Niterói-RJ, Impetus, 2008. p. 2.

188 KHOURI, Paulo R. Roque A. Direito do consumidor: contratos, responsabilidade civil e defesa do consumidor em juízo. 2 ed. São Paulo, Atlas, 2005. p. 33.

189 GARCIA, Leonardo de Medeiros. Direito do consumidor. p. 2.

teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais190.

Concomitantemente, o instituto da responsabilidade civil também evoluiu e, como já esclarecido anteriormente, com a massificação da produção e do consumo, além da universalização das relações sociais, do progresso científico e tecnológico, acentuaram-se as hipóteses que geram obrigação de indenizar, tendo como alvo uma maior proteção da vítima.

CAVALIERI FILHO adverte:

(...) o campo de incidência da responsabilidade civil ampliou-se enormemente, chegando a representar a grande maioria ou mais dos casos que chegam ao Judiciário, principalmente nos Juizados Especiais (...).

Temos como certo que a responsabilidade civil nas relações de consumo é a última etapa dessa longa evolução da responsabilidade civil191.

A responsabilidade civil foi se consolidando como instituto jurídico capaz de apontar quem deve reparar um dano. Paulatinamente, a necessidade de averiguação da culpa tem sido mitigada em prol da busca pela mais efetiva reparação dos prejuízos danosos. Deve o estado apaziguar os ânimos e solucionar as pretensões insatisfeitas.

Para tanto, a teoria da responsabilidade objetiva ganhou força, dispensando-se a comprovação de culpa em favor da socialização dos riscos, na medida em que aquele que desfruta vantagens de uma dada situação deve suportar os prejuízos dela decorrente - ubi commoda, ibi incommoda. O dano, conforme explica CAVALIERI FILHO, deixa de ser apenas contra a vítima para ser também contra a coletividade, apresentando-se como um problema da sociedade192.

O consumidor é a parte vulnerável das relações de consumo, via de regra hipossuficiente. A Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Código de Defesa do Consumidor, sob a batuta da Carta Magna de 1988, restabeleceu o equilíbrio nas relações sociais que envolvem o consumidor e as mais diversas empresas, indústrias, grande conglomerados e demais entidades que compõem a atual dinâmica social e cadeia de fornecedores e consagrou a responsabilidade civil objetiva nas relações de

190 SARMENTO, Daniel. Direitos fundamentais e relações privadas. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2006. p. 25.

191 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil. p. 541.

192 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil. p. 9.

consumo.

Com efeito, o CDC, em seu art. 12193, aponta ser de natureza objetiva a responsabilidade pelos danos causados aos consumidores por fato do produto, nele incidindo como responsáveis solidários o fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador, se os danos forem causados por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, assim como a mesma responsabilidade incidirá no caso de danos decorrentes da insuficiência ou inadequação das informações disponibilizadas sobre sua utilização e riscos.

Semelhantemente, o fornecedor de serviços é objetivamente responsável por eventuais danos causados aos consumidores por defeitos relativos à sua prestação, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos, nos termos do art. 14 do CDC194.

Por conseguinte, tem-se como regra a adoção da responsabilidade objetiva, como norma de ordem pública nas relações de consumo. A responsabilidade subjetiva, por sua vez, é exceção entre as normas consumeristas e encontra previsão em casos específicos, tal como a hipótese do § 4° do art. 14 do CDC – responsabilidade pessoal dos profissionais liberais195.

A respeito das relações de consumo, vale a citação de FERNANDES:

As relações de consumo são relações jurídicas cujo caráter legal é preponderantemente instrumental e não finalístico. Assim, embora atendam a finalidades diversas, geralmente econômicas, as relações de consumo têm

193 Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. (BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990.

Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm. Acesso em: 08 jun. 2015).

194 Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. (BRASIL. Lei n.

8.078, de 11 de setembro de 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm.

Acesso em: 08 jun. 2015).

195 Art. 14. (…). § 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa. (BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm. Acesso em: 08 jun. 2015).

inegavelmente caráter jurídico instrumental, na medida em que são vínculos intersubjetivos reconhecidos e tutelados pelo ordenamento jurídico, que os provê de segurança e estabilidade. (...) podemos afirmar que tais relações são aquelas que obrigam consumidor e fornecedor, tendo, por objeto, produtos ou serviços, adquiridos ou utilizados pelo consumidor como destinatário final. Com efeito (...): os sujeitos são o consumidor e o fornecedor; o objeto compreende produtos ou serviços; e o vínculo obrigacional seria o liame havido entre fornecedor e consumidor, com respaldo no ordenamento jurídico, que confere a cada sujeito o poder de pretender ou exigir as prestações recíprocas196.

Em que pese já passados aproximadamente vinte e cinco anos da vigência da Lei n. 8.078/90, sua interpretação e aplicação cada vez mais é adaptada e adequada à realidade social atual, encontrando variações e fomentando e estimulando a criação e publicação de outras leis que também têm a finalidade de equilibrar relações desiguais e assegurar direitos.

CAVALIERI FILHO explica a capacidade de adequação e de incidência do Código de Defesa do Consumidor - CDC a todas as relações de consumo:

O Código de Defesa do Consumidor adotou uma avançada técnica legislativa, baseada em princípios e cláusulas gerais, o que permite considerá-lo uma lei principiológica. Essa é a razão do seu vasto campo de incidência – todas as relações de consumo onde quer que ocorram. Um campo abrangente, difuso, que permeia todas as áreas do Direito. Na realidade, o CDC criou uma sobre-estrutura jurídica multidisciplinar, normas de sobredireito, aplicáveis em todos os ramos do Direito onde ocorrem relações de consumo197 (grifos em negrito e itálico no original).

Por conseguinte, resta evidente a importância de se identificar uma relação de consumo dentro de um negócio jurídico a fim de se permitir a incidência do Código de Defesa do Consumidor como instrumento legal para dirimir conflitos. Isto tem relevância, notadamente, para as questões do esporte, conforme se verá.