LUÍS, O CAÇADOR A SERVIÇO DE NATTERER – PÁSSAROS E
INSETOS – PREPARATIVOS PARA UMA EXCURSÃO –
PRIMEIROS SINAIS DA POROROCA – SÃO-DOMINGOS – O SR.
CALIXTO – ESCRAVOS E ESCRAVATURA – ANEDOTA – CANAVIAL – EXCURSÃO À FLORESTA – EXPLICAÇÃO DA POROROCA – REGRESSO A BELÉM DO PARÁ – ARAPONGAS E PAPAGAIOS VERDE-AMARELOS50
E
U HAVIA ESCRITO ao Sr. Miller, pedindo-lhe me arran- jasse uma pequena casa em Nazaré, e ali, uma vez instalado, comecei a trabalhar regularmente na floresta, tanto quanto permitia o tempo inconstante.Um português idoso, que mantinha na casa próxima uma taberna, fornecia-me alimentação, e, assim, pude dispensar o criado para este mister.
50 O autor grafapiroróco,DomingoeCalistro. Julgamos de bom alvitre corrigir, aqui e alhures, todos esses nomes. Os “pássaros-sinos”, que Walace assim denomina, são as arapongas ou “pássaros-ferreiros”.
Sumário
Os meninos da vizinhança logo souberam da minha chegada e que eu comprava todas as espécies de “bichos”.
As cobras agora encontram-se mais freqüentemente, quase dia- riamente, e alguma, que me era trazida, eu logo a preservava no álcool
Os insetos, entretanto, são mais raramente encontrados nesta quadra do ano.
Em vista disso, resolvi arranjar um caçador de pássaros, e, para isso, contratei um negro, de nome Luís, que tinha muita prática.
Ele acompanhou o Sr. Natterer, durante o tempo em que esteve este no Brasil (dezessete anos), pois fora comprado por ele no Rio de Janeiro, quando era ainda menino.
Quando o Sr. Natterer deixou o Pará em 1835, deu-lhe a alforria.
A sua única ocupação, enquanto esteve com o Sr. Natterer, era caçar, ajudar a depenar pássaros e a preparar outros animais.
Ele agora possui um pouco de terra e já economizou o bas- tante, a fim de comprar para si próprio um casal de escravos, previdên- cia esta de que o índio, menos inteligente, raramente se convence.
Luís nasceu no Congo e é homem alto e robusto.
Contratei-o a mil réis (2 shillings e 3 pences) por dia, inclusive a subsistência.
Ele muito me diverte com as suas narrações de viagem em companha do “doutor”, como sempre se refere a Natterer.
Disse-me que era muito bem tratado e ganhava uma pequena gratificação, todas as vezes que trazia algum novo pássaro.
Luís era um ótimo caçador. Vagava pelas matas, desde a ma- nhã até à noite, ia a grandes distâncias, e, ao voltar, trazia-me quase sem- pre lindos pássaros.
Arranjou-me logo alguns bonitos cardiais palradores, suru- cuas de peito vermelho, tucanos, etc.
Conhecia as moradas e hábitos de quase todos os pássaros e sabia imitar-lhes perfeitamente os piados e cantos, a fim de atraí-los para perto de si e assim poder matá-los.
154 Alfred Russel Wallace
As lindas e pequenas borboletas, cor de esmeralda(Haetera es- meralda), nesta estação, pareciam deliciar-se; e nos dias chuvosos, quase sempre eu apanhava um ou dois espécimens, em uma estreita vereda, à saída da floresta, pois nunca encontrei mais nenhuma em qualquer outro lugar.
Por uma ou duas vezes, fiz passeios nas lavouras de arroz de meu amigo Sr. Leavens, onde ia vê-lo, e ali obtive alguns curiosos inse- tos, raramente encontrados na cidade.
Vários rapazes de Belém estavam agora fazendo coleções e, como prova da imensa variedade e exuberância de vida dos insetos nes- te país, em todas essas coleções, embora pequenas, eu quase sempre en- contrava uma espécie nova.
Tendo ouvido falar muito a respeito da “pororoca”, que ocor- re no rio Guamá, por ocasião, das marés, resolvi fazer uma pequena ex- cursão, para o fim de verificar isso de visu, e fazer variação em minha vida, um tanto monótona no Pará.
Eu quis ir em canoa de minha propriedade, pois assim pode- ria fazer paradas onde e quando me aprouvesse, pensando também que tal embarcação poderia servir-me depois na viagem ao Amazonas.
Resolvi, por isso, adquirir uma, que parecia convir-me, de um francês de Belém, da qual fiz parte do pagamento, nela me acomodando com as provisões necessários para a viagem.
Eu levava uma barrica de álcool, para conservação de peixes, e tudo mais necessário para colecionar e preparar pássaros e insetos.
Como a canoa fosse pequena, não necessitando, por isso, de muitos homens de equipagem, para os quais, na verdade, não havia mes- mo acomodação suficiente, resolvi levar comigo apenas um piloto e mais outro homem, ou então um menino, além do Luís.
Encontrei logo um rapazote, que morava perto de minha casa, e que já se havia acostumado a trazer-me insetos.
A sua aparência era de índio, a mãe tinha sangue negro, e era escrava, e, assim sendo, o filho, de resto, haveria também de partici- par-lhe do fado.
Tive, portanto, que entender-me com o senhor dele, que era um oficial, e contratei-o à razão de 3$000 (cerca de 7 shillings) por mês.
Viagens pelo Amazonas e Rio Negro 155
Diziam que o próprio dono do menino é que era o pai deste, com o qual muito se parecia, de fato, e aquilo deveria ser verdade. O ra- paz costumava trazer, em volta do corpo e das pernas, como castigo, uma pesada corrente de ferro, para impedir-lhe a fuga. Achava-se oculta sob as suas vestes, mas retinia, mesmo assim, desagradavelmente, a cada passo que ele dava.
Afinal, quando me foi entregue, foi-lhe tirada a cadeia, pro- metendo-me ser fiel e diligente, se eu viesse a ficar com ele.
Ajustei também um espanhol, para ir como meu piloto, em virtude de me haver dito que conhecia o rio e tinha bastante prática de navegação, o que é muito necessário, principalmente por ocasião das
“pororocas”.
Pediu-me adiantadamente alguns mil réis, para comprar rou- pa, e, quando dele precisei, para ajudar a carregar a canoa, fui encon- trá-lo em uma taberna a comer biscoitos e queijos com azeite, vinagre e alho, e já havia bebido tanta cachaça, que estava bastante intoxicado.
Por esse motivo, fui ainda obrigado a esperar até o dia seguin- te, quando ele então, depois de ter gasto todo o dinheiro, e já estando melhor da sua extravagância, voltou a procurar-me, tornando-se daí por diante muito quieto e submisso.
Afinal, depois de tudo pronto, partimos, remando tranqüila- mente, com a vazante, sem perturbação de vento, até à noite, quando então, tendo-nos ficado contrária a maré, ancoramos algumas milhas acima da barra do rio Guamá.
É este um bonito rio, de cerca de meia milha de largura, na parte mais baixa do seu curso.
Pouca distância acima da barra, as margens dele são ondula- das, vendo-se pitorescas moradas e sítios.
Durante a baixa-mar ou vazante, geralmente procurávamos ancorar perto de alguma casa; saltávamos em terra, fazíamos fogo debaixo de uma árvore, e preparávamos o nosso jantar.
Luís, então, tomava da espingarda, e eu da minha rede de caçar inseto, embrenhando-nos na floresta, para passarmos a maior parte do tempo em pesquisas, até a maré voltar novamente.
156 Alfred Russel Wallace
Quando não continuávamos a viagem, eu empregava o tempo quase sempre depenando pássaros ou marcando insetos, o que fazia às vezes até bem tarde da noite.
Cerca de 30 milhas acima de Belém, a “pororoca” começou.
Neste ponto, antigamente, havia uma ilha; mas dizem que foi varrida completamente, sob a ação contínua da erosão, provocada pelas
“pororocas”.
Pouco acima desse local, é que, de preferência, pretendíamos assistir ao fenômeno, o qual ocorre por ocasião das marés mais altas, embora nesta estação (maio) não tenham elas ainda tanta força.
Ficamos ali parados, à espera do fenômeno.
A “pororoca” veio, contudo, subitamente, irrompendo em forma de uma onda, correndo rapidamente rio acima e quebrando-se em espumas ao longo de todas as praias e baixios do rio.
Na sua passagem, ela fez nossa canoa levantar-se, tal qual um rolante vagalhão do oceano o faria.
Todavia, como estávamos em local onde as águas eram pro- fundas, não nos causou dano algum, passando num instante, mas conti- nuando depois a avançar rio acima, com velocidade muito grande.
A onda mais alta havia passado, e não teríamos mais a sua repetição.
A maré, contudo, começou a subir, instantaneamente e não gradualmente, como geralmente é o caso.
No dia seguinte, chegamos a São-Domingos, pequena povoa- ção, situada na barra dos rios Guamá e Capim.
Eu havia trazido uma carta de apresentação para um nego- ciante brasileiro, ali residente. E, após a leitura dela, ele prontamente pôs sua casa a minha disposição.
Aceitei-lhe o oferecimento, dizendo-lhe que pretendia demo- rar ali apenas alguns dias.
Luís ia diariamente à mata, e, ao voltar, quase sempre me tra- zia alguns pássaros.
Fiz varias excursões pelos arredores, à procura de insetos.
Viagens pelo Amazonas e Rio Negro 157
Eles são pouco abundantes ali, pois havia começado agora a estação seca.
Todavia, os caminhos eram agradáveis, e podíamos chegar até às roças de mandioca e de arroz, onde encontrávamos sempre deliciosas frutas, principalmente laranjas.
A nossa alimentação constava de peixes do rio, carne de vaca, cozida, marrecos e arroz.
A casa em que estávamos alojados, era pouco melhor do que uma choça.
Era de paredes barreadas e tinha um banco e uma mesa mui- to tosca, como os seus principais móveis.
Mas, neste país, os que moram longe das cidades nunca expen- dem maiores esforços ou fazem gastos, para tornar mais confortáveis as suas casas.
Após a estada, ali, de cerca de uma semana, não tendo sido bem-sucedido nas capturas para as minhas coleções prossegui viagem rio acima, tendo entrado pela braço ocidental do rio Capim.
Minha canoa era muito desobediente; e, logo após deixarmos a povoação, desabou forte e inesperado aguaceiro, que quase nos fez so- çobrar, entrando água em grande quantidade em nossa embarcação, e tendo sido com alguma dificuldade que conseguimos arriar as velas e, em seguida prendê-la a um arbusto, no barranco do rio, até que a tem- pestade passasse.
Depois disso, prosseguimos agradavelmente a nossa viagem, uns dois ou três dias mais, notando a diferença que a região fazia no seu aspecto, que se tornava mais aprazível, vendo-se lavouras de cana e de arroz e as casas construídas pelos primeiros portugueses, que se estabe- leceram ali, com bonitas capelinhas, as cabanas dos negros e dos índios em roda de suas propriedades, tudo melhor de aparência e gosto em confronto com qualquer das construções agora erigidas ali.
Afinal, alcançamos “São-José”, fazenda de propriedade do Sr.
Calixto, para quem eu trazia também uma carta de apresentação.
Ele recebeu-me cortesmente, e, ao dizer-lhe eu os propósitos de minha visita, convidou-me logo para permanecer em sua companhia, 158 Alfred Russel Wallace
tanto tempo quanto eu entendesse, e prometendo-me fazer tudo que es- tivesse ao seu alcance, para servir-me.
Era um tipo robusto de homem, de aspecto bem humorado e aparentando não ter mais que trinta anos de idade.
Ele havia, pouco antes, concluído ali a instalação de um enge- nho para beneficiar arroz, bem como a construção de grandes arma- zéns, que são os melhores e as mais modernas construções que eu já vi nesta região
Tudo era feito de pedra, e o moinho, ligado às outras constru- ções por meio de arcos, estava situado no centro ficando a um lado dele os armazéns e oficinas, e do outro lado a residência do proprietário.
Havia uma galeria ou varanda ligando as duas alas do edifício no andar térreo, dando, aos fundos, para o moinho que se via dali com a sua grande rodada de água e janelas de pedra, em toda a extensão do edifício.
Era tudo solidamente construído, tendo-lhe custado vários milhares de libras todos estes melhoramentos.
O Sr. Calixto possuía cerca de cinqüenta escravos, de todas as idades, e cerca de outros tantos índios, que trabalhavam nas lavouras de cana e de arroz, nos moinhos e a bordo das canoas.
Ele fabricava açúcar e cachaça, de preferência esta última, que oferece maior margem para lucros.
Ali mesmo, realizava ele toda sorte de serviços: – tinha sapa- teiros, alfaiates, carpinteiros, ferreiros, construtores de canoas, pedreiros, quer escravos, quer índios, alguns dos quais sabiam mesmo fabricar boas fechaduras para portas, malas e caixas e vários utensílios de fo- lhas-de-flandres e de cobre.
Contou-me ele que, nos seus serviços, os escravos e os índios trabalham juntos, e é por essa forma que se consegue melhor e maior rendimento de trabalho dos últimos, do que por qualquer outro sistema.
Os índios não se submetem bem à disciplina, quando traba- lham sós; porém, quando trabalham juntamente com os escravos, que têm horas certas para começar e deixar o serviço, bem como tarefas marcadas para realizar, eles se submetem a todas as exigências, executando alegremente as mesmas obrigações.
Viagens pelo Amazonas e Rio Negro 159
Todas as tardes, ao pôr-do-sol, todos os trabalhadores sobem até onde está o Sr. Calixto, para lhe dizerem “boa-noite” ou pedir-lhe a
“bênção”.
Ele fica comodamente sentado em uma cadeira, na varanda, e cada um que passa faz-lhe a saudação, de conformidade com a sua idade ou classe.
Os índios geralmente se contentavam em dizer-lhe “boa-noite”.
Os mais jovens e a maior parte das mulheres e crianças, tanto índias como escravas, estendendo o braço, diziam-lhe: “Sua bênção”, ao que ele respondia: “Deus te abençoe”, fazendo ao mesmo tempo o sinal da cruz.
Outros – e estes eram na maior parte os negros velhos – repetiam gravemente: “Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!”, aos quais ele replicava, com igual solenidade; “Para sempre”.
As crianças de todas as idades, ao avistarem os pais pela manhã, ou, então, à noite, ao se despedirem, nunca deixam, pela mesma maneira, de pedir-lhes a bênção, o mesmo fazendo invariavelmente com qualquer pessoa estranha, que esteja na casa.
É essa a saudação habitual das crianças, o que tem um agradá- vel efeito.
Os escravos aqui são todos notadamente bem tratados.
O Sr. Calixto me assegurou que ele compra escravos, mas nunca vende nenhum, senão como última punição por conduta incorri- givelmente má.
Eles têm descanso nos dias santos principais, que são por ve- zes festejados, e, nestas ocasiões, mata-se um boi e distribui-se cachaça, o que muito os alegra.
Todas as tardes eles lá se reúnem e fazem-lhe então vários pe- didos: – um precisa de um pouco de café e de açúcar para a sua mulher, que está adoentada; outro necessita de um novo par de calças ou de uma camisa; um terceiro está de saída para o Pará, em canoa, e quer um mil reis para comprar alguma coisa.
Esses pedidos sempre são atendidos, e o Sr. Calixto infor- mou-me que ele nunca achou motivo para recusar, porque os escravos 160 Alfred Russel Wallace
nunca fazem pedidos desarrazoados, nem pedem favores quando, por causa de má conduta, não os mereçam.
Todos parecem na verdade estimá-lo, quase patriarcalmente;
mas, ao mesmo tempo que é benévolo para com eles, é também bastan- te severo para punir-lhes a indolência.
Nas colheitas de arroz, todos têm de guardar para o seu con- sumo uma certa quantidade, e aqueles que ficam em considerável falta, repetidas vezes, somente por indolência, são punidos com uma sova moderada.
Ele relatou-me o caso de um negrão, que havia comprado, e que era um vadio incorrigível, não obstante ser forte e gozar boa saúde.
No primeiro dia, foi-lhe marcada uma tarefa não difícil, da qual ele não se esforçou por dar conta, recebendo, por isso, uma pequena coça. No dia seguinte, foi-lhes dada uma tarefa maior, com a promessa igualmente de uma coça maior, se não se saísse bem dela. Ele não cumpriu o seu dever, dizendo que a tarefa era muito pesada em relação à sua capacida- de física, e recebeu, por isso mesmo, outro castigo. No terceiro dia, foi-lhe exigido o cumprimento de uma tarefa muito maior, com a pro- messa de um castigo muito maior também, se ele não a concluísse.
Tendo o escravo verificado que as promessas do Sr. Calixto foram rigorosamente cumpridas, e que, por conseguinte, nada lucraria em querer levar o seu plano mais longe, completou o trabalho com de- sembaraço, e, desde esse dia, executava todas as tarefas, que eram, afinal de contas, somente as que podiam exigir-se de qualquer dos bons traba- lhadores da fazenda.
Todos os domingos, pela manhã e pela tarde, embora não tra- balhem em tais dias, eles têm obrigação de comparecer perante o seu se- nhor, a não ser quando gozam de permissão especial para se ausenta- rem.
Isso, informou-me o Sr. Calixto, é com o intuito apenas de prevenir as suas idas às plantações alheias, e mais afastadas, para roubar.
Se pudessem sair aos sábados, à tarde, após o trabalho do dia, e não voltar senão na segunda-feira, teriam assim ocasião e tempo bas- tante para ir muito longe, com o fim de praticar furtos, e ficar livres de qualquer suspeita.
Viagens pelo Amazonas e Rio Negro 161
O Sr. Calixto trata realmente os seus escravos, como se eles fossem um grupo numeroso de crianças.
Ele dá-lhes divertimentos, folgas e castigos, pela mesma for- ma, e toma todas as precauções possíveis para livrá-los das doenças.
Em conseqüência disso, eles ali são tão felizes, como se fos- sem verdadeiramente umas crianças.
Eles não têm preocupações e não passam nenhuma necessi- dade, sendo assistidos, com todo cuidado, não só nos casos de doença, como também na velhice.
Nunca os pais se apartam dos filhos, nem de suas mulheres os maridos, exceto somente nos casos especiais, em que se tornam sujei- tos a isso, de conformidade com as leis do país, como se fossem cida- dãos livres.
Por aí, talvez a escravidão possa ser encarada sob o seu aspec- to mais favorável e sob um mero ponto de vista físico, do qual se pode- ria até dizer que mais vale ser escravo do que viver como viviam muitos homens livres.
Isso, contudo, é simplesmente um caso particular, e não pode, de forma alguma, ser a conseqüência forçada da escravidão.
E, pelo que sabemos a respeito da natureza humana, não passa, na verdade, de uma ocorrência rara.
Mas, mesmo atendendo-se a este ponto de vista, como seu aspecto mais favorável, podemos nós dizer que a escravidão é boa ou se justifica?
Poder-se-á ter o direito de reter um certo número de nossos semelhantes num verdadeiro estado de infância adulta, de infância des- preocupada?
É a noção de responsabilidade e de dependência própria que caracteriza a virilidade e que inspira os maiores poderes e as maiores energias da nossa raça.
É o combate pela existência, a “battle for life”,51que excita as nossas faculdades morais, inspirando as latentes centelhas do gênio.
162 Alfred Russel Wallace
51 Assim, entre aspas, é que está no original.
A esperança de lucro, o amor ao poder ou o desejo de fama, de aprovação, é que provocam os nobres feitos e põem em ação todas as nossas faculdades, que são atributos distintivos do homem.
A infância é a parte animal da vida do homem; a virilidade, a sua parte intelectual.
Quando as fraquezas e imbecilidades da infância permane- cem, sem a sua inocência, os seus prazeres, as suas graças e as suas bele- zas, quão degradante não é esse espetáculo!
É esta afinal, a situação do escravo, ainda quando a sua escra- vidão seja o melhor que pode ser.
Ele não tem cuidados de prover o sustento de sua família, nenhuma economia tem a fazer para a idade madura.
Nada há para incentivá-lo a trabalhar, senão o receio do castigo.
Nenhuma esperança tem de melhorar a sua condição, nada tem a esperar pelo seu futuro, aos mais brilhantes aspectos.
Tudo que recebe é um favor.
Não tem direitos de espécie alguma. E assim sendo que poderá ele, portanto, saber de deveres?
Todos os seus desejos, além do estreito círculo de suas obri- gações, que são diárias, estão fora de seu alcance, de sua vontade.
Não tem prazeres intelectuais; e, se houvesse recebido educa- ção para experimentá-los, certo está o levaria a revoltar-se contra as amarguras de sua vida.
Quer a sua esperança de aumentar os seus conhecimentos, quer a ventura de conhecer as maravilhas da natureza ou os triunfos da arte, de que apenas ouve falar, poderão existir para um ente, que era prioridade de outrem e que nunca pode esperar ter liberdade, a fim de trabalhar para si próprio e da maneira que mais lhe aprouver?
De resto, aspectos semelhantes são refinados demais para um possuidor brasileiro de escravos, que não percebe coisa alguma além das meras necessidades físicas dos seus negros.
E, tal como os abstêmios afirmam que o uso da bebida, em doses mais moderadas, é mais pernicioso do que as fortes bebedeiras, assim também possam os filantropos considerar que mesmo um bondoso senhor de escravos faz como que uma injúria à causa da liberdade, Viagens pelo Amazonas e Rio Negro 163