Portanto, perfazendo a trajetória da incorporação, da função e da relação que os evangelhos da infância têm com o restante do Evangelho segundo Lucas, percebe-se a unidade da intenção teológica do evangelista. Assim, foi indispensável justificar essa relação e introduzir neste trabalho o Magnificat situado nesse bloco narrativo.
pastores, Zacarias); e a presença de uma escatologia cumprida através de um Messias veterotestamentário revelado em Jesus Ressuscitado15. Por isso, geralmente, são analisados juntos, com exceção do Glória, que se distingue dos outros três16.
Diante disso, surgem as questões: onde o evangelista encontrou esses hinos? Qual a origem deles? Por mais que haja estudiosos que defendam uma origem puramente judaica, apelando para o caráter bélico do AT e a métrica da poesia hebraica, a grande maioria concorda que os hinos sejam de origem judaico-cristã17. Isso pode explicar, de um lado, a presença de inúmeras alusões veterotestamentárias, e de outro, o caráter cristão e messiânico dos hinos que motivaram o evangelista a inseri-los em seu evangelho. Talvez pelo apreço que tem pela comunidade cristã de origem judaica de Jerusalém (At 2,43-47; 4,32-37), pudesse ter recebido os cânticos delas. Ou mesmo uma comunidade judaico-cristã de língua grega influenciada pelos primeiros cristãos de Jerusalém (BROWN, 2005, p. 423).
Se os hinos das narrativas da infância são semelhantes entre si, porém distintos da estrutura díptica da narrativa lucana, podem ter sido adicionados por Lucas numa redação posterior18. Entretanto, por mais que haja um forte acento judaico neles, não se pode concebê- los como “peças estranhas”, enxertadas nas narrativas da infância, uma vez que os cânticos não só assimilam, mas também continuam temas já presentes nessas narrativas, como observou Brown (2005, p. 414).
Se não são peças estranhas, qual a contribuição de Lucas e sua intenção em inserir e harmonizar os hinos nas narrativas da infância? Harnack defendeu a autoria dos hinos genuinamente lucana, posição contrária à maioria dos comentadores. Entretanto, seria mais plausível admitir que Lucas os tomou e os retocou para atenuar a discrepância deles com o restante da prosa19, visto que os hinos apresentam tanto elementos veterotestamentários, como referências ao restante de sua obra. A combinação desses elementos aponta para a intenção do evangelista em apresentar o cumprimento das promessas do AT com a chegada de Jesus, o Messias, resultando então numa “dobradiça” entre o Antigo e o Novo Testamento.
15 Bovon (1995, p. 122) contesta a proximidade do Magnificat com os Hôdāyôt de Qumrã e com os Salmos de Salomão.
16 Como justificam, por exemplo: BROWN, 2005, p. 413; FITZMYER, 1986, p. 136; FARRIS, 1985, p. 11.
17 Muñoz Iglesias (1983, p. 10-15) apresenta a discussão sobre o ambiente vital dos hinos elencando as posturas dos diversos autores.
18 Brown (2005, p. 413) apresenta quatro teorias acerca da composição dos hinos: 1) compostos por quem os proferiu (Zacarias, Maria e Simeão); 2) por Lucas, junto às narrativas da infância; 3) por Lucas e depois acrescentados a uma narrativa já existente (pré-lucana ou lucana); 4) cânticos pré-lucanos ou não-lucanos acrescentados pelo evangelista a uma narrativa lucana preexistente. O autor defende a quarta teoria além de considerá-los composição judaico-cristã.
19 Os versículos dos cânticos que supostamente o evangelista retocou são destacados por Brown (2005, p. 393; p.
437-438).
O Magnificat foi inserido na narrativa da visitação e resultou em seu clímax. Juntas, as duas perícopes, apesar de não se enquadrarem na estrutura díptica presente no evangelho da infância de Lucas, formam uma inclusão entre a anunciação do nascimento de Jesus e o nascimento e a circuncisão de João Batista interligando as duas histórias20.
De fato, isso é observado pelas expressões Maria.m e to.n oi=kon que aparecem no início da narrativa (v. 39 e 40) e no seu final (v. 56), além das expressões antitéticas “pôs-se a caminho” (gr. evporeu,qh) (v. 39) e “voltou” (gr. u`pe,streyen) (v. 56). Enquanto as expressões
“nestes dias” (gr. evn tai/j h`me,raij tau,taij) (v. 39) e os “três meses” (gr. mh/naj trei/j) (v. 56) de permanência de Maria na casa de Isabel remetem à cena da anunciação, que, junto a outros pontos retomados por Lc 1,39-56, como serão apresentados adiante, completam e ampliam aquele episódio.
O cântico, em continuidade com o episódio da visitação, é apresentado como uma resposta de Maria às saudações de sua parenta, mesmo que alguns estudiosos atribuam-no a Isabel, devido a alguns manuscritos latinos citarem esse nome ao invés de “Maria”, em Lc 1,46.21 Saindo dessa controvérsia, o Magnificat não só interliga as narrativas entre as vidas de Jesus e de João Batista, mas também se apresenta como um louvor ao cumprimento das promessas de Deus com o advento de ambos.
Em linhas gerais, podemos subdividi-lo em três partes como acontece em muitos salmos: introdução, constituída da palavra de louvor dirigida a Deus (v. 46-47); o motivo do louvor, apresentando os feitos do Senhor (v. 48-53); sumário (v. 54-55), concluindo o louvor.
Por outro lado, outras subdivisões podem ser propostas em torno da mudança de acento pessoal (ação de Deus em favor de Maria, v. 46-49a) e coletivo (ação de Deus em favor de seu povo, v. 49b-55) ou mesmo dos paralelismos presentes no hino, típico da poesia hebraica.
Portanto, se de um lado, essas características tornam o Magnificat bem peculiar em relação ao restante das narrativas da infância, por outro, sua inserção nelas, enfatiza o cumprimento das promessas e, ao mesmo tempo, seu desdobramento no restante da obra de Lucas. Seu fio condutor, apontando para a ação salvífica de Deus impelido por sua misericórdia, fornece-nos uma chave de leitura para se trabalhar a teologia lucana, sob a perspectiva do amor e da misericórdia, como se verá a seguir.
20 Outros autores o haviam deslocado para depois: do v. 25 (Bultmann) pela boca de Isabel; 2,20 (Leaney); 1,64 (Sahlin) pela boca de Zacarias. Mas são infundadas essas possibilidades e não há vantagem nelas (FARRIS, 1985, p. 117).
21 O início da controvérsia se deu com Loisy em 1893. Além da crítica textual que apresenta os manuscritos latinos (it a,b,l; Irineaus lat, mss acc. to Origen lat Niceta), Muñoz Iglesias (1983, p. 84-103) discute outros argumentos acerca de Isabel ter proferido o Magnificat.