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Na Grécia Antiga, o Estado representava uma esfera dotada de auto-suficiência, onde se desconhecia o conflito interno de poderes sociais, a rivalidade de instituições, facções ou partidos políticos. Com esse pensamento homogêneo, a nenhum pensador ou jurista grego surgiu a idéia de distinção entre o Estado e mais comunidades políticas.79

A Idade Média, que seguiu esse modelo de organização político romano, assinala um período de competição entre poderes, o que propicia o amortecimento da idéia de Estado, que tem seu poder político centralizado na pessoa do Imperador. Aqui é visto claramente a luta entre duas ordens: a ordem temporal e a ordem espiritual. Os poderes autônomos de ordens intermediárias estavam sujeitos à autoridade do Império e somente este não estava subordinado a nenhuma jurisdição. O princípio de soberania começa por exprimir um poder desembaraçado de qualquer tipo de sujeição, distinguindo o Estado dos demais poderes rivais que lhe contestavam a supremacia.80

Posteriormente a essas incertezas, o Estado Moderno precisava se impor, necessitando de uma teoria que pudesse firmar o poder absoluto como sede na monarquia. É na França, onde ficou mais clara essa rivalidade entre o Império e a Igreja, que nasceu o primeiro conceito de soberania e que tem como destaque o teórico Jean Bodin.

Jean Bodin nasceu em Angers por volta de 1529/1530 e dedicou-se aos estudos de letras jurídicas em Toulouse, onde também foi professor,

79 BONAVIDES, P. Ciência Política. p. 124.

80 BONAVIDES, P. Ciência Política. p. 124.

bem como advogou em Paris. Sempre atento a sua pátria, e com a exteriorização de lutas que fazia o rei da França contra o sacerdócio, é que Bodin afigura a soberania como elemento essencial do Estado.

Bodin defende o absolutismo, o poder absoluto, e o amplo exercício da soberania, e discorreu sobre o assunto como nenhum autor da teoria política.81 Sobre o assunto expõe Bittar:

A primeira exposição sistemática da soberania é normalmente atribuída ao jurista francês Jean Bodin (1529/30-1596), que reclama justamente da falta de uma clara definição desse conceito. Há, de fato, a necessidade de formular a definição de soberania, porque não existiu nem jurisconsulto nem filósofo político que a tenha definido, embora seja o ponto principal e o mais importante a ser entendido no tratado sobre a República (República I, 8, p. 179).82

Entre os vários trabalhos de Bodin, destacam-se duas principais obras: Método para fácil compreensão da história de 1566 e Os seis livros da República de 1576. Essas abordagens foram de essencial importância para o tema soberania.

Historicamente, a partir da divulgação de suas obras, caminha- se no sentido da centralização e do absolutismo, que ganha maior repercussão com o Luís XIV (O rei Sol, Le roi soleil). As idéias de Bodin refletiam soluções para os problemas enfrentados pelo Estado, tais como a insegurança político-internacional, a perda de territórios, a intolerância religiosa e a desordem social.83

A obra Six Livres de La republique destaca a soberania como elemento essencial para definir uma república e Bodin acrescenta que nenhum outro autor do passado deu importância àquele que é o ponto absolutamente necessário à composição desta.

A idéia de um comando absoluto já reinava entre os imperadores e os papas na Idade Média. O que ocorre, no entanto, é que Bodin foi o

81 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 133.

82 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 27.

83 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 135.

primeiro a tratar de soberania como elemento de organização da vida civil e da possibilidade de unificar os sistemas dos conhecimentos políticos.84

A conjunção harmônica de três leis deve ser o limiar do governo de toda república, sendo elas: a lei moral, cujo meio de aplicação e atuação é o foro íntimo de cada indivíduo frente a suas decisões e no comportamento perante os demais; a lei doméstica, delimitada no âmbito da casa e a lei civil, no que diz respeito à participação na sociedade política, nas relações entre a família e os colégios. E é com base nessa maneira social de organização por leis que apresenta- se a definição bodiniana de soberania.85

A soberania apresenta-se como centro de uma estrutura da república, sendo que dela “dependem os magistrados, as leis, os ordenamentos:

somente ela é a ligação e a união que transforma famílias, corpos, colegiados, particulares em um único corpo perfeito, que é, justamente, a república”.86

Essas ligações, no entanto, não são suficientes para caracterizar a soberania, é preciso que todos estejam reunidos sob uma mesma autoridade e acrescenta-se a isso o fato de que todos devam partilhar de coisas comuns com certa utilidade geral.87

Sobre a composição ideal do poder soberano acrescenta Merio Scattola:

O impacto da idéia elaborado por Bodin não se reflete, evidentemente, apenas sobre os modos em que é organizada e transmitida a disciplina política, mas também estrutura em profundidade o seu significado. Definindo a soberania como um poder absoluto de disposição sobre a lei civil, Bodin consegue o efeito de neutralizar o conflito sobre a interpretação da lei e, mais em geral, sobre a vontade que deve guiar a república. Já que o soberano é uma fonte de comando que não admite superiores e não está sujeita a controles, o quadro das instâncias constitucionais múltiplas,

84 SCATTOLA, Merio. Ordem da justiça e doutrina da soberania em Jean Bodin. In: DUSO, Giuseppe (Org.). O Poder: história da filosofia política moderna. Tradução de Andrea Ciacchi, Líssia da Cruz e Silva e Giuseppe Tosi. Petrópolis: Vozes, 2005. p.61.

85 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 136.

86 SCATTOLA, Merio. Ordem da justiça e doutrina da soberania em Jean Bodin. In: DUSO, Giuseppe (Org.). O Poder: história da filosofia política moderna. p. 61- 62.

87 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 136.

característica das sociedades estamentárias, nas quais o comando era o resultado de uma busca complexa e compartilhada por centros de governos autônomos e concorrentes, é completamente desmontado. O comando, agora, é o produto de uma simplificação que coloca todas as forças que operam dentro de um território numa linha descendente e dependente do vértice do sumo poder. À doutrina da colaboração, do equilíbrio e do acordo entre estamentos e ordens substitui-se, assim, uma doutrina da concentração do poder nas mãos do soberano 88

A vida organizada politicamente e a existência do Estado tornam-se impossíveis se não houver esse cimento das relações sociais que é a soberania, ou melhor, o solo onde se constroem os modos de vida e o convívio em sociedade. Em melhor significado, expõe Bittar:

O uso do adjetivo absoluto implica atribuir ao poder soberano as características de superior, independente, incondicional e ilimitado.

Ilimitado porque qualquer limitação é incompatível com a própria idéia de um poder supremo: ‘A soberania não é limitada, nem em poder, nem em obrigações, nem em relação ao tempo’ (República I, 8, p. 181). Incondicional na medida em que este poder deve estar desvinculado de qualquer obrigação: ‘A soberania dada a um príncipe sob condições e obrigações não é propriamente soberania nem poder absoluto’ (República I, 8, p. 187). Independente, pois seu detentor deve ter plena liberdade de ação: ‘Assim como o papa não tem suas mãos atadas, como dizem os canonistas tampouco o príncipe soberano pode ter suas mãos atadas, mesmo se o desejar’

(República, I, 8, p.192). Superior porque aquele que possui o poder soberano não pode estar submetido ou numa posição de igualdade em relação a outros poderes: ‘É preciso que os soberanos não estejam submetidos aos comandos de outrem’ (República, I, 8, p.

191).89

O elemento caracterizador mais importante do Estado é a soberania, sendo esta incontrastável e inalienável, por assim dizer:

Os direitos da soberania são considerados inalienáveis, pertencentes apenas ao soberano: ‘É preciso que as marcas da soberania sejam tais que não possam ser convenientes senão ao príncipe soberano;

de outro modo, se elas são comunicáveis aos súditos, não se pode dizer que sejam marcas da soberania’ (República I, 10, p. 298).90

88 SCATTOLA, Merio. Ordem da justiça e doutrina da soberania em Jean Bodin. In: DUSO, Giuseppe (Org.). O Poder: história da filosofia política moderna. p. 62-63.

89 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 136-137.

90 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 137.

Para Bodin, o soberano deve agir sem estar limitado em sua atuação, tendo a máxima liberdade de ação para poder cumprir as metas do Estado, estabelecendo leis ou revogando-as em face de seus súditos. Esse poder não poderá ser exercido se estiver sob o comando de outrem. Uma sociedade sem leis, sem ordem, transforma-se no caos, prestando ao Estado o papel de governar a partir de leis que se estabelecem diante das famílias e dos colégios. Ao conferir leis ao povo, o soberano faz com que esses cumpram suas metas e finalidades. Nesse ponto, cabe ao soberano, conforme a necessidade, modificar, alterar, corrigir ou emendar as leis, repassando-as aos seus súditos. Por necessidade, estabelece-se a vontade do soberano, pois ele é quem deve determinar, conforme explícita Bittar: A primeira marca do príncipe soberano é o poder de dar lei a todos em geral e a cada um em particular. (República I, 10, p. 306).91

Ao se questionar de onde provém a soberania de um rei, não se pode dizer que este constituiu uma sociedade ou por sua ação unificou um povo.

O que existia era um indivíduo que detinha uma posição de poder e que juridicamente repassou sua colocação a outro. Interessante destacar, portanto, que a soberania é um conjunto de direitos e possibilidades que podem ser transmitidos.

Ocorre que os súditos irão sempre pertencer a um mesmo conjunto político, mesmo que o titular da soberania mude.92

No que tange às formas de exercer a soberania, Bodin expõe uma tripla divisão que remonta à separação de governo feita por Aristóteles: “a soberania pertence necessariamente seja a um só indivíduo, seja a um pequeno número de notáveis, seja ao conjunto de todos ou pelo menos da maioria dos cidadãos, e nós temos, segundo o caso, uma monarquia, uma aristocracia ou uma democracia” (Método VI, p. 368 A)”93

Essa tripartição permite ao teórico, discorrer sobre as mudanças no ordenamento jurídico e pela necessidade que encontra em seu

91 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 137 – 138.

92 SCATTOLA, Merio. Ordem da justiça e doutrina da soberania em Jean Bodin. In: DUSO, Giuseppe (Org.). O Poder: história da filosofia política moderna. p. 66.

93 BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 139.

contexto político-social, de reflexão sobre as modificações existentes no governo e nas leis. E mais uma vez apresenta-se, como idéia fundamental, que a soberania perpassa de um para outro governo, e que diante disto, há uma real modificação do ordenamento jurídico. Se a soberania não muda de um agente para o outro, isto é, de um Estado para o outro, não há que se falar em mudança no ordenamento político.94

Dos três modos de Estado, Bodin defende a monarquia como melhor modo de exercer a soberania, conforme explica:

Entre os três Estados, o monárquico é considerado a forma mais adequada para a República. Os argumentos utilizados por Bodin para provar sua superioridade são de diferentes procedências. O primeiro vem da história, que revela a aprovação dos povos antigos:

‘Vemos que todos os povos da terra de toda antiguidade, quando se deixaram guiar pela luz natural, não tiveram outra forma de República senão a monarquia’ (República VI, 4, p. 188). Os relatos históricos mostram que os estados populares e aristocráticos, quando estão em perigo, recorrem à forma monárquica: ‘Os estados aristocráticos e populares, vendo-se em perigosa guerra contra os inimigos, ou contra eles mesmos, ou em dificuldade de processar um poderoso cidadão [...] instituem um ditador como monarca soberano, pois sabem que a monarquia é a âncora sagrada, à qual é necessário recorrer em dificuldades. (República VI, 4, p. 188).95

E de maneira definitiva, pontua sua predileção pela monarquia:

A principal marca de uma República, que é o direito da soberania, não se pode estar nem subsistir, falando propriamente, senão numa monarquia, pois só um deve ser soberano numa República. Se são dois, ou três, ou vários, ninguém é soberano, visto que não se pode dar nem receber a lei de um companheiro (República VI, 4, p. 178).96 A impressão que se tem da definição de soberania, portanto, é a de que a ela nada pode opor-se. Porém, Bodin expõe que há duas leis que a antecedem: as leis divinas e as leis naturais.

O poder dos soberanos, segundo Bodin, são posteriores ao poder divino e essas leis servem de parâmetro para distinguir a tirania da

94BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 139.

95BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 139.

96BITTAR, E. C. B. Curso de Filosofia Política. p. 140.

monarquia. Para o teórico, o rei limita-se às leis da natureza e o tirano não às respeita.

Surge nesse ponto, uma preocupação com a questão do julgamento do soberano, caso este viole alguma lei natural ou divina. Não caberia ao povo julgá-lo tendo em vista a contradição que se acolheria: um súdito afrontando seu rei. Uma afronta à soberania seria o fato de julgar um soberano, visto que não há autoridade capaz de julgá-lo.97

E diante dessa encruzilhada, Bodin preza sempre pelo poder absoluto. Neste caso, as leis divinas e naturais na promovem eficácia legal e, portanto, não exercem coerção jurídica sobre o soberano.98

A obra de Bodin, tendo como núcleo, a preocupação com o conceito de soberania e estabelece para o Estado Moderno, os limites do poder soberano. Sustenta ainda o absolutismo como forma de manutenção da ordem e a proteção da própria existência da sociedade política.