Alfredo Sergio Ribas dos Santos (2013), já evidenciava em suas pesquisas que o pensamento social predominante dos intelectuais que discutem o financiamento da educação brasileira, no período de 1996 até 2010, é pautado nos pressupostos do marxismo e suas variantes teóricas, afirmando que,
Na constituição do campo científico da educação e das ciências sociais no Brasil determinadas orientações teóricas (marxismo, positivismo/funcionalismo, estruturalismo e fenomenologia) disputam espaços acadêmicos e políticos com vistas a consolidar suas formas de explicação da realidade social. [e] [...] No caso das orientações teóricas presentes no campo científico dos estudos sobre o financiamento da educação, publicados nos periódicos acadêmicos e livros, no período de 1996 a 2010, demonstram a supremacia das concepções decorrentes do marxismo e suas variantes teóricas. (SANTOS, 2013, p. 61)
Todavia, no período compreendido entre 2010-2012, destacamos 6 (seis) artigos: o primeiro artigo, o de Marcondes (2012) intitulado “Reforma e recontextualização das políticas: o papel dos coordenadores pedagógicos nas escolas municipais do Rio de Janeiro”, do PPGE/PUC-Rio (nota 6), com publicação no periódico Qualis A2 – Revista Diálogo Educacional; o segundo artigo, o de Santos (2012), intitulado “Diretrizes Curriculares para o ensino fundamental de 9 anos e o Plano Nacional de Educação: abrindo a discussão”, do PPGE-FaE-UFMG (nota7), com publicação no periódico Qualis A1 – Educação &
Sociedade; e o terceiro artigo, de Werle (2010) intitulado “Sistemas municipais de ensino no Rio Grande do Sul: uma contribuição para as políticas educacionais”, do PPGE-Edu-Unisinos (nota 7), com publicação no periódico Revista Brasileira de Política e Administração da Educação (Qualis A2); o quarto artigo, de Carvalho (2011), intitulado “Redes Municipais de Ensino, Planejamento e Resultados Educacionais”, do PPGE/PUC-Rio (nota 6), com publicação no periódico Archivos Analíticos de Políticas Educativa (Qualis A2); o quinto artigo, de Lima (2012), intitulado “Entendendo o Estado gerencial e sua relação com a educação: algumas ferramentas de análise”, do PPGEDU-UFRGS (nota 6), com publicação no periódico Práxis Educativa (Qualis A2); o sexto artigo, de Molina (2011), intitulado
“Impactos das políticas educacionais nas dinâmicas da organização escolar: reflexões na perspectiva do professorado de uma rede municipal”, do PPGE-Edu-Unisinos (nota 7), com publicação no periódico Ensaio: avaliação das políticas públicas educacionais (Qualis A1).
O destaque para esses 6 (seis) artigos deve-se ao fato de os mesmos apresentarem em suas referências bibliográficas obras de Stephen Ball e colaboradores. No Brasil, como expoentes desta vertente teórica, destacamos Jefferson Mainardes, Alice Lopes e Elizabeth Macedo, com a abordagem do ciclo de políticas46
46 [...] O processo de formulação de políticas é considerado como um ciclo contínuo, no qual as políticas são formuladas e recriadas. Os três ciclos principais do ciclo de políticas são o contexto de influência – [onde as políticas são iniciadas na circulação de ideias e os discursos políticos são construídos]; [...] o contexto de produção de texto político, [...] no qual as políticas são articuladas, representadas, produzidas e criam formas textuais, discursivas – [textos legais oficiais, pronunciamento, vídeos, etc.], e o contexto da prática – [envolve a recontextualização dos textos políticos de sua forma original, com alterações significativas na realidade da prática] (MEDEIROS; ANDRADE, 2016, p.65-66). Disponível em: <https://cut.ly/oBh3R20>. Acesso em: 15 nov. 2020.
Nessa direção, Mainardes (2009) afirma que as ideias de Ball dialogam com a ressignificação das políticas, no contexto das reformas e das práticas, trazendo questões que atravessam as discussões das políticas educacionais, como gerencialismo, performatividade, política de responsabilização e meritocracia.
Mainardes (2009) afirma que os discursos políticos colocam em jogo uma linguagem capaz de definir conceitos como racionalidade, descentralização, produtividade, insumos, eficiência, eficácia, meritocracia, accountability. Tais conceitos representam o ideário das tecnologias políticas referenciadas na primeira fase do ciclo de políticas, que na concepção de Ball é o contexto de influência, onde as políticas são iniciadas na forma de discursos políticos, os quais são os mesmos construídos e difundidos na circulação de ideias, capazes de produzir materialidade, tomando, nesta fase, a forma de contexto de produção de texto político – textos legais, oficiais, os quais conduzem ao contexto da prática, envolvendo a recontextualização na realidade prática, fechando assim, os três ciclos principais do ‘ciclo de políticas’ da teoria de Stephen Ball.
Para uma melhor elucidação da teoria de Ball, recorremos a um e-book, intitulado
“Políticas Educacionais no Brasil: interfaces entre ditos e feitos”, obra organizada por Medeiros e Andrade (2016), a qual nos oferece alguma noção sobre a maneira de pensar do sociólogo inglês Stephen Ball e seus colaboradores a respeito das políticas educacionais, a partir dos contextos nos quais são as mesmas produzidas:
No Brasil, a educação não escapou à “onda” reformista. O lema competitividade com equidade e os acordos com os organismos multilaterais definiram a trajetória da reforma educacional brasileira que teve como eixos norteadores gestão, financiamento, currículos, avaliação e formação de professores. [e] [...] A Reforma Educacional se desenvolve sob a égide de tecnologias políticas combinando performatividade e gerencialismo, que além de mudanças estrutural e técnica, buscam a reformação de relações, identidades e valores dos profissionais do setor público, com especial destaque para os professores. “A Reforma não muda apenas o que nós fazemos”, afirma Basil Bernstein (In BALL, 2002, p.5) “Muda também quem nós somos – a nossa identidade social” (MEDEIROS; ANDRADE, 2016, p.29-30)
Sendo assim, de acordo com Jefferson Mainardes e Maria Inês Marcondes (2009),
Ball é um dos mais eminentes pesquisadores da área de política educacional da atualidade. [...] [...] Os trabalhos de Ball possuem, em geral, uma perspectiva desconstrucionista e as análises [estando] [...] fortemente articuladas ao contexto macrossocial. Sua obra é fundamentada teoricamente em uma concepção pluralista [...] [...] pelo uso de diferentes conceitos e teorias, [utilizando] contribuições de
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autores como Foucault, Bourdieu, Bernstein, Weber, entre outros (MAINARDES;
MARCONDES, 2009, p. 303)
Nessa direção, Mainardes e Marcondes (2009) indicam a influência do pensamento de Ball em algumas produções bibliográficas sobre as políticas educacionais, envolvendo os mais variados temas, tais como: teoria da organização escolar, etnografia, micropolítica, mercados educacionais, reformas educacionais, escolha das escolas pelos pais, privatização da educação, performatividade, mudanças discursivas no contexto educacional e escolar, impacto das reformas sobre o trabalho e a identidade dos professores e demais profissionais da educação, redes políticas, meritocracia, entre outros. De acordo com Mainardes e Marcondes (2009, p. 303), “[...] esses temas, em geral, são analisados de forma articulada aos conceitos de justiça social, poder, desigualdades sociais, classes sociais e discurso. [...]”.
Nesse sentido, a questão epistemológica colocada por Mainardes e Marcondes (2009), nos leva a fazer reflexões inferenciais se estamos diante de um novo paradigma para pensar as políticas educacionais, em especial, as políticas de financiamento ou se trata-se de uma das variantes teóricas do marxismo, mencionada por Santos (2013). Este poderia ser um objeto de investigação, em pesquisas futuras, de modo a que pudéssemos investigar melhor a respeito de uma possível pluralidade de tendências epistemológicas envolvendo a questão da filiação teórica de autores desta especialidade temática. A questão que se impõe é o quão potentes são as ferramentas teóricas das filiações teóricas que estão sendo postas em campo, referentes às políticas educacionais, capazes de nos auxiliar na compreensão dos jogos de poder que permeiam a questão das desigualdades sociais no Brasil, visando à superação das mesmas.