• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II CONTEXTUALIZANDO SENTIDOS: ABORDAGENS E REGULARIDADES

II. 2. E STUDOS S OCIAIS , DEMOCRACIA E INTEGRAÇÃO CURRICULAR NOS ARTIGOS ACADÊMICOS

46 compreensões possíveis das relações entre saber e poder que constituem o social.

Essa pesquisa se insere, portanto, em todo esse processo, que se encontra em constante transformação na construção conjunta de uma abordagem discursiva para a História do Currículo, tal como veio sendo formulada em Ferreira (2013 e 2015) e Márcia Serra Ferreira e André Vitor Fernandes dos Santos (2017). Fiz isso aqui mobilizando conceitos como história do presente (DOSSE, 2013; KOSSELECK, 2014), formações discursivas e funções enunciativas (FOUCAULT, 2015), alquimia das disciplinas escolares (POPKEWITZ, 2001) e fabricação de tipos de pessoas (HACKING, 2007). Tal mobilização intencionou delinear minha análise sobre a história da disciplina escolar Estudos Sociais no ensino fundamental em tempos democráticos, e as condições enunciativas que permitiram, em diferentes momentos históricos, que determinados enunciados fossem formulados e não outros.

Esta empreitada teórico-metodológica na qual embarcamos, todos juntos, me equipou como pesquisador a partir de uma perspectiva da História do Presente, do descentramento do sujeito, da produção discursiva dos sentidos curriculares e da fabricação, por meio de processos alquímicos, do professor e da criança no espaço escolar. Tais deslocamentos, em minha trajetória acadêmica, significaram novas perguntas e, de fato, novas formas de questionamento para interpelar o meu objeto de estudo, começando por o que tem sido enunciado a respeito da disciplina escolar Estudos Sociais para o ensino fundamental? Para responder a essa e outras perguntas, iniciei realizando um primeiro levantamento bibliográfico exploratório de artigos acadêmicos sobre Estudos Sociais, democracia e integração curricular, assim como sobre alguns dos sentidos que estes termos mobilizam.

47 ALBUQUERQUE, 2009; MORAES, 2012; CAMARGO, 2013; PHILIPPOT, 2013), tomando o cuidado, porém, de não cristalizar sentidos previamente fixados nesses textos ou mesmo nos documentos históricos que já havia coletado no arquivo da pesquisa e iniciado algum alguma análise preliminar.

Com tal decisão, produzi outros três levantamentos a partir dos seguintes descritores: um primeiro, combinando os termos Geografia e História; um segundo, usando o termo democracia; um terceiro, utilizando o termo integração curricular, depois interdisciplinaridade ou transversalidade. A escolha das três primeiras palavras- chave é coerente com o que venho apresentando até agora neste capítulo, mas a adição dos termos integração curricular, interdisciplinaridade e transversalidade, ainda que brevemente explorados no capítulo introdutório, requer maiores justificativas.

Assumo que a emergência de uma disciplina escolar nomeada Estudos Sociais, assim como a disciplina escolar Ciências investigada por Marcia Serra Ferreira (2005, 2007 e 2014), ocorre em meio a enunciados que apostam na integração curricular como um modo potente de iniciar os estudos escolares de áreas disciplinares distintas. Além disso, no tempo presente, as reformas educacionais iniciadas nos anos de 1990 vieram operando com conceitos como habilidade, competência, interdisciplinaridade e contextualização que passam, explicitamente, a disputar espaço com a organização disciplinar na constituição dos currículos escolares. De forma paralela, inicia-se o embate entre as noções de área de conhecimentos e de disciplina escolar, essa última a estrutura que tem sido hegemônica na organização dos currículos no ensino básico nacional (SOBREIRA, 2012a e 2012b). Defendo, portanto, ao lado de outros estudos elaborados no âmbito do Grupo de Estudos em História do Currículo (ver, por exemplo, SANTOS, 2017; CHARRET, 2019), que a noção de integração curricular, ainda que polissêmica, tem regulado o modo como pensamos a melhoria da educação básica no país.

O levantamento foi realizado entre os anos de 2011 e 2016. Os quatro acervos online que foram escolhidos para este levantamento foram os anais de dois congressos acadêmicos e dois periódicos científicos, todos proeminentes na área e relacionados ao meu objeto de estudo. No primeiro caso, foram eles: o Encontro Nacional de Pós- Graduação em Geografia (ENANPEGE), nos grupos de trabalho Ensino de Geografia e Formação de professores de Geografia; a Reunião da Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), no grupo de trabalho Currículo. Estes foram escolhidos por serem organizados por associações que almejam promover sinergia e integração entre os diversos programas de pós-graduação em suas respectivas áreas no

48 âmbito nacional, sendo pontos nodais importantes a partir dos quais foi possível construir a empiria dessa pesquisa, ou seja, as práticas discursivas que versam sobre disciplinas escolares e o ensino de Geografia. No segundo caso, os periódicos científicos consultados foram: a Revista História da Educação, que é mantida pela Associação Sul-Rio- Grandense de Pesquisadores em História da Educação (ASPHE/RS), com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal de Santa Maria; a Revista Brasileira de Educação em Geografia, que é mantida por um corpo editorial diverso e interinstitucional. Os trabalhos analisados foram, exclusivamente, os artigos acadêmicos, não tendo sido considerados as resenhas e os dossiês encomendados e/ou produzidos pelos seus respectivos comitês editoriais. A escolha por estes dois veículos se justifica pela especificidade dos assuntos que estas publicações se propõem a tratar e a proximidade dos mesmos com os objetivos da presente pesquisa.

Realizei a análise em duas etapas: na primeira, fiz uma descrição superficial da distribuição de trabalhos selecionados e suas palavras-chave, formulando alguns agrupamentos e ponderando possíveis explicações para a distribuição ter acontecido dessa maneira; na segunda, após a leitura dos artigos, explorei alguns dos sentidos sendo mobilizados pelos enunciados encontrados nos mesmos. A partir de um acervo de 413 trabalhos presentes nos quatro arquivos de trabalhos científicos apresentados entre 2011 e 2016, o levantamento aqui realizado encontrou apenas 36 trabalhos pertinentes8 à nossa pesquisa, um número que representa pouco menos de 9% do total de trabalhos contemplados. Este resultado é um indício de que, mesmo tendo lançado uma rede abrangente, os Estudos Sociais em tempos democráticos como um objeto de pesquisa, assim como o campo conceitual no qual está inserido, não parecem estar na ordem do discurso acadêmico.

É preciso salientar, destarte, que entre os 36 trabalhos destacados, escolhi registrar a ocorrência dos termos em si, e não apenas a quantidade de textos onde estes aparecem.

Isto, na prática, significou que o total de registros nas tabelas a seguir excede o total de artigos destacados devido à ocorrência de dois ou mais termos relevantes no mesmo artigo. As palavras-chave mais representativas encontradas foram interdisciplinaridade e democracia, tendo respectivamente 16 e 12 artigos com que se associam. É possível perceber na Tabela 01 a presença destes termos em praticamente todos os anos contemplados, apontando para – ao menos nos acervos com que escolhemos trabalhar –

8Os dados catalográficos e resumos dos artigos acadêmicos estão dispostos no Anexo I - Levantamento dos artigos acerca do objeto da pesquisa, 2011-2016

49 um interesse contínuo por questões que os autores julgaram associadas de alguma forma com estes conceitos. Em contrapartida, as palavras-chave menos recorrentes foram transversalidade e Estudos Sociais, tendo respectivamente 1 e 2 artigos com que se associam, ambos ocorrendo em apenas um ano dentre os contemplados.

Em 2015, os registros pertinentes à palavra-chave interdisciplinaridade mostraram um acréscimo acentuado, em grande parte por conta dos 9 trabalhos encontrados nos anais do XI ENANPEGE, suscitando o questionamento se o aumento no número de trabalhos interessados com o termo teria sido por conta da orientação temática do encontro naquele ano; entretanto, o tema do evento A diversidade da Geografia Brasileira: escalas e dimensões da análise e da ação aparentemente não justifica o incremento da quantidade de registros encontrados. Ademais, também não aparenta haver um fio condutor entre os artigos neste ano, nem entre os objetos e áreas de interesse de seus autores ou filiação preferencial a algum grupo de trabalho em particular, uma vez que 4 foram apresentados no grupo de trabalho Formação de professores de Geografia, enquanto 5 foram apresentados no grupo de trabalho Ensino de Geografia.

Tabela 01 – Trabalhos selecionados, por ano

2011 2012 2013 2014 2015 2016

Estudos Sociais -- -- 2 -- -- --

Democracia 4 2 2 1 1 2

Interdisciplinaridade 2 1 1 -- 10 2

Transversalidade -- -- -- -- 1 --

Geografia + História -- -- -- -- 2 1

Integração Curricular 2 -- 1 -- 1 --

É interessante notar que houve pouca sobreposição de palavras-chave nos trabalhos destacados. Apesar de terem sido selecionados para a realização do levantamento bibliográfico com um objeto específico em mente, no que se refere às práticas discursivas acerca de Estudos Sociais, no ensino fundamental, em períodos democráticos no Brasil, poucos foram os artigos que entrecruzaram estes termos em seus títulos ou resumos. Apenas dois trabalhos, dentre os 36 destacados, apresentaram mais de uma das palavras-chave pelas quais procuramos neste levantamento: um intitulado Formação Docente em Disciplinas Escolares: Memórias e Identidades no Contexto da Cultura na Escola, apresentado em 2011 na 34ª Reunião Nacional da ANPEd e que

50 associava integração curricular com interdisciplinaridade (ROSA, 2011); outro intitulado Desafios e Diálogos do Ensino-Aprendizagem da Geografia e as Práticas Interdisciplinares na Escola Básica, apresentado em 2015 no XI ENANPEGE e que associava a noção de conhecimento escolar aos termos completo e incompleto (SANTOS, 2015). A especificidade do que este projeto busca investigar pode ser um dos fatores para explicar esta questão, entretanto é possível formular grupos entre alguns dos conceitos utilizados – tais como Estudos Sociais com Geografia + História, assim como integração curricular com interdisciplinaridade e transversalidade –, pois foram construídos historicamente, na pesquisa educacional brasileira, minimamente associados entre si.

Antes disso, porém, ao observar a ocorrência das palavras-chave por acervos consultados, pude tecer considerações interessantes. É possível perceber na Tabela 02, por exemplo, que não houve registros de trabalhos que discorressem sobre Estudos Sociais ou Geografia + História nas Reuniões Nacionais da ANPEd, evento que foi selecionado para observar os discursos circulando no campo curricular nacional. Estes termos apareceram de forma pouco expressiva e apenas em eventos associados diretamente às comunidades disciplinares de Geografia e História, respectivamente.

Tabela 02 – Trabalhos selecionados, por acervo

Rev. Edu.

Geo.

Rev. Hist.

Educ. ANPEd ENANPEGE

Estudos Sociais 1 1 -- --

Democracia 3 3 6 --

Interdisciplinaridade 4 -- 3 9

Transversalidade -- -- -- 1

Geografia + História 2 -- -- 1

Integração

Curricular 1 -- 3 --

Para dar continuidade a nossa análise, julgamos importante também elucidar como foi operacionalizado o levantamento dos artigos através da associação direta entre Geografia + História. O interesse pela ocorrência desses dois termos presentes, simultaneamente, em produções acadêmicas se deu, especificamente, no que tange às possibilidades do ensino integrado destas duas disciplinas escolares, de maneira a investigar regularidades discursivas acerca dos Estudos Sociais, no ensino fundamental, em tempos democráticos. Como campos epistemológicos, apostei que os dois termos

51 poderiam aparecer simultaneamente, mas associados a questões teórico-metodológicas dos autores e pesquisas sendo descritas. Expressões foram encontradas, como “história da disciplina escolar Geografia” e “distribuição geográfica de cursos superiores de História”, mas que não foram levadas em conta nos registros explorados nesta seção.

Esta ressalva se fez necessária porque, ainda que de forma reduzida, os artigos que em seus resumos continham as expressões Geografia e História associadas ao ensino de ambas às disciplinas escolares ainda colocam em circulação discursos sobre práticas e abordagens integradoras destes componentes curriculares. No entanto, como junto à Revista História da Educação não encontramos nenhum trabalho que trouxesse tal associação, essa reflexão aqui produzida esteve limitada, no recorte promovido por este levantamento, à comunidade disciplinar da Geografia. Outro ponto relevante é que, dentre os três textos que versam sobre o ensino articulado dos conteúdos geográficos e históricos no âmbito escolar, dois deles focalizam a questão nos anos iniciais da escolarização: um intitulado Refletindo sobre o espaço vivido: o lugar na construção dos conhecimentos geográficos, apresentado em 2015 na Revista Brasileira de Educação em Geografia (MACÊDO, 2015); outro intitulado Cotidiano, sujeitos e territórios nos anos iniciais da escolarização, apresentado também em 2015 no XI ENANPEGE (FERNANDES;

SOBRINHO, 2015). Estas investigações foram realizadas, de maneira pouco surpreendente, desassociadas de qualquer discussão ou reconstrução histórica da disciplina Estudos Sociais.

Mesmo os dois artigos que continham a expressão-chave Estudos Sociais não abordavam diretamente a disciplina escolar em si. O trabalho La emergencia de los nuevos saberes geograficos escolares: pensamientos visuales y narrativos, apresentado em 2013 na Revista Brasileira de Educação em Geografia (CARO, 2014), traz uma discussão mais abrangente sobre uma possível “ambivalência” epistemológica do campo geográfico que transita entre as ciências sociais e estudos ambientais e que, no âmbito escolar, raramente possui plena autonomia de outros componentes curriculares. Já o trabalho Do Schüler-Zeitung ao O Ateneu: marcas da cultura escolar nas páginas dos periódicos (São Leopoldo/RS, 1964-1973), apresentado também em 2013 na Revista História da Educação (GRAZZIOTIN; FRANK, 2013), realiza um estudo de caso sobre um periódico secundarista em uma escola confessional no Rio Grande do Sul, e a influência que a publicação teve no engajamento político-social do corpo discente.

A preocupação de alguns destes artigos com o ensino integrado de Geografia e História, focalizando a sua possível existência apenas no ensino fundamental e, em alguns

52 casos, na reconstrução histórica de certas práticas discursivas concernentes a saberes sociopolíticos, assim como a ausência da disciplina escolar Estudos Sociais nas discussões travadas por tais trabalhos acadêmicos, parecem sinalizar para certa rejeição do componente curricular no campo da pesquisa educacional. Esta renúncia deliberada pode ser vista como efeito das contendas travadas ao longo das décadas de 1970 e 1980 pelas comunidades disciplinares de Geografia e História no sentido de se legitimarem enquanto disciplinas autônomas e independentes (REIS, 2005, p. 38).

Voltando a atenção novamente para a Tabela 02, nota-se que nenhum dos termos pelos quais procuramos foram encontrados em todos os acervos consultados, sendo que os que tiveram maior ocorrência em quase todos os anais de evento e arquivos de periódicos foram, novamente, democracia e interdisciplinaridade. No que tange às discussões sobre democracia, os artigos selecionados focalizaram, em sua maioria, as relações entre escolarização e o compromisso com possíveis sentidos de um projeto democrático. A proeminência de tal temática se deu, em grande parte, devido ao levantamento de artigos operacionalizado com esta palavra-chave em acervos do campo educacional. Tendo em vista o objeto e questões desse estudo, dois desses trabalhos chamam a atenção, ambos publicados na Revista História da Educação: o primeiro, intitulado ESCOLA e Nova Escola: faces de um velho sonho (REVAH, 2013), discute as diferenças e similaridades entre duas publicações realizadas pelo Grupo Abril, uma durante o período da Ditadura Militar e outra após a redemocratização do Brasil; o segundo, intitulado A constituição da esfera especializada das ciências da educação na democracia portuguesa (LOPO, 2016), discorre sobre a evolução histórica da ciência da educação para as ciências (no plural) da educação entre 1976 e 1987, apontando para análises históricas preocupadas com a especificidade de discursos educacionais em períodos democráticos.

No que tange às discussões sobre interdisciplinaridade, é interessante notar que, mesmo que documentos oficiais – como os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) (BRASIL, 1999), as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM) (BRASIL, 2006) e os Parâmetros Curriculares para o Ensino Fundamental (PCNEF) (BRASIL, 1997) – entendam esta como um caminho para a integração curricular, os artigos acadêmicos selecionados em nosso levantamento não fazem explicitamente essa correlação. A palavra-chave transversalidade, por sua vez, apresentou apenas um registro.

53 Vale reforçar, então, que, por um lado, um dos principais resultados desta análise foi a constatação de que, mesmo em um levantamento de escopo limitado, investigações acadêmicas sobre os Estudos Sociais – ou sobre o ensino de Geografia e História pensado de forma polivalente – não tem sido frequentes; por outro lado, termos correlatos (ou por mim reformulados dessa maneira) como democracia, integração curricular e interdisciplinaridade têm sido alvo de maior interesse. De todo modo, em outra etapa da pesquisa – qual seja, em 2019 – realizei um segundo levantamento, agora no catálogo de teses e dissertações da CAPES, buscando expandir esse acervo. É sobre a análise desse segundo levantamento que trata a próxima seção deste capítulo.