A importância dos mais velhos também aparece na família, dentro da qual eles cuidavam da educação, fazendo ou não parte da família biológica, dando conselhos, orientando, sobretudo, para o estudo, encaminhando os jovens, sem obrigações formais, para longe de atos violentos.
A tradição ou raiz dentro das escolas de samba vem, portanto, tanto do conhecimento de como se faz samba como do espírito comunitário, ou solidário em redes mais sólidas, porque entrecruzadas, nos laços de vizinhança e parentesco, marcado pelas famílias fundadoras das escolas de samba.
São esses mais velhos que apresentam uma das faces do princípio moderno da reciprocidade. Ampliam os laços para além da família, orientando os jovens que estão em um momento de “vulnerabilidade” própria da idade, investindo na preservação da memória de seu grupo social, assim como afastam a perda de seus papéis sociais (e o antigo isolamento da esfera social). À medida que estes atores sociais envelhecem, buscam oportunidades de rearticulação e ressocialização.
Portanto, é possível entender que, antes mesmo da existência de projetos culturais e sociais, já existia a preocupação de várias lideranças comunitárias em passar adiante a tradição do samba, mas, bem mais do que isso, cuidar também para que no cotidiano os fundadores ou “baluartes” fossem reconhecidos por sua autoridade e prestígio social.
Fato é que este subúrbio pode ser englobado em uma área de planejamento, a AP3, três subáreas de planejamento (AP 3.1, 3.2 e 3.3) e é composto por treze (13) Regiões Administrativas, três delas de favelas (Jacarezinho, Complexo do Alemão e Maré) , e que se diferenciam internamente e do resto da cidade.
O fato do Rio de Janeiro ser a cidade capital acaba por desprestigiá-la em dois momentos e desvaloriza suas políticas locais. Em um primeiro momento, na formação urbana da cidade, o que se constituirá como subúrbio, aí contemplando parte da zona norte, será esquecido. Ao longo do século XX, menos recursos serão alocados para a manutenção desta área da cidade e o processo de deterioração urbana se acentuará no processo de remoção de favelas ocorrido nos anos 1960 e na desaceleração da industrialização nestas áreas, deixando inúmeros prédios abandonados. Isso é agravado nestes lugares pela presença de políticos clientelistas e populistas que tratam a coisa pública como particular. Sendo o Rio de Janeiro a cidade capital, não há prefeito para cuidar apenas das questões do município, fazendo com que o poder federal e estadual fiquem sobrepostos e o poder municipal seja inexistente48.
Ao mesmo tempo percebemos um aumento considerável de migração, principalmente a nordestina, modificando laços e estruturas comunitárias existentes.
Putnam aponta que um dos motivos possíveis para o declínio do Capital Social pode ser a migração, pois a mesma enfraqueceria laços existentes, modificaria a dinâmica vicinal
Uma segunda questão é que, ao priorizar o Rio de Janeiro como cidade capital, precisaríamos transformá-lo em vitrine, e, obviamente, uma vitrine não ocupa toda a cidade. Neste caminho, apenas uma área da cidade é passível de ser escolhida como o retrato ‘da cidade’, enquanto outras entram urbanisticamente em declínio e decadência.
48 Enquanto o Rio de Janeiro foi Capital Federal, nossos prefeitos eram indicados pelo governo federal. No período de constituição do Estado da Guanabara, a cidade continua sem um prefeito específico para nossas demandas e necessidades. É só após o término do Estado da Guanabara e o fim da ditadura militar, que o Rio de Janeiro terá possibilidade de eleger um prefeito, o que acontecerá na década de 1980, com Saturnino Braga.
4 VÍTIMAS DOS SUBÚRBIOS: O PARADOXO DO RIO DE JANEIRO
Lá não tem moças douradas Expostas, andam nus Pelas quebradas teus exus Não tem turistas Não sai fotos nas revistas Lá tem Jesus E está de costas
Subúrbio, de Chico Buarque
Não sou do tempo das armas, Por isso ainda prefiro Ouvir um verso de samba Do que escutar som de tiros
Nomes de favelas, de Paulo César Pinheiro
O Rio de Janeiro hoje guarda em sua constituição espaços muito diferentes, assim como são seus moradores. Passeando pela cidade, quando se sai de trem da estação Central do Brasil, veremos, em qualquer linha, uma mudança significativa na paisagem a cada estação, já que muitos bairros dos subúrbios hoje têm em comum a imagem de decadência e deterioração urbana.
Ao considerar a AP3 (os subúrbios), vê-se que ela é composta de treze (13) regiões administrativas e oitenta bairros (80), entre estes três (3) grandes favelas:
Complexo do Alemão, Maré e Jacarezinho, que ao mesmo tempo são bairros e regiões administrativas.
Hoje a AP3 do Rio de Janeiro é a segunda área em extensão territorial e a primeira em termos de densidade demográfica na cidade do Rio de Janeiro. Mas, como afirmei no capítulo anterior, falar em subúrbios é utilizar uma categoria de análise, já que os bairros que os compõem podem apresentar inúmeras diferenças entre si. Na mesma categorização, estão bairros bem diferentes como Méier, Ilha do Governador e Anchieta. O mesmo se dá com as favelas existentes na cidade e as existentes nesta área de planejamento. De fato, não se pode considerar as favelas como homogêneas.
Porém, ao analisar dados quantitativos, comparando com o restante da cidade, as semelhanças desta área, quando o assunto é vitimização, surpreendem.Os dados utilizados neste capítulo fazem parte das pesquisas de
vitimização desenvolvidas pelo Núcleo de pesquisas das Violências entre 2005 e 2007. Apoiado financeira e logisticamente pelo CNPq, pela FINEP e pelo Instituto Pereira Passos, o NUPEVI fez duas pesquisas. A primeira realizada entre 2005 e 2006, teve aproximadamente 3500 questionários aplicados em toda cidade, enquanto a segunda, realizada apenas em favelas, teve 660 questionários aplicados em moradores de favelas.
O objetivo era traçar um perfil dos moradores da cidade, a percepção que estes têm da violência urbana em diversas áreas da cidade e a especificidade de cada tipo de vitimização. O questionário, com 54 páginas e dividido em baterias para maior organização e interpretação dos dados traçava um perfil dos entrevistados, com dados sobre local de nascimento, idade, cor/raça, escolaridade, renda, profissão, local de moradia, percepção do espaço urbano, da segurança, da vizinhança, da sociabilidade e da confiança entre vizinhos, além dos tipos de violência que um morador da cidade pode passar: agressão física, sexual, roubo, furto, relação com as polícias, tráfico de drogas e milícia.
Os dados que serão trabalhados aqui serão as baterias de perguntas relacionadas à vizinhança, à sociabilidade e à confiança entre vizinhos, por apontarem para questões essenciais relacionadas com a percepção e a formação da vizinhança, mais especificamente os dados sobre sociabilidade e confiança.
Estes dados são importantes também por que os crimes violentos afetam indivíduos, famílias e comunidades, fazendo com que haja maior possibilidade de desintegração, atrapalhando também o desenvolvimento econômico (VANDERSCHUEREN, 1996).
Porém, no Rio de Janeiro, tal questão se apresenta de maneira diferenciada, já que, mesmo com oferta precária de serviços e equipamentos assim como desordem e deterioração crescentes, os moradores dos subúrbios continuam mantendo sua sociabilidade e sua confiança entre os vizinhos relativamente alta.
Conforme apontamos nos relatórios entregues às financiadoras da pesquisa
Um paradoxo surgiu da análise dos dados da pesquisa: o que prende os moradores à cidade, ao bairro e à vizinhança pobre em proporções maiores, se a oferta, distribuição e manutenção de equipamentos urbanos não é a mesma em todo município, favorecendo as áreas onde vivem os mais prósperos? A boa convivência tem proporções maiores nas áreas em que vivem os pobres, sendo que a mais populosa corresponde aos subúrbios da cidade. Como explicar este paradoxo? O tráfico de drogas, violento como todo crime organizado, é especialmente violento nos subúrbios que compõem esta área, o que afeta a vida social e cultural dos moradores. Porém, não destrói completamente o que faz parte de suas práticas de
sociabilidade seculares. A guerra entre os comandos e quadrilhas de traficantes ou entre estes e os policiais não altera tudo e, onde a vizinhança ainda tem papel fundamental, as relações comunitárias podem vir até a ficar fortalecidas diante da adversidade (ZALUAR et al., 2008, 2009).
Algumas destas questões tinham sido apontadas em pesquisas etnográficas desenvolvidas no NUPEVI e as pesquisas de vitimização vieram a confirmar nossas hipóteses. A sociabilidade nos subúrbios, ao mesmo tempo em que tem uma face entendida como fofoca, aposta nas relações vicinais e em uma relação confiável com seus vizinhos.
Estas relações são fundamentais para o desenvolvimento dos projetos sociais analisados, cujo foco é a juventude, na medida em que estes projetos passam a ser desenvolvidos nas vizinhanças e se preocupam com o controle social dos seus jovens. Nas pesquisas sobre criminalidade devemos observar os fatos em três dimensões: a pessoal, onde cada pessoa se diferenciará da outra pelo gênero, cor/raça, escolaridade, renda, local de moradia. A dimensão ecológica, que propõe uma reflexão sobre o espaço onde os moradores da cidade circulam, interagem, dialogam e agem. Interessa também saber como está organizado este espaço:
desordem e deterioração da infraestrutura assim como as questões que envolvem a sociabilidade dos moradores da cidade, dos bairros e das vizinhanças, hoje tratadas como mais uma variável ecológica, seja pela teoria do capital social ou pela teoria da eficácia coletiva.
Estes três aspectos são fundamentais para percebermos como uma vizinhança se diferenciará de outras a partir da percepção dos seus moradores sobre a criminalidade, a influência ou não da infraestrutura existente ou em processo de deterioração, a incidência de crimes na vizinhança ou a presença de associações.
Nas pesquisas desenvolvidas pelo NUPEVI, os conceitos de capital social e eficácia coletiva tiveram um cuidado especial. Para tentar explicar como a incidência de crimes pode estar relacionada ao espaço urbano, autores como Sampson &
Morenoff abordam a questão da política partidária e a capacidade que algumas vizinhanças, mais que as outras, têm de estabelecer vínculos e redes. Estes serviriam para demonstrar como tais vizinhanças ou comunidades se organizariam para resolver suas demandas coletivas e exerceriam maior controle social em suas
localidades. Como conseqüência, a eficácia coletiva sairia mais fortalecida destes processos.
Mas não é apenas a capacidade de desenvolver a eficácia coletiva que explicaria bairros e vizinhanças com menores índices de criminalidade. Uma das hipóteses destes autores é que a segregação racial (pensada na realidade norte- americana)
como variável da vizinhança provoca a concentração de diversos problemas sociais vicinais, como desordem social e física, variáveis individuais, como baixo peso ao nascer, mortalidade infantil, abandono da escola e abuso contra crianças, todas vinculadas também a variáveis familiares — por exemplo, famílias chefiadas por mulheres. No Brasil, a concentração desses problemas não ocorre do mesmo modo nem está vinculada à segregação racial (ZALUAR et al., 2009).
É sobre este paradoxo, que faz dos moradores dos subúrbios seres sociáveis e confiantes em suas relações, ao mesmo tempo em que os tornam vítimas dos processos de criminalidade na cidade, que este capítulo se debruça.
4.1 Perfil dos moradores por área de planejamento: nascidos no Rio de