CAPÍTULO IV 89
4.1 Memória Histórica do OP em Alagoinhas –BA 89
4.1.1 Antes de 2001: o processo incipiente do OP 89
Conforme os discursos de alguns dos entrevistados dos Grupos 1, 2 e 3, desde 1995 os movimentos sociais de Alagoinhas vinham discutindo como intervir para fazer com que o poder municipal local atendesse melhor a população mais necessitada. A proposta do Orçamento Participativo (OP) ganhou força a partir de uma reunião na União das Associações dos Moradores de Alagoinhas (UAMA), conforme referiu o entrevistado n. 4 do grupo 1: “[...]
A história do OP em Alagoinhas inicia em 1997, com a análise de uma matéria publicada pelo Jornal A Tarde feita na UAMA”.
O entrevistado n. 4 convidou o então vereador Elionaldo Faro Teles15, do Partido dos Trabalhadores para falar sobre a experiência do OP. Este, por sua vez, emprestou uma Cartilha sobre o OP para ser estudada pelos sócios da UAMA. Posteriormente, a direção desta entidade convidou mais dois dirigentes petistas para participar de uma discussão sobre a
15 Serão explicitados os nomes de prefeitos e vereadores por serem pessoas públicas, exercendo uma função temporária, no exercício do cargo.
metodologia do OP, esclarecendo como se daria a relação entre o Executivo Municipal e Sociedade Civil em um sistema de co-gestão.
Contudo, mesmo sendo rica a exposição e o debate, conforme o entrevistado n. 4, ainda não foi realizada a oficina, como propusera, para desagrado do grupo. Mais tarde, conseguiu as fitas sobre a experiência do OP de Vitória da Conquista, do mandato Guilherme Menezes do PT, às quais assistiram, analisando e repassando nas associações filiadas a UAMA como tarefa das manhãs de estudo.
Segundo o entrevistado n. 1 do grupo 1, o OP em Alagoinhas foi fruto do:
[...] movimento de comunidade, de associações já ser forte desde 1997, a sociedade civil, ela discute as políticas públicas e a questão do OP em Alagoinhas, através da UAMA e dos Partidos. Em 1997, já houve um seminário para discutir e ser apresentado à participação popular com o modelo do Rio Grande do Sul. Depois disso, em 2000 no momento do período eleitoral, como um dos compromissos de campanha, que a sociedade pediu à coligação em que estava o Partido dos Trabalhadores foi à implantação do OP.
Este processo de movimentação da sociedade civil fez com que o OP se tornasse um Projeto de Lei elaborado pelo vereador Pedro Marcelino, na época filiado ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), o único de oposição na Câmara Municipal de Vereadores e se transformasse na Lei nº 1210/98, conforme afirma o entrevistado nº. 6 do grupo 2:
O Orçamento Participativo nasceu em Alagoinhas através do Projeto de Lei do vereador Pedro Marcelino e depois transformado em Lei número 1210/98, sancionada pelo ex-prefeito João Batista Fiscina. Só que o João Batista Fiscina ele nunca colocou em prática o Orçamento Participativo mesmo sendo provocado pela UAMA e pelas suas associações filiadas. Com a vitória do prefeito Joseildo Ribeiro Ramos em 2000 foi posto em prática [...].
Ainda comenta o entrevistado n. 6 que mesmo tendo sancionado a Lei, para amenizar a pressão popular, o então prefeito João Batista Fiscina não pôs a Lei do OP em prática:
Eu atribuo porque hoje, poucos são os prefeitos que quer dividir o seu poder de administrador [...] com os moradores daquela cidade. Então pra mim, o que levou ao ex-prefeito João Batista Fiscina não por em prática o cumprimento de uma lei que ele mesmo sancionou, foi o medo de dividir o seu poder com a nossa sociedade, o medo de ser transparente com a nossa sociedade, o medo de ser democrático com a nossa sociedade [...]. Com a vitória do prefeito Joseildo Ribeiro Ramos em 2000, logo no primeiro ano, 2001, da sua administração ele começou a discutir, a colocar em prática o Orçamento Participativo que veio ter a sua execução a partir do ano 2002 até o presente momento.
Tal fato demonstra que a garantia legal do OP em 1998 no citado governo, mesmo com os movimentos sociais em alta, conforme as declarações de alguns entrevistados, sem a vontade política do executivo, ele não saiu do papel. E, mesmo saindo do papel a partir da gestão Joseildo Ramos, a construção de um processo mais ou menos democrático e transparente, inexoravelmente, vai depender da capacidade de organização e mobilização da Sociedade Civil.
Todavia, a participação popular não se resume em uma concessão, pois a Carta Magna de 1988, assim como a Lei Orgânica de Alagoinhas são pródigas de conselhos institucionalizados, e mesmo assim, apenas uma minoria funciona. Se não houver uma forte participação política dos munícipes, principalmente de setores que criem constrangimentos políticos e possam interferir negativamente em futuro processo eleitoral, demonstrando capacidade de pressionar o legislativo e o executivo para que atenda as suas prioridades, dificilmente serão satisfeitas.
Quando falamos em participação política, não necessariamente estamos nos restringindo à filiação partidária, mas em participar em algum tipo de coletivo que esteja lutando para melhorar a qualidade de vida em qualquer atividade em sua comunidade, conforme Teixeira (2000, p. 36): “[...] com efeito, considera-se participação política, desde fazer parte de reuniões de partidos, comícios, difusão de informações, até a inscrição em associações culturais, recreativas, religiosas ou, ainda, realizar protestos, marchas, ocupações de prédios [...] etc”.
As falas de alguns entrevistados demonstraram que a participação por si só, não deu conta de resolver todos os problemas, mas, dependeu de vontade política do Executivo e da maioria do Legislativo, pois, mesmo com OP se tornando uma Lei em Alagoinhas em 1998, por pressão da Sociedade Civil, isto não foi suficiente para que ele fosse implementado.
Faltou vontade política do Poder Executivo e do Legislativo local para implementá-lo. Entre 2001 e 2005 houve engajamento da Sociedade Civil e vontade política do Executivo em prol do OP. Contudo, é necessário que haja participação e fiscalização para garantir maior agilidade, transparência e evitar burocratização.
Tanto o entrevistado n. 6, quanto o entrevistado n. 11 do grupo 1 afirmaram que o OP foi peça de campanha eleitoral e que era fundamental, para a sociedade alagoinhense, contribuir de forma decisiva, tanto para a eleição, quanto para a reeleição de Joseildo Ribeiro Ramos. O entrevistado n. 11 deixa muito claro como a proposta do OP atraiu a população na eleição de 2000: “Uma das bandeiras que Joseildo Ramos defendeu na campanha em 2000, era o OP. Isso encheu os olhos da população e lutou pela proposta, porque em 2000 a cidade estava com os seus movimentos sociais bastante fortalecidos”.