Sustentabilidade e segurança são duas diretrizes constitucionais correla- cionadas, interseccionadas, inclusive no que tange a seus reflexos para a gestão financeira do Estado. Ambas guardam estreita relação com o Estado Demo- crático de Direito e especial pertinência com o controle da expansão da dívida pública, como passaremos a demonstrar.
A sustentabilidade tem sido apontada como mais um subprincípio do Estado Democrático de Direito tanto na doutrina estrangeira quanto na brasi- leira, desenvolvida esta última tendo a Constituição de 1988 como premissa.
Canotilho aponta a sustentabilidade como pressuposto de uma Constituição
“que leve a sério a salvaguarda da comunidade política em que se insere”.139 No mesmo sentido, o constitucionalista alemão Peter Häberle qualifica a sus- tentabilidade “como elemento estrutural típico do Estado que hoje designamos Estado Constitucional”.140
A sustentabilidade traz em si um enfoque prospectivo, que deve estar presente em um pacto constitucional que se pretenda permanente, que veicule normas-princípios, compreendidas como mandamentos de otimização, realizá- veis de forma progressiva, com o passar dos anos e mesmo das gerações. Nas palavras de Heleno Torres, “[o] Estado constitucional é um contínuo que tende ao futuro sem limite temporal para cumprir suas atividades organizatórias da coletividade”.141
Assim, a Constituição deve ser tida como um pacto político intergeracio- nal, de onde se extraem as bases jurídicas de organização do Estado e da vida
137 ANDERSON, Julia; DARVAS, Zsolt. New life for an old framework: redesigning the Euro- pean Union’s expenditure and golden fiscal rules. Bruxelas: União Europeia, 2020. p. 33.
138 FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Fiscal Rules, cit., p. 33.
139 CANOTILHO, J. J. Gomes. O Princípio da sustentabilidade como princípio estruturante do direito constitucional. Tékhne – Revista de Estudos Politécnicos, v. 1, nº 13. jun. 2010.
140 HÄBERLE apud CANOTILHO, J. J. Gomes. O princípio da sustentabilidade como princí- pio estruturante do direito constitucional, cit.
141 TORRES, Heleno Taveira. Direito constitucional financeiro, cit., p. 160.
em sociedade, presente e futura, a despeito de uma natural suscetibilidade a alterações, formais ou informais (mutações constitucionais). Nesse contexto, Peter Häberle descreve o povo, titular do poder constituinte, como uma co- letividade indeterminada, dinâmica, resultante da coexistência e sucessão de diferentes gerações.142
Juarez Freitas dedica obra a esmiuçar o conteúdo constitucional do prin- cípio da sustentabilidade. O princípio, segundo ele, seria conexo e adjetivo do objetivo fundamental de desenvolvimento nacional (art. 3º, II, da CR/1988),143 impregnado, ainda, de outros fins e valores extraídos da Constituição. Dessa forma, seria ele caracterizador da responsabilidade do Estado e da sociedade por um desenvolvimento que seja “socialmente inclusivo, durável e equâni- me, ambientalmente limpo, inovador, ético e eficiente, no intuito de assegurar, preferencialmente de modo preventivo e precavido, no presente e no futuro, o direito ao bem-estar”.144
Em sua dimensão financeira, Juarez Freitas aponta a sustentabilidade como fundamento dos deveres do Estado de responsabilidade fiscal e preservação da estabilidade econômica.145
Essa dimensão financeira da sustentabilidade encontra suas expressões constitucionais mais concretas na previsão de limites de dívidas, na restrição do volume de endividamento público ao de despesas de capital, associadas à cons-
142 “The ‘people’ per se is a cooperation, a coexistence, and a succession of several generations.”
(HÄBERLE, Peter. A constitutional law for future generations. In: TREMMEL, Joerg Chet (ed.). Handbook of Intergenerational Justice. Cheltenham-GB; Northampton-MA, US:
Edward Elgar, 2006. p. 224).
143 “O ponto é que, quando a Constituição fala em desenvolvimento como valor supremo [preâmbulo] e como objetivo fundamental, quer necessariamente adjetivá-lo como susten- tável, intertemporal e durável. Melhor do que isso: pretende que a sustentabilidade fixe os pressupostos (sociais, econômicos, ambientais, jurídico-políticos e éticos) de conformação do desenvolvimento constitucional aceitável.
Por sua abrangência, a sustentabilidade remete à realização, em bloco, dos objetivos funda- mentais da República. Nessa medida, o valor da sustentabilidade recomenda, como critério de avaliação das políticas públicas e privadas, a redução das desigualdades sociais e regio- nais, a proteção da dignidade humana e dos seres vivos em geral, assim como a intervenção reguladora contra regressivismos desequilibradores do sistema ecológico [...]” (FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: direito ao futuro. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 110).
144 Idem, p. 41.
145 Idem, p. 68-70.
tituição de capital público, dentro de uma pretensa lógica de endividamento sustentável. Bem assim, na preocupação constitucional com o excessivo com- prometimento da capacidade financeira do Estado com despesas de pessoal.
Outras normas constitucionais não originárias vieram a reforçar a preocu- pação constitucional com a sustentabilidade financeira, como as que consagram o equilíbrio financeiro e atuarial como princípios da previdência social, a que institui limite à expansão da despesa primária federal (teto de gastos), a que su- bordina a execução da lei orçamentária à observância de metas fiscais e limites de despesas, constitucionais ou legais e, mais recentemente, as que apontam a
“sustentabilidade da dívida” como diretriz expressa da gestão fiscal (arts. 40, 163, VIII c/c 164A, 165, §§ 10 e 11, 201 da CR/1988, texto principal, e 106 a 114 do ADCT).
No direito português, a sustentabilidade financeira é expressamente consa- grada na Lei de Enquadramento Orçamental (Lei 15/2015, de 11 de setembro de 2015), que dá os atuais contornos do regime fiscal daquele país, estando lá definida como “a capacidade de financiar todos os compromissos, assumidos ou a assumir”, com respeito às regras fiscais estabelecidas naquele diploma legislativo.
A segurança jurídica, por seu turno, é historicamente associada ao Estado de Direito, já em sua concepção original. Sob o paradigma do Estado Demo- crático de Direito, no entanto, ela extrapola sua acepção tradicional, mais es- treita, restrita à previsibilidade das relações jurídicas e ao resguardo das esferas individuais de direitos de intervenções arbitrárias, do Estado ou de terceiros, associada ao Estado de Direito liberal dos séculos XVIII e XIX. Ela se apre- senta, modernamente, sob uma acepção material, que incorpora a juridicidade ampliada do Estado Democrático de Direito e a centralidade de seu rol mais abrangente de direitos fundamentais.146
Nesse sentido, suas conhecidas “funções de garantia de certeza jurídica, estabilidade sistêmica e confiança legítima” recaem, hoje, primariamente, sobre o ampliado rol de direitos fundamentais e demais aspectos constitucionais.147 Resguarda, desse modo, as legítimas expectativas pautadas na Constituição e
146 TORRES, Heleno Taveira. O princípio de segurança jurídica na construção do Estado Democrático de Direito. In: DE LUCCA, Newton; MEYER-PFLUG, Samantha Ribeiro;
NEVES, Mariana Barboza Baeta (coord.). Direito constitucional contemporâneo: homena- gem ao Professor Michel Temer. São Paulo: Quartier Latin, 2012. p. 417- 418.
147 Idem, ibidem.
fundamenta a progressividade mandatória da concretização do projeto constitu- cional, coerente com os princípios da força normativa e de máxima efetividade.
A Constituição Financeira, por incorporar os mesmos objetivos da Cons- tituição total, consagra mecanismos de garantia de financiamento, ou de segu- rança fiscal, no tocante ao livre exercício dos Poderes e órgãos autônomos e à fruição de direitos fundamentais. É o caso da previsão de fontes tributárias de financiamento próprias da seguridade social, das vinculações de receita, e dos patamares financeiros mínimos de aplicação obrigatória em educação e saúde.
A mencionada segurança fiscal, ao mesmo tempo que pode ser tida como um desdobramento da segurança jurídica, constitui resultado direto do que entendemos juridicamente por sustentabilidade financeira. Nesse sentido, para além das salvaguardas supramencionadas, ela pressupõe a preservação do espaço fiscal necessário à prevenção de reversões do processo de concretização constitucional e, ao mesmo tempo, suficiente ao seu progressivo aprofunda- mento, ainda que a velocidade e os meios empregados para tanto, em regra, subordinem-se a decisão política, conforme adverte Fernando Facury Scaff.148 Trata-se, a nosso ver, do mais forte ponto de contato entre sustentabilidade e segurança. Sobre ele discorreremos mais detidamente no subtópico 4.5.2.
4.5.1 Dívida como parâmetro de sustentabilidade financeira
Leonardo Romero Marino, ao tratar do conteúdo jurídico-constitucional da sustentabilidade financeira, a relaciona à viabilidade, no médio e longo prazo, do normal pagamento da dívida pública – e de sua rolagem, quando for o caso – sem a necessidade de grandes alterações da política fiscal, pela ele- vação drástica da carga tributária e/ou forte corte de despesa, ou de recurso ao financiamento inflacionário,149 dados os impactos negativos dessas alternativas sobre o ambiente econômico e o bem-estar social.
Hão de ser considerados não só a dívida propriamente dita, mas todo comprometimento financeiro futuro, por meio da concessão de “garantias, operações extraorçamentárias equiparáveis, e ‘colateralizações’ que onerem receitas futuras, inclusive decorrentes do lucro esperado de empresas estatais”,
148 SCAFF, Fernando Facury. Orçamento republicano e liberdade igual, cit., p. 299.
149 MARINO, Leonardo Romero. Moldando a “reserva do possível” no tempo, cit., p. 174.
conforme adverte o FMI.150 Acrescentamos, ainda, a chamada dívida implícita, bastante relevante em termos de sustentabilidade financeira, na qual se desta- cam os passivos previdenciários sem uma preestabelecida e suficiente fonte de financiamento, constitutivos do déficit previdenciário atuarial.151
Mais do que assegurar a solvência do Estado e, assim, o direito dos cre- dores, o conceito deixa claro que a sustentabilidade financeira visa antes à pre- venção de desdobramentos deletérios para o nível geral de bem-estar. Promove, dessa forma, a segurança, primeiramente, dos não credores, tanto na condição de agentes econômicos – comum a indivíduos e empresas, em maior ou menor dimensão –, quanto de cidadãos, pagadores de tributos, usuários de serviços públicos e beneficiários, diretos e indiretos, de políticas públicas.
Importante mencionar que a sustentabilidade financeira do Estado, nos termos a que se refere Marino, não depende unicamente da gestão fiscal. Ela depende também do impacto de variáveis macroeconômicas não fiscais, tais quais crescimento econômico, inflação, juros e câmbio,152 cujo tratamento, logo, igualmente se insere na temática da sustentabilidade financeira.
O crescimento econômico, por exemplo, além de minimizar o peso relati- vo da dívida pública, e dos respectivos encargos, tem efeito positivo, também, sobre a arrecadação tributária – e sobre outras receitas públicas –, constituin- do, dessa forma, variável particularmente importante para o quadro fiscal de um país.
Essas outras variáveis são, por outro lado, direta e indiretamente impacta- das pelo equilíbrio da gestão fiscal, o que reforça a importância primária deste para o asseguramento da sustentabilidade financeira do Estado. Encontra-se bastante demonstrada na literatura econômica a relação entre disciplina fiscal, estabilidade macroeconômica e crescimento econômico, ainda que outros fato- res sejam relevantes.
A definição de Marino bem incorpora o significado corrente de sustenta- bilidade financeira na literatura econômica, do qual não destoa o significado jurídico-constitucional, ainda que a ele não se restrinja, englobando outros as- pectos, sobre os quais discorreremos no subtópico seguinte.
150 FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Fiscal Transparency Handbook, cit., p. 115.
151 KOPITS, George; CRAIG, Jon. Transparency in Government Operation, cit., p. 10.
152 MAGALHÃES, Luís Carlos G.; COSTA, Carla Rodrigues. Arranjos institucionais, custos da dívida pública e equilíbrio fiscal, cit., p. 36.
Nesse sentido, é possível afirmar que o constituinte reformador, ao expli- citar, por meio da EC 109/2021, a “sustentabilidade da dívida” como diretriz da gestão fiscal (art. 163, VIII, c/c 164-A), se valeu de expressão não abran- gente de todo o conteúdo constitucional da sustentabilidade financeira. Assim, tal reforma constitucional acaba por obstaculizar, em alguma medida, que o princípio seja considerado em seu pleno sentido constitucional, o qual aprofun- daremos a seguir.
4.5.2 Segurança fiscal como ponto de intersecção entre os princípios da segurança e da sustentabilidade
A sustentabilidade financeira constitucionalmente considerada não se sa- tisfaz pela simples presença das condições fiscais necessárias à continuidade do pagamento da dívida, à estabilidade da política fiscal e à mitigação de riscos macroeconômicos. Uma gestão financeiramente sustentável, em termos jurídi- co-constitucionais, deve se preocupar também com a preservação, a médio e longo prazo, de espaço fiscal suficiente ao financiamento de políticas públicas concretizadoras do texto constitucional e, sobretudo, daquelas indispensáveis ao resguardo dos direitos fundamentais, ao menos em seus núcleos essenciais, e dos níveis de fruição já alcançados dos direitos sociais. Incorpora, portanto, o que denominamos segurança fiscal.
Isso exige do Estado a busca de receitas públicas suficientes, especial- mente por meio do pleno exercício de suas competências tributárias. Não de forma excessivamente compressiva da renda privada e potencialmente inibido- ra da atividade econômica, mas equilibrada e socialmente equitativa. Envolve, também, o controle das despesas públicas, visando a aprimorar-lhes a eficiência e refrear-lhes a expansão não planejada, além de prevenir perdas e desvios.
Inclusive no que tange às despesas com juros e encargos da dívida pública, para que não se imponham sobre parcela demasiada da receita.
Sob tal prisma, mesmo expansões dos níveis de fruição de direitos podem se mostrar juridicamente questionáveis à luz do princípio, quando geradoras de comprometimento excessivo do orçamento e da capacidade de atuação do Estado em frentes constitucional ou socialmente prioritárias.153
153 A título de exemplo, podemos mencionar a grande e rápida expansão do programa federal de financiamento estudantil – FIES, entre 2010 e 2014, partindo de 76.039 novos financia- mentos concedidos em 2010 para 732.593 em 2014, sem o adequado e transparente plane-
Os limites de dívida podem e devem desempenhar papel relevante na pre- servação do adequado financiamento dos direitos fundamentais e da capacidade financeira do Estado de perseguir a concretização do projeto constitucional, inclusive porque previnem, por via reflexa, um crescente comprometimento do orçamento público com o serviço da dívida.
Ao mesmo tempo, esses limites, quando atingidos, não podem significar a completa perda de acesso ao crédito, como fonte suplementar de financiamento do déficit público, sob pena de colocar em risco a continuidade de serviços pú- blicos e o financiamento de políticas públicas constitucionalmente relevantes.
Importante acrescentar que o controle quantitativo da dívida pública tem entre seus fins, justamente, a preservação do crédito público e, portanto, do acesso do Estado a novos empréstimos, quando necessários.
As preocupações de segurança fiscal, a exemplo das aqui pontuadas, devem permear a discussão de um regime jurídico fiscal, de forma a que a busca da sustentabilidade financeira não se restrinja a seu sentido estritamente econômico, centrando-se, especialmente, em considerações pertinentes aos di- reitos fundamentais, cuja proteção e promoção é aspecto prioritário e cerne do Estado Democrático de Direito.
4.5.2.1 Retrocesso social e segurança fiscal
A proibição do retrocesso, sob perspectiva financeira, insere-se no âmbito material da segurança fiscal. Sua relação com a segurança jurídica amplamente considerada – abrangente da segurança fiscal de que ora tratamos –, é ponto pacífico na doutrina, assim como sua relação com o Estado Democrático de Direito.154
jamento e dimensionamento do respectivo custo fiscal, resultando em reiterada e expressiva subestimação desse custo, ano a ano, a partir de 2012. Em 2014, o valor pago ultrapassou em 689% o valor originalmente consignado na lei do orçamento, desconsiderados os subsídios creditícios implícitos, indicando um aparente descompasso entre a execução do programa e o planejamento financeiro. Logo no ano seguinte, em 2015, o programa foi revisto e os novos financiamentos foram fortemente reduzidos a 287.451, sem, contudo, conter de ime- diato o crescimento do respectivo custo. Em 2017, houve nova e mais ampla revisão (por meio da Medida Provisória 785/2017, convertida na Lei 13.530/2017) (BRASIL. Tribunal de Contas da União. Acórdão nº 1643/2018. Plenário, rel. Min. Ana Arraes, de 18 jul. 2018).
154 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 10. ed. Porto Alegre: Livra- ria do Advogado, 2010. p. 446.
A proibição do retrocesso “pode ser compreendida, em sentido amplo, como norma jurídica de proteção dos níveis de concretização já alcançados quanto a valores e objetivos constitucionais”, pautada nos princípios da força normativa da Constituição e da máxima efetividade, ainda que mais comumen- te associada aos níveis de concretização dos direitos sociais.155
A despeito do termo “proibição”, Ingo Sarlet bem adverte não se tratar de uma vedação absoluta a providências supressivas de políticas sociais. Exis- tiria, na realidade, razoável consenso de que uma vedação absoluta em tal sentido imporia restrição antidemocrática à liberdade de conformação política da ação estatal e indesejado engessamento, obstativo, inclusive, de ganhos de eficiência.156 O nosso entendimento a esse respeito, já defendido em trabalho anterior – e neste ponto convergente, em boa medida, com a posição do cons- titucionalista português Jorge Reis Novais157 – é de que há um mau emprego do termo “proibição”.158
Não se nega a existência de limites constitucionais à constrição de polí- ticas sociais. Não discordamos, por exemplo, da intangibilidade do “núcleo essencial” também dos direitos sociais, abrangidos que são por cláusula pétrea
155 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 221-222.
156 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, cit., p. 448-449.
157 “Assim, a concepção do princípio da proibição do retrocesso social entendida enquanto proibição de diminuição de níveis outrora garantidos de realização dos direitos sociais, ou de um direito social em particular, não tem, pura e simplesmente, nem arrimo positivo em qualquer ordem constitucional, nem sustentação dogmática, nem justificação ou apoio em quaisquer critérios de simples razoabilidade. [...] Daí porque a doutrina que persiste na fórmula lhe tenha que atribuir um sentido de relativização através do qual, se bem que contradizendo o enunciado emblemático, se pretender salvar a viabilidade da fórmula: a proibição deixa verdadeiramente de o ser. Ou seja, onde se lê é ‘proibido retroceder’ deve passar a entender-se ‘é admissível retroceder, mas com limites ou com excepções’.
Dir-se-ia, então, de acordo com as inúmeras propostas com esse sentido geral, que não se trata de proibição de retrocesso absoluta, mas tão só relativa ou de prima facie, ou seja, que a proibição só incide sobre retrocessos que afectam o mínimo social, que afectam o conteúdo essencial dos direitos em causa, que sejam desproporcionados ou desrazoáveis, ou que afectem a proteção da confiança, a igualdade ou a dignidade da pessoa humana” (NOVAIS, Jorge Reis. Direitos sociais: teoria jurídica dos direitos sociais enquanto direitos fundamentais. Coimbra: Coimbra Editora, 2010. p. 244-245) (grifos do autor).
158 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 223-226.
constitucional. Assim, supressões de políticas públicas que atinjam esse tal núcleo não serão constitucionalmente legítimas,159 ao menos quando não acom- panhadas de “esquemas alternativos ou compensatórios”, conforme ressalva Canotilho.160
Porém, a própria identificação desse núcleo essencial se sujeita a infindá- veis controvérsias. A indeterminação do conceito jurídico admite, no mínimo, alguma variabilidade quanto ao seu conteúdo, conforme “circunstâncias histó- ricas, geográficas, sociais, econômicas e culturais em cada lugar e momento em que estiver em causa” (tal como desenvolvido por Sarlet quanto ao conceito de mínimo existencial161). Assim, a evidenciação do núcleo essencial dos direitos sociais não prescinde da consideração do contexto, no que se insere a aferição da capacidade financeira do Estado.162
Por outro lado, não discordamos de Sarlet quanto à sensibilidade de me- didas restritivas em matéria de direitos sociais, as quais, segundo ele, devem ser encaradas com reservas (ela chega a sustentar uma presumida inconstitu- cionalidade, ainda que relativa), demandando sempre justificativa constitucio- nal idônea.163
Pensamos que, havendo motivação suficiente, impõe-se alguma deferência à ponderação proporcional inerente à decisão política, diante da presunção de legitimidade de que esta se reveste e de algum grau de subjetividade comumen- te subjacente aos tais juízos de ponderação – sobre o que tratamos anteriormen- te –, a demandar, em algum nível, o exercício de uma escolha, admissível, em princípio, tão só aos agentes politicamente legitimados. Ressalva-se, contudo, a possibilidade de a ofensa constitucional de que se cogite situar-se em uma
“zona de certeza”, a comportar pouca controvérsia, autorizando, assim, a inter- venção judicial.164
159 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 223-224.
160 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição, cit., p. 339-340.
161 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, cit., p. 455.
162 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 230.
163 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, cit., p. 452-455.
164 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 224-228.
A bem da verdade, as contingências econômicas, tanto no Brasil quanto na Europa continental – berço do Estado Social e da teoria da proibição do retro- cesso – têm posto em dúvida a confiança em uma expansão certa e contínua da capacidade do Estado de custeio de prestações sociais, condicionante fática da ideia de progressividade, avessa a “retrocessos”.165-166
A questão ambiental que o mundo hoje enfrenta, de aprofundamento das mudanças climáticas em virtude da ação humana, corrobora o receio de que as expectativas de progresso econômico contínuo, criadas a partir da segunda metade do século XX, serão, de uma forma ou de outra, parcialmente frustra- das, seja pela urgência de se superar modelos de negócio poluentes, seja pelos possíveis obstáculos que a instabilidade climática deverá impor à expansão da atividade econômica global. Diante de tal quadro, a professora portuguesa Suzana Tavares da Silva enxerga como inevitável algum retrocesso social e destaca a necessidade de se voltar a atenção do Direito para a justa repartição dos prejuízos.167
Isso não justifica o abandono da diretriz de progressividade dos direitos sociais, mas impõe reconhecer que ela encontra obstáculo na limitada e, nem sempre crescente, disponibilidade financeira do Estado.168
Não que não se possa considerar a expansão dos direitos sociais em ce- nários de estagnação, ou mesmo de recessão econômica, quando a vulnera-
165 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 225.
166 Emblemática, a esse respeito, a frustrada constatação de Canotilho de uma aparente insus- tentabilidade do princípio: “O rígido princípio da ‘não reversibilidade’ ou, formulação mar- cadamente ideológica, o ‘princípio da proibição da evolução reacionária’ pressupunha um progresso, uma direção e uma meta emancipatória e unilateralmente definidas: aumento con- tínuo de prestações sociais. Deve relativizar-se este discurso que nós próprios enfatizámos noutros trabalhos. A dramática aceitação de ‘menos trabalho e menos salário, mas trabalho para todos’, o desafio da bancarrota da previdência social, o desemprego duradouro, parecem apontar para a insustentabilidade do princípio da não reversibilidade social” (CANOTILHO, J. J. Gomes. Estudos sobre direitos fundamentais. 1. ed. brasileira. 2. ed. portuguesa. São Paulo: Revista dos Tribunais. Coimbra: Coimbra Editora, 2008. p. 110-111).
167 SILVA, Suzana Tavares da. Sustentabilidade e solidariedade em tempos de crise. In:
NABAIS, José Casalta; SILVA, Suzana Tavares da (coord.). Sustentabilidade fiscal em tempos de crise. Coimbra: Almedina, 2011. p. 72-74.
168 LIMA, Rodrigo Medeiros de. Justiça distributiva e retrocesso social constitucionalmente considerado, cit., p. 225-226.