PLANEJAMENTO E PLANEJAMENTO DE ENSINO
2.3 Uma tipologia de planejamento de ensino: pedagogia de projetos, temas geradores e complexos temáticos
2.3.2 Temas Geradores
pelo individuo aprendente. Em virtude disso, o autor enfatiza o PORQUÊ trabalhar com os projetos e não o COMO, compreendendo-os para além de artifícios metodológicos.
Os temas podem ser propostos pelos alunos e professores, uma vez que não há uma relação de autoritarismo entre ambos. O educando é entendido com um ser ativo, que faz parte do processo educador como um mediador, que auxilia na construção do conhecimento. Os temas geradores, devem fazer parte do contexto dos sujeitos, e assim como na pedagogia de projetos, deve-se superar a fragmentação do conhecimento.
Nesse viés, é possível trabalhar com os temas geradores no âmbito escolar, independentemente do nível de escolarização dos alunos.
Considerando que, todo processo de ensino e aprendizagem deve ocorrer a partir da conjuntura dos envolvidos, faz-se necessário que o planejamento na perspectiva dos temas geradores, parta da realidade dos sujeitos e das suas situações existenciais, respeitando as suas experiências de vida e particularidades com vista a sua conscientização. Assim. no que tange ao planejamento das atividades deve”
Incluir um processo pedagógico multirreferencial, na medida em que são necessárias para esse trabalho múltiplas fontes de informação, vindas de dentro e de fora da instituição formadora” (MACEDO, 2013, p.103).
Portanto, ao planejar o ensino, os conteúdos devem escolhidos pelos alunos e professores, pois de acordo com Freire (2005), não é possível trazer um conteúdo já pronto. Faz-se necessário um processo de investigação acerca dos mesmos. É preciso fazer uma investigação temática, sendo que estes temas devem obrigatoriamente fazer parte da realidade destes sujeitos. Nesse viés, o referido autor propõe que a investigação dos temas geradores, se dê, a partir de algumas fases, salientando algumas das etapas que se fazem presentes neste processo. Ressalta ainda, que esta investigação não pode se dar de forma mecanizada e que necessariamente precisa ter uma metodologia dialógica.
Vejamos a seguir, as fases destacadas por Freire:
1ª fase: A investigação do universo vocabular. Esta fase de acordo com o autor, refere-se a investigação do universo vocabular e a o estuda da realidade. Antes que se inicie o processo de investigação faz-se necessário que se delimite a área em que se vai trabalhar. É preciso dialogar com o público, encontrar sujeitos que sejam auxiliares no processo investigativo. Faz necessário ainda, que se esclareça ao público o “porquê, o como e para quê” da investigação. Ainda nesta etapa, Freire salienta que é preciso que os investigadores em conjunto com a equipe auxiliar realize visitas e observações na localidade, para que estão programe os conteúdos a serem desenvolvidos na ação educativa. Em cada visita os investigadores devem elaborar breves relatórios para serem discutidos e avaliados durante os seminários de socialização. Não obstante, salienta que
esta fase ainda não se faz suficiente para estruturar os conteúdos, é apenas uma fase de aproximação.
2ª fase: A apreensão das contradições. Freire salienta que esta tem início quando a partir dos dados recolhidos, chega-se a apreensão do conjunto de contradições ou situações-limites. Em equipe, os investigadores vão escolher tais situações para serem codificadas, estas por sua vez devem ser obrigatoriamente representadas por situações cotidianas dos indivíduos. As codificações6 preparadas devem ser estudadas pelas equipes interdisciplinares, de todos os ângulos possíveis nelas contidos.
3ª fase: A descodificação nos círculos de investigação. De acordo com Freire esta fase tem início após a preparação das codificações. Inicia-se então, de forma dialógica o processo de descodificação, nos círculos de investigação temática.
Na medida em que operacionalizam estes círculos, com a descodificação do material elaborado na etapa anterior, vão sendo gravadas as discussões que serão, no que se segue, analisadas pela equipe interdisciplinar. Nas reuniões de analises deste material, devem estar presentes os auxiliares de investigação, representantes do povo, e alguns participantes dos “círculos de investigação” (FREIRE,2005, p.130).
Ademais, o autor salienta ainda que se faz necessário nestas reuniões de descodificações, a presença de um psicólogo e um sociólogo, cuja tarefa consiste no registro das reações significativas ou insignificativas dos descodificadores. Assim, cabe ao investigadores desafiar os participantes dos círculos de investigação, problematizar a situação existencial, fazendo com que os mesmos “extrojetem”, sentimentos acerca de si e do mundo que em outras situações distintas dessa não aconteceriam.
4ª fase: O estudo sistematizado. Inicia-se após o término das decodificações nos círculos de investigação, com os estudos sistematizados das temáticas achadas. São ouvidas as gravações feitas das decodificações e estuda-se as anotações realizadas pelo psicólogo e sociólogo como descrita na etapa anterior. A partir daí que vão emergindo os temas seja de forma implícita ou explicita, partindo das afirmações feitas nos círculos de investigação. Os temas por sua vez devem ser classificados em um quadro das ciências, no entanto sem departamentos estanques. Isso significa, que haja a classificação das ciências, mas sem, estar preso a determinadas ciências. Esta deve perpassar por várias ciências sem se restringir apenas a uma. Após a delimitação da temática, cada especialista
6 De acordo com Freire, as codificações são representações por meio de ilustrações seja em desenhos, imagens ou fotografias de um aspecto da realidade dos sujeitos, de uma situação existencial.
deve apresentar um projeto de “redução” do seu tema. Em seguida deve-se realizar a próxima etapa que constitui-se na codificação, na qual escolhe-se o melhor meio de comunicação7 do tema já reduzido. O próximo passo configura-se na confecção do material: fotografias, slides, fim strips, cartazes, textos de leitura etc.
Diante do exposto, percebe-se a relevância do trabalho com os temas geradores.
Entretanto, entende-se que ao desenvolver este trabalho é preciso que haja, todo um aparato que contemple a realidade dos sujeitos inseridos neste processo, por isso a investigação temática. Assim, o trabalhar com temas geradores tem uma perspectiva política e emancipadora. Possibilita um desenvolvimento da criticidade fazendo com que os sujeitos possam fazer uma leitura da realidade em que está inserida, uma leitura crítica de mundo. Diante disso, para trabalhar com os temas geradores em sala de aula, é de fundamental importância que os educadores conheçam a realidade dos educandos, problematize-a, para que estes possam compreendê-la, consequentemente intervir na mesma de forma significativa. Os temas só tem significância se estiver em consonância com a realidade dos sujeitos, assim as disciplinas não constitui-se o foco deste processo de ensino.