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A diferença de atitudes e a força das motivações pessoais, bem como sua associação clara (e mesmo consciente) do passado estudado ao seu presente, são dadas numa de suas últimas entrevistas:
(falando da Antiga Europa): This was the attraction – beautifull pottery, painting. It was like going back to paradise after what had happened later‖;
(falando sobre a Europa do Bronze): ―Weapons, weapons, weapons, ... like TV – war, war, war, war, whathever channel. All the descriptions of swords, daggers and others weapons, and that warrior culture which continued for 5.000 years up till this day, exhausted me. I didn´t like it and I don´t look at it (..) The Indo-European work was misery ... the later work was a deliverance (apud CHAPMAN, 1998, p. 307).
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referência empregada por germanistas, estudantes de Escandinávia e Leste-Europeu quando confrontados em seus ramos de pesquisa com a necessidade de contextualização de conhecimentos referentes aos antigos baltos anteriores à época medieval.
Mas quem são estes baltos? Trata-se de populações de ramo próprio de língua indo-européia, que do Neolítico até o Medievo habitavam a região Sudoeste do mar Báltico, tendo por vizinhos germânicos e escandinavos ao Sul e a Oeste, eslavos a Leste e Sul, e populações fino-úgricas não-indo- européias a Norte e Leste. Na atualidade, seus remanescentes são as populações da Lituânia e Letônia, sendo que a Estônia é habitada por falantes de linguagem fino-úgrica, aparentada ao finlandês e, mais distantemente, aos lapões (sami) e húngaros.
O vínculo de Gimbutas com a região em estudo, portanto, extrapola o interesse acadêmico e remonta à sua infância passada na Lituânia; uma escrita carregada de conteúdo emocional, que contribuiria em muito à paixão colocada por ela na escrita do livro. Como a autora afirma no Prefácio:
Este livro foi escrito em Stanford (...) numa colina de onde se descortina uma visão ampla de todas as direções. Aqui, em certos momentos, eu imaginava as colinas e as encostas do castelo de Gediminas, em Vilnius, cobertas de carvalhos
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verdes, a minha cidade natal no coração das terras bálticas, da qual estou ausente há quase vinte anos. As dunas de areia da Califórnia, em Carmel, me recordam a branca e pura areia de Palanga, onde eu costumava recolher punhados de âmbar; o crepúsculo do Pacífico me lembra um sol repleto de paz mergulhando no mar Báltico; meus antepassados acreditavam que lá, no poente, existia a árvore cósmica, o eixo do mundo, sustentando a abóboda do céu (GIMBUTAS, 1985).10
Em quesitos metodológicos, ―The Balts‖ não apresenta grandes inovações. Consiste numa síntese basicamente construída sobre bases histórico-culturais, com algumas inovações já iniciadas anteriormente por Gimbutas em
―Bronze Age Cultures‖, como um emprego muito mais acentuado da ciência linguística e o desenvolvimento do conceito cunhado pela própria Gimbutas de
―Archaeomythology‖ (arqueomitologia).
Nele, Gimbutas traça a história dos baltos desde o Neolítico (quando supostamente chegaram às praias do Báltico os primeiros falantes de idiomas indo-europeus, que teriam mesclado-se à população fino-úgrica original) até o início do período histórico, marcado pelas expedições de
10 The Balts, prefácio. Aqui citamos a versão para o português, tradução de Antanas Gaulia.
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cruzadas religiosas no norte da Europa dirigida por teutões e escandinavos.
Seu retrato do balto, entretanto, é peculiar, e demonstra uma clara transição e incorporação das ideologias de Gimbutas de antes e depois de sua mudança de residência para a Califórnia. Conquanto ―The Balts‖ enquadre-se bem no padrão de trabalhos ―síntese‖ efetuados no seu período no Peabody, e sua metodologia não tenha sofrido alterações (na verdade, Gimbutas manteve-se por toda a vida fundamentada em explicações de matriz migracionista e histórico-cultural), é ali que ela demonstra boa parte da inspiração de seus escritos posteriores.
Já em seus últimos anos de vida em ―The Civilization of the Goddess‖ (GIMBUTAS, 1991), ela nos dá a pista do pensamento-matriz que tanto tempo a inspirou: ―A cultura dos bálticos (...) é uma verdadeira fusão de sistemas sociais e religiosos da Antiga Europa e Indo-Européia (...) O patriarcado indo-europeu é diluído aqui por elementos antigo-europeus de matrilinearidade, matrilocalidade, matricentralidade‖.11
11Trecho original completo: ― The culture of the Baltic speakers, Prussians, Lithuanians, and Latvians farther east along the Baltic Sea coast is a true blend of Old European and Indo-European social systems and religions. The Indo-European patriarchy is diluited here by Old European elements of matriliny, matrilocality, matricentrality. The Old Prussian term for grandmother was ane (compare with the Old Irish anu or ana for "old hag' and "guardian of the dead"). The important role of the mother's and wife's brother, as well as traces of endogamy and trial marriage, are well attested in Latvian and Lithuanian folklore. The matricentric pantheon of goddesses among the Balts is as strongly preserved as among the Basques. The Slavic culture is equally replete with matricentric elements, with goddesses preserved in Slavic folklore and folk art as they are in the Baltic and Basque cultures.‖ (GIMBUTAS, 1991)
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Em primeiro lugar, portanto, é nos países bálticos, em particular na Lituânia, que Gimbutas localiza um lugar antigo e idílico, a mistura perfeita das coisas, onde a cultura e a religião da ―Antiga Europa‖ (femininas) diluíram o elemento indo-europeu (portanto, em seu ponto de vista, masculino). Os bálticos (e, posteriormente, também os eslavos) são comparados às mais antigas culturas européias, os bascos12.
Em complemento, no entanto, os baltos são também apresentados como portadores da civilização para os habitantes de florestas fino-úgricos (que, não obstante terem deixado o legado da deusa, careceriam de tecnologia). Para tanto, o suporte é novamente fornecido pela lingüística:
The great numbers of loan-words and the whole series of terms in connection with food-producing economy and technology indicate that the Balts were the carriers of civilization towards the north-east of Europe inhabited by the Finnic- Ugrians hunters and fishers (GIMBUTAS, 1963, p.
36, grifo nosso).
No quesito de territorialidade e possíveis inclinações nacionalistas, as posições de Gimbutas mantêm-se singulares. O território balto ―original‖ teria sido muito mais extenso que no presente, e, para tanto, a evidência de topônimos e nomes de rios é apresentada. Neste território
12Que não falam um idioma indo-europeu e são considerados como habitantes anteriores aos movimentos indo-europeus.
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ancestral, os grupos indo-europeus diluíram-se, mesclaram-se com as culturas fino-úgricas locais, mantendo assim preservadas as melhores características da civilização da deusa. Sua extensão territorial veio a ser drasticamente reduzida aos limites atuais de Letônia e Lituânia principalmente devido às expansões eslávicas (posteriormente, às germânicas), e aqui poderia sugerir também a repetição e similaridade com os kurgans de sua temática presente da expansão russo-soviética (portanto, eslava) na inspiração de Gimbutas, mas é justo notar que tal modelo de exclusão étnica não é nunca defendido por ela.
Tanto que, posteriormente, Gimbutas publicará também ―The Slavs‖ (Os Eslavos13), ainda que não com a mesma paixão demonstrada em ―The Balts‖. O elemento opressor, antes de racial, ainda consiste numa representação do masculino.
De forma mais significativa, Gimbutas também reconhecera nas culturas e mitologias eslávicas grande parte das mesmas características de permanências da ―Antiga Europa‖14, como uma sociedade de marcas matriarcais, uma mitologia com grande número de divindades femininas, entre outros quesitos já apontados. Por fim, o repúdio às segmentações raciais é demonstrado claramente nesta passagem de ―The Slavs‖: ―Os Eslavos não constituem um grupo de povos do mesmo sangue; não há uma raça eslava,
13 Empregamos a versão para o português. Gimbutas (1985).
14 Vide a referência na nota 07.
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como não há uma raça românica ou uma raça germânica‖
(GIMBUTAS, 1985).
A contrariedade apresentada por Gimbutas, portanto, revela-se contra o elemento opressor para ela representado pela URSS e em última instância de análise, masculino. É notório que ela tenha sido condecorada com ordens de méritos literário e científico pelos governos da Itália, Bulgária, Iugoslávia, Grécia e Lituânia, tendo nesta última recebido um doutorado honorário pela universidade de Vilnius, enquanto que na URSS a leitura de ―The Balts‖, em contrapartida, era proibida.
CONCLUSÕES
O trabalho de Marija Gimbutas é extenso, complexo e fruto de extrema erudição e esforço. Demonstra de forma marcante os rumos que a subjetividade e as experiências do presente do estudioso podem vir a imprimir na sua construção do conhecimento científico. Seu passado na Lituânia, a invasão e consequente dominação de sua terra natal e seu exílio foram marcas que inspiraram idéias e imprimiram conceitos em suas obras, mas que nem por isto podem desmerecer as idéias em si. O valor científico de grande parte da obra de Gimbutas permanece, e sua contribuição foi muito grande no campo da arqueologia, em particular nos estudos indo-europeus. Fica ressaltada a necessidade de atenção
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constante da parte do historiador ao produzir um conhecimento novo, em particular sobre que reflexos sobre a sociedade tal conhecimento possa vir a produzir, que ideologias pode reafirmar e desconstruir. A subjetividade pessoal sempre estará presente e afetará o pesquisador, seja na forma de inspiração, doutrina e ideologia, seja de forma pouco ou muito percebida. O uso do conhecimento histórico e arqueológico foram amíude empregados como formas de legitimizações diversas de governos, sistemas totalitários e ideologias específicas (HERING, 2006, 148s). No caso específico de Gimbutas, a parte selecionada aqui de sua obra reflete resistências contra a ocupação de sua terra ancestral com construções idílicas sobre a mesma, uma ideologização que poderíamos chamar quase que ―inocente‖, quando contraposta aos usos e abusos já efetuados com o conhecimento arqueológico, como por exemplo seu uso pelo 3°reich como ―legitimação da política cultural e racial do nacionalismo-socialismo‖ (OLIVIER, 2006, p. 167). Cabe ao historiador e ao arqueólogo a busca da construção de um conhecimento crítico e consciente de sua própria subjetividade e do presente de onde se fala.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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notas para servir ao estudo da “banalidade do mal” em arqueologia. In: FUNARI, Pedro Paulo A. Funari, ORSER, Charles E.; SCHIAVETTO, Solange Nunes de Oliveira (Orgs.).
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RENFREW, Colin.Archaeology & Language: The Puzzle of Indo-European Origins. Cambridge: Cambridge University Press, 1999 [1987].
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Cultura e política no Rio de Janeiro:
os caixeiros e o teatro de São Januário na segunda metade do século XIX
Sílvia Cristina Martins de Souza
Resumo: Partindo do pressuposto de que as relações políticas excedem o campo do político institucional, e de que uma cultura política pode irrigar um grupo humano com canais de expressão atendendo a algumas de suas aspirações, crenças, normas e valores, este artigo busca compreender o processo a partir do qual o teatro de São Januário transformou-se parte constitutiva de uma cultura política partilhada pelos caixeiros do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX exercendo um papel significativo na luta pela redefinição das suas relações de trabalho com seus patrões.
Palavras-chave: Cultura. Política. Cultura política.
Culture and politics in Rio de Janeiro: the "caixeiros" and the São Januário theatre at the second half of the XIX century
Abstract: Considering that the politics relations exceed the field of institutional politics and that a politics culture can
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provide a human group with expression vials supplying some of its aspirations, expectations, rules and beliefs, this article seeks to understand the process from which the theater of São Januário became part of a political culture shared by the
“caixeiros” of Rio de Janeiro in the second half of the 19th century, playing a major role in the attempts for redefining their work relations with their employers.
Keywords: Culture. Politics. Political culture.
1.
No dia 19 de abril de 1857, o jornal O Carapuça publicou uma pequena nota dando conta de uma récita ocorrida no teatro de São Januário na semana anterior. Nela informava-se que os caixeiros da cidade do Rio de Janeiro aproveitaram a ocasião para agradecer ao ator Florindo Joaquim da Silva pelos esforços por ele despendidos para apresentar-se com sua companhia com regularidade naquele teatro, e pela prontidão no atendimento dos seus vários pedidos de encenação de peças realizados através de pequenas notas publicadas nos jornais.15
O Jornal do Comércio também registrou o evento e ressaltou a atitude honrosa da ―comissão caixeiral‖, que entregou a Florindo uma ―coroa de ouro [confeccionada] às
15 A sessão ―a pedidos‖ do Jornal do Comércio está repleta desta notas assim como a sessão de anúncios do Diário do Rio de Janeiro. Nelas os caixeiros apresentavam-se como ―a classe caixeiral‖, ―o corpo caixeiral‖, ―os rapazes do comércio‖, ―rapaziada‖, ―alguns caixeiros‖ e daí por diante.
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expensas do corpo caixeiral‖, coroa esta que simbolizava tanto um reconhecimento a seu mérito, quanto a ―glória da nobre corporação [caixeiral]‖, que lhe reconhecia o ―talento artístico‖ e os ―bons e longos serviços‖ prestados ao país.16
A associação do nome do teatro de São Januário aos caixeiros, presente nestas duas notas, foi constantemente reiterada nos jornais da Corte ao longo dos anos 1860.
Alimentada tanto pelos caixeiros, quanto pelos diferentes empresários que ocuparam aquele teatro neste período, de tal forma ela se tornou recorrente que em algumas ocasiões o teatro de São Januário chegou a ser identificado como o teatro dos caixeiros.
A história do teatro de São Januário pode, até certo ponto, ajudar na compreensão desta associação a que vimos nos referindo. Inicialmente denominado teatro da Praia de d.Manuel, aquela sala foi construída por uma companhia de atores portugueses em terreno cedido pelo governo, na rua do Cotovelo, entre a praia de d.Manuel e a rua do mesmo nome.
Inaugurado a 2 de agosto de 1834, o teatro passou a chamar-se São Januário em setembro de 1848, em homenagem a uma das filhas do imperador.17
Apesar de ser uma sala cômoda e de proporções razoáveis, o teatro de São Januário apresentava um
16 Jornal do Comércio, 19 de abril de 1857.
17 SOUZA, J. Galante de. O teatro no Brasil. Rio de Janeiro: INL, 1960. p.
292-3. Em 1859 o São Januário foi temporariamente denominado para teatro de Variedades, tendo o mesmo ocorrido em 1862, quando se chamou Ateneu Dramático.
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inconveniente, de acordo com as avaliações de alguns contemporâneos: o local onde fora construído, numa região tida como perigosa e distante da freguesia do Sacramento, na qual se concentravam os teatros do Rio.
De tal forma esta imagem disseminou-se que até mesmo a literatura a incorporou. Não é outra a menção feita por Machado de Assis no seu conto ―A causa secreta‖ no qual o personagem Garcia, que morava na rua de d. Manuel, cultivava como uma de suas raras distrações, ir ao teatro de são Januário, ―que ficava perto, entre a rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade‖.18
No ano de 1859, quando o São Januário foi temporariamente ocupado pela companhia teatral do ator e empresário Germano de Oliveira, Machado de Assis mais uma vez chamou a atenção para este assunto em um dos folhetins que assinou para o jornal O Espelho. Nele este folhetinista diria que
Sem recursos, mal localizado, e por conseqüência fora do centro da atividade pública, o Sr. Germano troca cada esforço por um obstáculo, cada êxito por uma privação. (...)
18 ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Rio de Janeiro: Jackson, 1950. p.
120.
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Não tem uma companhia completa e perfeita, sou o primeiro a dizê-lo; mas, por outro lado, posso discriminar o trabalho da incúria, e sempre que uma soma de talento se casa ao labor e ao estudo há uma probabilidade de futuro.
O movimento destes últimos dias no teatro de S.
Januário é um evidente pretexto do trabalho, e todo trabalho carece de uma recompensa. É montando peças novas, ensaiando-as com acurado esforço e tino, que o Sr. Germano procura compensar a localidade e as prevenções gratuitas.19
Foi em função de sua localização e das ―prevenções gratuitas‖ que este teatro carregou o estigma de ser frequentado por espectadores pouco ―polidos‖ e dados à balbúrdia, além de ser evitado pelas ―boas famílias‖, servindo apenas para abrigar companhias teatrais ambulantes ou desalojadas, ou ainda como um último ―recurso generoso a artistas desempregados‖.20
No jornal Álbum Literário, de 15 de fevereiro de 1861, um autor anônimo publicou uma crônica a que deu o título de
―Uma tarde no São Januário‖ que, real ou fictícia, nos permite constatar a presença de muitos destes elementos a que vimos nos referindo. Segundo o cronista, um jovem roceiro, há seis meses na Corte, ―de passagem numa tarde pelas portas do
19 O Espelho, 18 de dezembro de 1859.
20Álbum Literário, 15 de fevereiro de 1861.
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São Januário‖, resolveu entrar para assistir à encenação de A máscara negra. Lá estando, o jovem rapaz bateu os olhos em uma moça, sentada num dos camarotes, e resolveu ir até ela fazer a corte. A moça, após resistir aos insistentes galanteios do rapaz, decidiu retirar-se do teatro com ele, dirigindo-se até sua casa onde ―tinha talvez alguma coisa a dizer-lhe‖. O rapaz aquiesceu e ―momentos depois partiram ambos em um carro. Não sabemos qual foi a conversa que teve com a moça; no dia seguinte ambos tinham desaparecido. Diz alguém que os encontrou nas estradas de Minas‖.21
Naquele mesmo ano de 1859, quando Germano de Oliveira estabeleceu uma concorrência acirrada com João Caetano, houve quem, criticando o teatro de São Januário e as pretensões de Germano de Oliveira de fazer frente àquele empresário, o mais famoso da Corte, chegasse pejorativamente a intitular os frequentadores do são Januário de ―protetores do barracão da praia‖.22
21Idem. Um espetáculo no São Januário à tarde foi, sugestivamente, o título dado a uma comédia de autoria do ator Martins, que estreou no dia 5 de maio de 1864 no São Januário. Segundo o anúncio desta récita, publicado no Jornal do Comércio no dia da estréia, ―esta comédia é representada na platéia, camarotes, orquestra e palco‖, o que nos permite sugerir que os espetáculos vespertinos realizados naquela sala devem ter sido bastante animados e contaram com a platéia como coadjuvante a ponto de esta peculiaridade servir de tema de inspiração para peças teatrais e crônicas.
22Correio Mercantil, 21 de janeiro de 1859. Tudo começou quando os empresários João Caetano e Germano de Oliveira colocaram em cena, no mesmo dia, o drama militar intitulado 29 ou Honra e Glória, um dos carros- chefe do repertório do primeiro. As platéias empolgadas com o ineditismo da situação, assistiram às duas apresentações, e muitos espectadores começaram a enviar notinhas para os jornais explicitando suas preferências
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Mesmo considerando-se que o local onde foi erigido tenha incidido sobre sua frequência, há que se levar em consideração que este fato não explica por si só a preferência dos caixeiros pela sala de São Januário, devendo-se relativizar este argumento. Afinal, como estudos recentes sobre o teatro no Brasil vêm demonstrando, as platéias fluminenses eram bastante heterogêneas e frequentavam as mais diferentes salas de espetáculos da cidade sendo possível, por exemplo, constatar-se a presença de caixeiros no teatro Lírico Fluminense, supostamente um reduto das elites, ou a dos imperadores no teatro de São Januário e até mesmo em circos que visitavam a cidade.23
Sendo assim, se o teatro de São Januário foi eleito o teatro cativo dos caixeiros, qualquer possibilidade de compreensão desta escolha deve levar em conta outros fatores para além da localização geográfica, sendo neste
por uma das duas representações. De tal forma o incidente ganhou corpo que os exemplares do drama, que se encontravam à venda nas livrarias do Rio, esgotaram-se em poucos dias. No Correio Mercantil de 19 de janeiro de 1859 uma nota que consta da sessão de anúncios dizia: ―Acha-se aberta em casa de A.J. Ferreira da Silva, rua da Quitanda m. 190, a assinatura para reimpressão do drama de costumes militares (...) intitulado 29. Achando-se esgotada a edição que chegou de Lisboa deste sublime drama (...) julgamos fazer algum serviço ao público com esta nova edição. Preço por assinatura 1$000‖.
23 Ver para este assunto MENCARELLI, Fernando Antônio. A Voz e a Partitura: teatro musical, indústria e diversidade cultural no Rio de Janeiro (1868-1908). Campinas: Unicamp, 2003. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003; SOUZA, Sílvia Cristina Martins de. As Noites do Ginásio: teatro e tensões culturais na Corte (1832-1828). Campinas: Editora da Unicamp/FAPESP, 2002; GOMES, Thiago de Melo. Um espelho no palco. Unicamp: Editora da Unicamp/CECULT, 2006.