2.4 O inglês na atualidade
2.4.1 Trajetória da língua inglesa: global e local
A história da língua inglesa é comumente dividida em três partes: inglês antigo (450 d.C. – final do século XI), inglês médio (início do século XII até o fim do século XV) e inglês moderno (1475 d.C. até os dias atuais). Segundo Graddol (2006a), essa divisão foi forjada no século XIX, em pleno período moderno. Uma vez que estamos agora inseridos no período classificado como pós-moderno, é preciso considerar que a narrativa histórica do inglês reflete os valores do momento em que ela foi produzida. Alguns desses valores são: racionalismo, busca ao progresso (principalmente científico) e criação e valorização da nacionalidade. A narrativa da língua inglesa se confunde e se mescla com a história do surgimento do estado- nação, sendo a língua um dos elementos que ajudaram a unificar e formar a identidade nacional. De acordo com Rajagopalan (2013, p. 146), “as línguas eram convocadas para servir de laço unificador de um povo e distingui-lo dos seus vizinhos”. Graddol (2006a) nos alerta sobre o risco de, ao tentarmos prever o futuro do inglês, simplesmente acrescentarmos uma quarta fase à narrativa moderna dessa língua. Dentro dessa lógica, estaríamos reforçando o discurso do triunfo do inglês sobre as línguas “inimigas” (principalmente o francês); antes como língua nacional, agora como língua global. Essa visão diminui a complexidade do processo de internacionalização da língua anglo-saxônica, que, ao mesmo tempo em que transforma o mundo, também é transformada por ele. Por isso, vale ressaltar que nos valemo s dessa divisão não para reforçar a ideia de “triunfo” do inglês na atualidade, mas para nos ajudar a compreender quais caminhos levaram essa língua a chegar ao seu atual status.
A expansão do inglês pelo mundo se inicia no período moderno (a partir do século XVI) com a expansão do império britânico. A Revolução Industrial proporcionou grande poder econômico à Inglaterra, o que facilitou a expansão do colonialismo britânico; na primeira metade do século XX, seus territórios colonizados alcançavam 20% das terras do planeta. Os Estados Unidos, ex-colônia britânica, também tiveram grande participação na disseminação do inglês pelo mundo. Após a Segunda Guerra Mundial, o país adquiriu grande poder político e militar, o que resultou em forte influência econômica e cultural sobre os demais países. O desenvolvimento simultâneo de novas tecnologias (transporte aéreo, telecomunicações) reforçou a necessidade de uma língua que facilitasse a comunicação global. Nesse cenário, a língua inglesa se estabeleceu como língua franca do mundo. Com a solidificação do inglês como principal língua de comunicação internacional, o francês perde seu status de língua dominante nos meios diplomáticos (SCHÜTZ, 2013). Rajagopalan (2016)
argumenta que há um outro fator de peso na internacionalização do inglês, mas que é geralmente ignorado: a Commonwealth of Nations11. As nações dessa associação, que são em sua maioria ex-colônias britânicas, optaram por continuar usando a língua inglesa como língua oficial, o que contribuiu de forma decisiva para o inglês se tornar uma língua franca mundial.
No contexto brasileiro, a aprendizagem do inglês passou a ser uma necessidade na época em que a corte portuguesa se instalou no Brasil. Para evitar um conflito direto com a França, que ordenou o fechamento dos portos europeus aos navios ingleses, D. João VI decide fugir para o Brasil com o apoio da Inglaterra, que escoltou o navio que trazia a realeza ao país. Em troca, os ingleses exigiram privilégios comerciais na colônia. Com essa mudança, conseguiram estabelecer casas comerciais no país e passaram a ter grande controle sobre o comércio e o capital financeiro. Para conter os ânimos nacionalistas que protestavam contra o amplo domínio inglês, as companhias inglesas começaram a oferecer empregos para brasileiros. Um dos pré-requisitos era o de que estes falassem inglês, o que gerou a primeira demanda pela língua e provavelmente estimulou o surgimento de professores desse idioma (NOGUEIRA, 2007; RAJAGOPALAN, 2016).
O início do ensino formal de inglês como língua estrangeira no Brasil ocorre em 1809 com um decreto assinado pelo príncipe regente, que determina a criação de uma escola de língua inglesa e outra de língua francesa. É nesse momento que as línguas modernas começam a ter o mesmo status que as línguas clássicas (grego e latim), que eram as línguas estrangeiras ensinadas nas escolas. O principal objetivo era capacitar os profissionais brasileiros para a demanda do mercado de trabalho por meio das relações comerciais com nações estrangeiras, especialmente com a Inglaterra. Desde então, o inglês e outras línguas estrangeiras modernas tiveram idas e vindas nos currículos educacionais por meio de sucessivas reformas: ora eram determinadas obrigatórias, ora eram consideradas facultativas, e frequentemente sofriam mudanças na metodologia, conteúdo, carga horária...
Na década de 1930, graças às tensões políticas mundiais que culminaram na Segunda Guerra Mundial, o ensino de inglês ganha força no Brasil, e o prestígio do francês entra em declínio. Aprender inglês era visto como uma forma de fazer frente ao prestígio internacional da Alemanha. Em 1931, uma nova reforma educacional coloca maior ênfase nas línguas modernas e implementa o método direto como forma de ensino: ensinar uma língua
11 A Commonwealth é uma associação voluntária de 52 países independentes e igualmente soberanos. Sua missão é dar apoio aos governos membros e formar parcerias com a ampla família Commonwealth e outras, para melhorar o bem-estar de todos os cidadãos dessa associação e promover seus interesses em comum globalmente (tradução nossa; http://thecommonwealth.org/about-us#sthash.pxUsXYBo.dpuf. Acessado em 05/12/2016.)
estrangeira por meio dessa própria língua. Em 1934, surgem os primeiros cursos livres de inglês no Brasil, que tiveram um expressivo crescimento nos anos 1960 e se mantêm até hoje.
Os chamados “cursinhos” possuem um forte mercado no país, sendo a alternativa preferida dos brasileiros para aprender a língua inglesa12 (BRITISH COUNCIL, 2014).
Cabe ressaltar que o histórico do ensino de inglês no Brasil tem sido marcado por algumas reservas ao idioma, devido à associação entre a língua e a noção de imperialismo cultural, principalmente americano – muitas pessoas associam o inglês aos Estados Unidos e à sua participação na Ditadura Militar que durou mais de 20 anos no Brasil. No entanto, pesquisas mostram que esse sentimento vem mudando gradualmente, à medida em que vêm surgindo novas gerações que não passaram pela experiência do regime ditatorial (BRITISH COUNCIL, 2015).
Após sucessivas reformas que diminuíam a frequência e relevância das línguas estrangeiras (LE(s)) no currículo escolar, a publicação da terceira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) em 1996 retoma a necessidade das LEs no Ensino Fundamental e obrigatoriedade no Ensino Médio. A escolha da língua a ser ensinada ficaria a cargo da comunidade escolar. Em 1999, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) vêm reforçar a necessidade das LEs. O documento sugere uma abordagem sociointeracional que colabore não apenas para a aprendizagem da língua em si, mas também para a formação cidadã do aluno para que ele possa agir no mundo social13. A escolha da língua continua a cargo da comunidade escolar ou das secretarias estaduais ou municipais de ensino (BRITISH COUNCIL, 2015). Os PCN sugerem que essa escolha seja feita com base em três critérios:
fatores históricos (“relacionados ao papel que uma língua específica representa em certos momentos da história da humanidade”), fatores relativos às comunidades locais (“convivência entre comunidades locais e imigrantes ou indígenas”) e fatores relativos à tradição (em referência ao “papel que determinadas línguas estrangeiras tradicionalmente desempenham nas relações culturais entre os países”) (BRASIL, 1998). Como o ensino do inglês não é obrigatório nas escolas públicas brasileiras, sua oferta varia de região para região; em alguns casos, essa oferta é inexistente. No entanto, de acordo com um levantamento feito pelo
12 Um estudo feito pelo British Council em 2014 com aprendizes brasileiros mostrou que 87% dos respondentes apontaram os cursos privados como a melhor alternativa para aprender inglês.
13 O documento afirma que “[...] [o ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras] deve centrar-se no
engajamento discursivo do aprendiz, ou seja, em sua capacidade de se engajar e engajar outros no discurso de modo a poder agir no mundo social.” (BRASIL, 1998, p. 15).
Conselho Britânico (2015), o inglês é a principal língua estrangeira ensinada no país atualmente, mas há variações devido às necessidades e capacidades de cada estado.
Neste momento, um novo documento está sendo formulado para ajudar a orientar a construção do currículo das escolas de Educação Básica do país, públicas e particulares: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). De acordo com o Ministério da Educação e Cultura (MEC), a BNCC determina “quais são os elementos fundamentais que precisam ser ensinados nas Áreas de Conhecimento: na Matemática, nas Linguagens e nas Ciências da Natureza e Humanas” (BRASIL, 2016). Em relação às LEs, a BNCC mantém os pressupostos dos documentos anteriores (LDBEN, PCN e OCEM14), ou seja, inclusão da disciplina entre os componentes obrigatórios da parte diversificada curricular, a partir do 6º ano do Ensino Fundamental; escolha da LE sob responsabilidade da comunidade escolar, de acordo com as possibilidades de cada instituição; ensino de LE sob uma “perspectiva de educação linguística, interculturalidade, letramentos e práticas sociais” (BRASIL, 2016, no prelo).
Como o inglês pertence à parte diversificada15 da BNCC, sua oferta continuará sendo facultativa.
Segundo Rajagopalan (2016, p. 87, tradução nossa; 2013, p. 152), persiste no Brasil uma “completa falta de definição quanto ao papel das línguas estrangeiras no currículo das escolas e universidades brasileiras”16 e falta “uma política clara e bem elaborada para o ensino de línguas estrangeiras no Brasil”. O problema existe desde os tempos do império, período em que começou a haver interesse nesse ensino. De acordo com o autor, havia dois graves problemas à época: falta de metodologia adequada (empregava-se o mesmo método usado para ensinar as línguas “mortas”, o de gramática e tradução) e graves problemas administrativos (a administração ficava centralizada nas congregações dos colégios). Leffa (apud RAJAGOPALAN, 2013) também denuncia o atraso do Brasil em relação às políticas linguísticas. Os autores argumentam que, em grande medida, “nossas autoridades se contentaram em apenas reproduzir o que foi feito no exterior”, copiando políticas de outros países em termos de conteúdo (quais línguas devem ser ensinadas) e de metodologia (método direto, por exemplo) (p. 153). Esses fatos refletem uma postura de supervalorização do estrangeiro, uma tendência a importar ideias do exterior (principalmente da Europa) e a
14 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996; Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), de 1998; Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM), de 2005.
15 A parte diversificada diz respeito aos conteúdos e disciplinas que devem ser adaptados às realidades regionais.
16 O texto em língua estrangeira é: “[...] a thorough lack of definition as to the precise role of foreign languages in Brazilian school and college curricula.”
desconfiar da “nossa capacidade e competência de desenvolver posições e propostas próprias, especificamente moldadas para atender às nossas necessidades e às peculiaridades da nossa realidade.” (RAJAGOPALAN, 2013, p. 154). Soma-se a isso a dificuldade em colocar em prática as ideias presentes nos documentos oficiais. Uma vez que a BNCC ainda está em fase de desenvolvimento (diversos encontros, seminários e consultas públicas estão ocorrendo no momento e o documento agora está caminhando para sua terceira versão), não há dúvidas de que seus autores encontrarão muitos desafios a serem superados em relação ao ensino de LEs no Brasil.