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Trajetória das corridas no Brasil

internacional. Em 2006, é implantado um circuito anual de maratonas, chamado de World Major Marathon (Grande Maratona Mundial). A competição trouxe, como atrativo, o prêmio de 1 milhão de dólares para o vencedor e teve como meta promover a prova entre os corredores de todo mundo, aponta O’Toole (2009). São seis cidades contempladas pelas grandes maratonas: Nova Iorque, Chicago, Boston, Berlim, Londres e Tóquio, esta última incluída em 2007, apontam Maffetone, Malcata e Laursen (2017).

As grandes maratonas, chamadas de Major, funcionam como grandes empresas, afirma Bale (2003). De acordo com o site oficial World Marathon Majors (WMM)27, essa categorização tem como objetivo principal angariar patrocinadores, atrair a mídia e oferecer ao atleta com melhor performance (pontuação) a quantia de um milhão de dólares. Ao tentar fazer parte da World Marathon Majors, Traven teve de se credenciar junto ao órgão internacional de corrida, a Fundação Internacional de Atletismo (IAF). Traven tenta incluir a Maratona do Rio, em 2018, na Major Marathon, mas não consegue “Trouxemos atletas, mas não tinham tempo qualificado pela federação do país deles, ou seja, não eram chancelados”, conta ele. Traven explica que para se credenciar na Major Marathon é necessário obter três selos (bronze, prata e ouro) junto ao IAF, além de trazer doze atletas de bronze para participar da corrida do início ao fim e conseguir arrecadar um milhão de dólares para a premiação do vencedor. Nesse ano de 2018, o evento acaba se formatando como um Festival de Corridas por se estender por quatro dias, realizar cinco competições diferentes e atrair cerca de 40 mil pessoas e mídias diferentes (revistas, jornais, televisão). Esse aspecto será visto no próximo capítulo.

A prática da corrida surge no Brasil no século XIX. A paisagem esportiva da competição no país é impulsionada pela criação de duas confederações de atletismo e pela mídia: o surgimento da Confederação Brasileira de Desportos em 1921 faz com que seja realizada a primeira competição de atletismo no Rio de Janeiro e, anos depois, a criação da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) em 1977 resulta em surgimento de diversas competições pelo país.

Os treinamentos com corrida se destacam na imprensa, em meios como o Jornal do Brasil e o Cruzeiro, nas edições de 1970, em virtude da Copa do Mundo que ocorre no mesmo ano, afirma Dias (2017). Bale (2003) aponta que o peso da mídia na construção da chamada

imaginative geographies of sport” (geografia imaginativa do esporte) é grande, pois os meios de comunicação propagam imagens e textos pelo mundo, criando impressões de um lugar mesmo para quem não o conhece, como no caso dos jogadores de futebol brasileiro e a percepção de habilidade que lhes é atribuída.

Entendendo o peso da mídia nos esportes, percebemos que as primeiras corridas surgem em 1880, com distâncias de 120, 300 e 440 jardas (MELO; TURCO, 2006), mesmo ano em que o Jornal do Comércio, com sede no Rio de Janeiro, cria um noticiário voltado para os esportes e passa a divulgar e noticiar as corridas.

O Jornal do Comércio concentra o noticiário em festas esportivas em que predominava as provas de corridas, referindo-se basicamente aos clubes Athlético Alemão do Rio de Janeiro e Athlético Brazileiro, Rio Cricket and Athletic Association e Olympico Guanabarense, de Niterói, RJ. Neste contexto, é digna de atenção a expressão olympico, somente popularizada depois de 1896 com os Jogos de Atenas.

As provas de Niterói eram realizadas todos os domingos no bairro de Santa Rosa e incluíam crianças e moças (MELO; TURCO, 2006, p. 248).

Ainda em 1880, o Rio Cricket Club realiza o campeonato denominado de British Amateur Athletic Sport, com as distâncias de 220 a 440 jardas. Em 1902, outras duas provas de corrida ocorrem no Rio Cricket Club, as de 100 e 120 jardas. Em 1922, o Rio de Janeiro começa a receber eventos olímpicos: “Nas comemorações do Centenário da Independência, são disputados, no Rio de Janeiro, os Jogos Olímpicos Latino-Americanos, chancelados pelo Comitê Olímpico Internacional, com as provas de atletismo no estádio do Fluminense” (MELO;

TURCO, 2006, p. 248).

As corridas organizadas ou idealizadas por jornais começam a ser comuns no Brasil:

São Silvestre com o jornal A Gazeta e a Maratona do Rio com o Jornal do Brasil em 1980. No entanto, a primeira Maratona do Rio realizada em 1979 é idealizada e organizada por uma maratonista brasileira, Eleonora Mendonça, como mostra o tópico a seguir. Destaca-se que a

São Silvestre, criada em 1925, não tem a distância exigida de uma maratona que é de 42 km, sendo assim a primeira maratona do Brasil foi a do Rio de Janeiro.

Além do apoio da mídia para o esporte, a corrida ganha mais notoriedade por conta da adoção da prática esportiva pela seleção brasileira de futebol, em 1970, pelo preparador físico Cláudio Coutinho. Coutinho, que fazia parte do Exército Brasileiro, resolve usar métodos militares de treinamento e traz, do estágio na França com Cooper (realizado em 1968), as técnicas de corrida:

Depois de omitir-se de praticamente qualquer influência nos preparativos para a participação brasileira na Copa do Mundo de futebol da Inglaterra, em 1966, o governo militar decidira tentar explorar o mais possível os simbolismos do esporte mais popular do Brasil. O propósito fundamental desta ingerência, além de disciplinar a equipe que representaria o país numa competição esportiva internacional, era torná- la capaz de traduzir, nos campos de futebol, ideologias governamentais formuladas na Doutrina de Segurança Nacional. Com poucas exceções, quase toda a comissão técnica foi constituída por militares. Um deles era o Capitão Claudio Coutinho (DIAS, 2017, p. 4).

A partir de 1980, a corrida de rua se populariza e se intensifica especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Cerca de 60% dos eventos esportivos se concentram nas regiões Sul e Sudeste do país, como afirma Maioral (2014). Os que apresentam menor número de competição estão no Nordeste do Brasil. A concentração de corridas nas três regiões resulta na maior atratividade das cidades para a realização de eventos esportivos: entre os nove maiores eventos de corrida de rua realizados, a Maratona do Rio aparece em 5º lugar e a Meia-Maratona do Rio, em 6º lugar. O Rio de Janeiro, em 2013, teve 120 corridas, sendo a terceira cidade com mais provas, ficando atrás somente de São Paulo, com 502 provas, e do Rio Grande do Sul, com 157 (MAIORAL, 2014).

Na década de 80, a Maratona do Rio chega a ter sete mil participantes:

O Brasil seguiu a tendência a partir da década de 1980, em movimento que se intensificou mais na cidade do Rio de Janeiro, onde a prova de maratona chegou a ter perto de 7 mil participantes, com 5.310 concluintes em 1985 e 5.163 em 1986, números recordes até hoje e que depois entraram em declínio. Após esta culminância, o eixo das provas de rua, no Brasil, se deslocou para a cidade de São Paulo nos anos 1990, fortaleceu-se rapidamente e assim permanece até hoje. Já as maratonas (oficiais) estão hoje disseminadas pelo país: Porto Alegre (maio), São Paulo (junho), Blumenau (julho), Florianópolis (setembro), Curitiba (novembro). Eventualmente acontecem também as do Rio de Janeiro e de Brasília. Em julho costumam acontecer maratonas (de percurso não aferido de 42,2 km) em Recife e em Dourados (MELO; TURCO, 2006, p. 249).

As maratonas no Brasil ocorrem no Rio de Janeiro (1979), Porto Alegre (1983), Blumenau (1988), São Paulo (1985), Curitiba (1997) e Florianópolis (2001), como nos conta

Gonçalves (2012), que também explica terem as corridas de rua se tornado mais populares depois de implementadas outras provas com menos de 42 km. Observa-se que as maratonas se espalham pelo Brasil ao longo dos anos, realizando-se anualmente.

Maioral (2014) demonstra como diversos negócios criaram produtos e serviços para o público de corrida de rua, como assessorias esportivas, clubes de corridas, academias, indústrias de equipamentos e acessórios. Grupos de corrida foram organizados a partir de marcas como a Nike e a Adidas, que criaram corridas nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro para atrair e engajar os amantes de corrida29.

No Rio de Janeiro, as corridas exploram a experiência da cidade. A Rio Running Tour30 destaca a possiblidade de correr e visitar a cidade. Entre as corridas destacadas no site estão as seguintes: “Correndo para o Pão de Açúcar” (trajeto Praia do Flamengo, Monumento Estácio de Sá, Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados e Pão de Açúcar) e “Correndo entre o sagrado e o Profano” (Museu Histórico Nacional, Praça XV, Paço Imperial, Chafariz do Mestre Valentim, General Osório, Igreja da Santa Sé , Igreja da Candelária, CCBB, Casa França Brasil, Praça Mauá, Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio, Edifício A Noite, Mural do Kobra, Cais do Valongo, Fortaleza da Conceição, Pedra do Sal e Instituto dos Pretos Novos).

As paisagens das corridas cariocas envolvem o Aterro do Flamengo.

Uma vez que a corrida de rua – e as atividades físicas de um modo geral – são atreladas à saúde, essa condição se mostra bem mais favorável em bairros de poder aquisitivo mais elevados. Tal fato justifica-se, possivelmente, pela existência das praias, ciclovias e parques arborizados, o que facilita e incentiva a realização do exercício ao ar livre. Essa diferenciação é percebida ainda hoje, quando a região do Aterro do Flamengo concentra a quase totalidade das provas de rua organizadas no Rio de Janeiro (TIBURTINO, 2020, p.57).

Em 2005, é criado o Circuito Brasileiro de Corridas de Fundo em Pista, pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), relata Miranda (2007). Com isso, cresce o número de corridas em todas as cidades do Brasil, ainda concentrando mais as competições na região Sudeste (DALLARI, 2009). Em 2009, segundo Oliveira (2010), surge a primeira revista de corrida do Brasil, a Contra-Relógio, com 300 assinantes na primeira edição.

Gonçalves (2012) aponta que a popularização de corrida de rua no Brasil se deu pela implementação das distâncias menores, bem como pelo surgimento de assessorias esportivas e de empresas especializadas em organizar corridas.

29 Disponível em: https://contrarelogio.com.br/colunas/especial/grupos-de-marcas-ganham-espaco/. Acesso em:

26 nov. 2020.

30 Rio Running Tour. Disponível em: https://www.riorunningtour.com.br/calendario-corridas-rio-de-janeiro.

Acesso em: 11 nov. 2020.

O surgimento de provas mais acessíveis em termos de distância foi um grande impulsionador para o significativo aumento no número de praticantes. Com mais pessoas interessadas em praticar a atividade surgiram as assessorias esportivas, que reúnem grupos com os mesmos objetivos e onde cada indivíduo paga uma mensalidade pela orientação esportiva. A grande maioria dos usuários das assessorias esportivas participa de corridas de rua e por esse motivo os organizadores de provas reservam espaço nos eventos para que as assessorias possam instalar suas barracas de apoio. Importante destacar também o surgimento de empresas especializadas em organizar provas, estas empresas solicitam autorização às prefeituras das cidades, elaboram o calendário, contatam patrocinadores e fazem a divulgação dos eventos, ficando responsáveis por toda a organização da prova e contando com o poder público para o controle e orientação do trânsito nos percursos autorizados. (GONÇALVES, 2012, p. 11).

A autora ressalta que a corrida movimenta 3,5 bilhões na economia do Brasil e que, por isso, torna-se uma atividade atraente para o setor privado e público. Uma maratona pode atrair recursos financeiros para uma cidade, tanto por meio dos impostos pagos para a administração local, como pela movimentação hoteleira, redes de restaurantes e bares e outros comércios que atraem os corredores.