3.1 AS CONSTRUÇÕES COM IR/VIR SEGUIDOS DE INFINITIVO: ANÁLISE
3.2.5 Transitividade de V2
3.2.5.3 Transitividade de V2 em CFV2
morá(r) em sítio mas aqui é mais sossega::do... de boa... na cidade é mais... sei lá né?
(IBORUNA/AC-41; NE:20-25).
Em (100), a informante diz que uma moça vinha perguntar as coisas a ela. A CPP vinha me perguntar, nesse caso, pode ser substituída por uma forma simples, perguntava, visto que não há movimento espacial marcado pelo verbo vir, o que se comprova, inclusive, pelo contexto da conversa ocorrer via internet. O verbo perguntar, nesse caso, está sendo usado com dois complementos: as coisas e me (pronome retomando a própria falante).
Em (101), a CPP veio mudar é o único caso que encontramos de CPP com V2 intransitivo. Nesse trecho, a informante diz que morava em Onda Verde, mas que, quando o pai ganhou uma herança, eles vieram morar para o lugar onde estão recentemente, marcado pelo locativo cá. A CPP em (100) ocorre com O V2, mudar, de forma intransitiva, e pode ser trocada por uma forma simples, a gente mudou pra cá, sem prejuízo à informação passada pela informante.
A microconstrução CPP, pela perda semântica de movimento orientado, tem dois verbos altamente integrados, marcando somente uma ação. As CPP com o verbo ir ocorrem em maioria com verbos transitivos, mas demonstram aceitabilidade alta com relação a verbos intransitivos. As CPP com o verbo vir, por seu turno, têm restrição com relação a verbos não transitivos. Por estarem em um nível abaixo, hierarquicamente, com relação à CMCP, são construções menos esquemáticas. Isso significa dizer que são padrões mais específicos, types individuais menos inclusivos se comparados à produtividade de verbos presente no esquema da CMCP.
Gráfico 15: Transitividade de V2 em CFV2 com ir
Fonte: elaboração própria.
(102) Inf.: [porque já tá lá] o nome dele já tá lá então pode até piorá(r) as coisa né? por que/ por causa de uma bobe(i)ra né? [Doc.: é] que ele foi fazê(r)... aí:: depois desse dia nunca mais jogaram vôlei acho que voltaram a jogá(r) lá tem dia que eles arma a rede lá né?... (IBORUNA/AC-15; NR:460-462).
(103) Doc.: é se fosse ro(u)bá(r) [acho que até/ era até melhor né?... melhor assim] Inf.:
[não... é:: é se fosse ro(u)bá(r)]... mas num era ro(u)bá(r) né? que ele [Doc.: é] [que]ria né? [num era] [Doc.:coisa pior né?] [coisas pior] (IBORUNA/AC-122; NR:198-200).
Em 102, o informante está falando sobre uma outra pessoa, a qual fez uma besteira. Nesse caso, a CFV2 foi fazer, ao ser substituída por uma forma simples, fez, perde parte da sua função pragmática de foco. A CFV2 é utilizada pelo falante para demonstrar o quanto ele desaprova a ação feita por essa pessoa sobre a qual ele está falando. V2, nessa construção, é um verbo transitivo, com objeto anteposto ao verbo, bobeira, retomado pelo pronome que.
31 dados
51,66% 29 dados
48,33%
020406080100
CFV 2
TRANSITIVIDADE DE V2
Intransitivo Transitivo
Em (103), o informante está falando sobre alguém que fez algo ruim, segundo ele, pior do que roubar. Ele diz que se fosse roubar, seria até melhor. A construção, em (121), é uma CFV2, a qual é usada pelo falante procurando concordância com o leitor. Isso é evidenciado, inclusive, pela pergunta feita no final, com o termo né. Por se tratar de uma CFV2, a troca hipotética por uma forma simples, roubasse, perde parte da função de foco intentada pelo informante. V2, nessa construção, está sendo usado de forma intransitiva, com o verbo roubar. Embora não haja complemento com relação a esse verbo, fica implícito um complemento, visto que a ação de roubar pressupõe que algo seja tirado de alguém ou algum lugar.
As CFV2 com o verbo vir ocorrem em 78,7% dos casos verbos transitivos, como em (104), e 21,21% com verbos intransitivos, como em (105).
Gráfico 16: Transitividade de V2 em CFV2 com vir
Fonte: elaboração própria.
(104) Inf.: graças a Deus que não:: pelo amor de Deus... o cara tem quarenta ano... é mascarado... e é carioca... que que ele vai vim éh vim fazê(r) aqui aqui em São Paulo?...
ah:: não ixe... e/ e é muita::... mordomia num treina cê acha que/… que a torcida de::... é do... éh de::... de::... São Paulo...é é que... é que nem a do... a do Rio? (IBORUNA/AC- 122; RO:147-150).
7 dados 21,21%
26 dados 78,78%
020406080100
C FV 2
TRANSITIVIDADE DE V2
Intransitivo Transitivo
(105) fomo(s) morá(r) um po(u)co mais pra cima... aí nós mudô(u) de lá porque:: na época meu::... meu padrasto tinha um carro né? e:: a estrada era muito ruim então acho que nós mudô(u) de lá por causa disso né?... porque:: estragava sempre o carro... aí nós mudô(u) aqui po Antunes... aí dali nós fomo(s) mudan(d)o até que nós viemo(s) pará(r) aqui...
(IBORUNA/AC-15; NE:168-171).
Em (104), o informante está reclamando sobre um jogador de futebol carioca, comemorando, com a expressão graças a Deus, o fato de ele não vir para São Paulo.
Segundo o falante, o jogador é mascarado, carioca, tem quarenta anos, o que justifica o fato de ele não vir para São Paulo. Ele focaliza o absurdo, na opinião dele, da vinda do cara para cá utilizando uma CFV2, vim fazer. O verbo fazer, nessa construção, é transitivo, sendo que o complemento ocorre, anteposto à construção, por meio do questionamento, que que ele vai vim fazer?
Em (105), a informante está narrando as mudanças que fez no decorrer da vida, até chegar onde mora hoje. Ela diz que foi morar um pouco mais cima de onde morava, e, em seguida, mudou-se para Antunes até que chegasse no lugar onde mora hoje. A CFV2, em (105) viemos parar, enfatiza o divertimento da informante com o longo trajeto que fez, cheio de mudanças, para que chegasse ao destino. Utilizar uma forma simples, nesse caso, perderia a focalização da ação, visto que alteração sintáticas implicam mudanças semânticas e/ou pragmáticas, segundo o princípio da não-sinonímia (GOLBERG, 1995). V2, em (123), é intransitivo, sendo que ocorre, após a construção, somente um locativo, aqui.
Embora a CFV2 ocorra em grande parte com verbos transitivos, a presença de verbos intransitivos na construção é bastante frequente. Contudo, essas ocorrências, em alguns casos, têm um objeto subentendido no contexto, como na construção (105), em que roubar pressupõe que algo seja roubado.
CFV2 e CPP são microconstruções menos esquemáticas do que as CMCP, de onde foram herdadas. Desse modo, ainda que ocorram com diferentes verbos, a produtividade dessas construções é menor se comparadas à CMCP, cujo V2 não apresenta restrições.
Isso evidencia nível intermediário de produtividade da CMCP, a qual, por ocorrer com diferentes verbos, é mais inclusiva e esquemática, habilitando o surgimento de novas construções.
Discutimos, nesta subseção, os tipos de complementos ligados ao V2 de cada microconstrução formada por ir/vir seguido de infinitivo. A seguir, desenvolvemos
reflexões acerca da variável presença de locativo próximo à construção com o intuito de comprovar as três diferentes leituras acerca dos verbos de movimento ir e vir em construções do tipo CPP, CMCP e CFV2.