O primeiro texto a ser analisado é Jangadas e jangadeiros, de Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981). Natural do Ceará, Magalhães Júnior mudou-se para o Rio de Janeiro em 1930, onde atuou como jornalista, escritor e autor dramático. No campo político, vale mencionar o vínculo de Magalhães Júnior com os ideais socialistas, o que representava uma clara oposição ao Estado Novo.
Ele teve atuação política, assinou o Manifesto da esquerda democrática, em 1945, e
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foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro a partir de 1949, pelo Partido Socialista (ANDRADE, 2013). Todavia, suas posições políticas não impediram sua participação no DIP como censor cinematográfico (na tentativa de driblar a censura, aprovando, por exemplo, o filme antinazista O regresso7) ou ainda a colaboração na revista aqui analisada. Entre os anos de 1941 e 1944, Magalhães Júnior residiu nos Estados Unidos com a esposa, Lúcia Benedetti, em virtude das perseguições políticas sofridas do regime de Vargas (ANDRADE, 2013). Ou seja, embora a sua biografia demonstre contrariedades ao regime, seu trabalho junto a órgãos do regime é fulcral para se compreender a memória do Estado Novo e sua política de certa tolerância e até mesmo de cooptação de intelectuais que chegaram a lhe fazer oposição, mais que também pretendiam ocupar espaços junto ao poder ditatorial.
No artigo Jangadas e jangadeiros, para a Travel in Brazil, Magalhães Júnior descreve as jangadas como típicas embarcações nordestinas, feitas com cinco ou seis troncos leves, diferenciando-se das jangadas portuguesas por apresentarem não apenas um abrigo para os passageiros, mas um mastro e três conjuntos de assentos, localizados na frente, no meio e na popa. A foto de Kahan revela a fragilidade da embarcação, que, de acordo com a legenda, seria suficiente para o forte jangadeiro enfrentar o perigoso oceano (TRAVEL IN BRAZIL, 1942). O texto de Magalhães exalta a natureza exuberante do nordeste brasileiro, com a qual convive um povo que tem laivos de heroísmo. Idealiza-se assim do homem simples e a paisagem, o que parecia agradar ao DIP e ir ao encontro da imagem que o Estado Novo pretendia mostrar do Brasil no exterior. O autor destaca os nomes pitorescos dos materiais da jangada, tais como a mimbura, nome indígena que se refere aos troncos laterais. Explica, em seguida, que a jangada era utilizada originariamente pelos nativos que residiam desde o Ceará até a Bahia. Após a colonização portuguesa, os “pescadores civilizados” (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 11) melhoraram a estrutura da embarcação. Assim, a menção aos povos originários se torna meramente ilustrativa, dando lugar a uma narrativa idealizada acerca dos jangadeiros, em que a firmeza, a determinação e a humildade desses pescadores são exaltadas, afinal eles chegavam a percorrer mais de vinte milhas sem o auxílio de instrumentos náuticos. Ao final do artigo, há uma referência ao escritor Stevenson e ao pintor Gauguin, aos quais compara os jangadeiros sob o sol tropical, todos eles assemelhados pelo inconformismo com a civilização8:
7 Andrade (2013) revela que o filme foi inspirado no romance de Eric Maria Remark. Outrossim, de acordo com a plataforma IMDb (2022), The road back (título original em inglês) foi dirigido por James Whale, em 1937.
8 De acordo com Sousa (2008), o romance O médico e o monstro, de Stevenson, se relaciona com O mal-estar na civilização, de Freud, haja vista que a inimizade existente entre os impulsos humanos e a civilização, estudada por Freud, é retratada nos personagens Mr. Hyde e principalmente Dr. Jekyll, que tenta controlar os seus instintos em virtude da sociedade que o rodeia. Por sua vez, a ida do pintor Gauguin para Taiti, em 1891, representa a fuga da sociedade e do capitalismo, a fim de criar uma arte genuína, conforme explicam Balbino e Fernandes (2018).
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Com apenas esses equipamentos simples, o “Jangadeiro” vai ao mar, às vezes indo até mais de vinte milhas da costa, em busca de uma boa pescaria, navegando por instinto sem a ajuda de qualquer instrumento náutico nem mesmo uma bússola. Eles são homens firmes, acostumados aos golpes do mar, bronzeados pelo sol tropical; esses “Jangadeiros” do Nordeste Brasileiro são dos tipos mais destemidos e fortes;
suas vidas são cheias de um heroísmo não cantado e de poesia primitiva, cheio de encantamento e beleza, a beleza de almas humildes, em meio a esse cenário romântico que seduz quem está cansado da monotonia da civilização, como Stevenson e Gauguin. (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 11, ênfase no original)9
Se a estrutura da jangada foi aperfeiçoada por pescadores que passaram a utilizá-la após a chegada dos europeus ao Brasil, essa embarcação também revela, por outro lado, um aspecto heroico e pitoresco da vida nordestina.
Temos aí, subliminares, as duas imagens do Brasil que o DIP desejava divulgar no exterior: o engenhoso (como metonímia para o moderno) e o exótico.
O artigo Poços de Caldas, sem autoria creditada, mas possivelmente escrito por Cecília Meireles, encaminha o leitor para a “Cidade da elegância” (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 12) ou ainda a “Cidade das Rosas” (p. 16).
As fotos de Preising registram as montanhas mineiras, o aeroporto modelo e a modernidade do Palace Hotel (com imagens da entrada e salão principais, dos quartos confortáveis, da seção médica equipada, do lobby e da varanda), que assim como alguns outros hotéis da região, rivaliza com os de fama internacional. Com trajes elegantes, os hóspedes passeiam a cavalo, conversam sob a vista
“encantadoramente romântica” (p. 17) da fonte d’água mineral e jogam golfe. Por meio de descrições textuais e das fotografias de Preising, são oferecidas vistas sob o agradável clima serrano, além de passatempos, para que uma elite urbana, nacional e internacional, possa desfrutar suas férias em uma cidade termal brasileira, comparável a cidades de veraneio europeias, ressalta o texto.
O destaque de Poços de Caldas está em suas águas termais, que com a estrutura das Termas Antônio Carlos, podem ser desfrutadas por turistas que procuram revigorar a saúde ou apenas desfrutar de um período de férias. A revista também apresenta a ciência a serviço dos turistas em Poços de Caldas, pois
9 No original: “With only this simple equipment, the ‘Jangadeiro’ puts to sea, and sometimes goes as far as twenty miles from shore, in search of good fishing, navigating by instinct, without the help of any nautical instrument, not even a compass. They are sturdy men, accustomed to the buffetings of the sea, bronzed by exposure to the tropical sun; these ‘Jangadeiros’ of the Brazilian North-east, are of the strongest and most daring type; their lives are filled with unsung heroisms and primitive poesy, full of enchantment and beauty, the beauty of simple souls, amid romantic scenery of the kind which frequently attracts and seduces many who are tired of humdrum civilization, such men as Stevenson and Gaugin”.
Tradução realizada por um grupo de bolsistas PIBIC da Unifesspa.
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suas águas “são alcalinas sulforosas, altamente mineralizadas, fluem de fontes naturais, com temperaturas de 45 graus centígrados; elas são hipertérmicas com alcalinidade equivalente a pH-9.28” (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 12-13)10, sendo utilizadas para os mais diversos fins:
Para a conveniência daqueles que desejam fazer o tratamento, existe um corpo médico especializado e um grande estabelecimento termal, chamado de “Termas Antônio Carlos”, que é a única do tipo na América do Sul e se iguala às melhores na Europa. Com instalações modernas e confortáveis, esse grande estabelecimento para a cura é provido de amplos recursos terapêuticos, como os banhos sulfurosos, pulverizadores e aparatos para inalação, também para ginástica médico-mecânica, banhos de gás carbônico, banhos de ar quente e frio, massagem, massagem aquática, duchas ginecológicas e duchas submarinas. (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 14-16)11
A “Cidade de curas” (TRAVEL IN BRAZIL, 1942, p. 12) ou a
“Meca da Saúde” (p. 16), como é chamada Poços de Caldas nesse texto, é apresentada como um dos orgulhos nacionais, sendo referência no exterior em virtude da modernidade dos serviços ofertados. O artigo põe em destaque o discurso científico, a urbanização e a internacionalização da cidade. Ao tratar de Poços de Caldas como lugar turístico que o Estado Novo queria consolidar, vale mencionar artistas nacionais e internacionais que, então, eram visitantes frequentes dessa cidade: “(...) Carmem Miranda, Aurora Miranda, Grande Otelo, Oscarito, Procópio Ferreira, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, Ermeto Zaconi, Companhia Gatini Angelini, Ary Barroso, a cantora e atriz argentina Libertad Lamarque” (SANTOS ILHO, 2007, p. 4-5).
10 No original: “(...) are alcaline-sulphurous, highly mineralized, flowing frm natural springs, at a temperature of 45 degrees centigrade; they are hyper-thermal with na alkilinity equalling pH-9.28”.
Tradução realizada por um grupo de bolsistas PIBIC da Unifesspa.
11 No original: “For the convenience of those desirous of taking the treatments, there is a corps of practised medical specialist, and a large termal establishment, called the ‘Termas Antonio Carlos’, which is the only one of its kind in South America, and is equal to the best in Europe. With modern and comfortable installations this great establishment for cures, is provided with ample therapeutic resources, such as sulphur baths, pulverizers and apparatus for inhalations, as also for medico-mechanical gymnastics, carbo-gas baths, hot and cold air baths, massage, water massage, gynecologic douches and submarine douches”. Tradução realizada por um grupo de bolsistas PIBIC da Unifesspa.
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