3.3 Tipos de atividades propostas
3.3.1 Turmas do 6º ano
RELAÇÃO FALA/ESCRITA
Separa rigidamente a fala e a escrita
Apresenta o amplo contínuo entre a fala mais espontânea e a escrita mais monitorada
X
VARIAÇÃO NOS FENÔMENOS GRAMATICAIS
Apresenta adequadamente a variabilidade em fenômenos gramaticais
Apresenta inadequadamente a variabilidade em fenômenos gramaticais
X
a) Neste texto, que tipo de linguagem o autor empregou?
b) Reescreva o texto de Jô Soares seguindo o padrão da língua culta.
Ao analisar esse exercício, apesar de ele apresentar também algumas formas da linguagem popular, notamos que o mesmo aborda questões voltadas à ortografia, que é puro reflexo da variação fonética. Trata-se de uma ortografia fonética que transcreve como (quase) todos os brasileiros falam! Portanto o texto não ilustra a variação norma culta X norma popular. O que se pede na questão b do exercício não deveria ser “seguindo o padrão da língua culta”, mas, sim, “de acordo com o padrão ortográfico da língua”. A nosso ver, exercícios como esse não proporcionam o entendimento do fenômeno da variação linguística!
Não houve nem na explicação do conteúdo tampouco na elaboração e no desenvolvimento da atividade a exposição de outras expressões da língua como diferentes, mas valiosas formas linguísticas que também atendem de maneira eficiente às necessidades dos seus falantes. A abordagem da variação linguística foi feita de maneira superficial, insuficiente. Os conceitos de norma padrão e norma culta foram apresentados como sinônimos. O professor explicou que a norma padrão é a linguagem contida nos dicionários, nas gramáticas e no livro didático e que a variedade não-padrão é a utilizada por pessoas menos escolarizadas. Também diferenciou linguagem formal da informal, conhecimento suficiente para os alunos responderem às questões do exercício.
Observando o exercício em análise e considerando também tarefas solicitadas nos livros didáticos de Língua Portuguesa, nota-se que são, em sua grande maioria, de
“reescritura com correção”, ou seja, os alunos devem reescrever para o padrão palavras ou expressões que estão no português não-padrão, como ocorre no exemplo dado. Além disso, registrou-se outra questão com esse objetivo na mesma atividade:
(2) De acordo com a norma padrão, que aprendemos na escola, como deveríamos escrever as palavras e expressões “pru que”, “ocê”, “toma”, “faz mar?”
Segundo Dionísio (2000), alguém poderia alegar que exercícios desse tipo auxiliariam a sanar problemas ortográficos. É verdade, poderiam!
Mas seria mais eficaz se, ao invés da simples reescritura na norma padrão, fosse apresentada ao aluno uma situação em que ele pudesse confrontar as formas do padrão com as formas do não-padrão e chegar a
formular as regras que norteiam as variedades da língua. (DIONÍSIO, 2000, p. 83)
Além disso, percebe-se uma excelente oportunidade de o docente expor as avaliações feitas para as distintas variedades, para assim, a partir do seu dialeto, o aluno adquirir o conhecimento necessário para se apropriar dos estilos mais monitorados que estão ligados ao domínio da língua culta. Os exercícios que pedem às crianças para transformarem o “errado” em “certo” contribuem para a manutenção de preconceitos linguísticos, por não questionarem os critérios (ideológicos, históricos, sócio-políticos) que conduzem as pessoas a acreditar que certas formas de usar a língua são as únicas “boas” ou
“legítimas”, enquanto as muitas outras formas variantes são tratadas como “erros de português”, “degenerescências do idioma” (MORAIS, 1999 apud DIONÍSIO, 2000, p. 84).
Professor 2
Quanto à discussão sobre o preconceito linguístico, registrou-se uma atividade proposta em sala de aula pelo Professor 2, que aborda esse tema. Trata-se de uma tira do autor Maurício de Souza, na qual há um diálogo entre o personagem Chico Bento e seu amigo Zé Lelé. Eles utilizam expressões da variedade rural da língua, como se vê a seguir:
Figura 39: Tirinha (atividade feita pelo professor)
Sobre a tira, encontram-se questões como a que segue, para os alunos responderem:
(3) Onde se fala esse tipo de variante linguística: zona rural ou nos centros urbanos?
De maneira geral, os alunos deram como resposta a primeira alternativa, pelo fato de as construções estarem em desacordo com a norma padrão. Segundo o Professor, entre os alunos, “ainda prevalece o preconceito em relação às variantes estigmatizadas”.
Percebemos que está impregnado na mente de muitos falantes que a linguagem de quem reside na zona rural é “deficiente”, “feia”, “estropiada” (BAGNO, 1999, p. 40).
Diante da situação apresentada, entendemos que questões como essas favorecem o preconceito linguístico e agravam as situações de exclusão a que está sujeita a população socialmente marginalizada. O professor deveria discutir a tirinha, as questões expostas e mostrar aos alunos que a variedade linguística empregada pelos personagens não ocorre apenas no ambiente rural. As formas tomá e faiz, por exemplo, como afirma Dionísio (2000, p. 147), também são usadas no meio urbano. Além disso, complementa a autora, as diferenças apresentadas no diálogo “são de ordem fonética e as que podem causar dificuldades de compreensão são as diferenças lexicais e as semânticas” (DIONÍSIO, 2000, p. 147).
Uma pedagogia culturalmente sensível, segundo a Sociolinguística Educacional, tem por objetivo criar em sala de aula ambientes de aprendizagem onde se desenvolvam padrões de participação social, modos de falar e rotinas comunicativas presentes na cultura dos alunos (BORTONI-RICARDO, 2005, p. 127). Na medida em que se ativam nos educandos processos cognitivos associados aos processos sociais que lhes são familiares, isso facilita a transmissão do conhecimento nos processos interacionais, “quebrando a surdez do preconceito linguístico, reforçando a tentativa de explodir a mudez que soterra o pleno usuário/criador sob a tirania da norma padrão” (CASTRO, 2008, p. 28). Nessa perspectiva, o ensino de Língua Portuguesa se justifica prioritariamente com o objetivo de desenvolver a competência comunicativa dos usuários da língua, ou seja, ampliar a capacidade do emprego adequado da língua nas diversas situações de comunicação (TRAVAGLIA, 1997, p. 17).
A seguir são apresentados exercícios aplicados em sala de aula pelos demais professores que servirão de base para se analisar a que tipo de ensino esses exercícios remetem, já que em nenhum deles foi abordado o fenômeno da variação linguística.