professores e que os formam sem lhes darem as verdadeiras competências de leitura e criticou alguns docentes por não re- presentarem um bom exemplo de leitor. «A nossa dificuldade de leitores é muito grande. Sabemos que lemos mal. Sabemos que as nossas crianças leem mal.» Posto isto, e perante alguns esgares na audiência, assumiu uma posição clara sobre a fun- ção da escola: dar competências de leitura, acima de tudo. Sem competências, o leitor não lê, ou lê mal, mesmo que leia muito.
Isso não o faz evoluir, nem tão-pouco mais livre e capaz en- quanto cidadão. A frase não é nova mas Teresa Calçada não se cansa de a proferir: «É melhor um mundo em que se sabe ler do que um mundo em que não se sabe ler.» E recuperou os pro- jetos do PNL ao afirmar que o Estado tentou levar a leitura às escolas com formação de professores, às bibliotecas escolares e públicas, mas era preciso integrar a família. «Muitas famílias não têm competências nem conseguem sociabilizar a leitura.»
E concluiu: «O PNL conseguiu uma representação da leitura diferente.» Com o selo nos livros, com a publicidade, com a sua presença nas bibliotecas escolares, nas livrarias, nos centros de saúde, nas bibliotecas públicas, nos média. Agora o cenário mudou. Há, na sua opinião, uma sobrevalorização da sala de aula, «o grande objetivo é passar no exame do 4.º ano.»
para as pequenas editoras. Da inexperiência com distribui- ção dos livros e das expectativas goradas em relação à receção ao primeiro livro, André concebeu um projeto no qual apro- veita todas as suas competências ao nível da produção do li- vro, que considera ser uma marca geracional. Assim, pode acompanhar a produção gráfica, a impressão, escolhe tipos de papel, formatos e acompanha a afinação das cores. Sendo uma editora criada por um ilustrador, a Pato Lógico apostou numa coleção de livros sem palavras, com exceção para uma única, no título, por considerar o seu editor que os adultos parecem não saber contar histórias sem texto, mas as crian- ças criam com essa leitura uma empatia natural. A necessi- dade de estabelecer uma aproximação com os mediadores, nomeadamente educadores e professores, levou à criação de um serviço educativo que propõe atividades junto das esco- las e para o público em geral. A editora permite assim que os livros cheguem melhor aos leitores. Tal aconteceu com Mar, um actividário que cruza desafios com uma multiplicidade de informações enciclopédicas. O próximo será sobre o Futuro, com a mesma dupla, Ricardo Henriques a assinar o texto e André Letria as ilustrações.
A
estética de Danuta Wojcie-chowska é facilmente re- conhecível pelo uso da cor.
Mas não foi disso que a ilus- tradora falou e sim de dar a ver. Dar a ver a imagem para que esta apresente a le- tra, através de formas, sons e caracteres. Assim se vê o ABC… Nos livros de texto, o diálogo impera. Danuta quer mostrar, pela imagem, coisas que não são visíveis porque são da ordem das emoções, são interiores, fazem parte de uma geografia de afetos que a imagem pode parcialmente revelar ou insinuar. Tal aconteceu, por exem- plo, com O Beijo da Palavrinha, com texto de Mia Couto, em que precisou de tempo para refletir sobre as linhas de força e de pensamento que teriam de nascer a partir da leitura do texto. Ao contrário da maioria dos seus títulos, em que ilus- tra textos de escritores, Danuta editou nos dois últimos anos dois títulos na Lupa Design. Ambos têm em comum serem uma espécie de diário, um de viagem outro de memória. Os estímulos são textuais e visuais e têm em comum o facto de
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A nossa dificuldade de leitores é muito
grande. Sabemos que lemos mal,
sabemos que as nossas crianças leem mal.
Teresa Calçada
se assemelharem a livros de colorir. A ilustradora desabafou que muito lhe custou abdicar da cor, mas a sua intenção em Portugal para Crianças e Livro Livre era precisamente que cada leitor fosse autor da sua experiência de observação do mundo e assim a escolha da cor estivesse de acordo com o olhar livre de cada um.
Finalmente, Catarina Sobral opta por explicar a partir dos seus livros algumas condições básicas para criar a ilustração.
Parte de um princípio formal: o livro é um objeto, logo é tri- dimensional. Parece óbvio mas muitas vezes o leitor redu-lo a uma bidimensionalidade aparente, como se de um ecrã se tratasse. Ora, é essa tridimensionalidade que permite a di- versidade de formatos que a ilustradora enumera: pode ser cortado, inclinado, pode ter pop-ups, pode ter janelas… Os seus livros têm formatos adequados à intenção narrativa, e é a partir daqui que podem ser explorados. Seguem-se outros elementos: a dobra, as montagens sequenciais, a geometria das páginas do início e do fim, a página dupla e o jogo entre as páginas ímpares e pares. Em O Meu Avô, por exemplo, há um lugar para o avô e outro para o Dr. Sebastião (nas pági- nas pares e nas ímpares), há dois encontros entre ambos no mesmo local, um no início e outro quase no final da narrati-
va (jogando com a geometria da montagem), há um aprovei- tamento da dobra quando se encontram. E há, para além da montagem cinematográfica, uma relação de redundância, de colaboração ou oposição com o texto, que deve ser explorada em função da intenção narrativa e plástica.