4.2 A fotografia de Newton
4.2.3 Uma imagem e aquilo que nem mil palavras podem dizer
Nem um segundo de descanso! Sentença que mais parece a unidade de medida apropriada para determinar a equidistância entre a voragem do olhar e a roupa, com sua função primeira de obstruir - e assim indicar o objeto. Entediado, e ele deve ter ficado assim em muitos de seus trabalhos, Newton também não conseguiu descansar de seu apetite pela imagem. Ele resolveu endereçá-lo de outra forma, tão logo se deu conta da energia “prestes a explodir”768 que se agitava sob aquelas quatro máscaras.
A modelo, cada vez mais daring e risqué, impassível mas não desinteressada, não poderia estar menos do que irresistível; o roteirista húngaro comendo-a com os olhos, expressão que dispensa maiores esclarecimentos sobre o desencontro fundamental entre o objeto e a satisfação; sua esposa, que também comparece com o olhar, a observar tudo tranquila e cuidadosamente; e Newton, fascinado com o resultado de seu experimento.
Daí ao “entendimento na cama”769, segundo a expressão de Lacan. Ora, se a modelo comparece ao aeródromo absolutamente drained depois que o fotógrafo, feito um músico animando o baile, esticou as linhas daquele jogo até seu limite tensional, é porque esse
767 NEWTON, H. World Without Men, op. cit., p. 24.
768 BECKETT, S.; DELEUZE, G. Quad et autres pièces pour la télévision, suivi de L'Épuisé par Gilles Deleuze, op. cit., p. 76.
769 LACAN, J. (1971). O Seminário, livro 18, op. cit., p. 135.
entendimento está mais para uma corda que arrebenta do que para um nó que se ata. Talvez um desentendimento consentido, mais ou menos às claras, ali onde os sujeitos, entregues à própria ignorância, têm de trabalhar em dobro: não era ele, não era ela, mas era isso!
Não há nada de natural no sexo, nem mesmo durante o ato que conjumina a reprodução da espécie, ou ele não seria revestido por mil e uma embalagens amorosas ou simplesmente eróticas.770 E é justamente o olho, não por acaso a “grande forma de captura do desejo humano”771, que se encarrega desse fardo.
Que ironia! Logo “o olho, o mais intelectual dos cinco sentidos, símbolo quase universal do conhecimento, emblema do processo mental da elucidação”772, vai ser o fiel depositário desse impenetrável enigma que, recobrindo a diferença entre os sexos, abre as portas para o baile de máscaras em que o sujeito alardeia seu desconhecimento sobre o desejo e o objeto que lhe causa.
É assim (a ironia) pelo menos desde a Queda do Homem, evento escopicamente estruturado e do qual a moda, diz Agamben, é “a herdeira profana.”773 De um lado, a árvore,
“agradável ao paladar”, “atraente aos olhos” e “desejável para dela se obter discernimento”774; de outro, a lei do Criador, que retorna sob a forma de uma pergunta (onde está você?), perturbando uma ordem natural calculada para deixar de sê-lo, para enfim reduzir aqueles dois ao olhar. Nem um segundo de descanso, arriscaríamos dizer, salvo pela introdução de uma singela folha de figueira, protótipo da roupa, a fazer do “não” a condição de presença do objeto e da fruta nada mais do que um traço entre a Queda e o desejo de saber que a precipita.
Em outras palavras, o olho é “este índice anatômico que, no corpo humano, sela o destino biológico do indivíduo”, recordando (ou não deixando esquecer) “a verdade do corpo como sexo, corpo separado de uma unidade primeira.”775 Apenas uma maneira de lembrar, com as belíssimas palavras de Jean Clair, o que está em jogo na verdade que Freud, equilibrando-se entre a arte e a ciência, conquistou para o campo do saber776.
A psicanálise pode ser colocada ao lado dos inúmeros esforços empreendidos no sentido de domar o sexo pela razão, mas ela em nada se confunde com os usos, origens e consequências de tais enunciados sobre a matéria. Acumulando-se desde os primeiros séculos do cristianismo, esses discursos ganharam tração e variedade ao longo da história e, entre parâmetros morais e
770 Voltaremos a esse assunto no Capítulo 10.
771 LACAN, J. (1962-63). O Seminário, livro 10, op. cit., p. 264.
772 CLAIR, J. Méduse. Contribution à une anthropologie des arts du visuel. Paris: Gallimard, 1989, p. 26.
773 AGAMBEN, G. Nudez, op. cit., p. 116.
774 BÍBLIA. “Gênesis”. Nova Versão Internacional. Tradução de Luiz Sayão, 2011, Cap. 3, vers. 3. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/nvi/gn/3. Acesso em: 7 out 2021.
775 CLAIR, J. Méduse, op. cit., p. 26.
776 Sobre a relação entre psicanálise e ciência, ver: JORGE, M.A.C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan: O laboratório do analista. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, v. 4, pp. 255-318.
científicos, encontraram o esplendor de sua formalização no século de Freud.777 Sua multiplicação, no entanto, evidencia bem mais o espaço a ser preenchido do que as tentativas de fazê-lo, confirmando, pelo avesso, o que Lacan sustenta em pelo menos uma ocasião778: pouco ou nada sabemos sobre o sexo, exceto que é em torno dessa falta que o sujeito, dramatizando a angústia que a materializa, encontra, à sua maneira, a via do desejo.
É curioso, como observa Foucault, que essa “superprodução de saber social e cultural”779 sobre o sexo cumpra a função de velar o desconhecimento em seu esteio. O que é muito diferente do que se observa em algumas culturas orientais, e igualmente na Roma e na Grécia antigas, bem mais interessadas na pulsão sexual, como lembra Freud nos Três Ensaios, do que nos méritos do objeto.
A diferença mais marcante entre a vida sexual da Antiguidade e a nossa decerto reside no fato de que os antigos punham a ênfase na própria pulsão, ao passo que nós a colocamos no seu objeto. Os antigos celebravam a pulsão e se dispunham a enobrecer com ela até mesmo um objeto inferior, enquanto nós menosprezamos a atividade pulsional em si e só permitimos que seja desculpada pelos méritos do objeto.780
É por isso que, nessas culturas, a vontade de saber sobre o sexo deu lugar a um saber- fazer com o sexual, alimentando, no correr do tempo, uma riquíssima tradição de arte erótica que apenas clandestinamente encontra lugar nas sociedades ocidentais.781 Ora, a psicanálise é um saber-fazer não com o sexo, mas com a falta que o fundamenta, razão pela qual seu exercício, para escândalo e protestos epistemologicamente frívolos, se assemelha à organização em torno do vazio que dá o tom do fazer artístico.
O fato é que, no curso da história, a sexualidade tombou sob um silêncio paradoxalmente mantido por um verdadeiro palavrório sobre o assunto, que, um pouco como a pletora de serpentes sobre a cabeça da Medusa782, reproduz a falta pelo excesso. Mas talvez isso não seja tão contraditório assim. Basta lembrar, com Lacan, que o chiste, o sonho e o ato falho - três eventos linguageiros desconcertantes - estão na origem da “exploração freudiana” sobre o que
“se passa no inconsciente.”
Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai buscar o inconsciente. Ali, alguma coisa quer se realizar - algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado.783
777 FOUCAULT, M. “Sexualidade e poder”. Ditos e Escritos: Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro:
Forense universitária, 2012, v. 5, p. 60.
778 Cf. LACAN, J. (1968-69). O Seminário, livro 16, op. cit., p. 216.
779 FOUCAULT, M. “Sexualidade e poder”, op. cit., p. 60.
780 FREUD, S. (1905). “Tres ensayos de teoría sexual”, op. cit., nota 14, p. 136.
781 FOUCAULT, M. “Sexualidade e poder”, op. cit., p. 61.
782 Cf. FREUD, S. (1920/1940). “La cabeza de medusa”. Obras completas: Sigmund Freud. Buenos Aires:
Amorrortu editores, 1992, v. 18.
783 LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11, op. cit., p. 32.
O chiste é um exemplo didático de como a linguagem, apesar de todo o poder encadeador da palavra, pode tapear a si mesma. Tropeço da língua, o chiste funciona como uma âncora, estabelecendo um limite de dentro para fora, ali onde o simples manejo da linguagem cria a ilusão de que ela é um fim em si mesmo. Ele provoca o riso, ou a gargalhada (e o que pode ser mais eloquente do que isso?), em função de seu conteúdo impróprio, quase sempre sexual ou escatológico, não deixando esquecer que, “por intermédio do inconsciente [...], tudo o que é da ordem da linguagem tem a ver com o sexo, mantém uma certa relação com o sexo.”784
Voltaremos ao “efeito prazerógeno”785 provocado pelo chiste no último Capítulo desta tese. Por ora, gostaríamos apenas de salientar que o contraste é muito evidente - e profícuo para quem de fato tem interesse na aventura proposta pela episteme platônica, e seu objetivo imperecível (e talvez inatingível) de reduzir a “horizontalidade dos acontecimentos à verticalidade do conhecimento.”786 Se, em seu conjunto, a Scientia Sexualis quer dizer tudo sobre seu objeto, como quem se apressa para encerrar um assunto tão incômodo, Freud segue a direção inversa, deixando-se levar pela cadência com que o sujeito tropeça na própria fala.
“Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela”787, diz Lacan, que partiu do chiste para construir seu grafo do desejo788, operador teórico fundamental ao manejo da clínica psicanalítica. Afinal, é pela via do equívoco que Freud pôde, restituindo o domínio das palavras, colocá-las para trabalhar e, no limite, enunciar um novo saber sobre o sexo cujo valor discursivo789 o tempo encarregou-se de demonstrar.