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trata-se de um modo sistemático de se analisar uma determinada realidade a partir de um ponto de vista. Nessa perspectiva, não se pode negar que este é o ponto primeiro na diferenciação das correntes do pensamento, pois desse modo vai sendo condicionado todo o processo de análise.

Contudo, vale salientar que o método não se constitui algo similar a receita de um bolo, onde se você segui-la fielmente, as regras deste método vão levar o pesquisador ao conhecimento verdadeiro, como um dia afirmou Descartes. Nessa linha de raciocínio, Marradi (2002) também reitera que não existem procedimentos que indiquem ao cientista como começar, como proceder, a que conclusões alcançar.

Assim sendo, é interessante ter-se em mente que os métodos não são unos, estes constituem possíveis e diferentes trilhas que podem auxiliar na busca do conhecimento, o que vem a enriquecer mais ainda o processo de busca. Nessa lógica, o alemão Kriz (1988) critica a unicidade do método defendida por alguns teóricos, e afirma que a ideia de um único método poderia acrescentar a confiança dos pesquisadores nos próprios resultados, mas se diminuiria a predisposição de se perguntar se os procedimentos adotados possuem algum sentido.

Nesse cenário discursivo, diferentes teóricos estreitam e alargam pontos de vistas, destarte, entre distanciamentos e aproximações, uma coisa é unânime entre os teóricos: o método constitui o único caminho para o conhecimento.

estudos de gênero no âmbito acadêmico no máximo aparecem como disciplina optativa em poucas universidades, ou em uma e outra palestra. Mas, aos poucos, fomos percebendo a dimensão que são os estudos de gênero no campo da ciência geográfica. Mas, ainda há a invisibilidade feminina no discurso geográfico.

Após notarmos esse vazio no campo da Geografia, passou a fazer muito mais sentido a frase mencionada por Michel Foucault (1988), de que é necessário prestar atenção nas ausências e aos silêncios porque eles protegem a força e o poder do discurso hegemônico.

Desse modo, podemos ter uma ideia geral da dimensão do problema. Se tudo é espaço, como então explicar a ausência das epistemologias feministas no discurso geográfico por centenas de anos? No caminho crítico pela luta da visibilidade feminina na geografia, fez-se necessária a escolha da temática de gênero para a realização dessa pesquisa e também a escolha da fenomenologia como método de estudo, pois essa permite uma descrição e análise de como as coisas e os objetos se apresentam à consciência, o que promove maior visibilidade dos fenômenos estudados.

A escolha da fenomenologia também se deve pelo fato desta se propor a descobrir as significações originárias como uma trajetória em direção à compreensão humana: por consciência em presença de sua vida irrefletida nas coisas.

Ainda sobre o método fenomenológico, faz-se necessário fazermos um breve mergulho em sua trajetória, bem como a trajetória de uma geografia fenomenológica. Esta por sua vez, surge para preencher lacunas até então vazias no que se refere a integração dos seres humanos como atores sociais, dotados de cultura, de hábitos de costumes de simbologias de crenças e de toda uma riqueza que transcende qualquer método positivista e cartesiano. Com o surgimento dessa nova abordagem de um geografia fenomenológica, têm-se buscado imprimir uma “visão sistêmica aos fenômenos, onde a relação entre o indivíduo e o espaço é responsável por características subjetivas relacionadas à percepção e à visão de mundo” (ALVES, 2017. p. 51).

Merleau-Ponty (2006, p. 1), em sua obra a fenomenologia da Percepção diz que:

A fenomenologia é o estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, resumem-se em definir essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo. Mas, a fenomenologia é também uma filosofia que repõe as essências na existência, e não pensa que se possa compreender os indivíduos e o mundo de outra maneira se não a partir de sua “facticidade”, É uma filosofia transcendental que coloca em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude natural, mas é também uma filosofia para a qual o mundo já está sempre “ali”, antes da reflexão. É a ambição de uma filosofia que seja uma “ciência exata”, mas é também um relato do espaço, do tempo, do mundo “vividos”.

Após a definição e esclarecimento do autor do que se trata a fenomenologia, conseguimos compreender melhor sua escolha para nortear a nossa pesquisa. Assim, podemos compreender que a geografia está em tudo, até mesmo onde a priori não chegamos imaginar. Vimos que esta consegue investigar realidades transcendentais, ou seja, para além do aparente. O mais interessante dessa escolha metodológica é que ela permite-nos valorizar os sentimentos, e as percepções que as mulheres pesquisadas possuem dos seus espaços e de seus lugares de vivência cotidianas. Assim, buscamos analisar e destacar as experiências diretas.

Retomando aos desafios apresentados no decorrer desse estudo, cabe-nos relatar que em alguns casos as entrevistadas não se sentiram à-vontade para relatar suas experiências cotidianas, bem como os enfrentamentos diários, pois os seus companheiros faziam questão de acompanha-las no decorrer das entrevistas, chegando a responder algumas das questões direcionadas as esposas, tratava-se de uma forma de intimidá-las e desse modo, as impedir de compartilhar os relatos das violências sofridas.

No entanto, essa conduta nos revela que mesmo diante da ausência dos relatos dessas colonheiras que comprovem tais relações de poder sobre essas mulheres, conseguimos fazer a leitura nas entrelinhas do contexto presenciado. Pois tais atitudes revela um tipo de violência contra essa mulher rural que passa ao contexto de subalterna.

Entre uma conversa e outra, nos arredores da plantação e distante do marido, uma das entrevistadas revela:

É que eu não quis contar na frente dele, mas ele há dois anos me abandonou aqui na colônia e foi morar com uma outra mulher. Eu fiquei sozinha cuidando de tudo juntamente com meu filho pequeno, tendo que plantar, criar, levar para a feira, e agora depois de todo esse tempo ele voltou e pediu pra ficar, findei que aceitei ele de volta. Na sexta feira é o dia em que trabalho mais, pois é o dia em que tenho que arrancar mandioca, amarrar cheiro verde, amarrar alface, tirar pimentinha, entocar tudo. No outro dia, eu vou sábado de madrugada para a feira, fico até meio dia, as vezes até uma hora. Quando chego em casa, vou trabalhar mais ainda, pois tenho que fazer tudo de novo (S. L. Moradora do PA Antônio de Holanda).

No decorrer dessa entrevista constata-se claramente quem é a chefe da família na propriedade rural, ou seja, quem mantêm a casa, não raro nos discursos masculinos finda predominando um discurso da “ajuda” feminina.

Essa realidade não se resume a somente a um caso isolado, trata-se de apenas uma amostra do que é vivenciado pelas mulheres da colônia, jornada dupla de trabalho, o cuidar da casa, da roça, dos filhos, do marido, e do sustento da família e ainda por cima a convivência com a violência. Nesse contexto, nos apegamos a pensar que verdadeiramente, sim, o pesquisador não possui uma fórmula pronta para chegar a determinados resultados,

pois trata-se de fenômenos arraigados nesses espaços de poder. Desse modo, fazer a leitura o mais próximo da realidade sem desviar o caminho é a própria fórmula.