UMA REVISÃO
3. REVISÃO DE LITERATURA
3.2 MICRONUTRIENTES
3.2.8 Vitaminas do complexo B
3.2.8.1 Vitamina B1 / Tiamina
A tiamina está envolvida na síntese e metabolismo de carboidratos, uma vez que as enzimas envolvidas nesse processo requerem vitamina B para completá-lo. A tiamina desempenha um papel importante na contração muscular, condução dos impulsos nervosos e absorção de glicose pelo sistema nervoso. O tronco cerebral, o cerebelo e o sistema límbico do cérebro são altamente sensíveis à deficiência de vitamina B1 (pseudo- hipóxia) e sua fisiopatologia é semelhante a uma privação contínua de oxigênio. A deficiência de tiamina em bebês causa encefalopatia, neuropatia, alterações visuais e morte. As crianças que sobrevivem a esse tipo de deficiência apresentam sequelas motoras e cognitivas graves e epilepsia. Existem fontes que também apontam a sua importância no desenvolvimento verbal. (GONZALEZ; VISENTIN, 2016; MALIN et al., 2018)
3.2.8.2 Vitamina B6 / Piridoxina
A vitamina B6 deve ser obtida da dieta, uma vez que os seres humanos não podem sintetizá-la. A principal forma bioativa da vitamina B6 é o piridoxal-5-fosfato. É um cofator essencial para o funcionamento de mais de 140 enzimas necessárias para a síntese, decomposição e interconversão de aminoácidos e um cofator que limita a síntese de dopamina, serotonina, ácido gama-aminobutírico (GABA) e noradrenalina. Tem um efeito direto na função imune, na transcrição e expressão de genes e desempenha um papel significativo na regulação da glicose no cérebro.(GONZALEZ; VISENTIN, 2016)
3.2.8.3 Vitamina B9 / Ácido Fólico / Folato
O ácido fólico também pode ser conhecido como folato, metilfolato ou vitamina B9, sendo classificado como uma vitamina do complexo B. O folato está presente em diversas formas alimentares (feijão e vegetais de folhas verdes escuras, como espinafre e brócolis), já o ácido fólico ou vitamina B9, por sua vez, é a forma sintética do folato, presente em medicamentos e suplementos. Tanto o ácido fólico, como o folato (na sua forma aniônica), estão envolvidos no metabolismo dos aminoácidos e na síntese de DNA, que é fundamental para o desenvolvimento embrionário. Além disso, a vitamina B9 constitui um fator extremamente necessário para o desenvolvimento normal da coluna, cérebro e crânio fetal, especialmente durante as primeiras quatro semanas de gestação, e para a síntese e regeneração de tetra-hidrobiopterina, um cofator essencial para as enzimas que transformam aminoácidos em neurotransmissores (serotonina, melatonina, dopamina, noradrenalina, adrenalina) e óxido nítrico. Durante a gravidez, são necessárias grandes quantidades de ácido fólico, uma vez que é um composto fundamental para o desenvolvimento do sistema nervoso central, importante para reduzir a incidência de defeitos do tubo neural. Portanto, existe um risco substancial de deficiência, devido à grande necessidade da forma sintética de vitamina B9 durante a gestação. Estudos demonstraram que o desenvolvimento do sistema nervoso requer altas taxas de síntese de DNA, sendo, portanto, necessária uma quantidade adequada e alta de ácido fólico durante a gestação, uma vez que essa está envolvida na síntese de DNA e RNA. Além disso, vários experimentos com ratos relataram que a restrição materna de ácido fólico durante a gestação induziam a um aumento da apoptose no prosencéfalo fetal, peso cerebral reduzido e o nível geral da atividade cerebral diminuído (JULVEZ et al., 2009;
SWAMINATHAN; EDWARD; KURPAD, 2013; GONZALEZ; VISENTIN, 2016; YAN et al., 2018; DE MACEDO, 2019)
Associações entre suplementação de ácido fólico durante a gravidez e melhores resultados neurocomportamentais em crianças são consistentes com os resultados de vários experimentos em animais e estudos em humanos. Craciunescu et al. observou que os filhotes de ratas grávidas alimentadas com dieta deficiente em ácido fólico durante a gestação tiveram uma redução de 54% das células progenitoras no neocórtex fetal, 47%
no septo e 43% no caudado, lembrando que o neocórtex é a parte do cérebro responsável por comportamentos complexos, como cognição, atenção e competência social. Um estudo longitudinal recente, com base em dados maternos relatados do uso de suplementação de ácido fólico pré-natal, encontrou associação positiva com habilidades motoras brutas de crianças de 3 anos. Há também algumas evidências de que crianças com deficiências nutricionais e idosos podem se beneficiar de ácido fólico e suplementação de vitamina B12, melhorando os resultados comportamentais relacionados à cognição e sistema afetivo.
Portanto, sabe-se da grande relevância do uso de suplementação de ácido fólico durante a gravidez, a fim de atingir um neurodesenvolvimento adequado da criança em questão.
(JULVEZ et al., 2009)
Uma meta-análise de ensaios em crianças de 5 a 16 anos, que receberam suplementação de micronutrientes por um período de 4 semanas, relatou benefícios na inteligência fluida e no desempenho acadêmico, mas não na inteligência cristalizada. Outra revisão destacou 13 ensaios clínicos randomizados que relataram melhores escores de inteligência, atenção, concentração e memória de curto prazo após a suplementação de micronutrientes. A memória de curto prazo, a inteligência fluida (capacidade de raciocínio) e o índice de processamento mental melhoraram significativamente, mas o efeito sobre a inteligência cristalizada e outras medidas de desempenho cognitivo foi mínimo (SWAMINATHAN; EDWARD; KURPAD, 2013)
Da mesma forma, estudo foi feito por Catena et al. (2015) a fim de determinar o potencial efeito do uso do óleo de peixe, do folato, do placebo ou dos suplementos de óleo de peixe + folato durante a gravidez com o desenvolvimento a longo prazo do sistema cognitivo nas crianças, até 8 anos, usando comportamento e potenciais de eventos relacionados (ERP). Ao final, foi indicado que a suplementação de folato durante a gravidez, em vez da suplementação por óleo de peixe ou óleo de peixe + folato, melhorou a capacidade neurocognitiva dessas crianças (DE MACEDO, 2019).
Todavia, tem-se um grande desafio no cotidiano, em se tratando de fatores como classe social, nível de escolaridade, paridade e tabagismo, os quais foram associados a menor probabilidade de usar suplementos de ácido fólico durante a gravidez. Além disso, ainda necessita-se de evidencias quanto o impacto da vitamina B9 no neurodesenvolvimento ao longo da vida. Logo, foi realizado um estudo de coorte, avaliando um total de 420 crianças (87% das elegíveis), para análise do uso materno de ácido fólico suplementar no final do primeiro trimestre de gravidez e observação do neurodesenvolvimento de seus filhos 4 anos depois. O uso relatado de suplemento de ácido fólico durante a gravidez foi associado a neurodesenvolvimento melhorado em crianças após o ajuste para uma série de e fatores comportamentais.(JULVEZ et al., 2009).
3.2.8.4 Vitamina B12
A vitamina B12 é importante para o metabolismo e manutenção do sistema nervoso central (SNC). Juntamente com o folato, desempenha um papel significativo no metabolismo da homocisteína. É essencial para a preservação da bainha de mielina ao redor de neurônios e síntese de neurotransmissores, assim como para a produção de energia intracelular, para a geração de metionina, que é necessária para produzir neurotransmissores e mielina, e para a formação, integridade e maturação das células vermelhas do sangue, as hemácias.. A deficiência de vitamina B12 causa danos na bainha de mielina, cobrindo os nervos cranianos, espinhais e periféricos. As síndromes relacionadas à deficiência de vitamina B12 incluem mielopatia, neuropatia, anemia megaloblástica, glossite, distúrbios neuropsiquiátricos e, com menos frequência, atrofia do nervo óptico. Os achados neurológicos mais comuns são: degeneração combinada subaguda da medula espinhal, neuropatias sensoriais periféricas e crises epilépticas e convulsões, mais raras, porém também já foram relatadas. As manifestações psiquiátricas incluem depressão, irritabilidade, lentidão, distúrbios da memória, demência, psicose e delírio. Crianças com condições relacionadas à deficiência hereditária de cobalamina apresentam danos ao SNC caracterizados por uma perda de substância branca com mielinização tardia. A ausência de sinais hematológicos e neurológicos clássicos pode atrasar o diagnóstico, com graves consequências, pois é provável que o dano neuronal seja irreversível se o tratamento for atrasado (GONZALEZ; VISENTIN, 2016; JOHN; BLACK;
NELSON; KVESTAD, 2017; WINJE et al., 2018; SILVA; VELOSA; BARAHONA-CORRÊA;
DE MACEDO, 2019).
Deficiência neonatal grave de vitamina B12 causa possíveis manifestações neurológicas irreversíveis. Um estudo na Holanda mostrou que bebês alimentados com uma dieta macrobiótica, com pouca vitamina B12, tiveram atraso no desenvolvimento motor, fala e linguagem em comparação com bebês em dieta onívora. Na adolescência, essas mesmas crianças que foram alimentadas com uma macrobiótica dieta nos seis primeiros anos de vida teve pior desempenho em testes cognitivos, independentemente do status de vitamina B12 atual comparado com os adolescentes alimentados com dieta onívora. Em contraponto, alguns autores relataram remissão completa de sintomas sob terapia de reposição vitamínica, mesmo após a descontinuação de antipsicóticos e antiepiléticos. Nesse caso, sintomas psicóticos e convulsões ocorreram após a descontinuação de antipsicóticos e medicamentos antiepiléticos, apesar tratamento contínuo de reposição de cianocobalamina. Segundo eles, a recuperação ainda pode ser possível após o início da reposição da vitamina B12, mostrando que pacientes com deficiência prolongada de vitamina B12 ainda podem se recuperar parcialmente de seus déficits neuropsiquiátricos com tratamento adequado, mesmo na presença de sequelas neuropsiquiátricas persistentes. Sugere-se, ainda, que a deficiência de vitamina B12 seja considerado no diagnóstico diferencial de pacientes que apresentam com psicose ou convulsões atípicas, principalmente quando associadas ao declínio cognitivo (WINJE et al., 2018; SILVA; VELOSA; BARAHONA-CORRÊA, 2019).
Um estudo realizado com 320 crianças feito por Kvestad et al., 2017, para medir as associações entre vitamina B-12 na infância (2 meses a 12 meses) e o funcionamento do desenvolvimento cognitivo em crianças nepalesas 5 anos após, mostraram que os marcadores de status de vitamina B-12, com exceção da cobalamina no plasma, foram significantemente associados com o total de pontos do ASQ-3 (Questionário Ages and Stages, 3a edição) nos modelos de regressão múltipla. O aumento do ácido metilmalônico (indicador do pior estado de B12) foi associado a uma diminuição nos escores no NEPSY II (Avaliação Neuropsicológica do Desenvolvimento, 2a edição), concluindo que o estado da vitamina B-12 na infância está associado ao desenvolvimento e desempenho em tarefas de percepção social e habilidades visuo-espaciais aos 5 anos de idade (KVESTAD, 2017;
DE MACEDO, 2019).
Associado a tudo que foi exposto, existem, ainda, estudos que apontam a importância da vitamina B12 no transtorno do espectro autista (TEA). Terapias médicas alternativas e complementares (MAC), principalmente aquelas à base de suplementação
o tratamento do TEA. As pesquisas giram em torno principalmente da suplementação com vitamina B12, com ferro e restrição dietética de glúten e caseína. Essas terapias têm, como preceito básico, a reposição de substâncias que, geralmente, encontram-se anormalmente baixas em crianças com TEA ou evitar a ingestão de determinadas proteínas, como o glúten e a caseína, presentes no leite de vaca e em seus derivados e em alimentos como pão e macarrão. Essas proteínas estão associadas a um aumento da produção de anticorpos, como imunoglobulina (Ig) IgG, IgM e IgA. Esses anticorpos promovem uma reação inflamatória mediada por células do sistema imune, as quais produzem altas quantidades de Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-alfa) e outras citocinas pró-inflamatórias na mucosa gastrointestinal limitando a absorção de nutrientes (DA SILVA et al., 2014).
Baixos índices de vitaminas estão sendo associados, atualmente, com deficiências do desenvolvimento, como por exemplo, as ocasionadas pelo TEA. Crianças autistas sem suplementação desses nutrientes têm diferenças estatísticas significantes em seu estado nutricional e metabólico, quando comparadas a crianças com neurodesenvolvimento típico, incluindo baixos níveis de biotina, de glutationa, de S-adenosilmetionina (SAM), de ATP, NADH e NADPH plasmáticos, de sulfato plasmático (livre e total) e de triptofano plasmático.
Após a administração de suplementação mineral e vitamínica por três meses, os níveis desses biomarcadores parecem melhorar bastante, chegando até a normalizar, de forma que foi inferido que níveis de vitaminas, minerais e aminoácidos estão fortemente associados à variação da gravidade do autismo. Em um estudo com crianças portadoras de TEA, apesar das diversas limitações metodológicas, os pais mencionaram que seus filhos começaram a se comunicar melhor (por contato visual, escutando, pela linguagem verbal e não verbal), tinham um sono mais tranquilo, apresentavam melhorias na alimentação e no apetite, nas relações interpessoais e apresentaram reduções da constipação e dos vômitos pós-prandiais, outros sintomas comuns em autistas, após o uso dessas terapias (DA SILVA et al., 2014).