4.1 Descrição dos segmentos
4.1.2 Vogais
Sobre as consoantes /w/ e /j/, de acordo com Clements e Hume (1995), essas possuem as mesmas características articulatórias que as vogais /u/ e /i/, respectivamente (cf. seção
“4.1.3 Aproximantes”), sendo distintas pela função que ocupam na sílaba da língua36. Já as consoantes /l/ e // se distinguem em relação aos traços [lateral] e [contínuo]37.
Em wauja, portanto, postulamos o status fonológico de 15 consoantes, são elas: /p/, /t/, /ts/, /t/, /k/, //, /h/, /z/, //, /m/, /n/, /w/, /l/, //, /j/. A seguir, apresentamos a descrição das vogais.
(25) [e] e [i]: possuem contraste em ambientes análogos
[tete] ‘irmã mais velha’ vs [tuti] ‘bengala’
[epi] ‘machado’ vs [i:pi] ‘margem do rio’
[sepe] ‘costurar’ vs [sepi] ‘banco’
Os contrastes em ambientes idênticos puderam atestar o status fonológico das vogais // e /u/. Entretanto, os contrastes em ambientes análogos são insuficientes para atestar as demais vogais. Por conta disso, a seguir, apresenta-se a ocorrência dos segmentos vocálicos e seus alofones, para que se possa chegar a uma comprovação mais eficiente sobre as vogais fonológicas da língua wauja.
A vogal central baixa [a] varia apenas com a central média aberta [] em sílabas átonas, ocorrendo com todas as consoantes do sistema. Logo, postulamos o fonema /a/ e []
seu alofone. Exemplos:
(26) /a/
[a] [kapi] ‘quati’
[kupa] ‘carrapato’
[walu] ‘caramujo branco’
[a] ~ [] [uputa] ~ [uput] ‘dar/entregar’
[kuta] ~ [kut] ‘saúva-içá (formiga)’
[takuta] ~ [tkut] ‘achar’
A vogal média fechada [e] varia livremente com a vogal média aberta [], ambas ocorrendo tanto em posição tônica quanto átona nas palavras em wauja. Porém, diante da aproximante palatal [j], temos a ocorrência apenas da vogal média fechada [e], formando ditongos [ej] ao invés de *[j]. Em outras palavras, [e] e [] são variantes do fonema /e/ e estão em distribuição complementar nesse contexto. Exemplos:
(27) /e/
[e] ~ [] [epi] ~ [pi] ‘machado’
[emu] ~ [mu] ‘pão de milho’
[teme] ~ [tm] ‘anta’
[ej] [itsej] ‘fogo’
[ulej] ‘mandioca’
[n:tsej] ‘colar’
A vogal anterior alta [i] possui apenas a variante [], que ocorre em sílabas átonas, ambas não ocorrendo com as consoantes [], [h], [] e [t]. Assim, nessa análise postula-se o fonema /i/, com seu alofone []. Exemplos:
(28) /i/
[i] [mapi] ‘pena’
[pitsu] ‘você’
[tuti] ‘bengala’
[i] ~ [] [temepi] ~ [temep] ‘jibóia’
[ituwi] ~ [tuw] ‘caramujo listrado’
[kulupijene] ~ [kulupjene] ‘desenho de losangos’
A vogal central alta [] varia com a vogal central média fechada [] apenas em sílabas átonas, não ocorrendo com as consoantes [], [t], [l] e []. Logo, postula-se o fonema // e //
seu alofone. Exemplos:
(29) //
[] [tu] ‘dele(a)’
[awp] ‘grande’
[wta] ‘chifres’
[] ~ [] [atat] ~ [atat] ‘vara’
[map] ~ [map] ‘penas dele(a)’
[tpepe] ~ [tpepe] ‘barro vermelho’
A vogal posterior alta [u] varia somente em sílabas átonas com [], não ocorrendo com as consoantes [], [] e [w]. Assim, postula-se o fonema /u/ e [] seu alofone. Exemplos:
(30) /u/
[u] [atu] ‘avô’
[huka] ‘tecer’
[ituwi] ‘caramujo listrado’
[u] ~ [] [awtu] ~ [awt] ‘porco caititu’
[ttu] ~ [tt] ‘cipó’
[kupat] ~ [kpat] ‘peixe’
A partir dos exemplos expostos, podemos postular o status fonológico dos segmentos vocálicos orais /a/, /e/, /i/, //, /u/, sendo os demais apenas alofones desses.
As vogais orais podem ocorrer com dois tipos de nasalização. O primeiro tipo se dá quando estão precedidas pelas consoantes nasais (nasalização fraca ou leve), ou seja, trata-se de uma nasalidade fonética. Já o segundo tipo se dá sem a presença de consoantes nasais
(nasalização forte ou pesada)38, em outras palavras, trata-se de uma nasalidade fonológica, porque não é previsível39.
Para ilustrar os tipos de nasalização, expomos em (31) dados com a nasalidade leve e em (32) com a nasalidade pesada:
(31) [ã] [mãkui] ‘óleo’
[u] [nutai] ‘corda’
[] [un] ‘água’
(32) [e] [e:pi] ‘tipo de cipó’40 [] [th] ‘facão’
[i] [itsuku] ‘bem-te-vi (pássaro)’
[i] [pikitsi] ‘telhado da casa’
[] [:taj] ‘arco’
[u] [u:taj] ‘lagartixa’
Em wauja, encontram-se, ainda, segmentos vocálicos longos. Entretanto, em nosso corpus, há apenas três itens que podem evidenciar que a duração vocálica seja contrastiva.
Exemplos:
(33) [i:] e [i]: possuem contraste em ambiente idêntico
[wi:ta] ‘assovio do vento’ vs [wita] ‘baixo’
(34) [:] e []: possuem contraste em ambiente idêntico
[w:ka] ‘assovio de pessoa’ vs [wka] ‘torrar beiju’
Por nosso corpus conter apenas esses itens que contrastam a duração vocálica, não podemos postular que, fonologicamente, haja vogais longas fonológicas em wauja41. Provavelmente, tais dados tenham ocorrido pela velocidade de fala na elicitação de dados ou, então, são realizações fonéticas de duas vogais fonológicas que se fundiram. É importante
38 Conferir seção “4.4.1 Nasalidade”.
39 Outra alternativa de interpretação para os dados é reconhecer a existência de um autossegmento nasal flutuante, que não sendo licenciado para se manifestar como consoante plena em posição de coda silábica (ver seção “4.2.1 Padrões silábicos”), espalha o traço nasal sobre o núcleo da sílaba, ou seja, sobre as vogais orais.
Por esta interpretação, excluiríamos do inventário fonológico as vogais nasais. Assim, em uma análise mais abstrata, pode-se assumir que o segundo tipo de nasalidade (a fonológica) é o resultado de um traço nasal flutuante que se espraia, no nível fonético, sobre as vogais (TRIGO, 1988). Com este tipo de argumento, podemos dizer que trata-se de vogais orais com um traço nasal. Porém, há autores que não levam em consideração tal argumento.
40 Itens semelhantes que podem ser comparados: [pe:si] ‘pão (da cidade)’; [ith] ‘capivara’, [itut] ‘ovos de tracajá’; [pikitsi] ‘teu nariz’; [taj] ‘festa’, [hu:kapaj] ‘derramar’.
41 Outra interpretação é considerar as realizações fonéticas [V:] como duas vogais idênticas /V.V/, que pertencem a sílabas distintas, sem o preenchimento da posição de ataque (onset), ou seja, a separação silábica de palavras como [a:kuma] ‘gavião-tesoura’ poderia ser /a.a.ku.ma/. Então, a partir dessa interpretação poderíamos excluir todas as vogais longas do inventário fonológico, permanecendo apenas as vogais orais.
dizer que assim como as vogais orais, as vogais longas ocorrem, foneticamente, com todas as consoantes do sistema. A seguir, expomos alguns exemplos:
(35) [a:] [a:a] ‘defecar’
[a:kuma] ‘gavião-tesoura’
[ana:ti] ‘lápis’
(36) [e:] [me:ke] ‘cobra coral texana’
[je:tulaa] ‘bola’
[we:ke] ‘grande’
(37) [i] [wi:ta] ‘assovio do vento’
[pi:sulu] ‘grilo’
[ki:ru] ‘cabaça’
(38) [] [h:ka] ‘fumo’
[w:ka] ‘assovio de pessoa’
(39) [u] [ku:ã] ‘assar com fumaça’
[hu:kapaj] ‘derramar’
Embora sejam mais raros, em wauja, há, ainda, a realização de segmentos vocálicos longos nasais, são eles, [ã:], [:], [u:]. Abaixo, seguem os dados encontrados:
(40) [ã:] [talã:tapa] ‘prego’
[:] [:taj] ‘arco’
[u:] [u:t] ‘lagartixa’
Em trabalhos futuros, buscaremos explicitar mais sobre a realização desses segmentos vocálicos longos e longos nasais. Por enquanto, apenas descrevemos os dados encontrados em nosso corpus para uma análise preliminar sobre a língua.
Assim, postulamos cinco vogais fonológicas, são elas: /a/, /e/, /i/, //, /u/, conforme o seguinte inventário fonológico:
anterior central posterior
alta i u
baixa e a
Quadro 19: Inventário alternativo das vogais em wauja
Nesta proposta de interpretação, portanto, temos apenas as vogais orais representadas fonologicamente, distintas pelos traços de ponto de articulação [anterior], [central], [posterior]
e graus de abertura que se distinguem em [alta] e [baixa].
Após a análise, os fonemas vocálicos foram distintos pelos traços de ponto de articulação [coronal], [labial], [dorsal] e aberturas [ab1] e [ab2], de acordo com a proposta de Clements e Hume (1995)42, no seguinte quadro:
Traços [coronal] [labial] [dorsal]
Abertura i e u a
[ab1] - - - - +
[ab2] - + - - +
Quadro 20: Ponto e abertura das vogais
A partir desse quadro de traços, reunimos os segmentos vocálicos de acordo com o nó
“Ponto de V”, seguindo o modelo proposto por Clements e Hume (1995), utilizando apenas os traços relevantes para a representação de duas classes naturais em wauja, como segue:
Classe1: Classe 2:
/i, u, / /e, a/
[-ab1] [-ab2] [+ab2]