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3.2 OS CAMPOS DE PESQUISA

3.2.1 Youtube

Apesar das diferenças guardadas entre os interlocutores, é possível verificar que os canais do Youtube compartilham várias características em comum, desde as temáticas privilegiadas aos tipos de enfoque dados nos conteúdos, que seguem fórmulas como

“Conhecendo tal lugar”, “X coisas que me surpreenderam no Brasil”, “Venezuelano preparando/provando tal iguaria típica”, entre outras, nos títulos. Independentemente de adotar um tom mais informativo ou ser mais voltado para o entretenimento, há em todos eles a recorrência de vídeos com orientações práticas sobre como se instalar no país, sobretudo no que tange à documentação necessária, oferta de vagas de trabalho, abertura de contas bancárias, preços de aluguel, compras domésticas e serviços públicos em geral. Os youtubers assumem, assim, um papel de referência na organização do projeto migratório, fornecendo, a partir do relato de seus casos bem ou mal sucedidos, ou seja, de seus testemunhos individuais, subsídios para que o seguidor tome a sua decisão e inicie a empreitada rumo a uma localidade específica.

Figura 1 - Vídeos utilitários destacam os trâmites burocráticos e o custo de vida com despesas básicas

Fonte: Reprodução Youtube/Maria y Jose (04/06/2021).

Fonte: Reprodução Youtube/Nelson Franceschi (06/05/2020).

Além das questões relativas à etapa inicial, também são tematizados os seus enfrentamentos cotidianos como migrantes, incluindo tópicos como o aprendizado do português, a revalidação de diplomas, o envio de remessas através de aplicativos e a renovação do Registro Nacional do Migrante (RNM). Nesse sentido, os trâmites burocráticos relacionados à cidadania jurídica e as notícias relacionadas à migração venezuelana no Brasil - como inauguração de refúgios e atualizações sobre a situação da fronteira, abarcando desde manifestações contra os migrantes a informações sobre as rotas clandestinas, conhecidas como trochas - são interesses constantes. Ademais, os participantes da pesquisa também utilizam o Youtube para compartilhar acontecimentos marcantes da realidade brasileira, como o aumento da inflação e do preço da gasolina em 2022. Já durante o auge da pandemia, por exemplo, notei que o enfoque dado nos vídeos era mais local, fornecendo atualizações sobre a situação das cidades onde viviam, as medidas de contenção adotadas e o posterior afrouxamento delas, volta às aulas híbridas ou presenciais e retomada do comércio.

Embora a dimensão prática tenha um grande peso na atuação dos venezuelanos no Youtube, no sentido de ajudar a resolver problemas e fornecer uma rede de apoio, ainda que mediada tecnologicamente, aos seus compatriotas e aos migrantes de outras nacionalidades que já estão ou pretendem vir para o Brasil, não se pode reduzir o papel da rede social ao mero utilitarismo. Considerando que todo o material que é divulgado no Youtube vem acompanhado pela possibilidade de interação direta e instantânea, podemos pensar que a mídia social também atua como um importante instrumento de formação e fortalecimento de

vínculos, tanto para os youtubers quanto os seus seguidores. Nessa perspectiva, o gesto de narrar a vida em primeira pessoa, compartilhando trajetórias, momentos, gostos e afetos, é o que dá aos migrantes organicidade à suas experiências, ao mesmo tempo em que torna comuns as diferenças, permitindo a criação de intimidade, em muitos casos, com completos desconhecidos.

A sedimentação do comum, por consequência, é o que viabiliza a sociabilidade entre os diferentes grupos em cena. Os relatos tecidos pelos migrantes a um só tempo abrem margem para o diálogo intercultural, constituindo-se como um ponto de partida para o contato e a negociação23 à medida que despertam o interesse e a curiosidade no Outro, e geram identificação. As possibilidades de identificação, entretanto, são muitas diante de um contexto hipermidiatizado onde conceitos como aproximação e distância foram completamente reformulados. Falar sobre seus costumes e tradições particulares é o que dá coesão à comunidade, mas também é uma das estratégias assumidas na luta por reconhecimento e visibilidade em esferas mais amplas. Assim, a experiência compartilhada publicamente pode ser vista tanto como fonte de conhecimento quanto de entretenimento, recomendação e inspiração para os membros da comunidade de origem e de destino.

Na diáspora venezuelana, a atuação dos youtubers fornece subsídios para solucionar questões de ordem prática e, simultaneamente, manter vivos os seus laços identitários e culturais. Ao fazê-lo, entendo que tais sujeitos produzem uma memória coletiva que se vincula, porém não se restringe, ao universo de origem, havendo espaço para o pertencimento presente. O desejo de se inserir na sociedade onde se vive aqui e agora, aliás, vem acompanhado por receios e sofrimentos de diversas ordens, e como parte dessa busca os venezuelanos também lançam mão de um convite para que os brasileiros conheçam a sua cultura e as suas visões sobre o país. Em outras palavras, aqui o serviço informativo anda lado a lado aos videoblogs (vlogs) de viagens, reviews de produtos, compras em lojas e mercados, audição de cantores brasileiros, prova de pratos típicos, etc. O que dá pistas sobre como o consumo tem sido uma das vias possíveis para a negociação de pertencimento local.

Passando dos principais usos sociais dados pelos migrantes à plataforma para a questão idiomática, ao analisar os títulos e as falas dos vídeos, percebemos a apropriação de palavras e sintaxes tanto do português quanto do espanhol, em alguns casos vindo misturadas.

23 A negociação intercultural, entretanto, pode ser conflitiva e por vezes acaba esbarrando na negação aberta à diferença, a qual se materializa através de discursos de ódio que são despejados pelos haters nos comentários de determinadas postagens. Falaremos sobre o tema mais adiante, no item 4.2.1.

Nesse sentido, o portunhol24 pode ser visto como reflexo da hibridização identitária (ELHAJJI, 2021) em curso na vida dos migrantes, no sentido de o contato íntimo com a língua portuguesa no seu dia a dia conduzir à uma gradual interiorização do novo idioma, que passa a coexistir com o materno em suas práticas narrativas on e offline. Ademais, podemos pensar no portunhol como um recurso utilizado pelos influencers para se fazer inteligível e abarcar um público mais amplo, aglutinado em duas territorialidades principais - o país natal e o anfitrião -, e assim contornar a falta de domínio dos idiomas originais, isto é, o espanhol e o português, por parte dos brasileiros e dos venezuelanos. Outras estratégias empregadas são a disponibilização de legendas e a adoção do português na hora de interagir com os brasileiros nos comentários, indícios estes que revelam a intensidade das trocas e o consequente processo de aproximação entre as duas nacionalidades.

Ao analisar a seção “Sobre”, verifiquei que quase todos os youtubers priorizam a demarcação da sua condição diaspórica, ora se afirmando enquanto “imigrante venezuelano”, ora como “venezuelano no Brasil”. O único caso em que tal forma de autoapresentação não esteve presente na descrição foi o de Vicky, entretanto, cabe reforçar que o nome escolhido para batizar o seu canal (Vicky en Brasil) por si só já reforça o vínculo ao país de recepção e o seu lugar de fala como migrante.

Em relação aos elementos imagéticos, podemos perceber que os símbolos pátrios costumam aparecer não só nas imagens de capa, mas também nas edições dos próprios vídeos e, por vezes, no cenário montado para a gravação, seja com bandeiras de fundo ou vestindo uma camiseta verde e amarela onde se lê I <3 Brasil. O acionamento de elementos relacionados à identidade nacional também é comum em vídeos que tematizam curiosidades e costumes brasileiros, explorando os símbolos mais conhecidos que fazem parte do imaginário do país e da brasilidade no exterior, como a feijoada, o samba e o Cristo Redentor. Entretanto, na hora de falar sobre a localidade onde vivem, atributos regionais se fazem presentes, ora através de imagens genéricas encontradas na internet, ora em filmagens caseiras onde os próprios migrantes provam comidas típicas como o pinhão no Paraná e o açaí no Amazonas, ou então visitam seus principais cartões-postais.

24 Para Elhajji (2021), seria mais preciso falar em “portunholes”, considerando a sua multiplicidade e mutabilidade, do que em um único “portunhol”. Embora não se trate de um fenômeno sui generis na paisagem linguística mundial, o código - que pode ser entendido como interlíngua, dialeto ou simples língua de contato - tem como particularidade o fato de ser uma mescla entre idiomas que possuem uma genealogia em comum.

Figura 2 - Símbolos pátrios estão presentes nas capas, nos cenários e nas próprias vestimentas utilizadas no momento da filmagem

Fonte: Reprodução Youtube/Maribella Soy. Print feito em junho de 2022.

Fonte: Reprodução Youtube/Nelson Franceschi (24/02/2022).

Fonte: Reprodução Youtube/Vicky en Brasil (03/06/2021).

Já na hora de apresentar a Venezuela, os migrantes costumam referenciar o cenário da crise política e econômica que os motivou a sair do país, criticando o governo bolivarianista, por vezes referido como “socialista”, e compartilhando sua experiência de enfrentamento à escassez de alimentos, inflação, desabastecimento de gasolina e quedas de energia. Além desses vídeos, onde o contexto venezuelano é narrado através de passagens e fotos de acervo pessoal (Figura 3), há aqueles especificamente focados nas práticas culturais, em que os youtubers falam, por exemplo, sobre as festividades típicas nacionais e fazem vlogs preparando comidas como a arepa, a cachapa e a hallaca (Figura 4), que de tão presentes parecem compor uma espécie de repertório ou agenda mínima da venezuelaneidade.

Figura 3 - Maribella utiliza arquivos pessoais para contar sobre como era a sua vida antes da emigração

Fonte: Reprodução Youtube/Maribella Soy (18/10/2021).

Figura 4 - Preparo de receitas típicas foi um dos conteúdos recorrentes em todos os canais analisados

Fonte: Reprodução Youtube/Maria y Jose (21/12/2021).

Ao representar a culinária, a música e as tradições do país natal, é notável que os youtubers se colocam ao mesmo tempo como representantes da Venezuela - e, por isso, responsáveis por apresentá-la para uma audiência estrangeira a partir das suas personas - e produtores de representações do país em si. Assim, a experiência tornada pública na internet, como um produto cultural a ser consumido, é a de conhecer o lugar através da pessoa, com ênfase no cotidiano e na memória de quem testemunha.