Nessa perspectiva, procura mostrar como um adolescente jamais poderia ser reabilitado nesse tipo de ambiente e que a existência de uma legislação específica para lidar com adolescentes em conflito com a lei é de extrema importância para proteger seus direitos fundamentais garantidos pela Constituição e pelo ECA.. Segundo levantamento do Ministério Público de São Paulo, 2 em cada 3 menores infratores não têm pai em casa, no desempenho de função que em tese é obrigação de ambos os pais. Isto deve-se tanto à ausência do pai no seio familiar como a uma presença mais instável, temporária e menos envolvida desta figura na manutenção da estrutura familiar.
Infelizmente, existe uma ligação entre a prática de crimes por jovens adolescentes e a ausência de uma figura paterna, bem como de uma base familiar sólida. A presença do pai, principalmente em casa, não é apenas fundamental na formação dos filhos, mas também, na promoção de uma referência, um exemplo a ser seguido.
A IMPORTÂNCIA DA FUNÇÃO RESSOCIALIZATÓRIA PARA EVITAR A PRÁTICA DE NOVOS ATOS INFRACIONAIS
A pena de prisão e as medidas socioeducativas têm e devem ter a função ressocializadora como um de seus pilares, para restaurar a pessoa que comete um crime e prepará-la para uma convivência saudável em sociedade, pois em algum momento ela terá que voltar a viver em liberdade. Na medida do possível, cabe ao Estado tomar as providências preparatórias para o retorno do condenado ao convívio social. O ordenamento jurídico vigente estabelece o direito do preso ser transferido para o local onde tenha raízes, tendo em vista a indispensável assistência dos familiares.
As medidas socioeducativas têm como objetivo principal a ressocialização e até mesmo a reclusão, ao menos em tese. É notório que a pena de prisão é totalmente deficiente nesse sentido, haja vista o estado caótico do sistema prisional brasileiro, como outrora explicitado. As medidas socioeducativas estão longe de serem perfeitas, mas não há dúvida de que estão muito mais próximas do ideal de restituição aos jovens em conflito com a lei, pois são infinitamente mais humanas, tanto na teoria quanto na prática.
Além do caráter pedagógico, voltado para a reinserção do jovem em conflito com a lei ao convívio social, as medidas socioeducativas têm outro caráter sancionatório, em resposta à sociedade pelo prejuízo decorrente das condutas típicas praticadas. Por meio da aplicação de medidas socioeducativas, principalmente a internação, os adolescentes são estudados, tratados quanto à sua saúde, devem seguir regras e ser disciplinados. Os adolescentes têm acesso à cultura, esportes e recreação, além de outras atividades educativas que visam afastá-los da vida criminosa.
Tudo é pensado e praticado para ressocializá-lo para que ele possa voltar ao convívio social de forma saudável, o que seria praticamente impossível se ele cumprisse pena em unidade prisional.
3 FUNCIONAMENTO E ASPECTOS JURIDICO-LEGAIS DO ATUAL SISTEMA DE MEDIDAS SOCIO-EDUCATIVAS: SANÇÕES DIANTE
A VISITA AO INSTITUTO DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO DO ESPÍRITO SANTO (IASES)
A visita ao instituto teve como objetivo tirar algumas questões relacionadas com a função das medidas sociopedagógicas na prática do IASES e temas relacionados com a realidade dos jovens que chegam ao local, para confirmar a importância do existência de legislação específica no sentido de sancionar e . A primeira pergunta feita à diretora, Fabiana Araújo Malheiros, foi qual a estrutura de atendimento psicossocial para jovens. A diretora respondeu que o que permeia o atendimento psicossocial ao jovem é a lei do Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), que estabelece alguns parâmetros para o atendimento, e um desses parâmetros é que para cada vinte jovens deve ser formada uma equipe . de psicólogo e assistente social, e que para cada quarenta adolescentes deve haver um pedagogo e um assistente jurídico.
O diretor respondeu que a Lei do Sinase prevê um acompanhamento de seis meses da saída após a alta hospitalar e que o IASES está reformulando o programa e. Fabiana respondeu que há dados que se referem à reincidência de adolescentes em conflito com a lei, daqueles que saem do IASES e voltam após cometer um novo delito, que é de 2%. No entanto, não há dados sobre adolescentes que saem do IASES e cometem um novo delito e vão para a prisão.
Portanto, o único índice de retorno de adolescentes ao IASES é de 2% e, devido à falta de referências a esse respeito, é necessário melhorar a qualidade do acompanhamento do adolescente que sai. É um desafio diário que exige muito estudo para garantir um atendimento de qualidade aos jovens que chegam ao Instituto. Por fim, questionou-se se a redução da maioridade penal é vista como uma opção efetiva segundo o IASES e quais as implicações da proposta para os direitos fundamentais dos menores infratores.
Fabiana respondeu que a redução da maioridade penal como forma de diminuir a violência é um equívoco do ponto de vista do legislador, dando o exemplo de que são treze mil só no Espírito Santo.
CONCLUSÕES EXTRAÍDAS DA VISITA AO INSTITUTO
Disse ainda que atualmente existe uma tendência muito forte de criminalizar os jovens, levando a sociedade a pensar que os crimes acontecem por causa do ECA ou porque o adolescente é o maior "vilão", o que não é bem assim. Ele disse que a redução da maioridade penal é desnecessária e visa apenas uma maior punição dos jovens, que não precisam de punição, mas sim de ordem pública e que a garantia dos direitos fundamentais dos jovens deve ser feita fora da prisão. isto. é praticamente impossível. Ao final, afirmou que o IASES garante todos os direitos dos adolescentes, como saúde, educação, cultura, esportes, lazer, pois todos estudam e têm acesso ao teatro, atividades culturais em geral, aulas de música, jogos de futebol em parceria com a secretária. de Esporte e Lazer.
Pode não ser da melhor qualidade e o Instituto trabalha todos os dias para melhorar isso, mas todos os adolescentes têm acesso a esses espaços que garantem seus direitos básicos. 4 DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS MENORES DE ACORDO COM A LEI CONSTITUCIONAL E ESTATUTO DA CRIANÇA.
Nota-se, portanto, que o ECA, assim como a Carta Magna, trouxe uma nova perspectiva aos direitos da criança e do adolescente, que é a sua proteção integral e absoluta. A criança e o adolescente têm direito à proteção da vida e da saúde, por meio da implementação de políticas públicas sociais que possibilitem o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência. São elencados os direitos da criança, do adolescente, da gestante (em atendimento pré e perinatal do Sistema Único de Saúde) e do nascituro, para garantia de sua vida e saúde.
Outro direito importante, também muito confrontado com a redução da maioridade penal, é o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade. O direito ao respeito inclui a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral de crianças e adolescentes, incluindo a preservação de sua imagem, identidade, autonomia, valores e crenças, espaços e objetos pessoais.41. É direito da criança e do adolescente ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, garantido pelo art.
Esse dispositivo trata do cuidado familiar aos menores, garantindo que eles tenham um desenvolvimento saudável dentro da família e assim, longe de ambientes degradantes, cuja convivência seria extremamente difícil e prejudicaria a formação dos menores. Ressalta-se que estes visam proteger os direitos da criança e do adolescente, equilibrando harmoniosamente a punição diante da violação com a garantia dos direitos fundamentais dos menores. É lógico que uma eventual redução da maioridade penal e, portanto, a possibilidade de menores de 18 anos responderem criminalmente por seus atos e começarem a cumprir a pena, causaria grandes e negativos impactos sobre os direitos consagrados a partir do art. Carta Magna. e do ECA.
Além disso, tudo o que é proibido constitucionalmente seria ampliado ainda mais, como a opressão, a violência e a crueldade, colocando os adolescentes ainda mais longe de um plano ideal: crescimento, desenvolvimento saudável e retorno à sociedade sem causar mais danos a ninguém .
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando todos os dados e argumentos que este trabalho traz, fica claro que a redução da maioridade penal é criminalizar os jovens, além de uma enorme irresponsabilidade em relação à realidade do sistema prisional brasileiro. Conforme afirma a diretora socioeducativa do IASES, Fabiana Araújo, os jovens não precisam de punição, mas sim de políticas públicas que façam valer seus direitos fundamentais básicos. Reduzir a maioridade penal e, assim, introduzir um processo penal convencional como modelo de sanção do adolescente, colocá-lo na mesma condição de adulto perante a lei penal, é simplesmente equipará-lo à triste realidade do sistema de justiça criminal e prisão. sistema no Brasil, que é um sistema que não ressocializa e trata, mas sim tortura e oprime, educa ainda mais o indivíduo para o crime.
Colocar os jovens em conflito com a lei nesses espaços, ao invés de tratá-los como deveriam individualmente e à luz da legislação particular que já existe, é entregar esses jovens ao mundo do crime, lugar de onde é quase impossível. Esses adolescentes devem sair das ruas e devem ser tratados e acolhidos de forma especial, o que já vem acontecendo, mesmo que de forma imperfeita – e isso deve ser aprimorado – para que seus direitos fundamentais básicos, previstos na Constituição e pela Tribunal de Contas, estão garantidos. Ficou mais do que claro e óbvio que o sistema prisional brasileiro não é capaz de tratar e reabilitar um condenado adulto, e imaginar que poderia com um adolescente extremamente despreparado e imaturo é muita ingenuidade.
Tratar os jovens em sua individualidade e condição de menores, carentes de educação, cultura, esporte, lazer e saúde, é respeitar os jovens que não entram no mundo do crime simplesmente por vontade, mas por condições de vida, como explicado antes. levou a isso. É claro que os adultos também têm direitos básicos que devem ser preservados, mas a discussão é sobre tais direitos não serem respeitados diante do caos nas unidades prisionais e se começar a atribuir um ato criminoso à internação do adolescente. Cumprir pena nesses espaços como adultos é violar seus direitos básicos, especialmente por sua condição de menores. Portanto, conclui-se que a redução da maioridade penal não é uma medida de segurança pública eficaz no combate à criminalidade, e que representa uma enorme ameaça à recuperação dos jovens em conflito com a lei.
É um atentado aos direitos fundamentais de crianças e adolescentes ao criminalizar os jovens ao invés de ampliar as políticas governamentais voltadas a esses jovens para formá-los para uma vida adulta saudável e consciente.
PALAVRA/490425-ESTUDO-DO-IPEA-MOSTRA-SOCIOECONOMICO-PERFIL-DE-ADOLESCENTES-INFRATORES.html > Acesso em: 15 mar. Disponível em: < https://www12.senado.leg.br/radio/1/conexao-senado/pesquisa-aponta-que-2-em-3-menores-infratores-nao-tem-pai-dentro-de- home > Acesso em: 15 mar