Contudo, quando estudamos a teoria do valor de Max de Scheler, vemos a originalidade de sua fenomenologia. No terceiro e último capítulo, intitulado A Ética dos Valores de Max Scheler, mostramos inicialmente como os valores podem constituir o conteúdo de uma ética filosófica.
A herança husserliana
O saber das essências
Neste diagrama, a modalidade que contém os maiores valores é (1ª), e aquela que contém os menores valores (4ª). A quarta e última modalidade é a dos valores sensíveis, cujos pólos ou extremos são os valores do agradável e do desagradável.
A intuição emocional dos valores
Os sentimentos e os valores
Para Scheler, os valores do sagrado e do profano constituem a classe de valores religiosos que estão no nível mais alto da escala hierárquica. Na visão de Scheler, o homem moderno compara seus valores morais com os valores mais nobres.
A ordem do amor e a ordem do coração
A pessoa e o ato de amor que apreende os valores
Nesse contexto, encontram-se os conceitos de pessoa e amor porque, segundo Scheler, a pessoa é o ser espiritual que realiza o ato de amor direcionado aos valores. 36 Dentre as ações da pessoa scheleriana, a que tem maior influência na fenomenologia emocional é aquela por meio da qual ela compreende os valores que estão nos outros, ou seja, o ato de amor26. Esta afirmação de Scheler aponta para a possibilidade de aprendermos valores a partir dos modelos de pessoas valiosas.
Na fenomenologia de Scheler, os valores são percebidos pela pessoa comum, dotada de espírito, o sujeito individual concreto. A pessoa comum, ao amar seu modelo valioso, também compreenderá os valores que as pessoas modelo carregam, consideradas protótipos valiosos. Esse processo é uma relação interpessoal em que uma pessoa (o seguidor) compreende os valores detidos por outros indivíduos, considerados modelos ou protótipos.
A apreensão dos valores que estão nos modelos pessoais: o seguimento
As classes de valores e seus respectivos modelos pessoais: os tipos
Portanto, o modelo típico do santo veio da classe dos valores religiosos; da classe dos valores espirituais surgiu. Segundo esta proposição squeliana, o modelo de santo típico apresenta valores como santidade, pureza e amor, entre outros. 41 A segunda classe axiológica em nosso diagrama é a dos valores espirituais, da qual emerge o modelo-tipo do gênio.
Da obra do gênio é possível extrair conhecimentos de natureza universal, pois o gênio representa o modelo típico do cosmopolita, cidadão do mundo. Do trecho citado, deduzimos que o modelo típico do pioneiro está relacionado ao progresso, por meio do desenvolvimento técnico-científico. Por fim, temos a quinta classe de valores, que é a classe de valores sensíveis da qual surge o modelo típico do artista do prazer ou artista do prazer.
Conclusão do primeiro capítulo
Scheler sugeriu desenvolver tais critérios, visto que os valores são emocionalmente intuitivos. Por sua vez, segundo Scheler, os valores espirituais existem para um sentimento independente da sensibilidade (sensorial ou psíquica). Segundo essa passagem de Scheler, os valores espirituais são valores que têm uma forma de se separar dos valores relacionados à esfera do corpo.
Sobre o valor da ação humana, Scheler escreveu em sua Ética: “os valores da ação são valores morais” (SCHELER, 2001, p. 169). 6 A relação entre os valores morais (bem e mal) e a pessoa foi um tema desenvolvido na seção 2.3 do segundo capítulo. A virtude, na visão de Scheler, é também a disposição da pessoa para com os valores morais, especialmente para o valor do bem.
Quem é humilde cuida dos outros, se esforça para fazer o bem, atinge os valores mais elevados na escala de valores. A responsabilidade que salva os valores morais é aquela que temos para com os outros, é uma ação responsável baseada no ethos moral18, que é a hierarquia dos valores estabelecidos. Dessa forma, Scheler acredita que é possível salvar valores morais superiores, principalmente o valor ético do bem.
Vimos que a burguesia ofendida acredita erradamente na primazia do valor do trabalho e no valor da utilidade dos bens, face a valores mais elevados, como os valores espirituais.
Contornos preliminares sobre a noção de valor
Aspectos fundamentais para a noção do valor
Segundo Scheler, isso permite que os valores sejam percebidos separadamente das coisas reais e das ações das pessoas. Nesse sentido, segundo Scheler, os valores podem ser percebidos mesmo que seus portadores ainda não tenham sido dados. Segundo Scheler, isso acontece porque os valores podem ser percebidos separadamente de seus repositórios (coisas ou ações das pessoas).
Sobre o apriorismo e a materialidade dos valores, coletamos as seguintes afirmações na obra Ética, onde o filósofo diz: “[..] os valores [..] formam o autêntico material a priori para a nossa intuição [..]. " (SCHELER, 2001, p. 173). Percebemos então que a bipolaridade traz consigo a noção de complementaridade e reciprocidade entre valores positivos e negativos. A noção de bipolaridade permitiu a Scheler organizar os valores em uma escala hierárquica, com os valores 'bom' e 'mal' ocupando os extremos.
Critérios de determinação da altura dos valores
Para Scheler, os valores espirituais são percebidos exclusivamente pela pessoa, o ser espiritual que se sobrepõe à parte orgânica do homem. Notamos também que os valores religiosos ocupam o topo da hierarquia e isso não aconteceu por acaso. Os valores religiosos expressam a preocupação de Scheler com a salvação espiritual do homem, uma vez que a supremacia dos valores religiosos refere-se à bondade divina, ou seja, à expressão máxima do bem.
Com base nesta afirmação, podemos concluir que os valores da ação humana correspondem aos valores do bem e do mal, valores morais stricto sensu. Nesta passagem, notamos que segundo Scheler, os valores das próprias pessoas vêm em primeiro lugar. Segundo Scheler, os valores morais são estritamente os valores do bem e do mal, enquanto outros valores são considerados valores extramorais.
Além disso, a insatisfação transforma a percepção objetiva dos valores em subjetiva, ao subordinar os valores morais aos desejos individuais, o que resulta no aparecimento de uma ética limitada ao próprio indivíduo. Tal como a raiva distorce os valores morais, como vimos na subsecção anterior, veremos agora como o valor do trabalho, como regra preferencial e determinante da moralidade, inverte a escala hierárquica de valores.
Modalidades de valores
A Hierarquia do valor da pessoa, do valor do ato e do valor da ação humana
Conclusão do segundo capítulo
A seguir, analisamos e interpretamos as modalidades e destacamos a importância dos valores religiosos, que são colocados no ponto mais alto desta escala. Estabelecido o conceito de valor, podemos agora voltar nossa atenção para outro tema importante em nosso estudo, que é a ética scheleriana, que se baseia na teoria dos valores. Trataremos da questão da raiva que, juntamente com outros fatores, produziu a falsificação ou transformação de valores na sociedade moderna.
Analisaremos também a falsificação de valores, causada sobretudo pela insatisfação, segundo o filósofo, que tem origem no individualismo burguês e na inversão de valores na era moderna. Começaremos o capítulo apresentando, na subseção 3.1, os fundamentos da ética de valor de Scheler, que incluem: i) a distinção entre moralidade e ética, ii) axiomas de valor, iii) o ethos scheleriano e iv) a noção de Deus. A falsificação de valores surge da indignação do homem burguês diante de valores superiores, como o bem e a justiça, bem como da elevação do trabalho ao patamar de elevado valor ético e de superioridade do valor útil.
Os fundamentos da ética dos valores
Como já sabemos que os valores são essências imutáveis, imutáveis e universais, consequentemente sempre existirão valores positivos e negativos, morais (bem e mal) e extramorais (outros valores). Por sua vez, no segundo bloco de axiomas (II), Scheler estabelece a ligação entre os valores morais, o bem e o mal, com a ação e a vontade humanas. Como afirma Scheler, os valores não mudam, o que difere, como destacamos anteriormente, é a preferência por este ou aquele valor.
78 que os valores são preferidos ou promovidos, ao longo do tempo, por meio da experiência humana. O Deus a que Scheler se refere é um Deus pessoal8, que reúne em si todos os valores morais superiores. A segunda refere-se ao fato de a ética scheleriana estar dotada de princípios axiomáticos, que conectam a vontade humana com os valores.
O porquê de uma ética dos valores
O quarto e último elemento da ética de valores de Scheler é a ideia de Deus, como modelo exemplar de comportamento moral. Com base nesses quatro pilares, podemos dizer que Scheler construiu uma base teórica sólida, que foi capaz de fundamentar sua ética de valores. Assim, diante do exposto, entendemos o motivo que obrigou Scheler a se comprometer com a construção de uma ética de valores.
A primazia do valor do trabalho, como valor ético, promove uma moralidade reversa, ou seja, cria uma igualdade ética baseada na degradação de valores superiores. Como mostramos na subseção anterior, a raiva, assim como a supremacia do valor do trabalho e da utilidade, causou a falsificação da moralidade moderna e distorceu a percepção dos valores éticos. Segundo Scheler, a veneração nos dá um horizonte, uma visão de nós mesmos e também de valores.
Mostramos também que a proposta de uma ética dos valores surgiu, em essência, motivada pela crítica de Scheler ao formalismo da ética kantiana. Nesse sentido, buscamos os três elementos básicos dessa teoria, a saber: fenomenologia emocional, concepção de valor e ética de valor.
O falseamento da tábua dos valores ou transvaloração
Elementos essenciais para o resgate e revitalização dos valores éticos
Por outro lado, como dissemos antes, existe, segundo Scheler, uma segunda virtude capaz de reabilitar valores morais superiores, esta virtude é a reverência. Segundo Scheler, o homem que honra atinge os valores mais elevados da escala hierárquica, que são os valores religiosos e espirituais, e desta forma aproxima-se da divindade, como modelo exemplar de comportamento ético. Vivendo os valores éticos mais exemplares, o homem que honra não se deixa enganar pelos falsos valores morais da modernidade, não é raivoso nem individualista.
Na verdade, é desta forma que as virtudes da humildade e da reverência são capazes de reabilitar os valores morais e salvar o sentido do homem virtuoso, no contexto da sociedade moderna. Além da solidariedade, Scheler destacou um terceiro e último elemento capaz de reabilitar valores morais superiores, que é a responsabilidade, tema que abordaremos a seguir. Portanto, vimos que Scheler atribuiu à virtude, à solidariedade ética e à responsabilidade a capacidade de reabilitar os valores morais na sociedade moderna, revertendo o processo de transvaloração a que está submetido.
Conclusão do terceiro capítulo
Esta dissertação teve como objetivo analisar a teoria dos valores desenvolvida por Max Scheler. Vimos que Scheler construiu sua experiência fenomenológica, substituindo a intuição racional das essências pela intuição sentimental dos valores. Assim surgiu o novo tipo burguês, que na verdade é um homem que está irritado com a superioridade dos valores morais de outras pessoas.
Podemos afirmar com segurança que o filósofo leu sobre os valores morais de sua época e notou a decadência do ethos. Acreditamos que foi isso que Max Scheler reconheceu, previu e tentou resolver ao desenvolver sua teoria dos valores e sua ética filosófica. Antes de concluir, porém, é importante salientar que em diversas áreas da filosofia e da ciência é possível observar a influência da obra de Scheler e, principalmente, de sua teoria dos valores.